quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Meus poemas...

Vida
Há quanto tempo me usa?
Há quanto tempo zomba de mim?
Vida
O tempo não passou para ti
Jovial e bela continua
Vida
A verdade é nua e crua
Por isso é preciso mentir
Vida
Já não tenho tempo e dinheiro
Malditos descobridores dos veios
Vida
Tem olhos de anjo
Um riso sem fim
Vida
Porque és tão rica
Enquanto eu empobreço
Vida
Porque jamais te esqueço
Suma-se da minha frente
Vida
Te amarei eternamente




Formalidades

Vida
Qualquer dia me apresento a ela...
Acho que ela não me conhece...
Talvez tenha ouvido falar...
Vida
Eletricidade de prótons, nêutrons e elétrons
Circulação simultânea
Alongamento de ar
Vida
Te conquistar ‘tá foda
Pensar em ti é banal
Amor superficial...



Tempo
O tempo passa no relógio
O tempo passa rápido
O tempo cria cabelos brancos
O tempo mostra a cara mostrando rugas
O tempo...
O tempo é relativo
O tempo está ruim
O tempo está quente
O tempo, dura pouco...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Conflitos internos - Escrito em 21/01/2006

Prezados leitores;

Não, não é falta de imaginação. Tenho muita coisa escrita e quem me conhece no Orkut, como por exemplo a Jucymara sabe que eu tenho uma certa produção de textos. Mas fuçando no meu computador esses dias, não é que eu descobri MAIS TEXTOS. São de épocas diferentes, períodos variados e achei tão legal que resolvi publicá-los. Espero que gostem e se divirtam, chorem ou riam. Boa leitura a todos...

Escritor Solitário.

Conflitos internos


Geralmente eu sempre escrevo sobre Geografia, política, esportes, cultura em geral, etc. Porém hoje eu não estou conseguindo me concentrar. Na verdade não consigo escrever porcaria nenhuma. Gostaria hoje de escrever sobre uma coisa diferente. Mas o que? Pensei bem e acabei por me lembrar de um tema legal. O amor. Não o amor fraternal, consangüíneo, mas sim o amor físico mesmo. Aí achei uma matéria legal na Folha de São Paulo que falava sobre a nova encíclica do Papa Bento XVI (falo sobre ele, depois), que é um importante documento papal, que fala justamente sobre o amor.
Descobri, que teologicamente há duas formas de amor (e olha que eu já não acreditava em um). Há o amor “Eros” e o amor “Ágape”. Segundo o teólogo João Batista Libânio há esses dois tipos de amor. O Eros seria o “amor falta”. Relaciona-se ao amor sexual expresso na falta que um homem sente de uma mulher e vice-versa. O amor Ágape seria o amor de Cristo pela humanidade, o amor de quem morreu pelos homens e não exigiu nada em troca.
Antes de copiar a parte das opiniões do teólogo, e por ter lido por auto as opiniões dele eu pensava: Acredito somente no amor Ágape. O amor Eros é a na minha opinião o engrandecimento da falsidade. Ou se só existe estes dois tipos amor, no alto da minha ignorância penso: Será que podemos ter somente o amor Ágape? Acredito eu que sim. Porque vamos ser sinceros, amor Eros é tao relativo e superficial que seja a ser idiota.
Claro, quantas vezes (inclusive eu), já vi gente jurar em frente ao Padre, no Altar, amor eterno, na alegria, na tristeza, etc... e depois de alguns anos, boa parte ir para cada lado. È um baita conflito interno. Ora, sentimos falta de uma mulher (no meu caso, claro), é óbvio, mas qual a relação deste amor Eros, com o amor Ágape dentro de um casamento? Até aonde isso vai? O amor Eros e o amor Ágape andam juntos num casamento? O que acontece com a pessoa que mesmo estando casada, resolve assumir um romance fora? Vai ter amor Eros? Vai ter amor Ágape? Ninguém tem certeza de nada. Todos ficam em dúvida.
Na verdade, duvido que alguém saiba realmente definir o que é o amor. Teólogos, filósofos e um monte de “ogos” e “ofos” tentaram, mas ninguém sabe explicar. Acabam por cair na mais profunda pieguice. Aliás só existindo esses dois tipos amores, como ficará a classificação em relação a alguns amores, sendo alguns relacionados até para forças divinas? Como fica o amor ao:
 Deus-dinheiro?
 Deus-poder?
 Deus-ganãncia?
 Deus-guerra?
 Deus-ego?
 Deus-promiscuidade? (política, sexual, ou seja, lá o que for)
 Etc.

