terça-feira, 23 de outubro de 2012

               
E seja feita a vontade de quem lhe convém


            Estar numa terra estrangeira, nem sempre é desejo de ninguém. Tampouco é quando isso se dá através da escravidão. Mas até alguns séculos atrás isso era bem possível. Esses escravos eram comprados no continente africanos e revendidos nos países americanos aos montes. No Brasil, a mão de obra escrava serviu para que os ciclos do ouro da cana-de-açúcar, do café ajudassem a alavancar a economia brasileira. Mas foi principalmente que a vida moderna brasileira começou a tomar uma forma mais ou menos organizada depois da chegada da família real no Brasil. Achava-se que as coisas melhorariam ainda mais com a nossa independência e com a então crescente produção cafeeira brasileira. A empolgação dos barões do café eram das mais variadas. O comércio de escravos aumentara com o objetivo de aumentar a produção. Chegavam aos montes desde a vinda da família real em grandes comboios de navios negreiros. Chegavam extasiados, alguns mortos nos portos de Salvador e Rio de Janeiro. Eram comercializados para todas as partes às dezenas e até as centenas, cada qual com sua função. Os negros mais fortes sempre como trabalhadores braçais com a finalidade de carregar enormes sacos de juta comprados da Índia para enchê-los de café, depois da colheita. Os mais miúdos, se é que assim podemos dizer, tinham funções para plantio, auxilio na cozinha, limpeza, estrebaria e outras funções menores onde o físico não importasse tanto.                                                                                                                                                                                                                                                   As escravas já tinham outras funções. Quando ficam velhas iam para a cozinha, as mais novas cuidavam dos filhos dos seus donos como amas secas, ou depois de grávidas como amas de leite, trabalhavam também como arrumadeiras, faxineiras e auxiliando outros negros dentro da casa grande e tomavam conta de suas donas, como se fossem damas de companhia. Neste período na fazenda São Francisco de Assis, numa noite quente do verão de 1822 duas parteiras estavam tendo trabalho. Uma na senzala, iluminada a luz de velas, Madalena ajudava a Maria  Antônia a dar a luz. Por sua vez, Maria ajudava a Condessa Consuelo Ávila Padilha Brum Dias Pinto, esposa do Conde Joaquim da Costa Ramalho Lobo Romero Dias Pinto a ter o seu quarto filho ao qual deu-lhe o nome de Tiago Padilha Lobo Romero Dias Pinto. Enquanto a Condessa se esvaia em dores, lamentos e gritos, na senzala tudo foi muito rápido assim, menos a escolha do nome da menina que tão logo chorou foi acalentada pela mãe, que a segurou com todo carinho e afeto. Como eram proibidos de dar os nomes de suas respectivas tribos, deixou-se que o padre ficasse encarregado de dar-lhe um nome, assim que viesse batizar o filho do Conde. E assim foi feito. Vindo da vila mais próxima, o varão fora batizado com uma festa muito grande, com convidados da cidade grande, o prefeito, vereadores e todos os coronéis das fazendas próximas a do Conde, tal qual acontecia à época do feudalismo. Logo após a cerimônia oficial o padre foi solicitado de que batizasse a criança negra, que também nascera no mesmo dia. Como o padre tinha de obedecer às ordens da Santa Igreja Católica, dirigiu-se a senzala para fazer um culto rápido e batizar a pobre menina até a fim de evitar que ela fosse batizada com algum nome da tribo de onde veio através de, segundo o padre, daqueles rituais satânicos africanos que na sua visão não tinham em nada de santo, ou de puro. Mas ele perdoava, afinal não passava de negros analfabetos, ignorantes de pouca inteligência. E por isso então deveriam ser doutrinados pelo menos para que pudessem ter um pouco de dignidade cristã em seus corpos impuros. E assim, o fez. Como estava com pressa para voltar à festa para poder beber do melhor vinho padre Antônio foi à senzala. Lá chegando pensou em ver um ambiente infecto, promíscuo, com uma centena de bárbaros negros o aguardando para que fosse concedido o batismo da menina para que não sofressem a devida punição. Para sua surpresa, apesar de paupérrimo, as condições da senzala não pareciam ser o que pensava. Já que afinal a senzala que ali entrou só tinha uma grande porta de entrada e saída de escravos, o chão era de terra batida, e o calor ali dentro parecia insuportável para alguém que além das roupas de baixo, ainda sustentava a batina que chegava até o seu pescoço. Mas apesar de tudo isso, os escravos parecem que conseguiram certa organização dentro da senzala para que o ambiente pudesse ter o mínimo de organização. As mulheres organizaram grupos para manter limpo o local. Os homens idosos ajudavam-nas fazendo que houvesse um mínimo de organização dentro daquele ambiente para que pudesse dar aos mais jovens pelo menos a dignidade suficiente para que pudessem sobreviver como gente e não como animais confinados. Padre Antônio que chegara escoltado pelos feitores e outros empregados livres da fazenda (brancos pobres, que exerciam o poder sobre os negros miseráveis os castigos mais repugnantes de que possam imaginar).  

