Anjo
As
pessoas às vezes teimam em pedir ou perguntar porque este perfil não
tem rosto. Além da privacidade que tenho de falar o que quero, sobre
o que quero a hora que quero sob um certo anonimato, me dá uma
liberdade sobre tal. Ser tomado por uma espécie de louco, tarado,
estelionatário (não tinha me lembrado desde adjetivo) e por incrível
que pareça, até por mulher já me confundiram. Tudo bem, faz parte
pelo anonimato e pelo estilo “Daltoniano” de vida que estou
planejando ter. Mas isso não quer dizer pro exemplo que eu não
possa ou não deva escrever sobre mim mesmo. Claro que posso e claro
que escreverei. Demorei um certo tempo para que pudesse escrever
sobre mim porque na verdade não sou uma pessoa interessante. Sou uma
pessoa comum. Não sou como Paulo Coelho que foi parceiro do Raul e
que agora pode se refrescar numa ilha em Dubai e ser vizinho das
celebridades. Não almejo isso também. Sou um homem (sim, se você
tivesse lido as outras histórias antes, teria percebido, se não leu
é preguiçoso/a) simples sem ser simplista, com hábitos normais,
com vícios normais (café) e trabalho duro para ganhar a vida. Mas
não é por isso, que vou apresentar a vocês, uma história da minha
vida mal contada, sem os detalhes, sem coisas assim. Gosto de
escrever para vocês de uma maneira interessante, de uma maneira que
se apeguem a leitura e ao hábito de ler.
O
relato de hoje, data de mil novecentos e noventa e seis. Praticamente
um ano antes da morte do meu pai (apenas um detalhe). Mas é que
depois de uma busca minuciosa de um papel importante em minha vida,
que tem inclusive a data do ocorrido, eu finalmente pude escrever
sobre. Este papel está comigo há dezenove anos. Quase a minha idade
quando ele foi escrito. Guardo comigo tudo o que é realmente
importante, mas não sou esses coletores que aparecem nos programas
da Fox, TLC entre outros da TV paga. Esse papel realmente tem uma
significação. Valeu a pena eu ter guardado entre as minhas coisas.
É importantíssimo, ou melhor, foi importantíssimo, principalmente
no que tange a formação da minha vida amorosa. A minha vida amorosa
não foi um abalo do início ao fim. Mas ela tem, devo me orgulhar,
qualidade. Toda mulher que passou pela minha vida teve uma
participação e significado ímpar. Cada qual a seu modo, inclusive
a minha mãe (Freud ficaria orgulhoso disso, ter falado sobre a
mãe)que me amou e me ama do seu jeito, da sua forma e pela qual eu
não vou e nem pretendo mudar.
Eu
falo e muitas das pessoas não acreditam quando digo que não sou
bonito. Pra ser sincero, eu mesmo não me pegaria se fosse uma mulher
e que estivesse em sã consciência. Muitas pessoas dizem que eu
deveria me valorizar mais, então acho que minha terapeuta (a qual
ainda não fui,vou semana que vem, juro) terá um pouco de trabalho.
Apesar de não ser mais
o adolescente desengonçado (todo adolescente é) que fui, ainda era
o cara feio e tímido. Essas características não sumiram com o
tempo, e permanecem comigo até hoje. Logo, paquerar, era um suplício
para mim que tinha (e tenho!) vergonha até de pedir informação a
uma mulher sem me sentir idiota. As mais compreensíveis tiveram a
paciência (e que paciência) de que eu tomasse a iniciativa, e as
mais apressadinhas tomaram elas mesmas a iniciativa. Gostava mais do
grupo das apressadinhas porque aí eu ficava desobrigado de ter de
falar os galanteios necessários às suas belezas e a minha vontade
imensurável de ficar junto ao lado delas. Era
um cara também religioso (tá, eu ia uma vez a igreja, bater uma
papo mais fraterno com Deus, antes de descobrir que não precisava de
ir a uma para fazer isso de uma maneira mais íntima possível) e
todo sábado eu ia ao encontro de jovens da Igreja do Evangelho
Quadrangular. Sim, eu era crente, depois virei católico e hoje não
sou nada, só cristão e está de bom tamanho para mim.
