terça-feira, 2 de junho de 2015

CONTOS URBANOS*

Um dia na vida de Pedro Camacho


     Mais um dia comum, agora da sua vida comum. Quebrado apenas pelo som da máquina Hall que ecoava no pátio. Os olhos saltados e a pele bem alva daquele homem baixo, de rosto quadrado, enfatizado pela cabeça raspada. Não era um rapaz alto, mas eu sabia quem ele era. O escritor da Rádio Panamericana autor de três novelas de sucesso que não conseguiu dar conta de seu trabalho e agora está aqui.Pedro Camacho. Será que ele sente saudades da sua terra, sua amada Bolívia? Tomara que ele não guarde rancor de mim, afinal quem mandou interná-lo foi seu patrão, Genaro Filho.
      Não deve ser fácil. Um dia você está com sucesso, cercado de gente que lhe paga jantares, que diz que lhe quer bem e que acompanha suas novelas. No outro você é capturado dentro de seu local de trabalho, colocado numa camisa de força e jogado dentro do manicômio público de Lima. Tudo, tudo mesmo é retirado de você. As roupas, os sapatos, cuecas, as unhas cortadas, o cabelo raspado e a barba feita. Com ele amarrado e sedado, claro. Apesar do seu tamanho, nunca vi homem tão resistente. Lutou bravamente contra tudo e todos. Mas sua sanidade já era. Chamou os policiais e o padre de suas telenovelas. Preocupava-se com seu trabalho ao extremo. Berrava por todo Manicômio que tinha de sair dali para escrever suas novelas. Médicos e enfermeiros olhavam de longe, ele amarrado à cama, fazendo uma força incrível, quase arrebentando as cordas atadas à cama para que ele não fugisse com pena daquele homem franzino tentando se manter digno. Protestou de todas as formas: gritou, tentou morder, ofendeu, cuspiu, urinou-se e defecou no seu leito.
      Apenas Genaro Filho vinha vir vê-lo e a cada vez mais tinha certeza de que tinha feito a coisa certa. Certa vez ele veio mais duas pessoas, pelo que me lembro deveriam ser Luciano Pando e Josefina Sanchéz. Eles ficaram assustados e nunca mais voltaram. Num dos raros momentos de lucidez, Pedro Camacho chamara por “Varguitas”, mas esse nunca veio. Aliás até as visitas de Genaro Filho começaram a ficar raras. Eu mesmo, nunca prescrevi tanto sedativo para um ser humano. Entretanto quando chegou aqui, ele não parecia humano. Se bem que agora não parece também. Está muito magro, dócil, devo dizer, mas está um trapo. Se alimenta bem, mas a comida parece passar direto para os intestinos. Parece só absorver o que é suficiente para se manter de pé. Nada mais.
      Mesmo quando pudemos lhe soltar as amarras seu ex-patrão nunca quis chegar perto e na primeira vez que o viu desamarrado, sentado num canto do pátio do manicômio ele simplesmente se viu aterrorizado e sumiu. Mas o que ele esperava ver afinal? Um Pedro Camacho saltitante e feliz? Colocando em ordem suas radionovelas e assim recebendo seu chefe de braços abertos ? Não. Aqui o paciente só pode ficar no pátio quando a medicação fez efeito, ele está mais dócil, não arruma confusão e pode conviver com outros pacientes.
      Seu paciente preferido era Barreto. Um mulato alto, que também se dizia intelectual e que também estava ali por engano. Barreto veio aqui numa viatura de polícia, jogado e largado. Sem ficha, Barreto foi a única coisa que disse a nós. Que era diretor chefe do diário El Peruano e que era um erro muito grande mantê-lo ali. Disse-nos que os advogados dele e do jornal iriam aparecer ali e nos processar e que nós seríamos presos. A apreensão tomou conta de nós. Entretanto ao contrário de Genaro Filho, ainda que de longe vinha espiar seu funcionário, ninguém do jornal dizia ou soube de algum Barreto trabalhando ali.
      Com efeito e com o passar do tempo, ambos começaram uma amizade. No início a troca de palavras era muito pouca, muito mesmo. Talvez devido a sedação. Agora às vezes os pego tratando de filosofia, artes, radionovelas e o futuro do Peru. Sobre os três assuntos anteriores eles divergem bastante, mas sobre o futuro peruano é a única fonte de consenso entre os dois que não vêem com bons olhos um futuro promissor para nosso país. A eles cabe a acreditar que em vinte anos ou menos, entraremos numa crise sem precedentes a ponto de termos uma guerra civil em que haverá tiros, bombas e estupros. Muitos enfermeiros param para ouvi-los, perguntam quem serão os líderes, se essa guerra civil terminará. São tantas divagações que até eu mesmo chego a pensar do que vai ser amanhã neste meu país.