                  Chegando a senzala ele pode ver que havia uma espécie de sala e ante-sala onde a última não estava à mostra, com uma porta improvisada com folhas de bananeira. Padre Antônio até pensou em entrar na ante-sala, mas desistiu da idéia sobre o que poderia encontrar por ali. Até mesmo porque os peões da fazenda ao olharem também para a ante-sala fizeram imediatamente o sinal da cruz. Seguindo em frente na sala comprida, padre Antônio começou a prestar atenção em um som que vinha a sua direita, ao qual imediatamente observara apesar da pouca luz dentro da senzala. Havia uma fileira de pelo menos uma quinzena de negros deitados sobre “camas” improvisadas de palha seca gemendo. Um lamento baixo, não para incomodar os outros habitantes daquela senzala, mas porque os ferimentos múltiplos não permitiam que gritassem alto, pois já se encontravam em um estado de torpor de tantas dores que sentiam. Uma senhora negra, de aproximadamente uns cinqüenta anos dava-lhes água e proferia algumas palavras incompreensíveis. Padre Antônio fingiu que não viu a cena e seguiu em frente. Achou melhor não dar opinião sobre o que estava vendo. Aqueles negros, apesar da pouca luz, apresentando marcas profundas de ferimentos em várias partes do corpo, e um cheio de carne podre empesteavam aquela área. Mas antes que pensasse em alguma coisa, foi rapidamente interrompido em seus pensamentos por um dos empregados que se apressou em beijar sua mão e dizer: “Sabe como é ‘né padre Antônio, esses negros não se comportam, querem fugir, outra hora estão fazendo corpo mole, olham para a sinhá, então devem ser educados, ter um corretivo, num sabe?” Padre Antônio assentiu com a cabeça e preferiu não emitir opinião sobre o que estava acontecendo. Deram mais alguns passos e finalmente chegaram a uma espécie de quarto que talvez já fosse preparado para as parturientes onde a mãe, Francisca já estava esperando o padre. Conduzido pelo padre, Maria Antonia que estava numa cama semelhante a dos escravos feridos, no tronco, lhe apresentou a criança. E sendo pega de surpresa, Maria Antonia estava seminua, apenas com uma saia, estava dando de mamar a criança. Era uma das poucas oportunidades que tinha, já que ainda estava no “resguardo”, ou seja, ainda não estava apta para trabalhar; para poder alimentar a criança, já que o como o filho do Conde precisaria rapidamente dos dotes dela como ama de leite, uma vez que sua mãe certamente não daria de mamar as crianças. Aliás, aquela matrona nunca dera de mamar a nenhum dos filhos. Era uma mulher gorda, repugnante, que não adaptada aos costumes locais teimava em tomar banho, e muitas vezes o seu odor fétido era sempre compensado com grandes quantidades de bálsamo e perfumes importados. Padre Antônio pediu para Maria Antônia se recompor, colocando a criança na cama e colocando na blusa sendo observada, ali seminua pelo bando de capatazes que a comiam pelos olhos fazendo padre Antônio dar-lhes um olhar atravessado, afinal era preciso o mínimo de respeito se não fosse pela mãe, pelo menos com ele que não podia concordar – apesar de nunca dizer – como a sodomia praticada pelos empregados e até mesmo por muitas vezes os senhores de engenho com as escravas mais belas. Padre Antônio já estava aflito para sair daquele lugar e voltar para a festa que se realizava no jardim da casa grande, mas como estava ali por ordens superiores e também pelos inúmeros favores financeiros que o Conde concedeu a sua paróquia via-se sem opção. Madalena, a negra que lhe ajudou a fazer o parto trouxe junto com outros escravos mais idosos algumas velas para poder iluminar melhor o ambiente. Padre Antônio já aflito tratou de preparar rapidamente a liturgia ajudada pelos peões da fazenda. Maria Antônia pegou a menina, escolheu a própria Madalena como Madrinha e ‘Tião como padrinho, escolhido ali, não aleatoriamente, mas porque secretamente ele era o babalorixá daquela senzala. Com a melhor iluminação, padre Antônio pode finalmente ver a menina. Para espanto do sacerdote a menina não era completamente negra, como seus pares. Ela tinha a pele mais clara. Ele então percebera porque o Conde insistira tanto para que ele batizasse a menina. Já que com os outros demoravam meses e meses até que fosse feita uma solicitação para que a criança fosse batizada. Acontecia muitas vezes até das crianças virem a morrer por falta de alimento devido e aí sim, ele receber uma solicitação do Conde para que viesse dar-lhes a extrema unção. Padre Antônio perguntou então qual seria o nome da menina, ao qual foi dito quase que em uníssono pelos presentes moradores da senzala: Ana. E assim padre Antônio batizou-a de Ana. Somente Ana. Isso porque os negros só tinham direito a um nome. No máximo dois. Entretanto, Maria Antonia escolheu somente um. Padre Antônio aproveitara para olhar entre os outros peões qual a reação deles,mas nenhum esboçara nenhuma. Na verdade abaixaram a cabeça e tentaram se entreolhar envergonhados, culpados ou até mesmo com medo de alguma coisa. Ele, com a ajuda da iluminação, antes bem fraca, pode ver melhor a escrava a qual pariu a pequena Ana. Realmente, era uma negra bonita de dentes bem cuidados, os seios fartos apesar de já estar vestindo o tomara que caia branco, de algodão grosso. Sua pele parecia bem diferente das escravas que vira pela fazenda nos últimos anos a qual tinha ido por lá. Praticamente não havia marcas, parecia muito bem cuidada e ela parecia ter uma espécie de status para com os outros escravos dentro da senzala. Isto ficara claro através da subserviência com a qual os outros escravos daquela senzala se dirigiam a ela.

