terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CONTOS URBANOS

Cartinha de Natal




       A idade é uma coisa que às vezes nos faz bem, outras vezes nos deixa deprimido. No meu caso me deixa um pouco deprimido. Nunca fui uma pessoa de bem com a idade. O tempo é muito curto e o fato de que isso ocorra de uma maneira absurda me deixa assustado. Gostaria que isso estivesse acontecido com mais suavidade e que eu pudesse ter visto o tempo passar com mais habilidade. Vi minhas filhas crescerem, pude dar a elas uma boa educação e agora estou a espera dos lucros e dos louros da vitória que são a chegada dos meus netos. Porém nunca tinha pensado que a chegada dos anos fosse, digamos, um pouco dolorida. Aliás dor, é uma palavra um pouco recorrente quando se envelhece. Dor e cor. Dor, por que as juntas doem. A coluna cisma em doer. O joelho também tem essa cisma de vez em quando e quando dou uma batida a dor não vai embora quase imediatamente. Ela resolve ficar alguns dias me fazendo companhia. A cor também faz parte da velhice. Como sou branco, passei a ter como companhia algumas sardas de cor marrom pelo meu corpo. A pele que antes era um pouco alva e firme ainda na maior parte do tempo, continua alva, entretanto com alguns tons de rosa. E os cabelos? Eram negros. Agora estão completamente brancos. E de companhia a barba. A barba que finalmente pude deixar crescer por justamente trabalhar num ambiente onde não se poderia sob nenhuma hipótese deixá-la grande. Hoje ter barba, é um sonho que tive quando mais jovem e que não pude fazer. Hoje vejo muitos jovens por aí, como eles dizem, ostentando barbas enormes. Gosto é gosto. Não cheguei a “cultivar” uma barba enorme, mas uma barba suficientemente grande e de pelos brancos para digamos, disfarçar as marcas do tempo.
      Não queria, mas infelizmente, sem querer me avisar acabei por cultivar uma pequena protuberância entre o peito e as pernas. Esse volume de gordura é até interessante para mim durante o inverno, já que posso pelo menos durante esse período andar de camisa sem que seja incomodado. Mentira. Sou incomodado sim. Filhas, esposa, genros, netas sempre me perguntando: “Nossa pai, um frio desses e o senhor de camisa?” , “Vai pegar um resfriado hein!”, “Vovô, vovô, o senhor não sente frio não? A mamãe não deixa eu ficar sem agasalho de jeito nenhum!” E ouvir isso todos os dias durante o inverno, sim, é um pouco maçante. Até parece que sou de porcelana, que sou de vidro, ou algo do tipo. Deus do céu, tenho de ter a maior paciência do mundo. Ainda bem que sou uma pessoa muito, mas muito paciente. A mais paciente que possam imaginar.
      Com efeito, paciência também foi o meu forte durante todo meu período de trabalho. Quase sempre problemas, problemas e problemas. Mas, qual serviço não o tem? Todo trabalho tem seus problemas mas acredito eu que de formas diferentes as pessoas podem ser atingidas por problemas. A gente pode até pensar que o dono de lugar tal não tem porque é podre de rico. Esse é o detalhe. O dinheiro vai na mesma velocidade que vem, isso aprendi com a vida. Então o grande problema do rico é não ficar pobre.
       Outro problema de fim de ano, são as compras de Natal. Shoppings, amigo oculto do trabalho, amigo oculto da família, festa daqui e festa dali. Sim, é maçante. Haja paciência que eu não tenho. Então, depois que me aposentei, e vi que a coisa poderia ficar pior, vi um lugar muito bom para me esconder de tudo isso. Hora essa, quer um “bunker” melhor do que ser o Papai Noel de Shopping? Claro, há problemas . Mas de um jeito ou de outro consegui me livrar das compras de Natal e de certa forma, consegui também um jeito de dar uma forcinha na minha aposentadoria que não é lá grandes coisas. Certamente todos os dias, até o dia vinte e cinco há uma legião de crianças com pedidos e mais pedidos para mim. Pedem tudo. Precisam de tudo. Inclusive os pais e as mães. Bom, pelo menos um colírio para os olhos são as mães. Ora essa, estou aposentado mas não estou morto. Ou como diz aquele chef gordinho da televisão: “Não porque estou de regime que eu não posso olhar o cardápio.” Sim, mães muito bonitas elegantes e de fino trato. Fino trato com elas e mau tato com os filhos/as. Nenhum jeito. Nenhuma forma e nenhum conteúdo. Tem as mães carentes também que veem no Papai Noel uma espécie de fetiche e acham que por trás da barba e cabelos brancos sairá um daqueles caras das casas noturnas que dançam para as mulheres e eu fico me perguntando de onde vem tanta carência afetiva.
        As crianças? Ah sim. Na sua maioria, são muito amáveis. Na maior parte das vezes perguntam se é muito frio lá no Pólo Norte. Se as Renas comem muito. Como é que eu adivinho os pedidos de cada criança. Como eu dou uma volta ao redor da Terra tão rápido? Se eu conheço o coelhinho da páscoa? Se eu não estou sentindo calor (antes sim, agora comprei uma camisa com serpentina e um cooler fazendo um sistema simples de troca de água que me mantém sempre sem calor)? Outras crianças começam a ser um pouco mais abusadas. Sim, há crianças vingativas e que esperam praticamente um ano para poder chutar (de modo sutil, claro) a canela do pobre Papai Noel que não trouxe ano passado o seu presente de aniversário. Mas eu não sou um Papai Noel qualquer, apenas sou um Papai Noel prevenido que sorri para o garoto que ao chutar minha perna deu de encontro com minha caneleira de futebol. A reação de desânimo dele e a minha de riso, fez com que todos parecessem que eu estava me divertindo (e como não?) muito com o menino que ainda desferiu mais dois chutes na tentativa frustrada de me machucar. E ainda falou que eu deveria trazer para ele o brinquedo que eu não levei ano passado, senão ele viria aqui ano seguinte para me bater de novo. Era um garoto mais velho. Com certeza ano que vem ele vai se chatear por um tempo por ter sindo tanto tempo enganado pela mãe dele que não vai se lembrar mais de me bater.
       Logo depois, na fila, chegou uma menininha de uns onze anos aproximadamente, idade incomum para acreditar em mim. Mas ok. Ela sentou no meu colo, me deu um abraço como nunca tinha recebido na vida e perguntou se eu atendia todos os pedidos no Natal. Aquela conversa me saiu um pouco estranha, mas mesmo assim eu resolvi dar mais crédito a ela e então ela sacou uma carta e sem que muitas pessoas vissem me entregou. Assim que ela me entregou, alguém gritou “Lorena”. Era um rapaz alto, moreno, parecia ser um daqueles caras que ficam o dia inteiro dentro de uma academia malhando músculos ao invés do cérebro. Ele não pediu, aos berros, pediu que a menina voltasse rapidamente para perto dele e da esposa (uma moça, assim como a filha, loira, magra e baixinha). Assim que a Lorena chegou para perto deles ela teve o braço apertado e puxado para junto do rapaz. A moça até quis reclamar, mas levara um olhar tão repressivo que abaixou a cabeça e deixou que apenas ele falasse com a menina. Aliás falar foi um baita elogio. Ele parecia aterrorizar a menina. Eu ia colocar a cartinha dela dentro do pote junto de todas as outras, mas alguma coisa me fez voltar atrás. Apesar da fila grande, avisei uma das fotógrafas que precisava ir ao banheiro, que era coisa de velho e tals. Ela a contragosto, permitiu este senhor idoso aqui ir fazer suas necessidades. Ao adentrar no sanitário dos funcionários, por coincidência, eu me encontro com Reginaldo, chefe da segurança. Ele abre um sorriso, e diz:
       - Que dia hein? É quase Natal, tá acabando.
       -Nem fale. Ainda bem que está acabando.
      Antes de entrar na cabine, olhei para o Reginaldo e perguntei se podia me fazer um favor. Ele prontamente assentiu com a cabeça e me olhou querendo saber.
     -Reginaldo, tem um cara, alto, moreno (um metro e oitenta eu acho), vestindo uma camisa lilás acompanhado de uma moça loira, baixinha e magra. Eles parecem ter uma filha, também loirinha, baixinha e magrinha. Eu acho que tem alguma coisa errada ali. Vou fazer um xixi, mas peça para o seu pessoal ficar de olho neles. Qualquer coisa, a mínima, detenha-os.
     -Anda vendo muito filme de ação em Noel.
      -Palpite. Pode fazer isso por mim?
     - Claro. Vou lá, qualquer coisa eu aviso o senhor.
Me sentei no sanitário e abri o envelope. Estranhamente o envelope estava bem colado. Parecia que a Lorena não queria que ninguém visse o conteúdo da carta. Achei num primeiro momento estranho, mas depois vi, que para a idade dela, nesse mundo moderno de hoje, poderia ser mais um mico que ela poderia estar pagando. Ao abrir o envelope comecei a ler a cartinha que ela me escrevera.