Essas coisas são realmente difíceis de definir. Acredito que isso gera conflitos internos em um gama enorme de pessoas. Imagino que isso deva ocorrer desde o Presidente da República até aquele mendigo que sofre com a construção das rampas antimendigo em São Paulo.
É por isso que não defino amor. Aliás, de tantas definições, o amor, a palavra e o sentimento em si, parece que está virando sinônimo de fábula. Como se fosse um conto dos Irmãos Grimm ou de Hans C. Andersen. Ou melhor ainda, seria o amor um dos moinhos de vento, imaginados dragões por Dom Quixote de Cervantes?
Façamos o seguinte: definamos o amor cada qual a sua maneira. Não fiquemos atrelados a um ou outro conceito. Nos libertemos desta porcaria de teorias e façamos cada qual a nossa. Afinal neste mundo maluco, onde o Presidente da República de um país da América do Sul se diz de esquerda, mas faz tudo o que a elite quer e a nação mais poderosa econômica e militar do mundo é governada por um bronco que se finge de cidadão culto e preocupado com o mundo, nada mais justo que nós tenhamos, cada um , a nossa definição de amor. Eu ainda procuro a minha. E você?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA

Lu



Hoje não sei por que eu me recordei da Lu. Sim, este é o modo carinhoso pelo qual a chamei durante algum tempo da minha vida. Ela não era daqui, era de Ponte Nova uma pequena cidade no interior de Minas Gerais. Mas, acho que estou atropelando um pouco a narração, já que isso eu só fui descobrir depois, afinal, o que me interessa mesmo, foi quando nos vimos pela primeira vez.
Eu estava enfurnado no meu quarto. Eu saia pouco e aquele verão de 1992 de sol avassalador parecia prometer. Morava em um digamos, “semi-cortiço”, uma vilazinha se é que assim posso dizer de nove casas, sendo a casa da frente, maior, com uns quatro quartos e mais varanda, jardim, etc. Havia um pátio grande, onde se estacionavam os carros – de quem tinha – e aonde as outras casas faziam um conjunto em “L” com quatro digamos “apartamentos” em cada extremidade. Eu comecei morando no apartamento 101, mas isso na verdade para esta história pouco importa. O que importa é que depois de se aposentar, meu pai continuou trabalhando e com o salário da aposentadoria de motorista de ônibus, mais a continuidade na mesma atividade fez com que nós nos mudássemos para o apartamento 202 no segundo andar, abaixo apenas das caixas d’água. Neste andar tinha como vizinhas D. Neuza e sua filha Isabel – uma gordinha muito simpática e inteligente – e Rosangela, que era assistente social e que teve um filho independente – que é o que nós antigamente, antes do politicamente correto, chamávamos de “mãe solteira”.
Para a missão de ajudar a criar a filha, ao qual eu não me lembro o nome, Rosangela precisou da ajuda da irmã, Elisangela, para olhar a sobrinha enquanto ela estivesse fora, trabalhando. Elisangela veio da cidade de sua irmã, São Lourenço, no sul de Minas Gerais, mais precisamente no “circuito das águas” por ter lá centenas de cidadezinhas com fontes de água mineral. Eu continuava na minha vida pacata de jogar bola com a turma da Rua Humaitá, andar de bicicleta – uma Caloi Cross Freestyle aro nº20, ir visitar meu amigo Neimar às tardes após o Globo Esporte e matar saudades da minha “velha” infância jogando algumas vezes futebol de botão, além de claro, não menos importante e fundamental para mim, ir à escola. Eu estudava no Colégio Nossa Senhora de Fátima, e naquele ano eu estava no segundo ano do segundo grau. O fim de ano estava por acabar e eu basicamente já estava matriculado para o terceiro ano, então poucas coisas em relação à escola me importunavam.