              Terminado o batismo, padre Antônio fora novamente conduzido para a festa de batismo de Tiago. Padre Antônio olhou para o capataz, um sujeito branco, forte, de barba grossa e um jeito rude. Resolveu quebrar o gelo, já que na ida a senzala ninguém proferiu uma palavra ao outro. “José”, respondeu ele, olhando para frente, sem completar qualquer que fosse observação, de onde vinha, idade, se tinha esposa, filhos, etc. Padre Antônio não podia compreender porque ninguém falava com ele direito. Pareciam que estavam especificamente com a função de escoltá-lo tanto na ida, quanto na volta, mas talvez com ordens severas para que não conversassem com ele. No caminho de volta, um negrinho de mais ou menos uns dez anos veio correndo na direção do comboio. O grupo parou e ele pediu para falar somente com José. Falou com ele ao pé do ouvido, parecia contar-lhe algum segredo. José olhou para os outros e parecia que ia sacar a peixeira e ia matar a todos ali. Parecia que alguém havia ordenado que todos fossem mortos, tal o olhar do capataz fitou a todos. Mandou o menino embora, e disse aos outros serviçais: “Vocês podem ir, eu vou levar seu padre para conversar com o Conde” No caminho, padre Antônio até tentou saber qual era o motivo de tão importância. José não respondeu o que era. Padre Antônio percebera também que não era o caminho do jardim da fazenda para qual deveriam se dirigir. Começara a ficar assustado, pois não era o caminho natural para a sede. Ficou parcialmente aliviado, quando pode avistar a casa grande. José não poderia fazer nada com ele, afinal ele poderia gritar, conseguindo talvez, chamar a atenção das pessoas que estavam na festa. Ao chegar mais próximo, ele avistou uma pequena mesa com toalha de renda branca, duas taças, uma garrafa. Pensou no que aquilo significava. José nada dizia. Ao chegarem mais perto, ele viu que na mesa havia vinho, taças, salgadinhos, brioches, pães. José disse apenas: “O senhor aguarde aí. Minha benção padre” recebendo um “Deus te abençoe meu filho” e logo depois se retirou. Padre Antônio não entendera nada, mas tudo começou a se esclarecer quando a Condessa Consuelo aparecera e não o Conde. Vinha caminhado com dificuldade, já que o vestido atrapalhava. Na verdade, pensou o padre, se ela fosse bem mais magra ela talvez pudesse caminhar com menos dificuldade. Tinha uma expressão tensa, um ar preocupado. Mas fazia questão de manter o nariz em pé, como se estivesse no comando da situação, coisa que não era lá uma grande mentira. Padre Antônio se voltou para ela e com um ar de espanto.
     - Benção Padre Antônio.
     - Deus lhe abençoe minha filha.
    - Padre Antônio – começou ela a falar – tive de mentir, coisa que não faço com muita freqüência, mas acreditei que se fosse eu a chamá-lo talvez o senhor não atenderia, então usei do nome do meu marido, o conde, para poder convencê-lo.
      - Não minha filha, o que é isso, eu estou sempre à disposição. Dizia o padre sem entender nada. - Então padre Antônio, serei direta e franca para com o senhor. Eu sou uma mulher bondosa, sou uma mulher muito humana. Agradeço pelo batizado de hoje para com o meu filho. Tenho certeza que Deus ouviu sua voz durante toda a missa em comemoração a chegada de mais um filho. Mas sabe padre Antônio, sei que além de mim o senhor batizou outra criança nesta fazenda não foi?
     - Sim, mas...
     - Padre Antônio- interrompeu novamente ela – o que achou da criança? Bonita?
     - Sim, uma linda menina. - E a cor dela? - Bem, estava escuro na senzala, não pude ver direito e...
    - Padre Antônio, não precisa mentir para mim. Tenho dinheiro e o dinheiro compra o silêncio das pessoas, principalmente quando nós mulheres precisamos saber de algo mais.
     -Algo mais? Não estou entendendo...
    -Sim, o senhor está entendendo. Perfeitamente, já que eu não sou idiota – bradou ela, com a voz mais nervosa e com cara de poucos amigos.
     - Padre Antônio – continuou – o senhor é amigo da Madre Cristina da Santa Casa não é? Quero que me faça um favor. Hoje ainda, é urgente.
      - Pois não, pois não – respondia já suando por debaixo da batina.
     - Padre Antônio, hoje, esta criança que o senhor batizou na senzala será colocada na roda dos expostos assim que anoitecer. Peça a Madre Cristina, sem dizer que fui eu que mandei, para que envie esta criança para longe, muito longe daqui, o senhor entendeu?
    -Sim, mas eu humildemente peço que ela fique mais um pouco com a mãe, já que tem pouco tempo de nascida, além do mais precisa ainda dos cuidados da mãe...
    -Isso eu tenho certeza que as freiras poderão fazer isso no lugar dela. Mas isso padre Antônio será nosso segredo.
     -Mas o Conde pode dar falta da criança...
     -O Conde dará falta de mim. Dará falta dos seus filhos, não dos filhos de uma negra que só servirá para mãe de leite do seu filho – bradava enfurecida – e nada, nada mais entendeu? Hoje José colocará esta criança então na roda padre. Peço que esta peste negra não volte para cá. Jamais! E se o senhor se recusar a pedir este favor a Madre Cristina, o Bispo ficará sabendo de muitas coisas sobre o senhor.
      -Mas eu só sou um servo de Deus...
      -Mas o Bispo é amigo de nossa família, além do mais, meu marido dá muito dinheiro para esta paróquia. Estamos conversados então?
       -Sim -Então pode ir, para não desconfiarem de nada, direi a quem perguntar pelo senhor que houve um motivo urgente para o senhor sair da fazenda e não pode ficar. José ficará vigiando o senhor, enquanto come e bebe. Até mais ver, benção padre Antônio.
       -Deus lhe abençoe, minha filha.