20/12/2015
Querido Papai Noel


      Eu, me chamo Lorena Bastos Silva e tenho onze anos. Ano passado, eu escrevi uma cartinha para o senhor, mas acho que o senhor me esqueceu. Apesar de ter crescido, eu ainda acredito muito no senhor, ou alguma coisa deve ter acontecido, já que eu tenho certeza de que mandei para o endereço certo mas o senhor não me escreveu de volta e nem apareceu. Aliás eu fiquei esperando na janela até adormecer e cair em cima da cama, já que depois da ceia, ganhei meu presente e aos berros, porque já estava muito bêbado, meu padrasto me mandou para cama. Acordei no outro dia e pensei que algo tinha mudado. Mas não. Tudo continuou do mesmo jeito. Então eu resolvi vir aqui ao shopping para entregar minha cartinha pessoalmente para o senhor na esperança de que dessa vez possa atender o meu pedido.
       Meu pedido é simples. Eu queria ganhar de Natal apenas um presente: Que o senhor mudasse o jeito do meu padrasto. Quando o meu pai foi embora, minha mãe depois de uns anos, cansada de ficar sozinha, começou a namorar com o Léo. Ele no começo não era assim. Era um cara legal, que brincava comigo, mas nunca ficava na nossa casa, ele sempre ia embora para casa dele. Até que um dia, ele apareceu lá em casa com todas as malas e mamãe parecia um pouco preocupada. No começo eu achei que ela ia ficar feliz. Mas não, ela estava um pouco apreensiva e não se mostrava feliz.
      Depois eu fui entender o porque. O léo bebe muito. E quando ele bebe, não fica normal. Ele arremessa as coisas dentro de casa, quebra tudo. Teve um dia que ele quebrou os vasinhos de flores da minha mãe e ela chorou muito. Ela sempre me mandava entrar para o meu quarto e não sair de lá. Acontecesse o que fosse. E eu sempre obedeci. Meu pai, não me visitou e nem me buscou mais para passear depois que o Léo veio morar aqui em casa.
      Foi aí que eu entendi porque minha mãe sempre me mandava para o quarto. Nas férias o Léo chegou muito tarde. Minha mãe começou a falar alto e ele também. Mas mamãe sempre tinha dito para eu ficar no quarto. Mas não aguentei. Fui no quarto deles ver se precisava de alguma coisa. Eu bati na porta e havia muitos gritos. Parecia que ninguém prestava a atenção em mim. Eu tinha então resolvido abrir a porta. No momento que abri a porta, o Léo deu um forte tapa na minha mãe que caiu na cama com força. Quando ele percebeu que eu tinha visto, saiu correndo atrás de mim. Eu corri para meu quarto e tranquei a porta. Não adiantou nada. Ele arrombou a porta e disse que para eu nunca mais aprender a entrar no quarto dos outro, ia me dar uma lição. E me bateu muito. Ele tirou o cinto da calça e me bateu. Me bateu tanto que as minhas pernas ficaram inchadas de tanto que apanhei.
      Sabe, a partir daí, nunca mais nossa vida foi a mesma. Quando minha mãe apanhava, eu apanhava também, mesmo estando dentro do meu quarto. Eu não aguento mais tomar tanta surra. É muita dor. Eu tentei pedir para o senhor ano passado, mas acho que algo deu errado. O senhor é minha última esperança. Por favor Papai Noel, não deixe o meu padrasto bater nem na minha mãe, nem em mim, por favor.
      É o único presente que eu peço para o senhor. Eu não quero mais nada. Minha mãe vive machucada. E toda hora o Léo fica ameaçando que vai nos espancar até a morte. É tudo que peço.


                                                     Com amor
                                                                                                                                                    Lorena


      Eu entrei em pânico. Saí correndo do banheiro em busca de um segurança. Assim que achei um pedi para entrar em contato com o Reginaldo que era coisa grave e para pegar. Um segurança entrou em contato com o Reginaldo e disse que eles estavam vigiando e que estavam todos na praça de alimentação. Peguei o elevador, até o quinto andar, e me dirigi a praça de alimentação. Não conseguia pensar em mais nada. Minha cabeça girava. Reginaldo veio ao meu encontro só que eu não conseguia dizer muita coisa. Apenas peguei a carta e disse ao chefe de segurança: prenda esse imbecil, agora!
       -Mas ele não fez nada, como vou prender ele?
       -Chame a polícia, não deixe esse marginal ir embora.
      Na hora, crianças começaram a me cercar e eu tinha de ser sutil. Não podia decepcionar as crianças e também não podia fazer com que aquele facínora fosse embora. Então à medida do possível, fui me aproximando, devagarinho para não assustar ninguém. Nesse momento, apenas Lorena percebeu minha presença. Às vezes, a troca de olhar faz com que ela, de rompante, se levante e venha correndo em minha direção. O abraço dado em mim, foi quase uma confissão de alívio. Não houve palavras trocadas, não houve gritos e gemidos. Ela apenas apertou meu corpo e chorava copiosamente. Eu levantei levemente a cabeça e vi que a mãe parecia ter percebido o que tinha acontecido enquanto Léo me olhava fulminantemente com os olhos semicerrados. O pânico da mãe aumentou quando Léo a olhou e depois olhou para mim como se soubesse o que tinha acontecido.
       Ele se levantou, veio em minha direção, enquanto os seguranças ainda cercavam Reginaldo para saber o que fazer. E, o mesmo chefe de segurança, lia atônito a carta que me era endereçada. Antes que os seguranças pudessem fazer alguma coisa, Léo, um pouco mais alto que eu chega até a mim e Lorena. Eu passo a menina para trás de mim e o encaro.
      -Velho, o que está fazendo com minha enteada? É pedófilo?
      -Não rapaz, e você, é covarde?
      -O que essa língua grande te falou?
     -A verdade rapaz. A verdade.
     -Lorena “bora”, a gente vai conversar em casa.
     -A Lorena não vai, rapaz. Vocês vão para a delegacia, você tem muita coisa a esclarecer.
     Nesse momento, Léo tenta me desferir um soco. Eu desvio e agarro sua mão e ao invés de segurá-la eu deixo o braço do rapaz seguir seu caminho e pego seu punho mais a frente e puxo seu braço para trás fazendo um triângulo por cima do ombro direito. Antes que ele pense em reagir, eu o desequilibro com a perna fazendo-o cair no chão. Os outros seguranças correm em minha direção e agarram o rapaz que se debate como um touro. Quando dominado, eu o olho e digo calmamente:
      -Você me toma por um velho, mas cuidado rapaz. Às vezes velhos são faixa preta em Aikido.
      A praça de alimentação entra em polvorosa e as pessoas ficam extasiadas. Eu nunca fui de exibir meu conhecimento em artes marciais, mas infelizmente dessa vez foi extremamente necessário. A mãe veio e me abraçou. Eu a aconselhei a ir a delegacia, prestar, queixa e se separar desse indivíduo, afinal ninguém merece apanhar. Voltei para minha cadeira, ovacionado por alguns clientes que estavam no shopping e viram a cena. E, ainda tive tempo de ver saindo algemado, o tal de Léo, e Lorena e a mãe, atrás dos policiais me deram um discreto tchauzinho com um ar aliviado.


FELIZ NATAL E FELIZ 2016!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Crônica

   
 Não me ame, eu tenho muitos defeitos.