Meus
amigos costumavam me pegar e íamos dar umas voltas, paquerar (eles
conseguiam, eu não), comer um lanche, ir em algum show, ficar na
porta dos barzinhos (era moda na época, não tínhamos dinheiro
então ficávamos na porta dos barzinhos fazendo pose). Alguns
gostavam de ir em alguns botecos. Mas alguns botecos na minha cidade
mais pareciam pés-sujos do que botecos propriamente ditos. Então
não rolava de jeito nenhum ir. Passávamos pelos pontos de
prostituição só para ver a qualidade das moças (era só para ver,
era de graça) e depois comparar qual delas estava em melhor forma.
Eu tinha um grupo de cinco amigos que toda semana fazia esse papel de
idiota. Mas naquele vinte e quatro de agosto, um sábado à noite,
nenhum dos meus amigos foi me buscar. Nós
não tínhamos celular. Nem pager. Era caro e, eu apesar de trabalhar
nas Lojas Americanas, meu salário mensal era de cento e cinquenta e
sete reais. O resto de nós não trabalhava, ou então faziam
bicos como o Anderson e o Lauro que se viravam bem em informática.
Bom, se não havia
ninguém, o meu jeito foi ir sozinho mesmo. Ia fazer a mesma
caminhada. Pelas ruas principais, como sempre, e voltar sozinho, como
sempre.
Passei
pela rua do museu, pela faculdade de direito, entrei na avenida
principal e pensei em ir em algum dos Shoppings Centers, mas
infelizmente já estavam fechados. Em um deles, apenas a pista de
boliche estava aberta, mas e a grana? Não rolava mesmo. Então
continuei andando pela avenida principal até que ao chegar na praça
central da minha cidade fiquei sem saída. Seguir adiante, sentar na
praça olhar o nada, ou continuar andando sem destino, sobrando para
mim avaliar novamente as mesmas prostitutas com os mesmos rostos, os
mesmos preços e enfim ir na lanchonete, com os poucos trocados que
tinha, comer um cachorro quente e depois ir para casa arrumar minha
cama e dormir.
Aos vinte anos hoje, vejo muita gente nas boates,
bebendo, nas raves, casas de show sertanejo universitário, bailes
funk, samba, pagode, no bar do rock'n roll. Pensei em ficar sozinho
na porta de algum bar. Na
falta de alternativa então, eu resolvi descer uma das ruas que ia em
direção as prostitutas. Na falta do que fazer, a alternativa era
essa. Ia paquerar quem? Só se fosse um poste e talvez eu levasse um
belo de um fora. Mas sabe aquelas peças que a vida prega na gente?
Pois é, ao escolher a primeira rua e não a segunda, mal sabia eu
que o meu destino estaria mudado. Mudado por um encontro tão
inusitado que eu penso que muitos e muitas que vão ler não vão
acreditar no que aconteceu.
Ao
descer a rua, estava perto do meu local de trabalho na época, como
havia contado antes, nas Lojas Americanas. Enquanto eu descia, uma
moça subia. Não estava vestida como quem vai a uma festa ou algo
assim. Ela estava de tênis brancos, calça jeans e uma jaqueta,
dessas tipo militar, com um capuz na cabeça. Já falei dezenas de
vezes por aqui que o que me importa não é de uma maneira contumaz,
a beleza exterior, mas sim a beleza interior, de ser simples, sem ser
simplista. A primeira coisa que me chamou a atenção foram os lábios
muito vermelhos (não
parecia em momento algum que ela usava batom, mas que ela já tinha
aquela cor natural nos seus lábios, era um vermelho como sangue e
que me chamara demais a atenção)
em contraste com a pele alva e algumas mechas de cabelos loiros que
teimavam em sair pelos lados do capuz. Bom, era noite, estava um frio
de rachar, dois corpos solitários (aparentemente) e coube a mim,
como cavalheiro ter o privilégio da paquera. Assim que ela passara a
meu lado, coube a mim dizer “oi”, ao qual fui ignorado
solenemente. Mas como assim, oi? Pedreiros em qualquer esquina
brasileira tem a capacidade de uma cantada melhor do que a minha em
qualquer hora ou ocasião do dia. Coube a mim então, dizer um solene
“puta que me pariu!” abrir os braços e me sentar em frente a
porta principal das Lojas Americanas e rir de mim mesmo da situação
patética que me coloquei.