Foi em um sábado que a Elisangela recebera uma visita. Era uma moça, mas eu não conseguia vê-la. Ouvi a campainha bater, mas não atendi a porta. Isso ficou a cargo de minha mãe, D. Carminha. Bom, ela mais que depressa, bateu a porta do meu quarto para dizer que havia uma moça bonita junto com a Elisangela e que tinha pedido a ela um remédio para dor de cabeça, pois ela estava sentindo dores. Obviamente essa informação não era fútil. Hoje eu analiso que era um sinal discreto da minha mãe do tipo: “Ei filho, tem uma gatinha no apartamento ao lado, vai ficar aí parado?” Para chamar a atenção, eu colocava o som bem alto com as músicas que eu mais gostava o que deixava minha irmã chateada e minha mãe também. E, além de chatear minha família eu hoje sei que esta é uma das táticas mais idiotas que fiz em toda minha vida. Até porque não tinha o menor sentido eu ficar ouvindo o som alto, afinal se eu desejava conquistá-la deveria fazê-lo de outra maneira. Meu pai não estava nesse dia, pois estava trabalhando até as três da tarde.
Como eu mesmo descrevi minha vilazinha como um L, eu estava na porção maior enquanto Elisangela e Lu estavam no apartamento no que eu diria a “base” do L. Então da janela dela ela podia ver um pedaço do meu quarto – quem já morou em cortiços sabe que nem sempre temos a privacidade que queremos – e eu me aproveitei da situação para chegar a janela e poder cumprimentá-la e assim poder ver um pedacinho do rosto da sua misteriosa amiga. Ela tinha os cabelos ruivos, de cachos bem curtos e que chegavam até a altura de seus ombros. A pele era alva, mas não pude ver mais detalhes pois subitamente a nenê acordara e tirara delas e de mim qualquer chance de comunicação. Ficar só em meu quarto não era a solução e antes de ir para a rua, ainda consegui ver o especial dos Engenheiros do Hawaii na Rede Globo no lançamento do disco Várias Variáveis.
Após ver o especial, eu me dirigi a rua por volta das dezessete horas, com o intuito de me juntar a turma que ficava sentada em frente aos escombros do falido Supermercado Paineiras, à rua Olegário Maciel, logo após a minha vila. Lá chegando, estavam todos lá: Tica, Léo e seu irmão Guilherme, Alisson, Gordo, Josimar, Rodrigo e alguns outros ao qual eu não me lembro mais. Ficamos conversando coisas triviais, o Tica tentou me vender o disco (sim, era de vinil) justamente dos Engenheiros do Hawaii pois sabia que eu era fã e ele não tinha gostado. Eu infelizmente tive de dizer não, pois não tinha toca-discos, apenas rádios de fitas do tipo cassete.
Foi quando as duas surgiram. A Elisangela vestia uma bermuda jeans e uma blusa que me parecia roxa ou algo nesta cor, afinal eu não estava interessado nela. Quem me interessava era a sua amiga. Mais que depressa, eu me despedi da minha turma e fiz o caminho de volta para minha vila. Ora, eu ia ficar conversando com meus amigos e deixar uma possível chance passar? Aliás, eu como vizinho e utilizando da minha política de boa vizinhança eu deveria ir lá e perguntar se ela estava bem, se o remédio tinha feito efeito, se ela estava melhor, coisas assim. Logo cumprimentei Elisangela e ela me apresentou sua amiga. Seu nome era Lucilene e tinha vindo visitá-la - como se eu não soubesse. Ela estava usando um vestido tomara que caia chá, com pequenas flores de cor vermelha e sapatos pretos do tipo que se usa em bonequinhas de brinquedo. Seu rosto era redondinho, suas sobrancelhas eram finas e caiam vertiginosamente quase se encontrando próximo ao nariz. Seus olhos eram grandes e castanhos, entretanto, seu nariz era pequeno assim como sua boca que era pequena e rosácea. Ela era menor do que eu, talvez um metro e sessenta centímetros, tinha a pele alva e era muito, mas muito delicada para falar. Aliás, sua voz era leve, pausada, parecia sussurrar ao meu ouvido que naquele momento só tinha olhos e ouvidos para ela, fazendo-me esquecer de tudo a minha volta, inclusive Elisangela.
