quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Morte intermitente

Estávamos saindo do prédio de nossa empresa na Rua São Bento e conversávamos animadamente. Aliás, o Tavares estava mais animado do que nunca, afinal ele estava de amante nova. A secretária dele ficou grávida do marido e a farra com ela acabou. Mas por sorte dele, a publicitária estagiária, deu mole para ele uns dias atrás. Eu não a vi, mas o Tavares estava animadíssimo. Contava cada detalhe da noite anterior, de como ela era, da tatuagem que tinha no pé, ao piercing que tinha no umbigo. De como os seus cabelos esvoaçavam ao vento e como ela era assim digamos fogosa, entre quatro paredes. Claro que eu conhecia o Tavares e sabia que ele também exagerou em alguns atributos físicos da moça, mas nós continuamos andando e eu fui fingindo que tudo que ele me contava era a mais pura verdade. Acredito que boa parte era, mas ele gostava de que as coisas ficassem um pouco maiores como deveriam ser. Se for a estagiária que estou pensando que é, ela é bonita, mas o mal do Tavares é querer colocá-la como se fosse uma deusa grega. Como se fosse uma nova Afrodite. Mas não, não era bem assim. De repente o telefone do Tavares tocou. Era a mulher dele, a Leila. Eu sabia por que ninguém chama outra pessoa de “môzinho” para lá e para cá. Estão casados há dezoito anos e há dezoito anos o Tavares bota um par de chifres nela. Conheço o Tavares há vinte anos, desde que entramos como trainees na empresa e hoje ele é o CEO e eu sou vice-presidente. Ainda bem que pouca gente sabe que o Tavares sai com as moças da sede da empresa. Ele não acedia, eu não ia deixar, mas algumas mulheres têm quedas por homens poderosos, sejam eles casados ou não. Então o Tavares aproveita. Aproveita mais do que deveria. As traições são tantas que eu já perdi a conta. O pior de tudo isso é que muitas vezes eu tenho de fazer de cúmplice. Ele vai jogar pôquer na minha casa, vamos ver uma partida de tênis, vamos a um congresso, reuniões extensas – que às vezes eram realmente verdade- e toda a forma de desculpas que eu pudesse imaginar. Pagava caro por prostitutas de alto luxo. Eu acho que o Tavares é viciado em sexo, mas eu que não vou me meter nas confusões que ele mesmo arma atrás de mulheres. Desde que não dê problemas na empresa, por mim tudo bem, eu não sou a mulher dele mesmo. Só acho que esse vício dele vai prejudicá-lo um dia. Se já não o prejudicou, afinal não vivo vinte quatro horas com ele por dia. A velha cumplicidade masculina está de volta a ativa mais empolgada do que nunca. Eu que não vou quebrar este elo. Mas é um bom pai, um bom marido, trabalha bastante e esse meu argumento é tão machista que até eu tento me convencer que ele é válido. Fomos dar uma parada no Café Geronimo como sempre. Afinal hoje as reuniões foram muito cansativas e eu realmente precisava de bastante cafeína no meu corpo. Não sou mais jovem, mas uma boa xícara de café bem forte me reanima para pegar meu carro e voltar para casa.

Na porta do Café, eu senti a mão do Tavares sobre o meu ombro, pois ele tinha ficado para trás ao desligar o Iphone. De repente, tudo escureceu. Já não havia mais luz. Morri, pensei comigo. Ou então devo ter entrado em algum estado de coma iminente, alguma veia em meu cérebro estourara ou tive algum AVC. Mas o silêncio, me fez pensar que realmente eu estava morto. Ou então aquelas velhas histórias, de “corra para a luz”, “siga o corredor escuro em direção ao lado mais claro” para mim não passavam de pequenos jeitos de explicar a morte. Mas de toda forma, eu não quero ir para luz merda nenhuma. Estou com cinqüenta anos, chega, já vivi muito e não estou afim mais. Cansei disso tudo. Já que minha hora chegou, então vamos. Não quero ficar adiar mis isso pois sinceramente estou cansado dessa vida. Que me perdoem os filhos, que ainda são adolescentes mas sinceramente terão de conviver com isso. O Carlos que é mais sensível, mais essencialista, vai ter de agüentar. O Marcelo é mais impulsivo, vai ficar revoltado de eu ter morrido assim. Tão ridículo, no meio de uma calçada cheia de gente me olhando, com as vozes de sempre pensando no que poderia ter sido, estirado no chão como um pedaço de carne dentro de um matadouro. Mas, no fim das contas, acho que isso foi melhor para todos. Inclusive para mim, que não quero ir para o ponto luminoso no fim do túnel.