As
coisas poderiam piorar? Claro que sim, poderiam. Logo, assim que me
sentei e fiquei olhando
a placa escrito “LOJAS AMERICANAS” e que segunda feira seria mais
um dia de trabalho duro, eu olho para a direita e me deparo que a
moça a uns cinquenta metros de mim, parara. Ela parou, abaixara mais
um pouco a cabeça e voltou!
Eu acabei entrando em pânico, mas resolvi não fugir. Perdido por
um, perdido por mil, então o máximo que iria acontecer era eu levar
um baita esporro da
moça. Mas como a rua estava deserta, resolvi ficar, esperar e
enfrentar a situação. Afinal, que mais aconteceria do que um
esporro? Ela me xingaria e tudo ficaria ali entre nós dois. Ninguém
nos viria ou ouviria. Tecnicamente, apesar de fazer o que fosse, eu
sairia em vantagem ampla e irrestrita. Quando ela chegou perto, eu
resolvi encará-la, rosto a rosto, afinal se eu fosse perder que
perdesse dignamente. Ela olhou para mim e disse: Levante-se! Eu
apenas pude dizer: O quê (como assim, me preparei para enfrentar um
touro bravo e fui recepcionado por uma ovelha)? Ela insistiu que eu
me levantasse e o fiz.
Delicadamente
ela tirou o capuz e ficou a me encarar. Finalmente eu pude ver
claramente seu rosto. Os cabelos eram longos e loiríssimos. Dourados
como o ouro pode ser. Os olhos azuis como o céu. A pele, branca, bem
branca. Os lábios, vermelhos como sangue. Apesar de não ter
prestado a devida atenção, até porque o meu galanteio (quer dizer,
o meu fracasso total e irrestrito) nós estávamos andando em
direções opostas e ela estava de cabeça baixa. Mesmo assim, agora
devidamente parados e olhando um para o outro, eu era mais alto do
que ela. Ela me
perguntou se eu ia ficar sentado ali. Eu falei que não tinha para
onde ir, e então fui convidado por ela para dar uma volta. Eu
perguntei onde e ela falou que era o mesmo destino que eu ia. Eu
sorri e disse que não tinha destino algum. Então ela disse para
gente ir sem destino mesmo. Eu ri de novo e resolvi segui-la, saímos
de frente às Lojas Americanas e fomos caminhando na direção que
ela estava.
Ela
me perguntara o meu nome, ao qual rapidamente respondi. Não
perguntei o nome dela de volta. Desnecessário no momento. Ela me
encheu de perguntas, dentre as quais aonde eu trabalhava. Perguntou
também de onde eu tirei a ideia de me paquerar daquele jeito.
Nenhuma pergunta ficou sem resposta. Eu estava hipnotizado por ela.
Me perdi dentro dos olhos azuis e confesso que se ela tivesse me
mandado fazer um streap-tease com direito a um poledance no poste
acredito que eu o faria. Algumas mulheres tem poder, muito poder, só
que algumas sabem usar outras não, creio eu. Até aquele momento nós
não havíamos sequer nos tocado. Apenas conversávamos olhando nos
olhos. Particularmente eu gosto disso. Nenhuma mulher me conquista,
nenhuma mulher consegue algo de mim se não estiver me olhando nos
olhos, porque se ela faz isso eu acredito no que ela quer dizer. Não
acredito em mulheres que não conseguem olhar nos olhos de seus
parceiros. É algo meio falso.