     Não me ame. Não goste de mim. Não perca seu tempo comigo. Eu já dei e dou trabalho. Dou trabalho, logo sou um porre. Prá que gostar de mim? É desnecessário, não vejo motivo algum, e para ser sincero você vai ser mais feliz. Tenho defeitos demais para uma pessoa tão pequena como eu. Apesar do meu um metro e setenta e três de altura, atualmente sou um anão no meio de tantos jovens com mais de um metro e oitenta. Mas afinal são números. Números bobos. Na verdade números são apenas números e somados dão outros números que multiplicados ou divididos dão outros números.
     Não sei porque estou contando isso para vocês. Mentira eu sei sim mas isso não importa agora. Às vezes eu minto, é verdade. Nossa, ficou confuso isso! Mas prefiro mentir do que fazer qualquer pessoa sofrer. Na verdade se for para sofrer eu prefiro que seja eu mesmo. Não, eu não sou nenhum tipo de herói ou cavaleiro em um cavalo com sua armadura prateada, espada na cinta , elmo e escudo na mão. Esqueça. Não sou também nenhum tipo de herói lendário, um semideus grego, ou o próprio Deus em questão. Então não se preocupe. Deixe que eu faço isso, por você e por mim. Não pense que sou aquele soldado bonzinho que no final das contas coloca seu corpo contra a bala inimiga. Não sei quem disse a frase que no amor e na guerra tudo é válido. Bom, quase tudo, porque algumas coisas eu não abro mão. Sou meio Ned Stark, que pregou a honra e perdeu a cabeça. Literalmente.
      Sabe, você que está lendo pode ter certeza que eu resolvi enumerar meus defeitos. Porque simplesmente eu sou muito autocrítico quanto isso. Pode ser por isso que eu tive de reescrever tudo o que já tinha escrito. Me amar é muito difícil. É complicadíssimo sim, eu gostaria de salientar isso, já que eu tenho muitas questões para comigo mesmo e até acho que externá-las é uma forma de poder deixar toda e qualquer pessoa que resolva gostar de mim, a par da aparente roubada que é ter de viver comigo. Eu não ia fazer isso, mas talvez elencar algumas coisas, seja deveras interessante, fazendo a quem ler ter uma grande viagem ao desconhecido mundo do meu eu.
        A primeira coisa, é se você for nova é que estou envelhecendo. Ano que vem eu faço quarenta anos. Não se iluda muito com o bordão de que a "vida começa aos quarenta". Fiz umas contas básicas, e não é idiotice, me baseei na idade do meu pai, minha mãe (vivíssima, graças a Deus) e resolvi tirar uma mediana (não média) de quanto tempo de vida terei. Se nada der errado, talvez eu viva até aos oitenta a oitenta e cinco anos de idade. Não se iluda de que ficarei jovem pare sempre. E sim, terá de amar um velho, com todos os seus problemas de velho e talvez ter o desprazer de providenciar os papéis do meu enterro. Não, velório não vai ter. Não quero ninguém que me odeia a beira do meu caixão dizendo que eu era "uma boa pessoa".
         A segunda coisa, é que apesar de estar ficando velho, não quer dizer que eu não possa olhar as mulheres na rua. Antes que venha com esse papinho de compromisso e tal, faça o favor de ir ao inferno e ficar lá. Todo ser humano olha alguém bonito. Não importa a idade. Não venha com esse papinho de que nunca olhou e nunca olhará. É papo, é besteirol, e eu não quero mais ficar pensando se você está com ciúmes ou não. Dane-se, eu vou olhar e se você quiser olhar, olhe, não estou te colocando amarras nos olhos.
        A terceira coisa é que sou epilético. Ou seja, não posso dirigir aqueles carrões que você tanto acha que eu dirijo. Mas nossa seita é mais eclética, nós podemos dirigir sim, desde que não seja carros potentes e motos potentes. Quem tem epilepsia faz parte de uma "seita secreta" onde certas verdades é melhor ser omitida. Então, como essa doença não tem cura, infelizmente é mais um fator para eu morrer mais cedo e não é muito legal saber disso.
        A quarta é que eu sou urbano demais. Não me chame para uma casinha na porra de um mato qualquer. Desde que esse mato qualquer não seja uma montanha na Escócia. Sim, só vale a Escócia. Fora isso não quero ir a cabaninha em mato em lugar nenhum. Esqueça. Esse lance de ficar num lugar distante de tudo e todos com hortinha, vaca, galinha e cachorro não é minha praia. Se você quiser ir para São Paulo viver comigo, pode ser uma boa. Lá tem poluição, é barulhento e violento. Se eu vou mudar de ideia, talvez. Quando estiver velho e quiser ir morrer num lugar tranquilo.
          A quinta coisa é fisiológica. Não espere em mim um espécie de ator pornô. Não sou, não serei e quando eu envelhecer eu vou sim tomar a pilulazinha mágica por que é meu direito e ninguém tem nada a ver com isso. Então terá que se acostumar com isso também.
           A sexta coisa. Sou pai. Não palhaço, então quero ter a convivência total e irrestrita com as criança ainda que as crianças tenham quase trinta anos de idade. Já vi muito pai por aí que simplesmente "largou" os filhos por aí e no máximo paga uma pensão. Além da pensão, tenho de dar carinho, afeto e vou dar tudo o que for necessário.
           A sétima coisa é que tenho meu time de futebol. "Futebol é paixão e na Globo é muito mais emoção" bradava há muitos anos atrás o jornalista Kléber Leite. Sou brasileiro, logo adoro e amo futebol. Não que eu vá ver XV de Piracicaba e Matonense porque deve ser uma pelada de todo o tamanho. Só assisto aos jogos do meu time de coração. Aí sim, se for contra o XV de Piracicaba ou a Matonense não vai ser pelada. Acostume-se.
          A oitava coisa é que gosto de Fórmula 1 também, e não perco um GP desde os anos 80. Então não adianta ficar de mimimi dizendo que é uma coisa idiota um monte de carros rodando em volta de um circuito. Eu gosto, já até tive um blog sobre esse assunto e pronto. Eu vejo filmes, eu vejo documentários, ou seja, quando é tudo é tudo. Ah, e para sua breve informação, eu não gosto do Ayrton Senna. Não do piloto, mas sim da pessoa. E não me venha com esse "melhor de todos os tempos" que sinto uma vontade de bater a cabeça na primeira coluna que achar.
        A nona coisa é que eu sou teimoso. Essa minha teimosia é um saco. Às vezes para escrever uma coisa perfeita. Às vezes para consertar algo. É, não é fácil, mas isso se deve ao fato de que não quero fazer absolutamente nada mal feito. Não é mania de perfeição. Mas a teimosia de fazer algo que agrade as pessoas talvez me faça um cara teimoso com mania de perfeição. Putz, piorei a coisa. Melhor pular.
         Por fim, afinal, vou elencar somente dez. Devo ter mais defeitos. Mas esses dez eu achei importante. É café. Não vou dizer que é um vício maldito, mas comecei tarde na arte de degustar café. Mas eu amo café. Meu reino por um café. Pode ser ele expresso, coador de tecido, de papel, mas eu tenho de tomar pelo menos três xícaras grandes dele por dia. E porra, não tem como. Pode ser às dez da noite, mas eu tenho de tomar o meu café. E sim, durmo tranquilamente. Como um anjo.
           Viu, tenho defeitos demais, esses dez foram apenas os mais relevantes. Eu sei, sou um humano, não sou nenhum extraterrestre, mestre Jedi, super herói, não sou um mutante, enfim sou uma pessoa normal. Apenas acho que não mereço ser amado na proporção que às vezes amo e que dizem que me amam. Gostaria de ter menos defeitos, mas a essa altura da vida vejo que isso não vai ser possível. Então teriam de me aceitar assim. Então para a mercadoria (no caso eu) não soar como um black friday brasileiro, eu mesmo coloquei porque não me comprar. É como um vendedor das Casas Bahia recomendar o cliente a ir no Ricardo Eletro.Bom, enfim pessoal, é isso. Amem outro, esse aqui está que nem Minas Gerais: um mar de morros.. E morro ninguém gosta, todo mundo prefere a planície. E futuramente, vai virar um Serrado: Baixo, velho e desgastado. Por hoje é só.


Escritor Solitário.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

OPINIÃO






A ALCUNHA DO CUNHA




 
      Desde semana passada, Brasília anda em polvorosa quando na quarta-feira o Presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, resolveu à tarde, acolher o pedido de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Esse processo se deu quando o mesmo recebe a notícia do conselho de ética da Câmara dos Deputados que os componentes do Partido dos Trabalhadores tinham decidido em conjunto, votar para que se abra o processo contra o Eduardo Cunha. Aliás, o mesmo, já recebe sinais dos próprios companheiros censuras como do Deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), Alessandro Molon (REDE-RJ) e uma censura, chamando-o de indigno de se sentar na cadeira de presidente da deputada Mara Gabrili do (PSDB-SP).
       Acontece que Eduardo Cunha continua ali. E, como um ato de revanchismo, como um ato de uma criança revoltada com a outra que chutou a bola longe e não quis pegar, resolveu brigar com ela e não conversar mais. Acho incrível que o Eduardo Cunha recebera dezenas de pedidos de impeachment e não aceitou nenhum deles enquanto ele podia se manter moralmente no poder. As pessoas se mantinham em polvorosa em alguns momentos. Fotos com a polícia, manifestações em verde e amarelo e dezenas de pessoas com a camiseta: “Somos todos Cunha!”.
       No entanto, o Ministério Público Suíço revelou tanto na Suíça quanto enviou para o Brasil extratos de contas movimentadas por Eduardo Cunha. Então viu-se que até aulas de tênis no exterior, sua mulher, pagou. Admitiu-se então o pedido. Lido numa quinta-feira, quando imponente o presidente da Câmara resolveu numa atitude de revanche acatar o pedido. Acontece que esse pedido ocorre num momento em que o Brasil passar por problemas estruturais, econômicos e sociais imensos. Enquanto isso, no Estado de São Paulo, escolas são fechadas para uma “reorganização” que mais desorganiza do que ajuda. No Paraná, professores foram recebidos a bala de borracha, cassetetes e uma pancadaria sem a mínima noção de civilidade. No meio de tudo isso, o deputado, nobre, porém não, dá uma entrevista para uma grande emissora dizendo que as contas não são dele. Que ele é apenas um usufrutuário de um trust que é administrado por pessoas, fruto de um rendimento ao qual ele vendeu carne nos anos oitenta para países africanos. Sem demonstrar notas fiscais, deu um depoimento vago. A alcunha de usufrutuário caberia bem ao deputado Cunha. Some-se isso, o Senador Delcídio, ao qual já falei semana passada, está na dúvida se delata todo mundo ou finge que nada está acontecendo assim como seu amigo de partido José Dirceu.
        A minha opinião sobre isso é baseada no discurso dos professores Dalmo Dallari e Cláudio Lembo (esse inclusive, uma figura ilustre do DEMOCRATAS) de que não houve crime, tanto do ponto de vista criminal (sem dolo) quanto do ponto de vista econômico onde num cenário de crise medidas urgentes deveriam ter sido tomadas. Acredito que o parecer de Janaína Paschoal e Hélio Bicudo, está baseado numa decisão política. E, o senhor usufrutuário, não tem moral alguma para pedir impeachment. Inclusive, se não me engano, está na Constituição que qualquer pessoa pode (assim como fizeram Janaína Paschoal e Hélio Bicudo) pedir o impeachment. Agora, uma pessoa sem a mínima condição moral, digna e ilibada pode acatar ou não o pedido. A minha opinião é de que primeiro ele não deveria estar sentado lá desde que suas contas apareceram, pois para mim, ele automaticamente já estaria impedido de presidir a Câmara.
        Cabe lembrar a todos que há alguns anos atrás o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti teve de renunciar a presidência da Câmara por receber um “mensalinho” de quinze mil reais. Recebeu um “pito” do ex-deputado e agora jornalista Fernando Gabeira. Hoje, políticos que perderam as eleições, dão graças a Deus pelo tipo de gente que povo a Câmara dos Deputados hoje. Vergonha alheia, é o sentimento da nação.