Aliás, ao começarmos a conversar, ambos esquecemos-nos da Elisangela, que por algum tempo, permaneceu junto a nós, fazendo com que nós nos conhecêssemos, falássemos de gostos, de costumes, de hábitos e vontades. De vez em quando ela ria baixinho, pousando os olhos para baixo enquanto os cachos de seus cabelos espalhavam-se ao vento com agradável leveza. Elisangela então nos disse que ia tomar banho, e voltou para o apartamento, onde sua irmã já cuidava da filha, deixando eu e Lucilene a sós. A conversa que já estava amável ficou ainda melhor, enquanto o tempo passava e nós nem percebíamos. O calor daquele fim de tarde acabou por passar despercebido, inclusive os olhares dos meus amigos que me vigiavam do ponto onde estavam sentados, em frente ao Supermercado Paineiras.
Por fim, depois de um tempo percebemos que Elisangela estava demorando muito. Então resolvemos sentar na escada que dava para o segundo andar onde ficavam os nossos apartamentos. Continuamos a conversa e a noite caiu, rápida, e quase que na mesma velocidade já estávamos de mãos dadas. Mas as mãos dadas no inicio apenas tinham o valor simbólico de uma amizade, nada mais. Com o decorrer dos minutos esse sentimento mudara radicalmente. Assim como a noite chegara rápido, nós chegamos a duas conclusões: Que a Elisangela estava demorando demais para terminar o seu banho e a segunda era a de que se nós não nos beijássemos naquele momento e naquele instante nós nunca mais faríamos aquilo. Então mais que depressa nós, de mãos dadas, nos beijamos naquela escada de cimento pintada de vermelho sangue. Foi um longo beijo, apaixonado, de gosto inigualável, a qual somente os grandes apaixonados podem saber. O seu batom, vermelho, misturou-se aos meus lábios, enquanto eu deixava de lhe dar as mãos e a envolvia em meus braços fazendo com que a mão esquerda lhe apoiasse as costas e a mão direita penetrava pelos seus cabelos cacheados, transformado tudo num momento muito bonito e doce.
Este momento só foi interrompido pela Kelma, filha da D. Marlene, do apartamento 104. Ela abrira rapidamente a porta e se assustara ao nos ver aos beijos naquela escada escura, ao qual ela acabara por dar um grito. Dona Marlene veio ver o que era enquanto nós estávamos nos recompondo das nossas carícias inocentes e do delicioso beijo que ganhava. Dona Marlene riu, fez uma brincadeira com Kelma e disse que nos deixaria em paz fechando a porta enquanto Kelma passeava pelo pátio da vila indo em direção a rua Olegário. No mesmo instante, provavelmente alertada pelo grito, Elisangela apareceu, rindo, dizendo que nós demoramos demais para nos acertar. Entretanto mal sabia ela que eu e Lu éramos tímidos convictos e que, portanto não era uma tarefa fácil. A partir daquele momento, comecei a namorar a Lucilene, que deixava aliás este nome para trás e passou a ser chamada carinhosamente por mim de Lu.
Escrevo isso porque estes dias andei pensando muito nela. Bateu uma saudade. Uma saudade gostosa de um tempo bom que eu sei que não vai voltar. Ela tem sua vida e eu a minha. Mas claro que fica aqui várias especulações no campo do se. Se aquele beijo não tivesse acontecido, se ela não tivesse ido a minha casa pedir um remédio, se entre outras coisas nós resolvêssemos ficar juntos para sempre, talvez eu nem estivesse escrevendo este texto. Mas fica a lembrança de um tempo muito, muito bom, de uma pessoa maravilhosa a qual eu tenho todo o carinho do mundo e que lhe desejo muito, muito bem. E que neste momento confesso que lembro perfeitamente do seu cheiro, do gosto de sua boca, do seu sorriso tímido e de suas palavras doces. Sim eu sei, são lembranças, mas lembranças de uma época muito boa em minha vida. Aliás, uma das lembranças mais bonitas da minha vida.