         E assim foi feito. Padre Antônio pediu a Madre Cristina que recebesse a criança. Nunca mais se ouviu falar dela. Nas missas seguintes, a presença do Conde e da Condessa era freqüente. Mas com o Conde sempre cabisbaixo em relação a padre Antônio, com poucas palavras. Neste período também a paróquia de padre Antônio ganhara mais dinheiro ainda. Logo, padre Antônio acabara por ter vendido seu silêncio em troca das obras assistenciais que conduzia. Não que isso lhe trouxesse um grande peso na consciência. Já que passados três anos, após o desmame de Tiago, correu a notícia na cidade sobre o terrível acidente com a ama de leite dele: De uma maneira inexplicável, Maria Antonia deixara se queimar com óleo fervente, mas como diziam muitos, era apenas uma negra. Padre Antônio pensou: Uma negra, outra branca. Um menino e uma menina de um mesmo pai, mas de vidas tão, tão opostas...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Nem sempre se oferece a outra face



                                            -Leila!
                        Assim bradou Pedro, Pedro Helmus. Na verdade era mais conhecido como Helmut. Descendente de alemães era um homem alto, loiro e de olhos azuis. Porém, apesar dos atributos iniciais, Pedro, era gordo, rabugento, mal-educado, arrogante e mesquinho. Tinha uma barriga enorme, ao qual os amigos menos chegados lhe eram corteses à sua frente, entretanto diziam que era impossível que ele pudesse enxergar seu próprio pênis olhando de cima para baixo. Chamavam-no de falso, arrogante, metido (como assim o eram também) e todos os adjetivos para uma de poucas qualidades que pudessem imaginar.
                        A mão de Pedro, após chamar Leila, bateu firmemente na mesa, fazendo voar o pouco de cerveja que ainda restava em seu copo. A pequena Leila era uma morena de cabelos negros e curtos (até os ombros),olhos amendoados, boca carnuda, de altura média (sim, porque perto de Pedro ela parecia uma criança) e um corpo normal para uma dona de casa de seus trinta e cinco anos e mãe de dois filhos. Conheceu Pedro em uma festa em Santa Catarina onde estava a passeio com os amigos da faculdade de letras que ela cursava em São Paulo. Começaram a namorar durante o evento, a qual os amigos e amigas pensavam ser coisa passageira e para tal não mais pensaram que poderiam ficar juntos. Trocaram e-mails, depois conversas online em chats e bate-papos, até resolverem assumir o namoro tanto online quanto ao vivo. Pedro aquela época era sedutor. Um galante, um cavaleiro descendente da Bavária perfeito! Isso aparentemente. Tanto que Pedro era extremamente ciumento com os colegas de Leila na faculdade. As vezes que vinha a São Paulo, na USP era grosseiro com os colegas dela, fazia de tudo para deixa-los longe de Leila e mostrava a todos quem mandava e através da força, intimidava-os. Os amigos preferiram não entrar em conflito e começaram a se afastar na mesma proporção que Leila se aproximava de Pedro. Via nele seu porto seguro e um homem maravilhoso a qual deveria seguir a toda vida. Mal sabia ela na grande armadilha a qual estava se metendo.
                        O começo de tudo foi realmente só flores. O casamento feliz, a vida era feliz e doce. Pedro largara família e tudo em Santa Catarina para fazer sua vida em São Paulo. Apesar do casamento feliz a vida era difícil, já que não dispunham de tanto dinheiro assim. Pedro por diversas vezes pediu a Leila que largasse a faculdade, mas ela estava no último período e ele cedia. Ela posteriormente se formou e prestou concurso para professora nas escolas do Estado de São Paulo, como professora de língua portuguesa. O marido também prosperara, como agente imobiliário, ao qual com o passar do tempo, conseguira uma carta de clientes grande o suficiente para poder sobreviver com certa tranquilidade no mercado. Nesse meio tempo, vieram os filhos, Alícia e Marcelo com diferença de dois anos entre um e outro.  Entretanto, o que sempre incomodava Pedro era o ambiente mais libertário da escola. Não era a violência, não era o baixo salário, as condições de trabalho nada disso afetava a Pedro. O que lhe realmente afetava era o ambiente de trabalho que era livre. Conversava-se de tudo, entendia-se de tudo. Na cabeça de Pedro, ali era um ambiente propício para que ele pudesse ser traído. Assim como na faculdade Pedro fazia questão de querer espantar os “concorrentes”. Isso até o dia da chegada do professor de ciências Gilberto, ou simplesmente, Gil. Era um moreno alto, forte, de cabelos crespos e castanhos e grandes olhos negros. Pedro aparentemente não via um “concorrente” fortíssimo, e logo usou da sua falta de educação para poder espantar o rapaz de perto de sua esposa. Mas isso não impediu que na festa junina da escola, Pedro pudesse ver uma cena que jamais iria imaginar: a de sua esposa dançando junto do professor Gilberto. Pedro, calou-se. No caminho de volta para casa, após a festa, nenhuma palavra com a mulher.