Ficamos a andar pelas ruas do centro como dois zumbis. Evitei as ruas perigosas (para nem ela nem eu ficarmos em alguma roubada, não tenho vocação para herói que salva as mocinhas indefesas) e ficamos nas partes mais iluminadas e mais povoadas de casais. Não era irritante, mas ela sabia mais de mim do que eu dela. Na verdade, até hoje, ela deve ter sabido mais de mim do que eu dela. Mas sinceramente, estava na hora da ação. Eu deveria tomar a iniciativa de qualquer maneira. Mas onde e como? Enquanto ela falava e falava e às vezes eu fingia prestar a atenção devida, eu simplesmente ficava pensando em alguma forma de trazê-la para mim. A única coisa a favor naquele momento é que de alguma forma (bendito puta que pariu) eu pude trazê-la até mim, só que faltava o passo seguinte que era justamente o de poder ficar o mais próximo possível dela. Sugeri então que fôssemos dar uma volta no parque (não, não era o do Ibirapuera e não, eu não sou o maníaco do parque até porque moro bem longe da capital paulistana) e ela aceitou. O parque da minha cidade era uma espécie de point que a turma ia (inclusive a turma da terceira idade, por incrível que pareça) para paquerar, mas se você já chegava no parque a certeza era a de que você ia beijar, isso é um fato certeiro.
Resolvi fazer uma rota alternativa e ficamos atrás do parque, na igreja de São Sebastião, onde lá tem uma banca de jornais e ao lado da banca ficava um banco. O lugar foi escolhido por mim aleatoriamente, não sabia se teria sucesso ou não, mas afinal o papo já estava se esgotando e eu já estava começando a me cansar de tanto andar como uma barata tonta. Mas pelo menos ela aceitou e resolveu se sentar na minha companhia. Ficamos um de frente para o outro e aí sim (até que enfim!) trocamos as primeiras carícias. Eu deslizei meu dedo médio pelo seu rosto e ela sorriu. Fisicamente (e teoricamente, ela parecia um anjo) eu disse que ela parecia um anjo. Ela sorriu e olhou para o céu dizendo que anjos vivem no céu. Quando eu olhei para o céu o meu pescoço todo estalara e ela riu observando que eu não era muito de olhar para o céu. Realmente, não era e não sou mesmo. Ela disse que sempre admirava e que se perdia na beleza das estrelas. Nesse momento sei lá o que eu disse (pô, são dezenove anos, não dezenove dias, não dar para lembrar assim tão detalhadamente) e consegui finalmente beijar sua boca vermelha. Ela usava batom, mas desses fraquinhos, pois seu rosto nem ficou vermelho. Mas a boca continuava lá. Vermelha. Parecia que apenas os lábios dela estavam irrigados com sangue.
Ficamos a andar pelas ruas do centro como dois zumbis. Evitei as ruas perigosas (para nem ela nem eu ficarmos em alguma roubada, não tenho vocação para herói que salva as mocinhas indefesas) e ficamos nas partes mais iluminadas e mais povoadas de casais. Não era irritante, mas ela sabia mais de mim do que eu dela. Na verdade, até hoje, ela deve ter sabido mais de mim do que eu dela. Mas sinceramente, estava na hora da ação. Eu deveria tomar a iniciativa de qualquer maneira. Mas onde e como? Enquanto ela falava e falava e às vezes eu fingia prestar a atenção devida, eu simplesmente ficava pensando em alguma forma de trazê-la para mim. A única coisa a favor naquele momento é que de alguma forma (bendito puta que pariu) eu pude trazê-la até mim, só que faltava o passo seguinte que era justamente o de poder ficar o mais próximo possível dela. Sugeri então que fôssemos dar uma volta no parque (não, não era o do Ibirapuera e não, eu não sou o maníaco do parque até porque moro bem longe da capital paulistana) e ela aceitou. O parque da minha cidade era uma espécie de point que a turma ia (inclusive a turma da terceira idade, por incrível que pareça) para paquerar, mas se você já chegava no parque a certeza era a de que você ia beijar, isso é um fato certeiro.
Resolvi fazer uma rota alternativa e ficamos atrás do parque, na igreja de São Sebastião, onde lá tem uma banca de jornais e ao lado da banca ficava um banco. O lugar foi escolhido por mim aleatoriamente, não sabia se teria sucesso ou não, mas afinal o papo já estava se esgotando e eu já estava começando a me cansar de tanto andar como uma barata tonta. Mas pelo menos ela aceitou e resolveu se sentar na minha companhia. Ficamos um de frente para o outro e aí sim (até que enfim!) trocamos as primeiras carícias. Eu deslizei meu dedo médio pelo seu rosto e ela sorriu. Fisicamente (e teoricamente, ela parecia um anjo) eu disse que ela parecia um anjo. Ela sorriu e olhou para o céu dizendo que anjos vivem no céu. Quando eu olhei para o céu o meu pescoço todo estalara e ela riu observando que eu não era muito de olhar para o céu. Realmente, não era e não sou mesmo. Ela disse que sempre admirava e que se perdia na beleza das estrelas. Nesse momento sei lá o que eu disse (pô, são dezenove anos, não dezenove dias, não dar para lembrar assim tão detalhadamente) e consegui finalmente beijar sua boca vermelha. Ela usava batom, mas desses fraquinhos, pois seu rosto nem ficou vermelho. Mas a boca continuava lá. Vermelha. Parecia que apenas os lábios dela estavam irrigados com sangue.