      Mas Pedro, ao contrário de seus personagens, é um herói. Eu mesmo teria desistido. Apesar de confiar no que me disseram na faculdade, acredito também em alguns professores revisionistas e revolucionários que em vários artigos dizem que essa não é a melhor solução, principalmente para pacientes como Pedro ou até mesmo Barreto. Sempre os observo de longe, não por medo, mas para manter uma distância ideal entre médico e pacientes. Às vezes pego-me observando-os, juntos ou em separado pensando no que lhes acontecera ao longo da vida. Os transtornos, a difícil missão de manter a sanidade para trabalhar e no fim não conseguir e vir parar aqui, neste depósito de seres humanos com a mente debilitada e digamos, completamente insano. Barreto, me preocupa bastante, principalmente pelo fato de não ter absolutamente ninguém a quem recorrer. Pedro ainda tem vagas lembranças, tem cuidados digamos, especiais, principalmente da enfermeira Maria Pilar. Esta sim, gosta muito dele, limpa suas fezes, lhe dá a comida na boca assim como a água ou suco. Finjo que não vejo, mas é comum o afago que ela sempre lhe faz na cabeça. Quanto a Barreto, ela não dá uma olhada, despreza-o como se fosse um ninguém. Aliás, Pilar, já fora advertida pelo diretor do hospital para dar um tratamento uniforme aos pacientes e não tentar recuperar sozinha Pedro Camacho. Eu, da janela do meu escritório, quando não estou a fazer nada apenas observo o carinho que ela tem para com esse trapo humano que ele se tornou. Acho interessante isso, porque Pilar é nascida e criada na Argentina, veio para cá em busca de uma vida melhor. Pelo contrário, já com uma carreira de progresso, Pedro Camacho odiava argentinos e para minha concepção as argentinas estavam incluídas também.
      Será que foi a pele alva, os cabelos loiros, os seios fartos, a boca com o batom sempre vermelho, dento de um vestido justo (que mostrava que ela deveria ser mais ou menos duas vezes maior em termos de peso do que Pedro) e saltos altos que fez com que Pedro voltasse seus olhos, ainda que insanos para ela? Nunca vou saber. Ou vou? Pacientes nunca foram um problema para mim, são seres humanos, ainda que às vezes eu me veja obrigado a lhes dar eletrochoques na cabeça para que se tornem mais dóceis e não tentem pelo menos nos matar. Resolvi neste dia então, me levantar da cadeira e ir ao pátio. Barreto não estava lá para discursar com Pedro, pois estava tão agressivo que os enfermeiros acharam por bem encarcerá-lo numa cela solitária acolchoada até que sua ira amenizasse.      
     Me senti tentado então para que fosse ao pátio conversar com aquele homem que chegara aqui um trapo, mas que ao digitar aquela máquina Hall, acredito que esteja recuperando um pouco de sua sanidade. Resolvi sair de minha sala, de trás de minha mesa de mogno vermelho, da minha máquina de escrever, formulários em cima da mesa, de paredes brancas, onde havia a minha esquerda uma centena de livros de medicina e saúde mental, mas que eu nunca havia consultado. Pelos corredores havia gente andando de maneira anestesiada. Anestesiada pelos remédios e pela vida. Eles vagavam pelos corredores com suas calças cáqui e camisas brancas. Alguns desistiam de andar e sentavam ao chão para conversar com as paredes. Passei por um homem moreno, alto, de cabelos raspados, mas com o bigode (não sei porque não raspado)bem cuidado, os músculos saltando da camisa. Apesar da aparência saudável, conversava com uma tomada e sua cabeça em certos momentos assentia o que ela o aconselhava.
      Saí do prédio, branco, com dezenas de janelas, o que dava a impressão de ser um casarão antigo, do que um manicômio.
O jardim tinha a grama aparada, verde, bem baixa. Carecia de árvores, mas resolvemos tirar, principalmente quando Isabel uma vez cismara de subir em cima de uma das árvores chegando até ao alto da copa. Mesmo com a chegada dos bombeiros, demorou mais de três horas para descer voluntariamente. Ela acreditava piamente que era Rapunzel e, desde então cortamos todas as árvores para que não houvesse um exército de Rapunzeis dentro do hospital. Fui me aproximando perto do banco onde Pedro Camacho estava com sua máquina Hall digitando, de uma forma mais moderada, do que Genaro Filho me reportou quando Pedro foi internado. Lá estava ele, calças cáqui, camisa branca, o cabelo penteado pela enfermeira para o lado, a coluna curvada para frente onde a mesinha de madeira apoiava a máquina de escrever. Sentei-me ao lado dele e puxei assunto, já que estava tão compenetrado em sua escrita que parecia não me dar a devida atenção.