Tudo aqui está escuro, acho que a transição da vida para a morte deve ser assim. No início a escuridão, o silêncio, o tédio. Acho que isso é assim mesmo, deve servir para nós refletirmos sobre a nossa vida. Mas refletir sobre o que? Eu não tive um vida tão emocionante assim. Claro, que as bebedeiras da faculdade foram ótimas. Ainda regime militar, anos negros, aos quais muitos amigos fazem questão de esquecer. Período de muitos estudos, mas também de muita maconha, cocaína e bebida. Na república que morava no Edifício Copan no antigo apartamento 414 no Bloco B morávamos eu, Tavares e Paulo. No apartamento vizinho moravam umas meninas que diziam fazer faculdade mas que faziam programa à noite. Foi lá que eu descobri as drogas e como eu as usava indiscriminadamente e aproveitava para negociá-la com minhas vizinhas para um programa grátis. Nós também não tínhamos muita grana. Eu trabalhava numa lanchonete a noite após a faculdade para um amigo do meu pai que disse que tinha de fazer como ele, se virar para arrumar a grana da faculdade. O Paulo era segurança de boate nos finais de semana e o Tavares que era o mais rico de todos nós, não fazia nada, apenas estudava, cheirava, fumava e transava com nossas vizinhas. Ficamos nesse função até o final da faculdade. O mais engraçado nesse período foi que o Tavares se formou antes de nós, mas só colou grau junto com a gente, um ano e meio depois. O problema foi depois. Passamos de estagiários a trainees de uma grande empresa. Mas como nos tirar do vício? Passamos um tempão nos Alcóolicos Anônimos para superar isso. Quer dizer, eu o Tavares. O Paulo? Esse foi antes de nós, tinha se tornado gerente da boate. Se relacionava com gente muito rica, poderosa e arrumava de tudo para eles. Inclusive a maconha, a coca e a heroína. Viveu intensamente, mas não sei do que morreu, pois só tive coragem de ir vê-lo no hospital depois que o corpo dele que antes parecia de um mamute, estava reduzido ao de uma gazela. Triste.

A escuridão não muda, começara então a caminhar no escuro e no nada. Vejo então as imagens que passaram da minha vida. A saída do vício. Quando o Tavares conheceu a Leila, sua futura mulher, uma japinha, que misturava a eficiência nipônica com uns resquícios hippies. Linda, mas eu acho que o Tavares a escolheu por conveniência dele, afinal o Tavares não namorava direito ninguém. E quando fazia isso, ele só pensava em transar, transar e transar tendo a parceira dele prazer ou não. Nesse período eu conheci a Lilian. Alta, loira, magra. Parecia uma mulher nórdica- mas na verdade ela era de Bauru, estava em Sampa para arrumar um emprego, era formada em psicologia, sempre calada, sem sorrir muito, mas muito bem relacionada. Namoramos por cinco anos, quando decidimos nos casar. Fizemos uma cerimônia simples, sem muitas delongas, sem muitas frescuras. Com uma grana que economizamos mais uma grana que nossos pais deram, fomos morar em um apartamento legal na Vila Madalena. Daí, à medida que eu ia subindo de posto na empresa, mudávamos para um lugar melhor. E o último lugar foi o Morumbi.

Mas não adiantou muita coisa tanta mudança. Afinal os filhos vieram depois de alguns anos e pudemos estabilizar nossa vida. E com isso uma rotina chata. Ainda bem que eu morri. Não agüentava mais, o casamento me sufocava e os filhos já estavam criados. Não era espalhafatoso que nem o Tavares, mas as minhas amantes eram mais discretas, entretanto, amantes demais chateia, pedem dinheiro demais. De um tempo para cá era melhor utilizar as prostitutas mesmo. Sexo fácil, rápido e sem sentimentos, cobranças e obrigações a cumprir. Ninguém sobrevive a um casamento sem amantes. Ninguém é tão certinho ou certinha assim, o tempo todo. Pior, os puritanos são piores. Claro que há puritanos que de tão puritanos são chatos e sinceramente acho que deveriam ir para o inferno. E por falar nisso, acho que isso está demorando tanto que eu devo é ir para o inferno. Até porque ouço vozes, muitas vozes, acho que estou mais perto do inferno ou seja lá onde for.

