sexta-feira, 2 de setembro de 2011

PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA

No fio da navalha


Sabe uma frase corriqueira que circula no meio masculino que diz: “Uma mulher bonita sempre vem acompanhada de uma baranga.”? Pois então. Isso se aplica aos homens também e às vezes acompanhado de outra sentença. Sempre o homem duro tem um amigo com grana para ajudar a pagar as contas. É ou era o meu caso. Essa é a segunda vez que escrevo parte de minha autobiografia e mais uma vez o cenário são os anos 90, mais precisamente no período da minha adolescência. Gostava daquele período, eu podia fumar sem ter de me preocupar com o câncer, beber se quiser sem me preocupar com meu fígado e a preocupação básica naquela época era de transar sempre com camisinha, afinal todos ficavam apavorados com as figuras da mídia que estavam aidéticas e que apareciam na mídia depois de tomar toneladas de AZT e ainda assim, se mostrarem esqueléticas, pálidas, quase mortos-vivos.

O som era mais pesado. Tínhamos o Nirvana, o Pearl Jam, Alice in Chains, o Guns (em franca decadência, mas tudo bem), Raimundos, Chico Science, O Rappa, o Charlie Brown surgindo e outras tantas. Não tinha essa frescura colorida de hoje, apesar de termos aqueles pagodeiros de quinta e um sertanejo que consistia em caras com calças atoxadas com cara de babaca. O Didi ainda chamava o Mussum de pé de rodo e o Mussum devolvia chamando ele de Cardeal. O politicamente correto era só mais uma viadagem(podíamos falar isso e não ser processados como eu provavelmente serei ao usar esse termo, mas vou mantê-lo em nome de uma liberdade de expressão da época, apesar de todo meu respeito pela comunidade gay e dizer que eles têm de ter seu espaço e direito) e ecologia era coisa de gente chata que achava que a vida se resumia a abraçar árvores e comer carne de soja.

Bom, naquela parca adolescência eu era o “homem-baranga” que tinha um amigo rico. O Luciano Xuxa. Apesar dele ser moreno, resolvemos dar esse apelido a ele por causa dos cabelos compridos e ralos. Eu era o pato feio da turma. Mas, a coisa não mudara muito daquela época para cá,mas vamos ao que interessa. Eu era um duro, minha família não tinha muitos recursos, mas não sei como eu conseguia me dar bem com a galera que tinha. Além do Xuxa, tinha o De Angelis, que não era o piloto, mas o pai dele tinha tanta grana que uma vez “moeu” um Mitsubishi na estrada e nem pagou para consertar o carro, jogou fora e comprou outro. O pai do Xuxa tinha menos grana, era dono de uma das maiores lotéricas da cidade, então obviamente. Assim os filhos dele tinham uma vida relativamente boa, podendo ir na base do “curtindo a vida adoidado que depois papai paga” que eu embarquei na onda também.

Foi numa dessas que a gente de bobeira na rua, quando o irmão do Xuxa, o Roni, passou tirando sarro com a nossa cara com o carro do pai deles. Deu tchauzinho junto da namorada e se foi embora. A gente pensou praticamente junto: “puta cara de sorte e a gente aqui, olhando para o vento.” Até que o Xuxa me disse que sabia onde ficava a chave do portão da garagem, e a chave da moto, uma XLX 250cc. Um olhou para o outro e o outro olhou para o um. Cabeça vazia é casa do diabo? Então ele alugou a gente por um bom tempo. Não pensamos duas vezes. Ele ia sair com a namoradinha tirando sarro com nossa cara? Nem nunca. Fomos para o apartamento do Xuxa, ele disse que ia tomar banho – e tomou mesmo – só que no caminho para pegar uma toalha ele passara pelo quarto do irmão dele, que por sua vez deixara de maneira descuidada as chaves do portão e da moto bem em cima da cômoda. Resultado: Na ida para o banheiro o Xuxa me joga a chave e eu espero uns 5 minutos até ele acabar de tomar o banho com as chaves da moto no bolso, com as quais eu saí do apartamento dele sem ninguém suspeitar de absolutamente nada.

Capacete? Não precisava, então rapidamente a gente abriu o portão, e saiu por aí. Correndo pelas ruas afora. Irresponsável? Sim, mas isso fez parte da minha vida e eu gostava da adrenalina de correr que nem louco pelas ruas perto do bairro já que lá a polícia não aparecia. Só aparecia para apartar briga de vizinho, briga de marido e mulher e quando a gente ficava jogando bola numa rua próxima. Fora isso, era território sem lei. A primeira vez foi muito boa. Poderíamos ter parado por aí. Mas quem disse que a tentação resisitiria? Era só o irmão dele sair que a gente pegava as chaves da moto e pronto. Gasolina, poderiam perguntar, o Xuxa às vezes comprava e outras vezes o gasto era baixo e o irmão dele nem desconfiava.