À
medida que nos beijávamos ardorosamente e calorosamente, nossos
braços se entrelaçavam numa entrega louca. Ela não sentara
totalmente no meu colo, mas as suas pernas (grossas, torneadas)
ficaram em cima das minhas, onde eu pude tocá-las assim como no seu
cabelo loiro. Seus cabelos eram lisos até a altura dos olhos, a
partir daí, pude notar que ao longo da sua blusa (agora já sem
capuz) eles iam cacheando-se como um movimento de ondas douradas.
Anjo (esqueça nomes) foi o que lhe disse o resto da noite. Nossas
bocas envolvidas uma a uma numa troca frenética e intensa deixava
tudo ao redor paralisado. Nada mais importava para nossas vidas,
aquele momento era único e nós mal sabíamos disso. O futuro, não
pairava sobre nossas cabeças. Estávamos
vivendo o momento e aquele momento era único e inimaginável, éramos
duas pessoas se completando em uma em cima daquele banco.
Num
movimento, sem querer, ao beijar o seu pescoço nos olhamos
novamente. Apesar da luz fraca do poste (era melhor ficarmos num
lugar para sermos vistos, não por exibicionismo, mas por segurança
mesmo) um faixo de luz penetrou pelo grosso casaco militar e por
baixo revelara uma blusa branca e que, minha anjinha não era adepta
ao uso de sutiã. Pude ver sua pela alva, seus seios rígidos, e a
auréola rosada dele. Apesar de não falar nada, ela entendeu toda a
situação, e deslizou o fecho-ecler para baixo da sua blusa e da
minha. Assim, eu pude continuar a beijá-la e agora tocar-lhe os
seios, deslizar minhas mãos pelo seu tronco de pele lisa e macia.
Não sou adivinho, mas assim como eu, muito provavelmente ela estava
excitada. Ela gemia baixinho enquanto eu a acariciava e ela fazia o
mesmo.
Conversamos
mais um pouco, falamos da vida. De como tinha sido uma coisa tão
diferente. E, realmente ela concordou. Disse que se soubesse que
seria tão bom, ela teria cedido no primeiro “oi”. A ironia da
vida tinha resolvido juntar dois corações solitários, que vagavam
pela noite a procura de sabe-se lá o quê. Não me lembro
detalhadamente o que veio a ocorrer, mas ficamos naquele banco por um
bom tempo, entre carícias ardentes e pausas para contemplar os
astros. E eu nunca tinha perguntado seu nome. Era muito superficial.
Conversamos sobre trabalho, anseios futuros. O irônico disso tudo
que não falamos sobre namoro. Mas eu queria. Caramba, como eu queria
que ela tocasse nesse assunto. A única coisa que soube é que ela
também estava só. Ela não era nem casada. Vi pelos sinais. Que
sinais? Ora, o primeiro que ela não usava aliança. O segundo é que
chegou uma hora que ela tinha de voltar para casa. E ela me levou até
onde ela pegaria o ônibus. Eu não precisava, ia voltar a pé mesmo.
Ela me mostrou os lugares onde trabalhou (por incrível que pareça,
ela tinha trabalhado próximo a mim) e no ponto de ônibus ficamos
abraçados. E sim, pessoas conhecidas, passaram por ela e a
cumprimentaram. Ninguém que é casado, daria uma bandeira dessas
(sei disso porque já passei por uma situação em que contarei
depois) de forma que conhecidos e conhecidas passassem por ela e a
cumprimentassem. Me lembro que a noite estava um pouco fria, então
ficamos no ponto abraçados um ao outro até que o ônibus dela
chegasse. Quando o ônibus chegou, ela me beijou, subiu e eu fiquei
parado, olhando ela se sentar, e quando o mesmo arrancou e me pus a
caminhar.