Nunca acreditei muito em Deus, mas acho que Ele também faz questão de não acreditar em mim. Não é que nunca acreditei Nele. É que na verdade nunca acreditei em milagres. Tive tragédias demais na minha vida para crer nisso. Então resolvi deixá-lo de lado para que eu pudesse viver minha vida. Então foi como um divórcio. Então agora estamos aqui para resolver tudo isso. Se o meu destino for o inferno, tudo bem. Não deve ser que nem o de Dante mas eu aceito assim mesmo. Afinal, uma hora eu teria de pagar pelos pecados cometidos. Fico pensando se eu ficaria ardendo no infinito. Sei lá, não fui muito apegado em religião, então como um semi-ateu eu devo achar que não vou ficar em lugar nenhum. Mas acho que estou errado, ouço sons, sirenes, buzinas, mais vozes e eu aqui, no escuro. Acho que o pós-morte deve ser isso. Tomara que tenham me enterrado decentemente. Não pedi muita pompa, mas todo mundo deve ter um funeral decente. Será que a minha mulher chorou, ou está chorando? Mais barulho. Acho que não fui enterrado, pois ouço tantos sons comuns que devo estar no hospital então. Com um desses médicos sádicos que teimam em abrir nossos corpos afim de saber do que morremos. Para quê? Não vou voltar a vida por que ele descobriu que eu morri de enfarto, engasgado, dançando ou qualquer que seja a causa. Acho isso ridículo.

Nossa, ouço até a voz do Tavares agora. Ah não, nem aqui embaixo? Eu tenho de ter esse direito. Não quero ouvir a voz de ninguém conhecido, estou de saco cheio, já disse. Gritei, não resisti. Saí correndo pela escuridão afora, afim de que eu pudesse achar a salvação desta vida detestável. Não, não queria mais viver. Os motivos são tantos que não quero entrar em detalhes. Chega. Lilian que me desculpe, mas não quero mais estar neste plano, nesse universo, sei lá aonde for. Quero o fim da pressão, o fim de tudo. Das contas a pagar, dos filhos que querem dinheiro, da mulher que apesar de linda, com o passar dos anos se tornara uma parasita dentro da minha vida, já que a mesma com o passar dos anos só se fez a aproveitar as benesses do que o dinheiro pode proporcionar como uma casa boa, carro importado, jóias e tudo mais.

Quando me dou conta, vejo a luz. Não, não vou voltar, o silêncio aqui é muito reconfortante. Fora de conflitos, pressão de patrões, álcool, drogas, parasitas ao meu redor – que não se manifestavam apenas na forma da minha mulher - mas também em funcionários pedantes, clientes pedantes, reuniões, festas chatas, reuniões chatas tudo muito chato em minha vida. Deveria ter afundado nas drogas e álcool e virado um “nóia’ do centro de São Paulo para ter um pouco de paz e de conforto. Mas eu sinto a luz se aproximar, meu corpo se enrigecer e a luz cada vez mais próxima. Me dou conta que não consigo mais me mover, que infelizmente não tenho como resistir a ir a esta luz. Será a redenção? Que coisa mais estranha. Não entendo mais nada. A luz fica cada vez mais forte.

Não tenho mais forças, sinto meu corpo cansado. Próximo a luz vejo uma mulher, loira, de coque. Ela me chama pelo nome e sinto meu corpo rígido. Parece que estou um pouco cansado, tenho vontade de ir embora, tenho vontade de me mexer, mas sinto que a mão da loira toca meu ombro. A luz me conforta. Mãos frias tocam minha nuca, pois parece que estou deitado.Parecia que eu estava no vácuo. Sensação estranha. Ela me chama pelo nome. Ela é bonita. Ela é, uma enfermeira! Droga! Eu ainda estou vivo! Aconteceu de novo. Outro ataque epilético. De volta a esta vida miserável. Fazer o que afinal de contas, já que o Tavares vem em minha direção querendo talvez me consolar pelo ataque com o qual convivo há anos. Deveria ter me lembrado. Mas o estado de ser de um epilético como eu, faz com que às vezes esqueçamos isso. Acontece, a morte intermitente seja pelas mãos de Deus, seja pela minha ineficácia de fugir da luz, manifesta-se novamente que também nos coloca como talvez uma dádiva. Epiléticos são como as fênix, morrem e renascem, só não é utilizado o fogo.