Mandamento capital
O que se espera
geralmente de relatos sobre a infância? Da época áurea que cercou nossas vidas,
dos cheiros, dos gostos, dos sabores e dos amores? Hoje vou falar de um gosto.
Da minha infância e do meu reencontro anos depois com ele. Quem nunca ouviu falar
do Dadinho? Sim, tem gente que nunca ouviu falar, admito. Da mesma forma que eu
nunca tinha ouvido falar que além de um enfeite, o tererê também era uma
bebida. Então o dadinho tem as funções de brinquedo, apelido (lembra do filme
Cidade de Deus?) e ... doce!
O Dadinho era um doce,
do tamanho de uma bala. Vinha em papel metalizado escrito Dadinho em vermelho
dentro de uma faixa amarela. Havia outra faixa com o mesmo logotipo escrito
“IVº Centenário”. Mas isso pouco importava. O que importava era o gosto. Um
gosto de amendoim muito intenso, com uma pequena pitada de sal e açúcar que era
vendido em mercadinhos, supermercados e claro, na cantina da escola perto de
você.
Só havia um problema ,
para mim, é claro. Para os padrões de
uma família pobre, era caro. Uma única balinha? Sim. Como não sobrava muito
dinheiro lá em casa, era raro eu poder
comer um dadinho, já que vários era quase impossível. Minha alternativa era me
envolver além da mãe ou pai era o mercado negro de troca de guloseimas na hora
do recreio. Era sensacional já que não gostavam (por incrível que pareça!) mas
os pais, sem perguntar compravam assim mesmo. Bom, para mim eu conseguia
barganhar e assim alguns dadinhos que eram vendidos na cantina do “Seu Geraldo”
dentro da escola onde estudava. O tempo que passei ali, valeu cada dadinho
consumido ainda que a duras penas.
Porém, em determinado
momento o dadinho sumiu. Aliás o Dadinho sumiu e a cantina do “Seu Geraldo”
também. Não que ele continha o monopólio dos dadinhos, mas estranhamente “aquele
doce” sumiu da minha cidade. Eu fui crescendo, ficando mais velho, apareceram
outas ambições, outros amores, a Christiane, o cigarro(que deixei seis meses
depois), a vontade de novas aventuras, mas o dadinho ficou lá, dentro do meu
coração sem que eu percebesse.
Mais moço fui trabalhar
nas Lojas Americanas. Para quem não conhece é uma loja de departamentos que
vende tudo. Passei por vários departamentos, entretanto quis o destino que eu
me estabelecesse no departamento um. O departamento um era o departamento das
balas, doces, bombons, chocolates e afins. Quis o destino que eu ficasse com a
chave do estoque. Era um estoque dentro do estoque. Exclusivo. Para mim era uma
dádiva. A chave ficava com a supervisora e comigo. Somente eu e ela podíamos
entrar sozinhos lá. Não poderia chamar de mimo, mas apenas uma pequena
demonstração de poder interno.
Em um desses dias fui
chamado ao estoque para que eu, com a minha chave pudesse abrir a sala do
estoque particular do departamento para que uma mercadoria fosse guardada lá.
Tudo discorria normalmente com caixas de cor marrom vindo e sendo depositadas
no estoque. Até aquele momento eu não havia me dado conta o tesouro que
chegara. Assim que acabaram, João José devolvera-me a chave com a mercadoria
lá. Fui ver o que havia chegado para reportar a minha supervisora e até onde
via, nada demais: chocolates, caramelos, bombons e quando olho para a estante
mais alta daquele pequeno quarto transformado em estoque, vejo o nome
estampado: DADINHO.
Mais que depressa, peguei
a escada e subi até lá. Ajeitei rapidamente as caixas e, sentado em uma delas
eu abri. E, em sacos de um quilo, novamente o tesouro estava ali. Não podia
acreditar. O sonho voltara. Mas minhas obrigações também. Eu tinha a chave, o “poder”
– era assistente de supervisor – e só eu e minha supervisora podíamos entrar e
ficar lá o tempo que quiséssemos. Com efeito, no outro dia em meu trabalho,
recebi um pedido da minha supervisora para fazer um balanço interno – somente contar
as mercadorias do estoque do meu departamento e pronto.
Bom, entrei na sala e
comecei meu trabalho. No entanto, trabalhava e olhava para cima
incessantemente. As caixas com Dadinho estavam lá. Pareciam me observar. Continuava
meus afazeres e ficava pensando em
Dadinho, Dadinho e Dadinho. Era irresistível. O gosto vinha em minha cabeça e
era perturbador. Até que em dado(que ironia!)momento eu não resisti. Larguei a
caneta, prancheta e páginas e páginas de relatório a conferir.
Peguei a escada e subi
até o alto. Me sentei a três metros do chão em cima de uma das caixas de
Dadinho e abri outra. Estavam ali, embalados em sacos da Dizzioli que era a
fabricante na época. A mesma embalagem com os dizeres “Dadinho” e IVº
Centenário” em vermelho dentro de duas faixas amarelas. O resto era prateado com
os números de um a seis em vermelho. Eu olhava e pensava em comprar uns dois
quilos de uma só vez, porém eu pensava: “Cara, você sozinho está sozinho aqui!”
e, ao mesmo tempo “Isso é roubo!”. Durante alguns minutos esse duelo ético
perdurou, mas, é claro a primeira opção ganhara facilmente. Abri o pacote e
peguem um. Bom, um não faz mal, faz? Peguei outro, e mais outro, outro e depois
outro. Parecia uma sequência sem fim. A gana e ao mesmo tempo o prazer
inenarrável de degustar aqueles doces era extremo, sublime. Era como ter uma
dessas mulheres inalcançáveis que a gente vê na televisão, nua na sua cama.
E os papeizinhos? Que fazer
com eles? Era como se estivesse ali, as caras as provas de um crime perfeito e
eu estava lá. Com um quilo comido de dadinho onde só restara os papeizinhos eu
ainda teria de pegar os papéis, passar pela segurança, com eles dentro do bolso
e jogá-los no lixo. Bom, no lixo da loja não dava, pois o lixo era revistado
também pela segurança. Foi quando nisso, olhando para o alto a solução veio do
céu. Havia uma canaleta por onde passavam fios do antigo sistema elétrico na
parede. Não pensei duas vezes: foi ali mesmo. Dobrados cuidadosamente foram ali
colocados para que ficassem eternizados. Quando terminei, fechei a caixa, desci as escadas e fui terminar o
meu trabalho, saciado.
Não tenho religião. Mas
naquele dia, de uma só vez eu havia cometido um pecado capital: a gula. E, ao
mesmo tempo, ou durante, ou depois, sei lá eu também havia ido contra um dos
dez mandamentos: Não roubarás. Ou seja, terei quando morrer de me entender com
Deus se ele existir. Mas creio que irá me perdoar, afinal, comer um Dadinho é
um manjar dos deuses.
Um comentário:
Bela História com sinceridade...
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