Escritor Solitário

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

OPINIÃO

OS CANALHAS TAMBÉM 


ENVELHECEM





        As palavras acima, foram ditas por um senhor, que foi o digamos, “criador” do Ratinho, muito famoso no Paraná, Luiz Carlos Alborghetti. Era um senhor de extrema direita, com as falas em seus vários programas do tipo trash eram as de: “Bandido bom, é bandido morto”,”Paranã”, “Vá a merda!” e “Os canalhas também envelhecem”. Não acreditava em direitos humanos para bandidos, etc e tal. Mas vou me ater apenas a essa frase que disse, “Os canalhas também envelhecem”. Pra dizer a verdade não fui muito de acreditar nessas coisas. Mas, eu nos últimos dias infelizmente me dobrei a esse argumento
      Na última quinta-feira, o país foi surpreendido com gravações, prisões e tudo o que mais aconteceu sobre o senador Delcídio do Amaral. Delcídio do Amaral, era aquele homem na transição há dez anos atrás entre os cabelos pretos e os cabelos brancos. Foi ele o presidente da CPMI do Mensalão e conseguiu conduzir sem praticamente nenhum barraco, gritaria, berros, uivos e vaias (como temos visto ultimamente neste congresso em suas sessões plenárias) encontros dos mais tensos possíveis, inclusive entre os ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado Roberto Jefferson, onde apesar da dureza das palavras, o nível foi mantido.
       Pessoalmente sempre tinha admirado como tanto Delcídio quanto Osmar (que era o relator) conseguiram de forma unânime agradar tanto ao governo, quanto a oposição o que nesses tempos de Mensalão, Petrolão, Lava-Jato e tantos outros escândalos, tem sido um festival de ofensas de parte a parte, onde tucanos e petistas brigam por poder e onde sabemos (ou não queremos saber) que são farinha do mesmo saco. Pois bem, na quinta-feira última o senador foi detido pela Polícia Federal depois de tramar com um dos réus da Lava-Jato e um advogado a fuga de um dos principais personagens dessa megaoperação Nestor Cerveró. Nessa gravação trama-se uma fuga inusitada para o Paraguai onde um advogado de renome (esses políticos nunca andam sem nenhum) sugere essa rota de fuga e diz: Eu já fiz muito isso.
        Foi preso também um banqueiro, jovem, o símbolo do sucesso. Acusado de lavar dinheiro, de obter informações de maneira sigilosa e como conseguir através de dinheiro já que é bilionário. Esse jovem, símbolo do sucesso, estava trilhando o mesmo caminho dos sessentões já presos nessa operação. Acumulando muito dinheiro de maneira ilícita através de contas, de falcatruas e farra com o dinheiro público. Dinheiro esse que poderia ter sido usado em escolas, universidades, postos de saúde e hospitais para a parcela mais pobre do nosso país. É vergonhoso que esse tipo de gente leva o dinheiro dessa população e fico me perguntando se em algum momento, se em algum dia essa gente se arrependeu ou se consternou com isso. Na minha opinião eles são tão cruéis e nojentos quanto assassinos que volta e meia estão a baila em telejornais .
        Na sexta-feira passada pude, através do Jornal da Band ver quando surgiu no cenário o solícito senador. Ele sempre esteve nos meandros do poder. Sempre esteve as margens de quem estava no comando político do país. Uma vergonha. E desde bem jovem, o nobre senador, que hoje ostenta uma longa cabeleira alva, está preso em uma cela da polícia federal. E uma das razões para fuga, mesadas e planos mirabolantes para quem está demonstrando aonde está mais um (mar de lama). O Congresso está nas mãos de mafiosos e cada dia que passa, a vergonha tem sido maior e o brasileiro comum tem perdido a fé em qualquer tipo de governo que se possa sequer pensar, já que todos estão na vala comum da mediocridade. É incrível, mas tenho de dar a absoluta razão ao já falecido comunicador Luiz Carlos Alborghetti: “Canalhas, também envelhecem.” Só faltou dizer que às vezes é as custas do dinheiro do povo sofrido que tanto batalha.

Escritor Solitário

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

OPINIÃO

AS INVASÕES BÁRBARAS


       Há alguns dias atrás nunca as invasões bárbaras estiveram tão na moda. A primeira delas aconteceu no subdistrito de Bento Rodrigues em Mariana, Minas Gerais no dia 5/11. Uma enxurrada de lama e rejeitos de mineração desceu os “mares de morros” mineiros e invadiu o Rio Doce. O distrito de Bento Rodrigues, foi o primeiro a perecer. Vidas humanas, fauna e flora hoje, mortos. A empresa já tinha sido avisada e hoje apenas tenta justificar o injustificável. Sua negligência e sua ânsia pelo dinheiro fizeram com que este desastre ambiental se tornasse o maior da sua história. Ou seja, os bárbaros capitalistas, como sempre fazem sua parte. Destroem o meio ambiente e depois, bem depois tentam justificar o injustificável. Antes que digam que é somente no Brasil que acontece isso, por causa da corrupção, incompetência do governo, etc. (não nego que os órgãos estaduais e federais, responsáveis pela fiscalização, devem ser punidos igualmente pelos órgãos competentes) neste ano de 2015, completa-se cinco anos do maior desastre ambiental americano. A explosão da plataforma Deepwater Horizon da inglesa BP matou sete pessoas e jogou no Golfo do México (que banha México e EUA) CINCO MILHÕES de barris de petróleo. Os impactos ambientais ainda são sentidos até hoje na costa americana e mexicana. A empresa foi multada em 2014 em 14 bilhões de dólares segundo relatos do Greenpeace.
         Aqui no Brasil, após o acidente de responsabilidade da Samarco uma subsidiada da Vale, ela se explica, se explica e até hoje, o caos vem se alastrando. A lama contaminada de resíduos tóxicos chegou ao Rio Doce, provocando desabastecimento em cidades mineiras e agora em cidades também do Espírito Santo. Ontem a onda de lama tóxica chegou ao mar. Ou seja, o bioma as margens do Rio Doce morreu. Cardumes inteiros de peixes mortos. E agora, o bioma marítimo também pode será contaminado pela onda tóxica da mineradora. E até agora, simplesmente NADA de efetivo tem sido feito. Simplesmente as pessoas estão ao Deus-dará de bárbaros capitalistas que pensaram no lucro. Não pensaram na vida.

         Oito dias depois, as invasões bárbaras continuaram. Desta vez em Paris. Stade de France, Le Petit Cambodje, no café Le Carillon e na casa de espetáculos Le Bataclan. Gritando palavras em árabe, dizendo que Alá é grande, dispararam contra centenas de pessoas e usaram cintos com explosivos usando seus corpos como armas de destruição. Em dados atualizados cento e trinta pessoas entre franceses e várias pessoas de diversas nacionalidades foram mortas. Entre franceses comuns que apenas queria se divertir numa sexta-feira a noite e turistas com o mesmo objetivo na cidade-luz. Alertas máximos acionados e durante bastante tempo os franceses não terão sossego imposto pelo terror pelo Estado Islâmico. Um califado, de sunitas, que se baseia na religião e por isso vem destruindo tudo a sua frente. Mentira. O Estado Islâmico não tem nada a ver com a religião.          
         Conheço muçulmanos e eles estão pasmos como o Alcorão veio a ser distorcido de forma a que seu uso seja o militar. Isso não é religião, isso é uma invasão bárbara, de homens e mulheres bárbaros que tem como único objetivo ter para si um Estado a qual possam desfrutar de suas atrocidades. Mas a ironia disso tudo é que justamente, Americanos, Ingleses e Franceses armaram este estado. Na avidez de derrubar Saddam Husseim, cometeram o erro de armar xiitas, sunitas e curdos numa região em que a política deve prevalecer. Não satisfeitos, empolgados com a Primavera Árabe resolveram armar a quase todos para a derrubada de Bashar al-Assad, que agora apenas observa o apoio de quem vai receber pois, ele se considera um “mal menor” se comparado ao Estado Islâmico e seus homens-bomba que prometem trazer o pânico e o horror para toda a Europa.
       E o Corinthians? Outro invasor bárbaro. Sim, jogou o jogo e de maneira fenomenal,
massacrando os adversários de maneira ímpar. Jogou o jogo. Teve ajuda da arbitragem? Quem sou eu para dizer? Não há uma investigação séria neste país em termos de esporte. Então aos que estão aqui lendo, cabe-lhes apenas o choro de não ter tido uma postura eficiente dentro e fora do jogo. E sim, a massa alvi-negra jogou muito bem, arrancou uma goleada na entrega da faixa diante de um de seus maiores rivais dando-lhes uma goleada vexatória. Jogou barbaramente, e fez, um campeonato bárbaro.