                        Ao chegar a casa, mandara Marcelo e Alícia para o quarto e pediu a Leila que viesse conversar com ele no quarto do casal. Pedro entrou na frente, suando como um porco, vermelho de raiva. Assim que fechou a porta, Leila recebeu um violento tapa no rosto que a fez girar em torno de si mesma. Antes que pudesse ir ao chão, foi pega, pelo braço e jogada na cama. Pedro aproveitara-se do seu peso e subira no corpo da pequena mulher com as pernas segurando o seu tronco e sua enorme barriga, em cima de seu tórax.
                        -Vagabunda, piranha, safada! Disse ele baixo, para que as crianças não ouvissem. Leila tentava se desvencilhar, mas o esforço era inútil. Tão inútil que veio logo outro tapa na face. Olha aqui sua vagabunda de merda. Vou dizer o seguinte: se ficar de gracinha com aquele bosta, você vai apanha. Todo dia entendeu? TODO DIA! Frisou ele nessas pequenas quatro frases. Aquele dia de São João ficara marcado na vida de Leila como o primeiro. O primeiro de várias agressões que viram pela frente.
                        Depois do silêncio, das marcas, das conversas paralelas na escola que Leila sabia que isso ocorria o professor Gilberto saiu da escola. Nunca mais ninguém ouvira falar dele. Os amigos disseram que ele era uma lenda urbana. Mas sim, simplesmente Gilberto sumira, da vista de todas as pessoas que estavam em seu círculo. Nunca mais, foi como se fosse uma miragem em meio ao deserto que Gilberto desapareceu. Assim como chegara ele se fora. Sem notícias, sem informações, o mundo de Leila voltou a ficar pequeno. A ela sobrara apenas a insossa e dolorosa companhia de Pedro e da sua única felicidade que era a de estar junto aos seus filhos.
                        Após o aparecimento e desaparecimento do professor Gilberto os tapas, socos e chutes antes não frequentes, apenas em seus ataques de ciúmes, agora se tornaram corriqueiros. E também vieram as primeiras desculpas dela como tombos de bicicletas, encontrões e todo tipo de acidente doméstico. A última desculpa de Leila foi do cachorro. A comida não estava satisfatória. Tudo voou no chão. As crianças em pânico correram para seus respectivos quartos como de sempre. Leila tentou saber o que tinha acontecido. Ao abrir os braços diante da fúria do pseudo ariano gordo, recebeu um direto de direita. O nariz se quebrou em três partes. A desculpa como sempre, pífia. Disse que seu cachorro – mas ela não tinha um – bateu acidentalmente em seu rosto. Até Pedro ficou impressionado, com o golpe. E, também pelo fato da mulher não o ter saído de casa, não ter ido procurar a polícia e passivamente, ter ficado em casa. Ficou impressionado, mas não menos pervertido. Devido a tanto álcool e má alimentação, há anos Pedro não tinha uma ereção sem ajuda de remédios. Sem saber o que se passava na cabeça daquele homem,o mesmo, tomou dois comprimidos de um estimulante sexual. Ele não perguntou se Leila queria. Não fez questão. Aproximou-se da cama, tirou a roupa, enquanto Leila, ainda inchada devido aos golpes observou assustada, pensado “Ele não vai fazer isso comigo, depois de horas que passei no hospital, do meu rosto inchado, do corpo doído.” Antes de qualquer reação dela, ele subiu rapidamente em seu corpo, com o falo ereto devido aos remédios.  Ela até tentou lutar, mas o peso muito maior do corpo de Pedro tomou conta do resto. Ela não fez amor, foi estuprada pelo marido.  Leila não aguentou mais.
A partir daí começou a tomar uma atitude. Mas antes disso, passara dias se humilhando, rastejando e apanhando como sempre fizera. Contudo dessa vez ela planejava algo. Estava sempre pensativa, calada. Pedro por sua fez, sem a ajuda dos medicamentos, era um fracasso na cama inclusive com as prostitutas que sempre procurava. A maioria era sempre muito compreensiva. Mas, uma delas não aguentou e riu. De maneira delicada, mas riu. Pedro do alto de seu corpanzil reagira em fúria do vexame feito e fechou o punho com o objetivo de fazer com ela o que sempre fazia com Leila. Só não se lembrou de estar em território estranho ao qual o quarto de hotel não era seu lugar, sua casa. Pintado com quadro de artistas baratos, uma cama de casal com dois criados-mudos – que não tinha nada dentro – com dois abajures em cima. O ventilador de metal, apenas refrescava, porém não tirava a atmosfera pesada do lugar. Pedro só não sabia que próximo à cama, havia um botão que chamava os leões de chácara do hotel. Antes de dar o primeiro soco, eles invadiram o lugar e jogaram o corpo nu de Pedro. Deixaram-no se vestir no corredor e depois empurraram o corpo flácido e gordo na rua.