     - Boa tarde, Pedro, como vamos?
    -Dr. Quinteros, boa tarde, como vai o senhor? Anda sumido. Não o vejo desde aquela vez que tivemos o acidente.
     -Acidente, que acidente?
     -Ora doutor, não se faça de esquecido, aquele em que tomamos um choque porque o senhor resolveu não sei porque cargas d'água colocar o dedo na tomada. Nunca mais (com o dedo em riste para mim) faça isso. Quer nos matar?
     -Não Pedro. Prometo nunca mais enfiar o dedo em tomadas.
     -Até parece que não é médico. Se fosse brasileiro eu teria dito que aprendeste medicina com os índios de uma região aqui perto, parece que a chamam de Xingu. Francamente doutor. Mas pode deixar, nosso segredo ficará guardado assim como sua reputação também.
     -Ué Pedro, me toma por um médico brasileiro? Achei que diria que seria um pateta como um argentino. - nesse momento, Pedro, me solta um olhar fulminante, fica vermelho, se levanta e com o dedo para o alto começa a discursar:
     -Jamais, meu caro doutor Quinteros, jamais. Como ousa? Nunca, por favor, mas nunca fale mal daquele país belíssimo, de pessoas trabalhadoras, inteligentes, onde as mulheres mais bonitas do mundo ali moram. Os homens, tem também sua beleza, mas como não os aprecio, prefiro me ater somente a beleza feminina. E o futebol? De um genial toque de bola, onde tenho certeza até aquele outro jogador lá do Brasil, a quem eles chamam de Pelé gostaria de ter nascido na Argentina. Aonde (e continua de dedo em riste e, com a mão esquerda, emaranha o cabelo, muito bem penteado) o senhor encontraria um lugar de belezas naturais, campos e colinas. Aonde a carne é tenra e macia, os montes altos e volumosos e ao sul, a neve encobre a planície de vegetação baixa.
      -Desculpe Pedro, eu apenas puxei assunto.
     -Estou sempre a disposição doutor Quinteros, mas nunca estou disposto para falar mal da Argentina (enquanto isso, Pilar me surpreende, enchendo-o de afagos pouco se importando com minha presença e penteia-lhe o cabelo, deixando-o novamente apresentável).
      -Obrigado Pilar, disse Pedro.
-De nada meu querido, estou sempre a disposição.
      -Assim como dos outros não Pilar? - recebi uma careta feia que devolvi instantaneamente.
      -Sim doutor Quinteros. Pilar nos ajuda muito por aqui. Tanto a mim, quanto a Barreto. Por acaso viu por onde anda Barreto?
     -Não, não o vi.
    -Bom, deve ter ido ter com os donos do jornal. Esses donos de jornais aqui em Lima são diferentes. Uns querem explorar a política. Outros querem que, ao torcer o jornal, o mesmo sangre pela rua afora. Já falei com Barreto para não se aprofundar demais dentro dessas questões. Até porque estamos quase a beira de uma guerra civil, tempos estranhos virão e creio que seria melhor ele não ficar tão próximo ao jornal. A guerra civil se aproxima, os meus informantes me contam e acho melhor ele não ficar muito dentro desses prédio. Sabe como é, esses loucos podem fazer um ataque, qualquer coisa.
      -Tem tanta certeza disso Pedro?
     -Tenho, mas isso é um assunto complexo e praticamente o senhor quase não vem me ouvir.
     -Virei com mais frequência, acredite. Mas me diga, está escrevendo uma nova novela?
     -Não doutor, enlouqueceu? Desse jeito serei obrigado a mandá-lo para o manicômio público de Lima. Aqueles dois Genaros, tanto o pai, quanto o filho estão a me arrancar o couro. Tenho escrito para eles três (ele me mostra com os dedos o numeral), mas três novelas radiofônicas. Não devo negar que são verdadeiros sucessos, pois as novelas que eles antes traziam de Cuba não eram meras porcarias literárias dadas a se meter em polítcam interna e externa da CMQ. Em relação ao meu salário na Bolívia ganho até muito mais. Mas sabe como é, um trabalho sempre complicado.
     -E como vai indo Pedro.