Escritor Solitário.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA

Anjo


      As pessoas às vezes teimam em pedir ou perguntar porque este perfil não tem rosto. Além da privacidade que tenho de falar o que quero, sobre o que quero a hora que quero sob um certo anonimato, me dá uma liberdade sobre tal. Ser tomado por uma espécie de louco, tarado, estelionatário (não tinha me lembrado desde adjetivo) e por incrível que pareça, até por mulher já me confundiram. Tudo bem, faz parte pelo anonimato e pelo estilo “Daltoniano” de vida que estou planejando ter. Mas isso não quer dizer pro exemplo que eu não possa ou não deva escrever sobre mim mesmo. Claro que posso e claro que escreverei. Demorei um certo tempo para que pudesse escrever sobre mim porque na verdade não sou uma pessoa interessante. Sou uma pessoa comum. Não sou como Paulo Coelho que foi parceiro do Raul e que agora pode se refrescar numa ilha em Dubai e ser vizinho das celebridades. Não almejo isso também. Sou um homem (sim, se você tivesse lido as outras histórias antes, teria percebido, se não leu é preguiçoso/a) simples sem ser simplista, com hábitos normais, com vícios normais (café) e trabalho duro para ganhar a vida. Mas não é por isso, que vou apresentar a vocês, uma história da minha vida mal contada, sem os detalhes, sem coisas assim. Gosto de escrever para vocês de uma maneira interessante, de uma maneira que se apeguem a leitura e ao hábito de ler.
          O relato de hoje, data de mil novecentos e noventa e seis. Praticamente um ano antes da morte do meu pai (apenas um detalhe). Mas é que depois de uma busca minuciosa de um papel importante em minha vida, que tem inclusive a data do ocorrido, eu finalmente pude escrever sobre. Este papel está comigo há dezenove anos. Quase a minha idade quando ele foi escrito. Guardo comigo tudo o que é realmente importante, mas não sou esses coletores que aparecem nos programas da Fox, TLC entre outros da TV paga. Esse papel realmente tem uma significação. Valeu a pena eu ter guardado entre as minhas coisas. É importantíssimo, ou melhor, foi importantíssimo, principalmente no que tange a formação da minha vida amorosa. A minha vida amorosa não foi um abalo do início ao fim. Mas ela tem, devo me orgulhar, qualidade. Toda mulher que passou pela minha vida teve uma participação e significado ímpar. Cada qual a seu modo, inclusive a minha mãe (Freud ficaria orgulhoso disso, ter falado sobre a mãe)que me amou e me ama do seu jeito, da sua forma e pela qual eu não vou e nem pretendo mudar.
           Eu falo e muitas das pessoas não acreditam quando digo que não sou bonito. Pra ser sincero, eu mesmo não me pegaria se fosse uma mulher e que estivesse em sã consciência. Muitas pessoas dizem que eu deveria me valorizar mais, então acho que minha terapeuta (a qual ainda não fui,vou semana que vem, juro) terá um pouco de trabalho. Apesar de não ser mais o adolescente desengonçado (todo adolescente é) que fui, ainda era o cara feio e tímido. Essas características não sumiram com o tempo, e permanecem comigo até hoje. Logo, paquerar, era um suplício para mim que tinha (e tenho!) vergonha até de pedir informação a uma mulher sem me sentir idiota. As mais compreensíveis tiveram a paciência (e que paciência) de que eu tomasse a iniciativa, e as mais apressadinhas tomaram elas mesmas a iniciativa. Gostava mais do grupo das apressadinhas porque aí eu ficava desobrigado de ter de falar os galanteios necessários às suas belezas e a minha vontade imensurável de ficar junto ao lado delas. Era um cara também religioso (tá, eu ia uma vez a igreja, bater uma papo mais fraterno com Deus, antes de descobrir que não precisava de ir a uma para fazer isso de uma maneira mais íntima possível) e todo sábado eu ia ao encontro de jovens da Igreja do Evangelho Quadrangular. Sim, eu era crente, depois virei católico e hoje não sou nada, só cristão e está de bom tamanho para mim.
        Meus amigos costumavam me pegar e íamos dar umas voltas, paquerar (eles conseguiam, eu não), comer um lanche, ir em algum show, ficar na porta dos barzinhos (era moda na época, não tínhamos dinheiro então ficávamos na porta dos barzinhos fazendo pose). Alguns gostavam de ir em alguns botecos. Mas alguns botecos na minha cidade mais pareciam pés-sujos do que botecos propriamente ditos. Então não rolava de jeito nenhum ir. Passávamos pelos pontos de prostituição só para ver a qualidade das moças (era só para ver, era de graça) e depois comparar qual delas estava em melhor forma. Eu tinha um grupo de cinco amigos que toda semana fazia esse papel de idiota. Mas naquele vinte e quatro de agosto, um sábado à noite, nenhum dos meus amigos foi me buscar. Nós não tínhamos celular. Nem pager. Era caro e, eu apesar de trabalhar nas Lojas Americanas, meu salário mensal era de cento e cinquenta e sete reais. O resto de nós não trabalhava, ou então faziam bicos como o Anderson e o Lauro que se viravam bem em informática. Bom, se não havia ninguém, o meu jeito foi ir sozinho mesmo. Ia fazer a mesma caminhada. Pelas ruas principais, como sempre, e voltar sozinho, como sempre.
Passei pela rua do museu, pela faculdade de direito, entrei na avenida principal e pensei em ir em algum dos Shoppings Centers, mas infelizmente já estavam fechados. Em um deles, apenas a pista de boliche estava aberta, mas e a grana? Não rolava mesmo. Então continuei andando pela avenida principal até que ao chegar na praça central da minha cidade fiquei sem saída. Seguir adiante, sentar na praça olhar o nada, ou continuar andando sem destino, sobrando para mim avaliar novamente as mesmas prostitutas com os mesmos rostos, os mesmos preços e enfim ir na lanchonete, com os poucos trocados que tinha, comer um cachorro quente e depois ir para casa arrumar minha cama e dormir.     
            Aos vinte anos hoje, vejo muita gente nas boates, bebendo, nas raves, casas de show sertanejo universitário, bailes funk, samba, pagode, no bar do rock'n roll. Pensei em ficar sozinho na porta de algum bar. Na falta de alternativa então, eu resolvi descer uma das ruas que ia em direção as prostitutas. Na falta do que fazer, a alternativa era essa. Ia paquerar quem? Só se fosse um poste e talvez eu levasse um belo de um fora. Mas sabe aquelas peças que a vida prega na gente? Pois é, ao escolher a primeira rua e não a segunda, mal sabia eu que o meu destino estaria mudado. Mudado por um encontro tão inusitado que eu penso que muitos e muitas que vão ler não vão acreditar no que aconteceu.
            Ao descer a rua, estava perto do meu local de trabalho na época, como havia contado antes, nas Lojas Americanas. Enquanto eu descia, uma moça subia. Não estava vestida como quem vai a uma festa ou algo assim. Ela estava de tênis brancos, calça jeans e uma jaqueta, dessas tipo militar, com um capuz na cabeça. Já falei dezenas de vezes por aqui que o que me importa não é de uma maneira contumaz, a beleza exterior, mas sim a beleza interior, de ser simples, sem ser simplista. A primeira coisa que me chamou a atenção foram os lábios muito vermelhos (não parecia em momento algum que ela usava batom, mas que ela já tinha aquela cor natural nos seus lábios, era um vermelho como sangue e que me chamara demais a atenção) em contraste com a pele alva e algumas mechas de cabelos loiros que teimavam em sair pelos lados do capuz. Bom, era noite, estava um frio de rachar, dois corpos solitários (aparentemente) e coube a mim, como cavalheiro ter o privilégio da paquera. Assim que ela passara a meu lado, coube a mim dizer “oi”, ao qual fui ignorado solenemente. Mas como assim, oi? Pedreiros em qualquer esquina brasileira tem a capacidade de uma cantada melhor do que a minha em qualquer hora ou ocasião do dia. Coube a mim então, dizer um solene “puta que me pariu!” abrir os braços e me sentar em frente a porta principal das Lojas Americanas e rir de mim mesmo da situação patética que me coloquei.
                As coisas poderiam piorar? Claro que sim, poderiam. Logo, assim que me sentei e fiquei olhando a placa escrito “LOJAS AMERICANAS” e que segunda feira seria mais um dia de trabalho duro, eu olho para a direita e me deparo que a moça a uns cinquenta metros de mim, parara. Ela parou, abaixara mais um pouco a cabeça e voltou! Eu acabei entrando em pânico, mas resolvi não fugir. Perdido por um, perdido por mil, então o máximo que iria acontecer era eu levar um baita esporro da moça. Mas como a rua estava deserta, resolvi ficar, esperar e enfrentar a situação. Afinal, que mais aconteceria do que um esporro? Ela me xingaria e tudo ficaria ali entre nós dois. Ninguém nos viria ou ouviria. Tecnicamente, apesar de fazer o que fosse, eu sairia em vantagem ampla e irrestrita. Quando ela chegou perto, eu resolvi encará-la, rosto a rosto, afinal se eu fosse perder que perdesse dignamente. Ela olhou para mim e disse: Levante-se! Eu apenas pude dizer: O quê (como assim, me preparei para enfrentar um touro bravo e fui recepcionado por uma ovelha)? Ela insistiu que eu me levantasse e o fiz.
              Delicadamente ela tirou o capuz e ficou a me encarar. Finalmente eu pude ver claramente seu rosto. Os cabelos eram longos e loiríssimos. Dourados como o ouro pode ser. Os olhos azuis como o céu. A pele, branca, bem branca. Os lábios, vermelhos como sangue. Apesar de não ter prestado a devida atenção, até porque o meu galanteio (quer dizer, o meu fracasso total e irrestrito) nós estávamos andando em direções opostas e ela estava de cabeça baixa. Mesmo assim, agora devidamente parados e olhando um para o outro, eu era mais alto do que ela. Ela me perguntou se eu ia ficar sentado ali. Eu falei que não tinha para onde ir, e então fui convidado por ela para dar uma volta. Eu perguntei onde e ela falou que era o mesmo destino que eu ia. Eu sorri e disse que não tinha destino algum. Então ela disse para gente ir sem destino mesmo. Eu ri de novo e resolvi segui-la, saímos de frente às Lojas Americanas e fomos caminhando na direção que ela estava.
             Ela me perguntara o meu nome, ao qual rapidamente respondi. Não perguntei o nome dela de volta. Desnecessário no momento. Ela me encheu de perguntas, dentre as quais aonde eu trabalhava. Perguntou também de onde eu tirei a ideia de me paquerar daquele jeito. Nenhuma pergunta ficou sem resposta. Eu estava hipnotizado por ela. Me perdi dentro dos olhos azuis e confesso que se ela tivesse me mandado fazer um streap-tease com direito a um poledance no poste acredito que eu o faria. Algumas mulheres tem poder, muito poder, só que algumas sabem usar outras não, creio eu. Até aquele momento nós não havíamos sequer nos tocado. Apenas conversávamos olhando nos olhos. Particularmente eu gosto disso. Nenhuma mulher me conquista, nenhuma mulher consegue algo de mim se não estiver me olhando nos olhos, porque se ela faz isso eu acredito no que ela quer dizer. Não acredito em mulheres que não conseguem olhar nos olhos de seus parceiros. É algo meio falso.