Escritor Solitário...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O debate e o futebol - OPINIÃO

Amplamente anunciado por uma grande rede de televisão, houve nesta quinta-feira última dia seis de agosto, o debate entre os principais candidatos a presidência da República. Durante duas horas, Dilma Rousseff(PT), José Serra(PSDB), Marina Silva(PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) debateram suas principais ideias sobre os rumos do país nos campos da economia, educação, saúde e emprego. E é sabido pela grande maioria das pessoas, que tem um mínimo de esclarecimento que é fundamental estes debates, para que possamos saber melhor o que pensam nossos principais candidatos – já que diferente dos anos anteriores, alguns dos candidatos dos partidos ditos “nanicos” não foram chamados a exceção do professor Plínio que não cairia em discussões inúteis e discussões sem sentido – para que o eleitor, pudesse enfim ter mais uma ferramenta de escolha.
Entretanto, o que acabou por dificultar este processo, foi que no mesmo dia e horário um jogo de futebol fora marcado por uma das principais emissoras concorrentes – e para azar da emissora que transmitiu o debate, a maior do país – um jogo de futebol que decidiria quem iria para a final da Taça Libertadores da América entre São Paulo e Internacional –RS. Ora, eu fico impressionado com a capacidade dos administradores dessas emissoras tem de chegarem a nível tal de concorrência, fazendo com que um debate importante como esse seja “empurrado” para segundo plano pela principal emissora do país. Haja visto, que o eleitor comum está desiludido com a situação atual de nossa política que infelizmente está repleta de pessoas incapazes de exercer suas funções tanto no executivo quanto no legislativo, estes mesmos senhores justamente aproveitam esta situação para poderem se aproveitar do eleitor comum, excepcionalmente na maior parte de sua vez, desinformado.
A escolha ontem foi protagonizada entre os canais de televisão foi quase que manipulada. Afinal o eleitor hoje desiludido como está vai preferir o que? O debate de idéias, que influenciarão a sua vida, o seu cotidiano? Ou ele vai optar por assistir também por duas horas, lances capitais como um gol, uma bola na trave, defesas sensacionais, erros da arbitragem que gerarão discussões hoje na sua roda de amigos mais do que o que pensam os nossos presidenciáveis? Então ficamos assim. Em nome da audiência, da quantidade de pessoas assistindo as peças publicitárias que sustentam a emissora, optou-se de prestar em minha opinião um desserviço em nome do nosso país, hoje tão carente de propostas sérias para nossa educação, saúde e geração de empregos para nosso desenvolvimento. Infelizmente desta vez, no debate entre o futebol o futebol acabou dando de goleada sobre os nossos políticos, que se pensarmos bem, estão até felizes com este resultado. Afinal, dependendo da situação, para algumas classes de políticos “quanto pior melhor”.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Yasmim


Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Num desses condomínios fechados, com seguranças armados para todos os lados, com exclusividade e privacidade para quem tiver dinheiro (e muito) para pagar. Nesses dias de verão, D. Maria, já idosa se prepara não para começar um dia de trabalho, mas sim para se despedir. Depois de mais de vinte anos de serviços prestados, ela resolvera se aposentar. Não por vontade própria, mas sim porque as costas já doíam, a velocidade já não era a mesma e a disposição também. Só lhe restava se despedir de dona Sofia e do doutor Flavio, seus patrões.Especialmente Flavio a quem ela viu cresce
- D. Maria, então a senhora vai nos deixar mesmo
-É meu filho, eu já não tenho tanta saúde assim né?
-Então vá com Deus, tudo de bom para a senhora.
-Agora, doutor, eu só queria pedir...
-Que isso, D. Maria, a senhora é de casa! – enquanto falava Flavio e Sofia torcia a cara.
-É que se o senhor pudesse, colocasse no meu lugar minha neta. Ela já até terminou o segundo grau, mas sabe tudo de afazeres de casa.
-Faz o seguinte D. Maria, pede ela para vir aqui na segunda para conversar com a Sofia e aí ela decide. Tudo bem para senhora? – disse Flavio abraçando calorosamente a empregada fiel, sendo observado com ar de desdém pela esposa.
-Dona Sofia eu queria lhe dizer que...
-Dona Maria, disse Sofia, eu agradeço muito pelos serviços da senhora. Tomara que a senhora descanse bastante. Agora se me dá licença eu vou pegar o carro e levar o Paulinho na escolinha de futebol ta. Beijos para senhora tudo de bom.
E assim saíram, quase que ao mesmo tempo, uma pegou o carro e se dirigiu para a escolinha de futebol. A outra ainda foi pegar um trem para Duque de Caixas na baixada fluminense. Mal sabiam que a partir daquele momento o destino das duas estaria traçado por um bom período de tempo.
Aliás, aquela talvez não fosse a única separação.
De rompante, logo o fim de semana acabara, e Yasmim logo as 8:00 estava na portaria do condomínio. Aprendeu a primeira lição de que gente rica não acorda cedo. E que também não recebe ninguém antes do desjejum. Mas curiosamente, era ela que deveria estar preparando este desjejum, não Sofia, que uma hora depois se atrapalhava com os utensílios domésticos. Então, no seu ato de desespero, ligou para a portaria e soube que a “neta da D. Maria” já estava lá. Yasmim então finalmente teve permissão para entrar. Mas devido ao tamanho do condomínio não foi a pé. Foi num carro da segurança que gentilmente a levou para a casa do ex-patrão de sua avó. Não era uma casa como as outras quaisquer. Era uma casa de uma arquitetura moderna, parecia como diria D. Maria dos filmes da televisão. Ela foi atendida por Sofia que gentilmente a pediu para entrar pela porta de serviço e iniciou um curto diálogo:
-Bom dia...
-Yasmim, senhora.
-Bom dia de novo minha filha, olha, deixa eu te perguntar umas coisas: Você sabe lavar, passar, cozinhar e ter cuidado com coisas caras? Essas coisas que temos em casa são muito caras e é preciso muito zelo. Tem?
-Tenho sim senhora.
-Então minha filha, pega um uniforme que lhe sirva e termine o café da manhã, meu marido acorda para trabalhar daqui a pouco, seja breve, por favor.
Sofia, aquela mulher de quarenta e poucos anos sequer reparou em quem estava contratando. Uma garota de vinte e poucos anos. Negra como o ébano, mas de aplique no cabelo, deixando-o liso. As pernas torneadas, os seios: nem grandes, nem pequenos. E para completar, uma bunda que deixaria qualquer mulata do Sargenteli no chão ou que deixaria o cartunista Lan de queixo caído. Ela encontrou um uniforme, na verdade um tubinho bege de golas brancas com bordados azuis e o vestiu. Tinha trazido consigo também outro, negro, caso fosse necessário. Assim, que trocou de roupa, tratou de fazer rapidamente o café. Afinal não queria decepcionar o patrão. Habilmente então, ela usou de toda ginga e malemolência para poder terminar o café a tempo.