Leila era a culpada, pensou ele. No carro, segurava o volante com força. Ao chegar em casa, a noite, trouxe consigo a atmosfera sombria e pesada do hotel onde estava, porém cinicamente, mandou as crianças para a casa de sua sogra, que ficava a pouco mais de dois quarteirões de onde morava. Leila apenas o observou, em pânico dentro de si. Porém, assim que as crianças saíram de casa e Pedro caminhou em direção dela, seu olhar mudou e ela disse firmemente:
- Pedro seu porco. Gordo, broxa, inútil! Não serve para nada. Nada!
Pedro correu atrás de Leila, mas seu peso o deixava em grandessíssima desvantagem.  Leila corria e sorria. Corria pela casa, tanto no quintal, no jardim ou demais outros locais abertos onde às pessoas os viam, correndo. O sorriso de Leila indicava que uma inocente brincadeira de casal ali ocorria. A “brincadeira” durou alguns minutos quando Pedro começou a se arrastar pela casa. Sentara na cadeira da copa. Arfava assustadoramente. E Leila assistia a tudo e sorria. E Pedro sem entender nada, apenas o cansaço que lhe trazia dores no peito. Pedro sem entender a observava.
Leila se aproximava e cada vez mais perto tirava uma peça de roupa, deixando Pedro confuso. Primeiro os tênis, depois a calça jeans. As mãos de Pedro no peito que doía, enquanto ela retirava a blusa, sensualmente ficando apenas de calcinha e sutiã. Pedro percebeu aí do que se tratava seu cansaço e suas dores no peito, que se tornaram tão fortes que ele acabou por cair da cadeira. Leila se aproximou observou os olhos quase convulsivantes, a respiração intensa, onde ela sensualmente sentou-se no dorso gordo de Pedro que punha as mãos no peito e gemia de dor e olhando para seu rosto, cuspiu. E novamente repetira a ele as palavras que o deixaram transtornado:
-Inúitil!
-Broxa!
-Vagabundo!
-Covarde!
-Estuprador!
Pedro gemia de dor, com os olhos arregalados de medo da mulher que se agigantou sobre ele. O então machista convicto, forte, dono de si e do destino da mulher que chamou tantas vezes hipocritamente de amor a viu se agigantar sobre ele. O machista inveterado, que contava suas proezas nas mesas de bar, na roda com os amigos, com os colegas de trabalho agora no chão estava praticamente acabado, humilhado.
-Você é um bandido, um marginal sem classe. Maldita hora que me casei com você. Prá quê? Apanhar? Ser estuprada? Seu fim chegou!
-Achou que ia tomar esses remédios para me estuprar sem punição? Não. Você seu inútil, se esqueceu que quem  faz sua comida sou eu? Depois que fui estuprada seu idiota, resolvi tomar uma atitude. Na escola, perguntei a alguns colegas professores, usei o computador para pesquisar. Enquanto você me comia com esses remédios vagabundos e comia a minha comida, eu administrei doses de anticongelante na sua comida. Quando correu atrás de mim fiz com que o anticongelante agisse mais rapidamente, e já que chegou tão furioso, deve ter broxado com uma dessas vagabundas então os dois devem ter feito seu corpo entrar em colapso. Sim, seu babaca, você está morrendo, mas não se preocupe. Seu enterro será lindo. Leila então pôs o pé com o salto no peito dele e aguardou seu último suspiro.
O velório? Foi bonito. Como sempre, pessoas chorando, filhos chorando, enfim a atmosfera nauseante e triste de todos os velórios. O padre perguntar se Leila tinha algo a dizer e, ela recusou. Ninguém então falou. A chuva fina, típica de uma tarde paulista, dava o tom triste do momento. Todos caminharam em silêncio, tristes, contrastando com Leila, que por dentro, estava alegre, entretanto disfarçando.
Enquanto o caixão descia, as poucas pessoas, respeitosamente observavam a caixa de cedro retangular descer lentamente no grande buraco aberto na terra preta e agora úmida. As flores foram jogadas pelos filhos, parentes e parcos amigos enquanto os coveiros jogavam a terra por cima. Pacientemente, Leila esperou por tudo, assistiu pacientemente a todo o procedimento. Os filhos foram levados pela madrinha assim que a primeira pá de terra caiu. Leila ficou lá, imóvel.Assim que todos se afastaram, Leila começou a dizer baixinho:
-Filho da puta miserável. Carinha de santo para os outros, um demônio dentro de casa. Eu não me esqueci. Dos chutes, dos socos, das humilhações. As putas que você usou, as bebedeiras, a falsidade. Eu cansei. Não sei se serei punida por anjos ou demônios, mas nesta vida, neste plano, eu me libertei da sua presença. Arda no inferno seu merda!
Ela cuspiu na terra úmida, virou o corpo esguio e caminhou vitoriosamente  pelo cemitério. Levou o buquê de flores consigo não até a saída, mas até outro túmulo. Ao chegar ficou de frente a uma lápide que dizia: “Ao professor Gilberto, vítima da violência, mas que jamais será esquecido em nossos corações. Sua mãe, pai, amigos e alunos.” (1980 – 2010). Leila chorou, deixou o buquê de rosas vermelhas, suspirou “meu amor”, passou a mão na lápide e foi embora, sozinha.