O céu era o limite? Não. Além de ir na garupa para tentar pegar mulher (sim, os feios tem seu lugar ao sol, principalmente se as interesseiras acham que você tem grana também) decidimos que pegaríamos outro alvo. O carro. Algumas vezes o irmão do Xuxa saía com a moto, então ficávamos a pé. Resolvemos então fazer o seguinte, o carro substituiria a moto em caso da mesma ser utilizada pelo irmão dele. E foi o que fizemos. Eu fiquei incumbido de distrair o pai dele, “seu” Dirceu para que o Xuxa pegasse as chaves reservas. O carro não era lá essas coisas. Era um Corcel I, mas para os objetivos finais até que serviu numa boa. Correr. O famoso “cavalo de pau” era favorecido pelo freio de mão ficar perto do volante. Acho que a partir deste ponto a coisa começou a ficar fora de controle. Ora era a moto, ora era o carro. Cinto de segurança? Sei lá o que era isso, eu só arrancava risadas e a expressão de quero você prá mim das garotas. Claro que na nossa condição era “pegar” e largar. Não sabíamos nem o nome delas direito. E eu achava que tudo ficava divertido quando o Xuxa enchia a cara e aí que ele pisava fundo no acelerador mesmo. Inconseqüentes? Babacas? Suicidas? Claro que sim e não escondo isso. Babacas são esses caras que passaram por períodos na base do sexo, drogas e rock’n roll e hoje fazem musiquinhas contra as mesmas. Inconseqüente é quem vota no Tiririca e suicida é o cara que faz pose de não fumante e joga álcool de montão para dentro do estômago, fica doidão até demais dando vexames que o melhor bebum dos anos oitenta ficaria ruborizado.

Mas neste período a coisa também começou a desandar. O Xuxa arrumou uma namorada, a Rita. Aí eu fiquei a pé. Não tinha problema, eu dava umas voltas a pé com outra turma e a coisa ficava na boa. Mas o namoro do Xuxa não estava dando muito certo. Aliás outro dia conto uma história ótima da Rita. O pai dele resolveu “fornecer” o carro para ele – sim nessa época não podia, mas os pais davam os carros assim mesmo – e as manobras para impressionar a Rita foram ficando mais radicais. Uma vez, em plena avenida, ele deu o chamado “cento e oitenta”, mostrando que tinha controle do carro, só que eu ainda lembro que tinha acabado de chover e o asfalto ainda estava molhado. A galera foi ao delírio. Só que alquele foi o primeiro indício de que algo ia sair errado. Primeiro a Rita não gostou da manobra e terminou com o Xuxa. Então voltei ao cargo de co-piloto, ou navegador, como queiram. O ritmo mudou e a velocidade também. Éramos mais irresponsáveis ainda. E aproveitando as mágoas do Xuxa, toda vez que ele resolvia beber e perguntar se deveríamos roubar o carro eu prontamente dizia que sim. Arriscávamos nossa vida de todos o jeito. O carro atropelou uma pessoa, sem ferimentos graves (sim, prestamos socorro), arranhamos outros tantos, ele quase caiu em um buraco, fomos perseguidos por outros caras que perdiam para gente nos rachas entre outras coisas.

Com a moto o Xuxa passou a empiná-la freneticamente. A turma ia ao delírio com as manobras, e eu cada vez mais envolvido naquele circo de loucuras. Assim como o carro, foi um festival de empinadas, pegas, derrapagens e tudo mais que se podia fazer com uma XLX 250cc. E antes que alguém perguntasse se alguém da minha família sabia disso a resposta é simples: Não. Nadinha. Passava desapercebido. Até o dia que a verdade veio a tona não é? Foi o lance de maior sorte da minha vida naquele período de vida no fio da navalha. Duas coisas aconteceram para que a verdade viesse a tona. A primeira delas, o Flavinho, amigo do meu pai comprou um Monza, só que ele não podia usar a garagem dele, já que ele tinha transformado ela no Speed Caipira, uma lanchonete. O outro fator foi a mudança de uma menina, linda, modelo se não me engano para a rua Humaitá, uma rua sem saída. Tudo aconteceu nos primeiros dias de noventa e dois. O único problema de paquerar aquela garota para mim, foi de que ela tinha um metro e oitenta e cinco. Eu, chegando aos meus um metro e setenta e três atuais. Resumindo, não ia rolar mesmo.

Foi numa dessas que apareceu o Xuxa de moto. Foi no final da rua, derrapou, e parou na minha frente. Perguntou se eu queria ir e eu falei que não. Afinal a menina era mais importante. Ele subiu em direção a avenida principal e como eu pensei, ele iria dar a volta na pracinha e depois descer de novo a avenida. É aí que entra o Flavinho e meu pai. Sem lugar para estacionar ele pediu a vaga da garagem do meu pai, que ficava do outro lado da casa dele. Meu pai emprestou, afinal não tínhamos carro e ele era um cara gente boa, então não tinha razão para negar. Só que por volta da meia noite o Flavinho foi colocar o carro na garagem. Só que ao fazer a manobra para esquerda ele apenas viu a XLX crescendo em cima do lado do motorista. A pancada foi tão forte que moeu a lateral do carro do Flavinho toda. A moto se entortou toda. O Xuxa voou uns quatro metros, bateu em um poste e caiu no chão. Resultado: além das escoriações em geral ele quebrou apenas, é apenas o pulso. E eu. Terminei por aí a minha vida de riscos momentaneamente, sem seguir tão perto do fio da navalha, ou como foi cantar anos mais tarde Humberto Gessinger não dancei tão perto do campo minado. Depois disso o Xuxa tomou juízo e também parou de correr, a galera tomou um pouco mais de consciência em relação a bebida e direção, a Rita eu conto depois, mas ela sobreviveu ao trauma de ver o ex-amado se estatelando num poste e todos vivemos (nem sempre felizes e nem para sempre) até hoje.