Engano de quem se importava com isso. Flavio entrou cozinha adentro, ainda de pijama e se apresentara para nova empregada, sorrindo e se apresentando. A conversa foi muito informal. Ele achara que já estava ficando velho, mas Yasmim retrucara, dizendo que ele ainda estava moço. Que na verdade era só impressão dele. E logo, Flavio tomara café e disse que talvez voltasse na hora do almoço. Pegou o carro e saiu. Nesse exato instante, Sofia no quarto, começava a refletir muito bem quem tinha colocado para trabalhar dentro de casa. Uma moça linda e um homem rico era uma deixa completa para que Flavio pulasse a cerca. Ou na pior das hipóteses, fosse dar “uma volta noturna” no quarto da empregada. Sofia acordou, para valer, do que talvez estivesse cometendo um erro. Trazendo o inimigo para dentro de casa. Se levantou e pensou em alguma maneira de dispensá-la sem que Flavio pudesse perceber. Vestiu o roupão e voltou para cozinha. Novamente a cumprimentou friamente. Tomou rapidamente o café e pediu que ela acordasse Paulinho. Garoto espero, logo que viu aquela deusa, fez charme, jogou sorrisos, mas um berro de sua mãe o fez acordar para a realidade. E desceu sem dizer uma palavra e assim permaneceu até tomar café e se dirigir para a escolinha de natação.
Aliás Paulinho tinha uma vida agitada, pois sua agenda se resumia a: Segunda(natação), terças e quintas (inglês) quarta e sextas (futebol). Eventualmente ocorria dele jogar futebol também aos sábados. Então ficavam na casa pela manhã e a tarde – horário de estudo do Paulinho – apenas Sofia e Yasmim.
Flavio como de hábito não veio almoçar, sendo que Sofia então almoçasse apenas na companhia de Paulinho. Há um bom tempo isso estava ocorrendo, mas Sofia no momento não poderia pensar na ausência de Flavio no almoço, apenas na presença ameaçadora de Yasmim. Ela havia lido um livro que falava como as mulheres principalmente as de origem africana seduziam e mantinham seus maridos fiéis. Sofia, uma loira de seios com silicone, botox no rosto, cabelo tingido semanalmente e academia de ginástica três vezes por semana não seria páreo para uma mulher mais nova, mais insaciável, de corpo roliço, jovem, mais como diriam as amigas, “mais tudo”. E pensava também no marido. Flavio não era de se jogar fora. Ao longo dos seus quase cinqüenta anos, ele na verdade parecia ter dez anos menos. Alto, de braços fortes, coxas grossas, e cabelos levemente grisalhos fazia certo sucesso entre suas amigas, ela sabia, mas sempre sabia tira-las do caminho com certa facilidade. Mas Yasmim era uma ameaça iminente. Ela era demasiadamente sexy. Um problema futuro pensou.
À noite, de volta do trabalho, Flavio quis se inteirar mais de como era vida de Yasmim. Ela revelara que era pobre, que estudara sempre em escola pública, que com esforço terminou o ensino médio e que talvez tentasse fazer vestibular assim que tivesse uma folguinha financeira. Queria ser enfermeira. Essa revelação, fez quase Sofia pular da poltrona de onde ouvia a conversa de Flavio com a empregada na cozinha. Afinal, enfermeira é um fetiche masculino de proporções arrebatadoras, para qualquer casamento. E a longa conversa seguiu e Sofia se sentindo humilhada e ultrajada, fez questão de interromper a conversa para chamar o marido para dormir. Os olhares de Sofia para Yasmim pareciam navalhas a cortar-lhe a carne. E isso ainda era o primeiro dia de estadia da empregada. Já que ela fora aprovada, Flavio disse para Sofia que ela faria o mesmo esquema de trabalho de D. Maria, que dormiria no emprego e só voltaria para casa no fim de semana. Sofia parecia ter amargamente se arrependido, deveria ter prestado melhor a atenção no que estava fazendo. Mas aquela altura, Flavio jamais deixaria Yasmim ir embora.
O pior ainda estava por vir. Sofia e Flavio foram convidados por Yasmim – sim, ela mesma – para assistirem um ensaio da escola de samba a qual era passista, a Grande Rio. Flavio ficara maravilhado, enquanto Sofia parecia estar a ponto de ter uma taquicardia. Sofia agradecera o convite, mas disse que às vezes as batidas da bateria lhe davam enxaqueca e justamente naquela semana ela estava com uma dor de cabeça horrível. Para não haver confusão, Flavio também não, sábado a noite ao ensaio técnico. As conversas entre Flavio e Yasmim foram ficando sempre longas e Sofia, que há muito tempo já não tinha o marido presente (em todos os sentidos) em sua cama foi ficando cada vez mais furiosa com a situação. Mas o pior dia em que ouvindo um barulho na madrugada, Sofia mandou o marido ir ver o que era. Madrugada de segunda, quase quatro horas da manhã, ela achou ser um assalto. Pediu ao marido para proteger o filho, e ver o que era. Paulinho dormia como um anjo, quando Flavio viu um vulto alto se mexendo. Rapidamente ele pegou a arma, acendeu a luz e gritou: Parado!