             Ficamos a andar pelas ruas do centro como dois zumbis. Evitei as ruas perigosas (para nem ela nem eu ficarmos em alguma roubada, não tenho vocação para herói que salva as mocinhas indefesas) e ficamos nas partes mais iluminadas e mais povoadas de casais. Não era irritante, mas ela sabia mais de mim do que eu dela. Na verdade, até hoje, ela deve ter sabido mais de mim do que eu dela.
Mas sinceramente, estava na hora da ação. Eu deveria tomar a iniciativa de qualquer maneira. Mas onde e como? Enquanto ela falava e falava e às vezes eu fingia prestar a atenção devida, eu simplesmente ficava pensando em alguma forma de trazê-la para mim. A única coisa a favor naquele momento é que de alguma forma (bendito puta que pariu) eu pude trazê-la até mim, só que faltava o passo seguinte que era justamente o de poder ficar o mais próximo possível dela. Sugeri então que fôssemos dar uma volta no parque (não, não era o do Ibirapuera e não, eu não sou o maníaco do parque até porque moro bem longe da capital paulistana) e ela aceitou. O parque da minha cidade era uma espécie de point que a turma ia (inclusive a turma da terceira idade, por incrível que pareça) para paquerar, mas se você já chegava no parque a certeza era a de que você ia beijar, isso é um fato certeiro.
           Resolvi fazer uma rota alternativa e ficamos atrás do parque, na igreja de São Sebastião, onde lá tem uma banca de jornais e ao lado da banca ficava um banco. O lugar foi escolhido por mim aleatoriamente, não sabia se teria sucesso ou não, mas afinal o papo já estava se esgotando e eu já estava começando a me cansar de tanto andar como uma barata tonta. Mas pelo menos ela aceitou e resolveu se sentar na minha companhia. Ficamos um de frente para o outro e aí sim (até que enfim!) trocamos as primeiras carícias. Eu deslizei meu dedo médio pelo seu rosto e ela sorriu. Fisicamente (e teoricamente, ela parecia um anjo) eu disse que ela parecia um anjo. Ela sorriu e olhou para o céu dizendo que anjos vivem no céu. Quando eu olhei para o céu o meu pescoço todo estalara e ela riu observando que eu não era muito de olhar para o céu. Realmente, não era e não sou mesmo. Ela disse que sempre admirava
e que se perdia na beleza das estrelas. Nesse momento sei lá o que eu disse (pô, são dezenove anos, não dezenove dias, não dar para lembrar assim tão detalhadamente) e consegui finalmente beijar sua boca vermelha. Ela usava batom, mas desses fraquinhos, pois seu rosto nem ficou vermelho. Mas a boca continuava lá. Vermelha. Parecia que apenas os lábios dela estavam irrigados com sangue.
               À medida que nos beijávamos ardorosamente e calorosamente, nossos braços se entrelaçavam numa entrega louca. Ela não sentara totalmente no meu colo, mas as suas pernas (grossas, torneadas) ficaram em cima das minhas, onde eu pude tocá-las assim como no seu cabelo loiro. Seus cabelos eram lisos até a altura dos olhos, a partir daí, pude notar que ao longo da sua blusa (agora já sem capuz) eles iam cacheando-se como um movimento de ondas douradas. Anjo (esqueça nomes) foi o que lhe disse o resto da noite. Nossas bocas envolvidas uma a uma numa troca frenética e intensa deixava tudo ao redor paralisado. Nada mais importava para nossas vidas, aquele momento era único e nós mal sabíamos disso. O futuro, não pairava sobre nossas cabeças. Estávamos vivendo o momento e aquele momento era único e inimaginável, éramos duas pessoas se completando em uma em cima daquele banco.
              Num movimento, sem querer, ao beijar o seu pescoço nos olhamos novamente. Apesar da luz fraca do poste (era melhor ficarmos num lugar para sermos vistos, não por exibicionismo, mas por segurança mesmo) um faixo de luz penetrou pelo grosso casaco militar e por baixo revelara uma blusa branca e que, minha anjinha não era adepta ao uso de sutiã. Pude ver sua pela alva, seus seios rígidos, e a auréola rosada dele. Apesar de não falar nada, ela entendeu toda a situação, e deslizou o fecho-ecler para baixo da sua blusa e da minha. Assim, eu pude continuar a beijá-la e agora tocar-lhe os seios, deslizar minhas mãos pelo seu tronco de pele lisa e macia. Não sou adivinho, mas assim como eu, muito provavelmente ela estava excitada. Ela gemia baixinho enquanto eu a acariciava e ela fazia o mesmo.
                Conversamos mais um pouco, falamos da vida. De como tinha sido uma coisa tão diferente. E, realmente ela concordou. Disse que se soubesse que seria tão bom, ela teria cedido no primeiro “oi”. A ironia da vida tinha resolvido juntar dois corações solitários, que vagavam pela noite a procura de sabe-se lá o quê. Não me lembro detalhadamente o que veio a ocorrer, mas ficamos naquele banco por um bom tempo, entre carícias ardentes e pausas para contemplar os astros. E eu nunca tinha perguntado seu nome. Era muito superficial. Conversamos sobre trabalho, anseios futuros. O irônico disso tudo que não falamos sobre namoro. Mas eu queria. Caramba, como eu queria que ela tocasse nesse assunto. A única coisa que soube é que ela também estava só. Ela não era nem casada. Vi pelos sinais. Que sinais? Ora, o primeiro que ela não usava aliança. O segundo é que chegou uma hora que ela tinha de voltar para casa. E ela me levou até onde ela pegaria o ônibus. Eu não precisava, ia voltar a pé mesmo. Ela me mostrou os lugares onde trabalhou (por incrível que pareça, ela tinha trabalhado próximo a mim) e no ponto de ônibus ficamos abraçados. E sim, pessoas conhecidas, passaram por ela e a cumprimentaram. Ninguém que é casado, daria uma bandeira dessas (sei disso porque já passei por uma situação em que contarei depois) de forma que conhecidos e conhecidas passassem por ela e a cumprimentassem. Me lembro que a noite estava um pouco fria, então ficamos no ponto abraçados um ao outro até que o ônibus dela chegasse. Quando o ônibus chegou, ela me beijou, subiu e eu fiquei parado, olhando ela se sentar, e quando o mesmo arrancou e me pus a caminhar.
                  A caminhada foi um misto de emoções. Na verdade não queria que aquela noite acabasse de jeito algum. Era um pecado mortal. Mas ainda assim, a caminhada para casa foi nas nuvens. Me pegava em alguns momentos rindo sozinho e em alguns momentos eu me pegava olhando as estrelas como ela fez. Não era uma pessoa de ficar olhando para o céu. Admirar estrelas. Pura bobagem. Naquele dia não mais. Não estava ligando para o frio, não estava ligando para nada na verdade. Cheguei em casa nas nuvens. Um sábado que prometia ser um lixo, se tornou uma das noites mais memoráveis da minha vida. Ao chegar em casa, tomei um banho, fui para o meu quarto e não queria dormir. Queria pensar naquele anjo de cabelos loiros que me acolhera quando eu estava imerso em solidão. O travesseiro, deu lugar ao seu perfume. O colchão e as cobertas me lembravam de quando estávamos abraçados naquele banquinho em frente a Igreja de São Sebastião. O quanto não vimos o tempo passar, o quanto nós nos apegávamos a sensações, sorrisos, beijos e abraços.
               Quando acordei achei que estava sonhando. Minha mãe fez, no café da manhã, piada de como naquele domingo eu estava meio abobalhado(sim, eu me lembro). Ela me deu um sorriso malandro de que sabia de alguma coisa, mas era melhor não perguntar os detalhes. Esperei meu melhor amigo sair de casa a tarde para que eu pudesse contar o que havia me acontecido. Ele era mais velho e mais experiente. Deve ter me achado um bocó lhe contando as desventuras apaixonadas da madrugada. Mas alguém tinha de saber. E no fim, aquele domingo bucólico passou bem, bem devagar, como se não quisesse terminar. Mas eu sabia que no dia seguinte tudo ia ser como antes para minha tristeza. Eu sabia que novamente eu iria voltar para as Lojas Americanas, que ao final do dia eu voltaria para casa e assim sucessivamente. Ou seja, a mesmice da minha vida voltaria. Nada de novo aconteceria, previa eu.
                E o domingo, o último daquele Agosto de mil novecentos e noventa e seis, passou bucólico, devagar. Eu só tinha de esperar a segunda-feira e novamente encarar o trabalho como operador comercial (no caso eu era balanceiro) das Lojas Americanas. No mais não tive nenhuma novidade até porque eu não saí à noite. Preferi ir dormir cedo para novamente sonhar com aqueles momentos mágicos. Me entreguei a escuridão para poder rever em minha mente, todos os detalhes da noite anterior. Como naquele domingo, e até hoje, é engraçado quando paro para pensar que um baita palavrão me fez trazer até mim uma mulher maravilhosa, a qual não esqueci até hoje e que marcou minha vida. No mais, fiquei pensando naqueles momentos até novamente adormecer e encarar a segunda-feira iminente.
               Num piscar de olhos, o tempo passou muito rápido. Os raios de sol invadiram meu quarto naquela manhã de segunda. Mais um dia, como tinha feito assim, durante dois anos. Tomei meu café rapidamente, despedi como sempre da minha mãe e quando abri o portão de casa, vi ao longe o meu pai voltando de sua caminhada matinal que ia de casa até a pracinha para conversar com seus amigos. Ele vinha em passos lentos, até porque depois do seu avc, ele não foi mais como antes, mas a caminhada lenta, mostrava pelo menos que ele ainda estava estava lutando o que era digno de me dar um belo sorriso no rosto.
             Como sempre faço, ao chegar a loja, vou para o vestiário, troco minhas roupas e fico esperando o horário para poder “bater ponto”. Como não tenho muitos amigos no mesmo horário que eu, e como chegamos todos um pouco afobados com medo de chegar atrasado, não há tempo hábil para podermos conversar sobre o que nos aconteceu no final de semana. Comecei, após registrar a minha entrada, indo direto para minha seção. A dos chocolates, balas, doces e guloseimas. Comecei como sempre, arrumando as mercadorias desarrumadas no sábado. Foi aí que uma das funcionárias me chamou. Dei a volta ao redor do balcão, quando vi quem me chamava eu congelei. Era o anjo, meu anjo. Ela estava vestida de calça jeans clara, um jaleco cinza. Ela fez um afago no meu rosto, nós trocamos olhares (Deus, como eu queria beijar e abraçar aquela mulher!)e ela me deu um papel dobrado e pediu para que eu lesse depois. Ela se virou e se foi, e eu ali, paralisado sequer podia sair da loja para segui-la e pedir que não fosse embora. Não aguentei, abri o bilhete e estava escrito:

