segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA


Mandamento capital

                   O que se espera geralmente de relatos sobre a infância? Da época áurea que cercou nossas vidas, dos cheiros, dos gostos, dos sabores e dos amores? Hoje vou falar de um gosto. Da minha infância e do meu reencontro anos depois com ele. Quem nunca ouviu falar do Dadinho? Sim, tem gente que nunca ouviu falar, admito. Da mesma forma que eu nunca tinha ouvido falar que além de um enfeite, o tererê também era uma bebida. Então o dadinho tem as funções de brinquedo, apelido (lembra do filme Cidade de Deus?) e ... doce!
                        O Dadinho era um doce, do tamanho de uma bala. Vinha em papel metalizado escrito Dadinho em vermelho dentro de uma faixa amarela. Havia outra faixa com o mesmo logotipo escrito “IVº Centenário”. Mas isso pouco importava. O que importava era o gosto. Um gosto de amendoim muito intenso, com uma pequena pitada de sal e açúcar que era vendido em mercadinhos, supermercados e claro, na cantina da escola perto de você.
                        Só havia um problema , para mim,  é claro. Para os padrões de uma família pobre, era caro. Uma única balinha? Sim. Como não sobrava muito dinheiro lá em casa, era raro  eu poder comer um dadinho, já que vários era quase impossível. Minha alternativa era me envolver além da mãe ou pai era o mercado negro de troca de guloseimas na hora do recreio. Era sensacional já que não gostavam (por incrível que pareça!) mas os pais, sem perguntar compravam assim mesmo. Bom, para mim eu conseguia barganhar e assim alguns dadinhos que eram vendidos na cantina do “Seu Geraldo” dentro da escola onde estudava. O tempo que passei ali, valeu cada dadinho consumido ainda que a duras penas.
                        Porém, em determinado momento o dadinho sumiu. Aliás o Dadinho sumiu e a cantina do “Seu Geraldo” também. Não que ele continha o monopólio dos dadinhos, mas estranhamente “aquele doce” sumiu da minha cidade. Eu fui crescendo, ficando mais velho, apareceram outas ambições, outros amores, a Christiane, o cigarro(que deixei seis meses depois), a vontade de novas aventuras, mas o dadinho ficou lá, dentro do meu coração sem que eu percebesse.
                        Mais moço fui trabalhar nas Lojas Americanas. Para quem não conhece é uma loja de departamentos que vende tudo. Passei por vários departamentos, entretanto quis o destino que eu me estabelecesse no departamento um. O departamento um era o departamento das balas, doces, bombons, chocolates e afins. Quis o destino que eu ficasse com a chave do estoque. Era um estoque dentro do estoque. Exclusivo. Para mim era uma dádiva. A chave ficava com a supervisora e comigo. Somente eu e ela podíamos entrar sozinhos lá. Não poderia chamar de mimo, mas apenas uma pequena demonstração  de poder interno.
                        Em um desses dias fui chamado ao estoque para que eu, com a minha chave pudesse abrir a sala do estoque particular do departamento para que uma mercadoria fosse guardada lá. Tudo discorria normalmente com caixas de cor marrom vindo e sendo depositadas no estoque. Até aquele momento eu não havia me dado conta o tesouro que chegara. Assim que acabaram, João José devolvera-me a chave com a mercadoria lá. Fui ver o que havia chegado para reportar a minha supervisora e até onde via, nada demais: chocolates, caramelos, bombons e quando olho para a estante mais alta daquele pequeno quarto transformado em estoque, vejo o nome estampado: DADINHO.
                        Mais que depressa, peguei a escada e subi até lá. Ajeitei rapidamente as caixas e, sentado em uma delas eu abri. E, em sacos de um quilo, novamente o tesouro estava ali. Não podia acreditar. O sonho voltara. Mas minhas obrigações também. Eu tinha a chave, o “poder” – era assistente de supervisor – e só eu e minha supervisora podíamos entrar e ficar lá o tempo que quiséssemos. Com efeito, no outro dia em meu trabalho, recebi um pedido da minha supervisora para fazer um balanço interno – somente contar as mercadorias do estoque do meu departamento e pronto.
                        Bom, entrei na sala e comecei meu trabalho. No entanto, trabalhava e olhava para cima incessantemente. As caixas com Dadinho estavam lá. Pareciam me observar. Continuava  meus afazeres e ficava pensando em Dadinho, Dadinho e Dadinho. Era irresistível. O gosto vinha em minha cabeça e era perturbador. Até que em dado(que ironia!)momento eu não resisti. Larguei a caneta, prancheta e páginas e páginas de relatório a conferir.
                        Peguei a escada e subi até o alto. Me sentei a três metros do chão em cima de uma das caixas de Dadinho e abri outra. Estavam ali, embalados em sacos da Dizzioli que era a fabricante na época. A mesma embalagem com os dizeres “Dadinho” e IVº Centenário” em vermelho dentro de duas faixas amarelas. O resto era prateado com os números de um a seis em vermelho. Eu olhava e pensava em comprar uns dois quilos de uma só vez, porém eu pensava: “Cara, você sozinho está sozinho aqui!” e, ao mesmo tempo “Isso é roubo!”. Durante alguns minutos esse duelo ético perdurou, mas, é claro a primeira opção ganhara facilmente. Abri o pacote e peguem um. Bom, um não faz mal, faz? Peguei outro, e mais outro, outro e depois outro. Parecia uma sequência sem fim. A gana e ao mesmo tempo o prazer inenarrável de degustar aqueles doces era extremo, sublime. Era como ter uma dessas mulheres inalcançáveis que a gente vê na televisão, nua na sua cama.
                        E os papeizinhos? Que fazer com eles? Era como se estivesse ali, as caras as provas de um crime perfeito e eu estava lá. Com um quilo comido de dadinho onde só restara os papeizinhos eu ainda teria de pegar os papéis, passar pela segurança, com eles dentro do bolso e jogá-los no lixo. Bom, no lixo da loja não dava, pois o lixo era revistado também pela segurança. Foi quando nisso, olhando para o alto a solução veio do céu. Havia uma canaleta por onde passavam fios do antigo sistema elétrico na parede. Não pensei duas vezes: foi ali mesmo. Dobrados cuidadosamente foram ali colocados para que ficassem eternizados. Quando terminei, fechei  a caixa, desci as escadas e fui terminar o meu trabalho, saciado.
                        Não tenho religião. Mas naquele dia, de uma só vez eu havia cometido um pecado capital: a gula. E, ao mesmo tempo, ou durante, ou depois, sei lá eu também havia ido contra um dos dez mandamentos: Não roubarás. Ou seja, terei quando morrer de me entender com Deus se ele existir. Mas creio que irá me perdoar, afinal, comer um Dadinho é um manjar dos deuses.

Um comentário:

Brisa disse...

Bela História com sinceridade...