A visão era aterradora. Apenas para mulheres inseguras. Na verdade era Yasmim que voltava da folga do domingo com um adorno na cabeça, da quadra da escola. Como tinha a chave, resolvera voltar mais cedo. Vestia um traje minúsculo, composto apenas de short (curtíssimo), salto alto e tomara que caia colado ao corpo. Sofia logo percebera o jeito de Flavio. Paulinho também se assanhara. Era terrível ver a expressão boquiaberta dos dois. Sofia ralhou o quanto pode com Yasmim. Ela tentou justificar, mas não teve jeito. Ouviu tudo o que não queria. Só não foi demitida porque o marido interveio. Sofia não agüentava mais aquela situação. Os dias foram passando e Sofia não poderia mais agüentar aquela situação. Era humilhação demais. E para tanto ela resolveu terminar com o ciclo daquela garota na casa.
Numa das raras vezes que Flavio avisara que ia almoçar em casa, Sofia tratou de sabotar a comida da moça. O marido era alérgico a noz moscada, que providencialmente foi colocada na carne que ele comeu. Passou mal, foi ao hospital, mas se recuperou. Depois foram as camisas Saint-Laurent que ele adorava com algumas queimaduras de ferro de passar. O pior ainda estava por vir. Dois dias antes do carnaval, inexplicavelmente o terno Armani que ele mais gostava apareceu com uma mancha branca enorme nas costas.
-Yasmim! Bradou Flavio
-Olha, eu sei que faltam dois dias para o carnaval. Mas, dessa vez foi demais!
-Mas...
-Nem mas, nem meio mas. Olha Yasmim, eu adoro a sua avó. Mas não dá mais. Comida, tudo bem, você não sabia. Mas minhas roupas foram demais. Infelizmente não vou poder continuar com você, tudo bem?
O olhar de vitória de Sofia contrastava com o de tristeza de Yasmim que sabia que tinha sido sabotada. Restou a ela a resignação, voltar para casa e pensar agora somente no desfile de segunda-feira à noite. Sofia vencera. E Flavio apesar de ter mandado ela embora ainda ficou muito triste. Sofia ouvira uma conversa dele com Paulinho, dizendo o quanto Yasmim era boa pessoa, que assim como a avó era uma pessoa batalhadora e que não merecia isso. Entretanto, Flavio fez questão de dizer que a vida era assim hoje em dia: competitiva, cruel e esmagadora. Que infelizmente ela ia bem, mas a sucessão de erros a fez ser demitida. A esposa do outro lado da parede sorria de felicidade. E para tanto fez questão de contar para a melhor amiga, Cíntia.
A conversa rendeu bastante tempo, até que Cintia lhe dera o endereço de uma candidata – que ela lhe garantira que era feia – que morava na Favela Nova Holanda, perto de São Cristóvão. Sofia agradeceu e para não ter problemas ligou logo para a moça de nome Jaqueline. Já tinha lá seus quarenta e cinco anos, mãe de três filhos. E como precisava do emprego, foi no domingo, dia que Flavio estava na banda de Ipanema comemorando o carnaval, que ela entrevistou a candidata. Tudo acertado ela começaria na segunda-feira mesmo.
Na segunda-feira Flavio viu que tinha esquecido um contrato no escritório. No afã de ir brincar o carnaval não o enviou para uma empresa que o contratou para prestar serviços de consultoria. E com a crise hoje, ele não estava para desperdiçar dinheiro. Nem tomou café, nem viu a tal de D. Jaqueline e foi ao escritório para poder novamente brincar o carnaval, inclusive assistir o desfile das escolas de samba, já que “estranhamente” a crise de enxaqueca de Sofia tinha passado. Sofia acordou logo depois do marido e perguntou para Jaqueline. A mesma disse não saber, pois o patrão não havia lhe fornecido endereço apenas que já fazia mais de uma hora que ele havia saído. Sofia então pegou seu carro e saiu atrás de Flavio. Pensou que ele estivesse ido atrás de Yasmim. Nem estava mais ligando para a fiscalização eletrônica. O que se soube é que na altura da Perimetral, o carro que Sofia conduzia bateu violentamente na traseira de um carro que estava a entrar no Motel Le Monde. A sorte é que ambos os carros tinham air-bag. Sofia assim que se recuperou abriu violentamente a porta do carro e sua voz ficou embargada quando viu que o carro em que bateu era o de
Flavio. Ela apenas caminhou em direção ao carro para ver quem era a vagabunda, mas não conseguiu, pois desmaiara no caminho.
Na delegacia, Flavio tentava dar explicações ao delegado pela conversão mal feita. Sofia já recuperada tentava entender o porque que Flavio fazia aquilo em uma outra sala. Foi quando ouviu uma voz estridente lhe falar:
-Não ligue, a maioria é casado. Apenas perdoe-o...
Sofia olhou para trás e viu uma moça com um saco de gelo no rosto de saia curtíssima preta, botas cano alto da mesma cor assim como a mini blusa, seios fartos, pele bronzeada. Não lhe disse uma palavra, mas Sofia lhe perguntou seu nome. O guarda que cuidava das duas disse que na verdade o nome era Marcos, mas que era conhecida por outro nome. Cabisbaixa, o travesti, revelara:
-Yasmim...
Aí então foi a vez de Sofia abaixar a cabeça e pensar...