Risos inocentes soltamos ontem à noite
E depois, de um caloroso beijo, ficamos contemplando as estrelas
Sorríamos alegremente, no suar de um orvalho límpido
De uma noite especial
Nunca se esqueça de sorrir,
Seu sorriso é sua maior virtude.

Ass: Anjo(assim como você disse)"

             Li e reli aquele bilhete dezenas de vezes. Novamente, parecia que todos estavam paralisados ao meu redor. Na hora do meu almoço, bem de levinho, quase imperceptível, havia uma outra assinatura. Era o seu nome verdadeiro. Simone. Já basta para quem está lendo saber. Meu anjo chamava Simone. Foi a última vez que a vi. Foi a última vez que vi aqueles lindos cabelos loiros, os olhos azuis e aquela boca vermelha, foi embora da minha vida para sempre. Não sei para onde ela foi. Não sei que rumo ela tomou.
            Os anos se passaram e a Simone sempre ficou na minha cabeça. Simone foi uma mulher que me deixou um monte de questões. A primeira foi a de querer saber o que a fez voltar. A segunda , ela também não parecia feliz. Se estava triste, era por alguma razão que jamais saberei. Seu destino também foi desconhecido, pois eu até hoje me pergunto quando pego o bilhete, por onde ela anda. E sim, procurei por todas as redes sociais existentes. E: nada. Ela se foi. Durante um bom período, sem que ela soubesse ela foi a dona do meu coração. Nunca mais a tive nos braços, nunca mais beijei sua boca, senti seu cheiro e pude sentir sua pele alva e lisa. Aquela noite e o bilhete não sairão da minha cabeça. Esse é um fato da minha vida que quis compartilhar com vocês, de que há pessoas que entram e saem de nossas vidas mas que deixam marcas inesquecíveis. E, para sempre.