A
caminhada foi um misto de emoções. Na verdade não queria que
aquela noite acabasse de jeito algum. Era um pecado mortal. Mas ainda
assim, a caminhada para casa foi nas nuvens. Me pegava em alguns
momentos rindo sozinho e em alguns momentos eu me pegava olhando as
estrelas como ela fez. Não era uma pessoa de ficar olhando para o
céu. Admirar estrelas. Pura bobagem. Naquele dia não mais. Não
estava ligando para o frio, não estava ligando para nada na verdade.
Cheguei em casa nas nuvens. Um sábado que prometia ser um lixo, se
tornou uma das noites mais memoráveis da minha vida. Ao chegar em
casa, tomei um banho, fui para o meu quarto e não queria dormir.
Queria pensar naquele anjo de cabelos loiros que me acolhera quando
eu estava imerso em solidão. O travesseiro, deu lugar ao seu
perfume. O colchão e as cobertas me lembravam de quando estávamos
abraçados naquele banquinho em frente a Igreja de São Sebastião. O
quanto não vimos o tempo passar, o quanto nós nos apegávamos a
sensações, sorrisos, beijos e abraços.
Quando
acordei achei que estava sonhando. Minha mãe fez, no café da manhã,
piada de como naquele domingo eu estava meio abobalhado(sim, eu me
lembro). Ela me deu um sorriso malandro de que sabia de alguma coisa,
mas era melhor não perguntar os detalhes. Esperei meu melhor amigo
sair de casa a tarde para que eu pudesse contar o que havia me
acontecido. Ele era mais velho e mais experiente. Deve ter me achado
um bocó lhe contando as desventuras apaixonadas da madrugada. Mas
alguém tinha de saber. E no fim, aquele domingo bucólico passou
bem, bem devagar, como se não quisesse terminar. Mas eu sabia que no
dia seguinte tudo ia ser como antes para minha tristeza. Eu sabia que
novamente eu iria voltar para as Lojas Americanas, que ao final do
dia eu voltaria para casa e assim sucessivamente. Ou seja, a mesmice
da minha vida voltaria. Nada de novo aconteceria, previa eu.
E
o domingo, o último daquele Agosto de mil novecentos e noventa e
seis, passou bucólico, devagar. Eu só tinha de esperar a
segunda-feira e novamente encarar o trabalho como operador comercial
(no caso eu era balanceiro) das Lojas Americanas. No mais não tive
nenhuma novidade até porque eu não saí à noite. Preferi ir dormir
cedo para novamente sonhar com aqueles momentos mágicos. Me
entreguei a escuridão para poder rever em minha mente, todos os
detalhes da noite anterior. Como naquele domingo, e até hoje, é
engraçado quando paro para pensar que um baita palavrão me fez
trazer até mim uma mulher maravilhosa, a qual não esqueci até hoje
e que marcou minha vida. No mais, fiquei pensando naqueles momentos
até novamente adormecer e encarar a segunda-feira iminente.
Num piscar de olhos, o tempo passou muito rápido. Os raios de sol invadiram meu quarto naquela manhã de segunda. Mais um dia, como tinha feito assim, durante dois anos. Tomei meu café rapidamente, despedi como sempre da minha mãe e quando abri o portão de casa, vi ao longe o meu pai voltando de sua caminhada matinal que ia de casa até a pracinha para conversar com seus amigos. Ele vinha em passos lentos, até porque depois do seu avc, ele não foi mais como antes, mas a caminhada lenta, mostrava pelo menos que ele ainda estava estava lutando o que era digno de me dar um belo sorriso no rosto.
Num piscar de olhos, o tempo passou muito rápido. Os raios de sol invadiram meu quarto naquela manhã de segunda. Mais um dia, como tinha feito assim, durante dois anos. Tomei meu café rapidamente, despedi como sempre da minha mãe e quando abri o portão de casa, vi ao longe o meu pai voltando de sua caminhada matinal que ia de casa até a pracinha para conversar com seus amigos. Ele vinha em passos lentos, até porque depois do seu avc, ele não foi mais como antes, mas a caminhada lenta, mostrava pelo menos que ele ainda estava estava lutando o que era digno de me dar um belo sorriso no rosto.