sábado, 28 de julho de 2012

Espaço aos escritores e escritoras

     Como todos sabem, tenho uma grande dificuldade de escrever poemas. Mas veio voando não sei como até mim, uma Beija-Flor. Sim, e esta Beija-Flor revelou-se uma exímia poetisa. Resolvi então publicar um poema dela, que se chama :






O silêncio da alma

Vou calar minha voz para escutar o silêncio. Minha alma suplica por conhecimento do além do universo. Nos sonhos tenho a visão de outros mundos de um outro eu, como se pudesse em dois momentos me ver e sentir fora de mim. Alço vôo aos céus vendo o horizonte, flutuo por terras de greda passando a campos verdejantes na fluidez de um instante.

  Seria tais percepções verdades ou apenas fruto da minha imaginação? Sou capaz de ouvir sussurros que me dizem coisas que muitas vezes não compreendo. Tenho arrepios que percorrem minha alma e espinha como se soprados por um feiticeiro.

  Sou um ser com muitas perguntas procurando respostas que talvez não existam. Tento racionalizar todos os acontecimentos mais é em vão, preciso aprender a ouvir o que não é dito, apenas sentido. Isso com certeza é dificil, pois sou muito presa as concepções de realidade.

Por isso vou silenciar para ouvir.


Autora: Beija-Flor

sábado, 28 de janeiro de 2012

Diário




        Querido diário;