terça-feira, 2 de junho de 2015

CONTOS URBANOS*

Um dia na vida de Pedro Camacho


     Mais um dia comum, agora da sua vida comum. Quebrado apenas pelo som da máquina Hall que ecoava no pátio. Os olhos saltados e a pele bem alva daquele homem baixo, de rosto quadrado, enfatizado pela cabeça raspada. Não era um rapaz alto, mas eu sabia quem ele era. O escritor da Rádio Panamericana autor de três novelas de sucesso que não conseguiu dar conta de seu trabalho e agora está aqui.Pedro Camacho. Será que ele sente saudades da sua terra, sua amada Bolívia? Tomara que ele não guarde rancor de mim, afinal quem mandou interná-lo foi seu patrão, Genaro Filho.
      Não deve ser fácil. Um dia você está com sucesso, cercado de gente que lhe paga jantares, que diz que lhe quer bem e que acompanha suas novelas. No outro você é capturado dentro de seu local de trabalho, colocado numa camisa de força e jogado dentro do manicômio público de Lima. Tudo, tudo mesmo é retirado de você. As roupas, os sapatos, cuecas, as unhas cortadas, o cabelo raspado e a barba feita. Com ele amarrado e sedado, claro. Apesar do seu tamanho, nunca vi homem tão resistente. Lutou bravamente contra tudo e todos. Mas sua sanidade já era. Chamou os policiais e o padre de suas telenovelas. Preocupava-se com seu trabalho ao extremo. Berrava por todo Manicômio que tinha de sair dali para escrever suas novelas. Médicos e enfermeiros olhavam de longe, ele amarrado à cama, fazendo uma força incrível, quase arrebentando as cordas atadas à cama para que ele não fugisse com pena daquele homem franzino tentando se manter digno. Protestou de todas as formas: gritou, tentou morder, ofendeu, cuspiu, urinou-se e defecou no seu leito.
      Apenas Genaro Filho vinha vir vê-lo e a cada vez mais tinha certeza de que tinha feito a coisa certa. Certa vez ele veio mais duas pessoas, pelo que me lembro deveriam ser Luciano Pando e Josefina Sanchéz. Eles ficaram assustados e nunca mais voltaram. Num dos raros momentos de lucidez, Pedro Camacho chamara por “Varguitas”, mas esse nunca veio. Aliás até as visitas de Genaro Filho começaram a ficar raras. Eu mesmo, nunca prescrevi tanto sedativo para um ser humano. Entretanto quando chegou aqui, ele não parecia humano. Se bem que agora não parece também. Está muito magro, dócil, devo dizer, mas está um trapo. Se alimenta bem, mas a comida parece passar direto para os intestinos. Parece só absorver o que é suficiente para se manter de pé. Nada mais.
      Mesmo quando pudemos lhe soltar as amarras seu ex-patrão nunca quis chegar perto e na primeira vez que o viu desamarrado, sentado num canto do pátio do manicômio ele simplesmente se viu aterrorizado e sumiu. Mas o que ele esperava ver afinal? Um Pedro Camacho saltitante e feliz? Colocando em ordem suas radionovelas e assim recebendo seu chefe de braços abertos ? Não. Aqui o paciente só pode ficar no pátio quando a medicação fez efeito, ele está mais dócil, não arruma confusão e pode conviver com outros pacientes.
      Seu paciente preferido era Barreto. Um mulato alto, que também se dizia intelectual e que também estava ali por engano. Barreto veio aqui numa viatura de polícia, jogado e largado. Sem ficha, Barreto foi a única coisa que disse a nós. Que era diretor chefe do diário El Peruano e que era um erro muito grande mantê-lo ali. Disse-nos que os advogados dele e do jornal iriam aparecer ali e nos processar e que nós seríamos presos. A apreensão tomou conta de nós. Entretanto ao contrário de Genaro Filho, ainda que de longe vinha espiar seu funcionário, ninguém do jornal dizia ou soube de algum Barreto trabalhando ali.
      Com efeito e com o passar do tempo, ambos começaram uma amizade. No início a troca de palavras era muito pouca, muito mesmo. Talvez devido a sedação. Agora às vezes os pego tratando de filosofia, artes, radionovelas e o futuro do Peru. Sobre os três assuntos anteriores eles divergem bastante, mas sobre o futuro peruano é a única fonte de consenso entre os dois que não vêem com bons olhos um futuro promissor para nosso país. A eles cabe a acreditar que em vinte anos ou menos, entraremos numa crise sem precedentes a ponto de termos uma guerra civil em que haverá tiros, bombas e estupros. Muitos enfermeiros param para ouvi-los, perguntam quem serão os líderes, se essa guerra civil terminará. São tantas divagações que até eu mesmo chego a pensar do que vai ser amanhã neste meu país.
      Mas Pedro, ao contrário de seus personagens, é um herói. Eu mesmo teria desistido. Apesar de confiar no que me disseram na faculdade, acredito também em alguns professores revisionistas e revolucionários que em vários artigos dizem que essa não é a melhor solução, principalmente para pacientes como Pedro ou até mesmo Barreto. Sempre os observo de longe, não por medo, mas para manter uma distância ideal entre médico e pacientes. Às vezes pego-me observando-os, juntos ou em separado pensando no que lhes acontecera ao longo da vida. Os transtornos, a difícil missão de manter a sanidade para trabalhar e no fim não conseguir e vir parar aqui, neste depósito de seres humanos com a mente debilitada e digamos, completamente insano. Barreto, me preocupa bastante, principalmente pelo fato de não ter absolutamente ninguém a quem recorrer. Pedro ainda tem vagas lembranças, tem cuidados digamos, especiais, principalmente da enfermeira Maria Pilar. Esta sim, gosta muito dele, limpa suas fezes, lhe dá a comida na boca assim como a água ou suco. Finjo que não vejo, mas é comum o afago que ela sempre lhe faz na cabeça. Quanto a Barreto, ela não dá uma olhada, despreza-o como se fosse um ninguém. Aliás, Pilar, já fora advertida pelo diretor do hospital para dar um tratamento uniforme aos pacientes e não tentar recuperar sozinha Pedro Camacho. Eu, da janela do meu escritório, quando não estou a fazer nada apenas observo o carinho que ela tem para com esse trapo humano que ele se tornou. Acho interessante isso, porque Pilar é nascida e criada na Argentina, veio para cá em busca de uma vida melhor. Pelo contrário, já com uma carreira de progresso, Pedro Camacho odiava argentinos e para minha concepção as argentinas estavam incluídas também.
      Será que foi a pele alva, os cabelos loiros, os seios fartos, a boca com o batom sempre vermelho, dento de um vestido justo (que mostrava que ela deveria ser mais ou menos duas vezes maior em termos de peso do que Pedro) e saltos altos que fez com que Pedro voltasse seus olhos, ainda que insanos para ela? Nunca vou saber. Ou vou? Pacientes nunca foram um problema para mim, são seres humanos, ainda que às vezes eu me veja obrigado a lhes dar eletrochoques na cabeça para que se tornem mais dóceis e não tentem pelo menos nos matar. Resolvi neste dia então, me levantar da cadeira e ir ao pátio. Barreto não estava lá para discursar com Pedro, pois estava tão agressivo que os enfermeiros acharam por bem encarcerá-lo numa cela solitária acolchoada até que sua ira amenizasse.      
     Me senti tentado então para que fosse ao pátio conversar com aquele homem que chegara aqui um trapo, mas que ao digitar aquela máquina Hall, acredito que esteja recuperando um pouco de sua sanidade. Resolvi sair de minha sala, de trás de minha mesa de mogno vermelho, da minha máquina de escrever, formulários em cima da mesa, de paredes brancas, onde havia a minha esquerda uma centena de livros de medicina e saúde mental, mas que eu nunca havia consultado. Pelos corredores havia gente andando de maneira anestesiada. Anestesiada pelos remédios e pela vida. Eles vagavam pelos corredores com suas calças cáqui e camisas brancas. Alguns desistiam de andar e sentavam ao chão para conversar com as paredes. Passei por um homem moreno, alto, de cabelos raspados, mas com o bigode (não sei porque não raspado)bem cuidado, os músculos saltando da camisa. Apesar da aparência saudável, conversava com uma tomada e sua cabeça em certos momentos assentia o que ela o aconselhava.
      Saí do prédio, branco, com dezenas de janelas, o que dava a impressão de ser um casarão antigo, do que um manicômio.
O jardim tinha a grama aparada, verde, bem baixa. Carecia de árvores, mas resolvemos tirar, principalmente quando Isabel uma vez cismara de subir em cima de uma das árvores chegando até ao alto da copa. Mesmo com a chegada dos bombeiros, demorou mais de três horas para descer voluntariamente. Ela acreditava piamente que era Rapunzel e, desde então cortamos todas as árvores para que não houvesse um exército de Rapunzeis dentro do hospital. Fui me aproximando perto do banco onde Pedro Camacho estava com sua máquina Hall digitando, de uma forma mais moderada, do que Genaro Filho me reportou quando Pedro foi internado. Lá estava ele, calças cáqui, camisa branca, o cabelo penteado pela enfermeira para o lado, a coluna curvada para frente onde a mesinha de madeira apoiava a máquina de escrever. Sentei-me ao lado dele e puxei assunto, já que estava tão compenetrado em sua escrita que parecia não me dar a devida atenção.
     - Boa tarde, Pedro, como vamos?
    -Dr. Quinteros, boa tarde, como vai o senhor? Anda sumido. Não o vejo desde aquela vez que tivemos o acidente.
     -Acidente, que acidente?
     -Ora doutor, não se faça de esquecido, aquele em que tomamos um choque porque o senhor resolveu não sei porque cargas d'água colocar o dedo na tomada. Nunca mais (com o dedo em riste para mim) faça isso. Quer nos matar?
     -Não Pedro. Prometo nunca mais enfiar o dedo em tomadas.
     -Até parece que não é médico. Se fosse brasileiro eu teria dito que aprendeste medicina com os índios de uma região aqui perto, parece que a chamam de Xingu. Francamente doutor. Mas pode deixar, nosso segredo ficará guardado assim como sua reputação também.
     -Ué Pedro, me toma por um médico brasileiro? Achei que diria que seria um pateta como um argentino. - nesse momento, Pedro, me solta um olhar fulminante, fica vermelho, se levanta e com o dedo para o alto começa a discursar:
     -Jamais, meu caro doutor Quinteros, jamais. Como ousa? Nunca, por favor, mas nunca fale mal daquele país belíssimo, de pessoas trabalhadoras, inteligentes, onde as mulheres mais bonitas do mundo ali moram. Os homens, tem também sua beleza, mas como não os aprecio, prefiro me ater somente a beleza feminina. E o futebol? De um genial toque de bola, onde tenho certeza até aquele outro jogador lá do Brasil, a quem eles chamam de Pelé gostaria de ter nascido na Argentina. Aonde (e continua de dedo em riste e, com a mão esquerda, emaranha o cabelo, muito bem penteado) o senhor encontraria um lugar de belezas naturais, campos e colinas. Aonde a carne é tenra e macia, os montes altos e volumosos e ao sul, a neve encobre a planície de vegetação baixa.
      -Desculpe Pedro, eu apenas puxei assunto.
     -Estou sempre a disposição doutor Quinteros, mas nunca estou disposto para falar mal da Argentina (enquanto isso, Pilar me surpreende, enchendo-o de afagos pouco se importando com minha presença e penteia-lhe o cabelo, deixando-o novamente apresentável).
      -Obrigado Pilar, disse Pedro.
-De nada meu querido, estou sempre a disposição.
      -Assim como dos outros não Pilar? - recebi uma careta feia que devolvi instantaneamente.
      -Sim doutor Quinteros. Pilar nos ajuda muito por aqui. Tanto a mim, quanto a Barreto. Por acaso viu por onde anda Barreto?
     -Não, não o vi.
    -Bom, deve ter ido ter com os donos do jornal. Esses donos de jornais aqui em Lima são diferentes. Uns querem explorar a política. Outros querem que, ao torcer o jornal, o mesmo sangre pela rua afora. Já falei com Barreto para não se aprofundar demais dentro dessas questões. Até porque estamos quase a beira de uma guerra civil, tempos estranhos virão e creio que seria melhor ele não ficar tão próximo ao jornal. A guerra civil se aproxima, os meus informantes me contam e acho melhor ele não ficar muito dentro desses prédio. Sabe como é, esses loucos podem fazer um ataque, qualquer coisa.
      -Tem tanta certeza disso Pedro?
     -Tenho, mas isso é um assunto complexo e praticamente o senhor quase não vem me ouvir.
     -Virei com mais frequência, acredite. Mas me diga, está escrevendo uma nova novela?
     -Não doutor, enlouqueceu? Desse jeito serei obrigado a mandá-lo para o manicômio público de Lima. Aqueles dois Genaros, tanto o pai, quanto o filho estão a me arrancar o couro. Tenho escrito para eles três (ele me mostra com os dedos o numeral), mas três novelas radiofônicas. Não devo negar que são verdadeiros sucessos, pois as novelas que eles antes traziam de Cuba não eram meras porcarias literárias dadas a se meter em polítcam interna e externa da CMQ. Em relação ao meu salário na Bolívia ganho até muito mais. Mas sabe como é, um trabalho sempre complicado.
     -E como vai indo Pedro.
    -Ora doutor Quinteros, veja só. Tudo bem que os Genaros resolveram me trazer para um lugar mais repousante e menos extressante do que a rádio Panamericana. Mas aqueles, desculpe o termo, filhos da puta, dão com uma mão e tiram com a outra. Apesar de estar num lugar muito bom, com exceção das tomadas, Pilar não é como Varguitas e não sabe escrever um enredo. E agora, para economizar mais, me deram esta máquina de escrever.
     - O que tem ela Pedro? - perguntei na expectativa de que a realidade voltasse à tona.
      - Doutor Quinteros. Veja bem, a minha antiga máquina tinha por volta de quarenta teclas. Agora veja esta. Nove. Como falei com o senhor, com nove teclas tenho de tirar leite de pedra. Mas como falam por aí no dito popular: “Negócios são negócios”. Então resta-me apenas a resignar-me e digitar o mais rápido possível para que possa entregar essas novelas e assim Varguitas poder fazer a revisão para que aqueles atores, e contigo guardo segredo, incompetentes possam fazer o seu trabalho.
     - E porque não sugere aos Genaro que os demita – perguntei tentando extrair o máximo de sanidade.
      -Doutor, doutor. Eles já estão lá há tantos anos. E quem os Genaros trariam por um salário tão baixo? O que posso fazer é ajudá-los da melhor forma possível. Veja só, que amadorismo cheguei. Luciano Pando não sabia que deveria se masturbar antes de fazer as cenas românticas que lhe escrevo para que possa ter a voz aveludada e empostada. Tudo bem que depois que lhe dei essa dica, ele passou a ter uma performance muito melhor do que eu esperava.
      -Estou espantado Pedro, como pode ter tanta sabedoria dentro de um homem tão pequenino quanto você!
      -Que isso doutor, assim o senhor me encabula. São apenas detalhes que adquiri ao longo dos anos para que pudesse melhorar os meus atores na Bolívia para que pudessem ter uma técnica apurada de interpretação. Eu levo o meu trabalho ao máximo de excelência. Claro que isso me cansa, veja só a pilha de coisas que já escrevi só no momento que estamos aqui.
      -Sim, estou vendo Pedro. Por isso vou deixá-lo a sós para que possa produzir cada vez mais para aqueles pães duros dos Genaros.
      Dou a mão a Pedro Camacho e me afasto dele. Sinto até pena de como um homem tão genial como esse tenha levado a sua mente ao máximo do esgotamento criativo. Não sei nem se ele sairá daqui. O mais estranho é que ele primeiro teima em pensar que está trabalhando para a rádio Panamericana. Segundo é que sua aversão por argentinos agora tornou-se aversão por brasileiros. Terceiro, incrivelmente ele se lembra da nossa tentativa de lobotomia. Se não fosse o artifício da tomada, da minha “ingenuidade” de colocar a mão em uma ele teria percebido muito mais facilmente.
      Passo pela enfermeira Pilar, com seus cabelos loiros, seus seios avantajados, suas pernas brancas, naqueles saltos enormes dentro daquele uniforme branco mostrando as curvas do seu corpo arredondado. Ela me olha com aversão. Não sei porque está mulher está tentando de todas as formas se aproximar de Pedro Camacho, pois ele não é nem metade do genial escritor que um dia já foi. Será que ela acha que a rádio Panamericana irá sustentá-lo para sempre? O máximo que faz é pagar sua estadia dentro deste lugar. Acredito que ele será devolvido para a Bolívia assim que tiver, se tiver, alta. Pois se não tiver alta, acredito que a próxima geração não será tão benevolente com Pedro Camacho. Acredito que como outros , pacientes ele vá ficar aqu esquecido. Eu novamente passo pelo rapaz moreno de cabelos raspados, de bigodes bem cuidados, musculoso que insistentemente teima em conversar com a tomada. E deve ser uma bronca e tanto, pois ele, assim como na minha ida e agora na minha volta, assente com a cabeça. E, me lembro de Pedro Camacho, eu não me chamo Quinteros. Está confundindo novamente com seus personagens. Eu sou o Doutor Jaime Concha. Eu tenho pena daquele coitado. Entro em meu gabinete, sento-me e vou escrever para o senhores Genaro (pai e filho) para que venham aqui ter uma reunião comigo.
      Neste momento a porta se abre bruscamente. Dois enfermeiros cercam o “doutor” Jaime Concha. Agarram-no, e prendem-no na camisa de força. Ao fundo a enfermeira Pilar e o verdadeiro médico, Doutor Juan Fernando Gamboa. Doutor Juan balança a cabeça como sinal de negação e Pilar ao fundo, sem que Doutor Juan perceba, parece se divertir com a situação.
     - De novo se passando por mim Alvaro Quintella? Quantas vezes eu lhe pedi para que não fizesse isso? Quantas vezes eu disse para não invadir minha sala, pegar meu jaleco e sair por aí como se fosse eu? Pilar por favor, Clozapina, Benperidol e Quetiapina para o paciente por favor. E depois rapazes, limpem essa bagunça em minha sala. Enquanto isso, Pedro Camacho continuava a escrever em sua máquina de escrever Hall, suas novelas para a rádio Panamericana.


*Diversas homenagens estão nesta história:
Primeiro, a Mario Vargas Llosa, um autor que gosto e me inspira.
Segundo, a meu irmão já falecido, Luiz Carlos, que assim como Pedro Camacho foi interno em instituições psiquiátricas (manicômio)
Terceiro, a todos os pacientes das casas terapêuticas ou que convivem com seus familiares apesar dos problemas psiquiátricos.