Como
sempre faço, ao chegar a loja, vou para o vestiário, troco minhas
roupas e fico esperando o horário para poder “bater ponto”. Como
não tenho muitos amigos no mesmo horário que eu, e como chegamos
todos um pouco afobados com medo de chegar atrasado, não há tempo
hábil para podermos conversar sobre o que nos aconteceu no final de
semana. Comecei, após registrar a minha entrada, indo direto para
minha seção. A dos chocolates, balas, doces e guloseimas. Comecei
como sempre, arrumando as mercadorias desarrumadas no sábado. Foi aí
que uma das funcionárias me chamou. Dei a volta ao redor do balcão,
quando vi quem me chamava eu congelei. Era o anjo, meu anjo. Ela
estava vestida de calça jeans clara, um jaleco cinza. Ela fez um
afago no meu rosto, nós trocamos olhares (Deus, como eu queria
beijar e abraçar aquela mulher!)e ela me deu um papel dobrado e
pediu para que eu lesse depois. Ela se virou e se foi, e eu ali,
paralisado sequer podia sair da loja para segui-la e pedir que não
fosse embora. Não aguentei, abri o bilhete e estava escrito:
“Risos
inocentes soltamos ontem à noite
E
depois, de um caloroso beijo, ficamos contemplando as estrelas
Sorríamos
alegremente, no suar de um orvalho límpido
De
uma noite especial
Nunca
se esqueça de sorrir,
Seu
sorriso é sua maior virtude.
Ass:
Anjo(assim como você disse)"
Li
e reli aquele bilhete dezenas de vezes. Novamente, parecia que todos
estavam paralisados ao meu redor. Na hora do meu almoço, bem de
levinho, quase imperceptível, havia uma outra assinatura. Era o seu
nome verdadeiro. Simone. Já basta para quem está lendo saber. Meu
anjo chamava Simone. Foi a última vez que a vi. Foi a última vez
que vi aqueles lindos cabelos loiros, os olhos azuis e aquela boca
vermelha, foi embora da minha vida para sempre. Não sei para onde
ela foi. Não sei que rumo ela tomou.
Os anos se passaram e a Simone sempre ficou na minha cabeça. Simone foi uma mulher que me deixou um monte de questões. A primeira foi a de querer saber o que a fez voltar. A segunda , ela também não parecia feliz. Se estava triste, era por alguma razão que jamais saberei. Seu destino também foi desconhecido, pois eu até hoje me pergunto quando pego o bilhete, por onde ela anda. E sim, procurei por todas as redes sociais existentes. E: nada. Ela se foi. Durante um bom período, sem que ela soubesse ela foi a dona do meu coração. Nunca mais a tive nos braços, nunca mais beijei sua boca, senti seu cheiro e pude sentir sua pele alva e lisa. Aquela noite e o bilhete não sairão da minha cabeça. Esse é um fato da minha vida que quis compartilhar com vocês, de que há pessoas que entram e saem de nossas vidas mas que deixam marcas inesquecíveis. E, para sempre.
Os anos se passaram e a Simone sempre ficou na minha cabeça. Simone foi uma mulher que me deixou um monte de questões. A primeira foi a de querer saber o que a fez voltar. A segunda , ela também não parecia feliz. Se estava triste, era por alguma razão que jamais saberei. Seu destino também foi desconhecido, pois eu até hoje me pergunto quando pego o bilhete, por onde ela anda. E sim, procurei por todas as redes sociais existentes. E: nada. Ela se foi. Durante um bom período, sem que ela soubesse ela foi a dona do meu coração. Nunca mais a tive nos braços, nunca mais beijei sua boca, senti seu cheiro e pude sentir sua pele alva e lisa. Aquela noite e o bilhete não sairão da minha cabeça. Esse é um fato da minha vida que quis compartilhar com vocês, de que há pessoas que entram e saem de nossas vidas mas que deixam marcas inesquecíveis. E, para sempre.