        Mais um dia se foi. Mais uma noite vem chegando. E eu não gosto quando as noites vêm. Sabe diário, não é nada fácil ser uma menina de quinze anos, principalmente quando essa menina, no caso eu, tem todos os problemas do mundo. O primeiro deles é que eu ainda desabafo em um diário. Quantas, meu Deus, meninas fazem isso hoje em dia? Eu acho que praticamente nenhuma, porque tem Orkut,Facebook,Twitter e mais uma porção de lugares na internet que podemos fazer isso. Eu sei disso porque já mexi nessas coisas na lanhouse aqui perto de casa. É o único lugar aonde eu tenho de ir, já que aqui em casa não tem computador. Aliás, aqui em casa não tem é nada! Também pudera, não temos condições, como diz o meu professor de geografia, financeiras para ter determinadas coisas.
        Também pudera o meu pai coitado, é um zero a esquerda. Ladrão é sua profissão, se é que posso dizer que isso pode ser considerado uma profissão. Foi roubar um cara, no que na gíria dos ladrões chamam de “saidinha de banco”. Dá vontade de rir, mas foi o meu pai lá, de arma na mão querendo assaltar um velhinho, só que ele deu azar que um lutador de jiu-jitsu viu e pegou ele. Nem sei quantos anos ele vai ficar preso, só sei que não vou visitar ele não. É muita humilhação, ter de ficar pelada, ver comida revirada, ouvir piada daquelas piranhas que se acham só porque tem um revólver na cintura aqui na favela ou são mulher de traficante que tá preso ou que tá foragido. É só a cadeia ter rebelião que elas são as primeiras que se pelam de medo, mas depois se encorajam e vão lá para a porta do presídio. Mas voltando a falar do meu pai, tenho dó dele, mas não vou ver ele não, eu apenas acho que ele deveria ter ido procurar um trabalho quando foi solto da primeira vez. É, a primeira vez ele foi preso por tráfico. Nesse morro um monte de gente traficava e meu pai achou que era um bom negócio quando minha mãe ficou grávida de mim. O meu padrasto, é outra besta. Burro que nem uma porta. Mas pelo menos é honesto. Honesto no sentido que não rouba ninguém. Ele é servente de pedreiro numa obra no centro. Eu fico passada das coisas que ele fala: “aio”, “arubu”, “avoa”, “aliforme” “esmagrece”, “pobrema”, “dregau”, entre outras coisas que eu não vou escrever porque tenho medo de te emburrecer, rs.O que mata é que o babaca desse zero a esquerda ainda fica dando em cima das vizinhas, que se colocam short curto ele fica babando. E fica pagando uma de crente. Crente do pinto quente né? Eu sei que ele trai minha mãe com a Cíntia, a mulata empregada de um artista da televisão. Ela vive chamando o meu pai para fazer concerto lá na casa dela que é bem embaixo aqui no morro e idiota da minha mãe não vê. O povo comenta e ri.
        A minha mãe é agarrada na igreja. Tudo para ela é pecado e para ela eu estou no “mundo”e vive rezando para eu ir à Igreja.A Igreja Pentecostal do Manto Branco de Cristo. Ah, mas eu não vou não. Nada contra, todo mundo tem sua religião, sua crença, mas o pastor tem cara de que rouba os fiéis. Minha mãe não pode nem saber que eu escrevo isso! Mas ele tem carro do ano, mora no asfalto, e todo mundo que é fiel, obreiro, obreira ou toca na Igreja, mora aqui na favela. E vai dinheiro, minha mãe gasta muito dinheiro lá dentro, eu fico até pasma. Mas ela diz que vem recebendo glórias e mais glórias. Bom, pelo menos nessa parte ela não mentiu muito, já que nenhum dos meus irmãos (Ronaldo, Bruno, Ismael e Jonas) não entraram no tráfico. E a turma aqui é da pesada. Nossa, todo dia indo para a escola ou eu vejo pelo menos um cadáver na descida ou eu vejo eles de fuzil na mão. Piora quando a polícia sobe o morro. Quer dizer quando o Bope sobe o morro, porque polícia aqui na verdade são eles. Aqueles carros azulzinhos já dão até para saber que eles estão é recebendo grana da turma aqui do morro. E nem recolhem os cadáveres de quem eles acham quem são x-9 aqui no morro, matam sem dó e deixam lá no pé para servir de exemplo.
        Hoje à noite tá um saco. Os meninos estão vendo futebol na única TV da casa no gatonet. Também, único jeito de poder ver algo decente por aqui. Pelo menos eu te atualizo já que é uma briga aqui em casa para poder ver novela e os meninos com essa praga de jogo de futebol. Pelo menos o imprestável desse padrasto que minha mãe arrumou fez um puxadinho só para mim. Daqui tem uma janelinha e pelo menos eu posso ver Ipanema daqui de cima. Deve ser legal, morar no asfalto. Eu jurei para mim mesma que eu vou morar no asfalto, largar essa vida miserável de não saber o que vai comer hoje à noite, de ter de ficar andando em ônibus lotado, de ser esculachada pela polícia quando sobe o morro e de ter de ficar deitada no chão com a janela trancada quando a polícia ou os traficantes entram em confronto. Ter de ficar horas esperando o tiroteio passar. Outro dia entrou uma bala no meu quarto. Passou pela janela e furou a parede. Coloquei um pôster por cima para dar uma disfarçada. Ficar ouvindo piadinha de traficante que fica te chamando de gostosa o tempo todo. Só não faz pior porque não dou idéia pra esses caras e porque a merda desse padrasto também serve para impor um pouco de respeito como homem religioso, apesar de todo mundo do tráfico saber dos casos dele. Tem traficante que fala alto que só não entrega ele porque ele não dedura ninguém e que minha mãe, essa sim tá mais que agarrada com Deus.
        Aqui a vida no Morro do Macaco Molhado é assim: Sobe e desce de trabalhador, sobe e desce de polícia, sobe e desce de traficante, tiro, facada, igreja evangélica, pastor, pai de santo, mãe de santo, macumba, gente morta, mototáxi, pagode, funk, puta, jogador de futebol, gente que fuma, cheira, que vende e que compra. Aqui dá de tudo e sinceramente eu ando farta dessa vida. Esse sobe e desce de ladeira, de ter de ajudar a pegar água no poço, de ter de ficar procurando o seu Manoel pelo morro quando o gatonet falha faz da minha vida às vezes uma droga. Ter pai preso, pai falso, mãe fanática também. Pelo menos meus irmãos não enchem tanto o saco. Por isso que nem tenho namorado. Quem do asfalto quer vir aqui no morro? E namorar alguém daqui? Fala sério! Se eu quiser em atolar ainda mais no barro eu realmente namoraria alguém daqui. A maioria quer ir para o tráfico, não sabe nem escrever direito. Só sabe essas coisas de “vida loca”, “é isso ái malandro”, “jah é” “coh é” ou “sinistro” ou um “pode crê”. Aí fico assim, os meninos do asfalto não sobem aqui. E não sou a única a sofrer com isso. Quer dizer sofro porque não sou associada a traficantes, porque os playboizinhos que sobem aqui e ficam com as meninas cheiram mais do que ficam com elas. Não sobrou ninguém, infelizmente, a solidão então eu preencho aqui escrevendo para poder passar o tempo, para poder não pensar bobagem e não agir que nem uma piriguete entre traficantes e bailes funk muito pó e maconha. Mas também não quero ficar agarrada a religião de crente, não quero ficar proibida de usar minhas minissaias, meus shorts, meus batons, minha maquiagem, poder assistir minha novela, meus filmes. Quero poder achar o Jacob lindo, o Edward uma graça e a BellaSwan uma fofa.
        Engraçado, aqui em volta está tudo tão silencioso. Tudo tão “normal”. Não ouço latidos dos cachorros aqui perto, não ouço o funk proibidão. Mas o mais esquisito é que também não tem tiro. Não tem gritaria. Não vou me arriscar a ir na sala onde tudo também está muito quieto. Mas a tv está ligada, o que significa que teríamos gente em casa. Acho que vou gritar minha mãe. Ou é melhor não gritar? Ai meu Deus, começo a ficar assustada com isso. Acho que vou pular a janela. Vou pegar minha bolsa e pular a janela, alguma coisa aconteceu. Ou está todo mundo na sala morto e acham que não estou aqui porque meu puxadinho fica em cima da casa e só tem a escada. Acho que vou embora des¹

























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1.Nota do autor: O diário termina aqui. Talvez a seqüência desta história termine em outro conto mais adiante. Por enquanto somente posso aconselhar que as pessoas pensem no que pode ter acontecido e que reflitam sobre qual final dariam a esta história...