    -Ora doutor Quinteros, veja só. Tudo bem que os Genaros resolveram me trazer para um lugar mais repousante e menos extressante do que a rádio Panamericana. Mas aqueles, desculpe o termo, filhos da puta, dão com uma mão e tiram com a outra. Apesar de estar num lugar muito bom, com exceção das tomadas, Pilar não é como Varguitas e não sabe escrever um enredo. E agora, para economizar mais, me deram esta máquina de escrever.
     - O que tem ela Pedro? - perguntei na expectativa de que a realidade voltasse à tona.
      - Doutor Quinteros. Veja bem, a minha antiga máquina tinha por volta de quarenta teclas. Agora veja esta. Nove. Como falei com o senhor, com nove teclas tenho de tirar leite de pedra. Mas como falam por aí no dito popular: “Negócios são negócios”. Então resta-me apenas a resignar-me e digitar o mais rápido possível para que possa entregar essas novelas e assim Varguitas poder fazer a revisão para que aqueles atores, e contigo guardo segredo, incompetentes possam fazer o seu trabalho.
     - E porque não sugere aos Genaro que os demita – perguntei tentando extrair o máximo de sanidade.
      -Doutor, doutor. Eles já estão lá há tantos anos. E quem os Genaros trariam por um salário tão baixo? O que posso fazer é ajudá-los da melhor forma possível. Veja só, que amadorismo cheguei. Luciano Pando não sabia que deveria se masturbar antes de fazer as cenas românticas que lhe escrevo para que possa ter a voz aveludada e empostada. Tudo bem que depois que lhe dei essa dica, ele passou a ter uma performance muito melhor do que eu esperava.
      -Estou espantado Pedro, como pode ter tanta sabedoria dentro de um homem tão pequenino quanto você!
      -Que isso doutor, assim o senhor me encabula. São apenas detalhes que adquiri ao longo dos anos para que pudesse melhorar os meus atores na Bolívia para que pudessem ter uma técnica apurada de interpretação. Eu levo o meu trabalho ao máximo de excelência. Claro que isso me cansa, veja só a pilha de coisas que já escrevi só no momento que estamos aqui.
      -Sim, estou vendo Pedro. Por isso vou deixá-lo a sós para que possa produzir cada vez mais para aqueles pães duros dos Genaros.
      Dou a mão a Pedro Camacho e me afasto dele. Sinto até pena de como um homem tão genial como esse tenha levado a sua mente ao máximo do esgotamento criativo. Não sei nem se ele sairá daqui. O mais estranho é que ele primeiro teima em pensar que está trabalhando para a rádio Panamericana. Segundo é que sua aversão por argentinos agora tornou-se aversão por brasileiros. Terceiro, incrivelmente ele se lembra da nossa tentativa de lobotomia. Se não fosse o artifício da tomada, da minha “ingenuidade” de colocar a mão em uma ele teria percebido muito mais facilmente.
      Passo pela enfermeira Pilar, com seus cabelos loiros, seus seios avantajados, suas pernas brancas, naqueles saltos enormes dentro daquele uniforme branco mostrando as curvas do seu corpo arredondado. Ela me olha com aversão. Não sei porque está mulher está tentando de todas as formas se aproximar de Pedro Camacho, pois ele não é nem metade do genial escritor que um dia já foi. Será que ela acha que a rádio Panamericana irá sustentá-lo para sempre? O máximo que faz é pagar sua estadia dentro deste lugar. Acredito que ele será devolvido para a Bolívia assim que tiver, se tiver, alta. Pois se não tiver alta, acredito que a próxima geração não será tão benevolente com Pedro Camacho. Acredito que como outros , pacientes ele vá ficar aqu esquecido. Eu novamente passo pelo rapaz moreno de cabelos raspados, de bigodes bem cuidados, musculoso que insistentemente teima em conversar com a tomada. E deve ser uma bronca e tanto, pois ele, assim como na minha ida e agora na minha volta, assente com a cabeça. E, me lembro de Pedro Camacho, eu não me chamo Quinteros. Está confundindo novamente com seus personagens. Eu sou o Doutor Jaime Concha. Eu tenho pena daquele coitado. Entro em meu gabinete, sento-me e vou escrever para o senhores Genaro (pai e filho) para que venham aqui ter uma reunião comigo.
      Neste momento a porta se abre bruscamente. Dois enfermeiros cercam o “doutor” Jaime Concha. Agarram-no, e prendem-no na camisa de força. Ao fundo a enfermeira Pilar e o verdadeiro médico, Doutor Juan Fernando Gamboa. Doutor Juan balança a cabeça como sinal de negação e Pilar ao fundo, sem que Doutor Juan perceba, parece se divertir com a situação.
     - De novo se passando por mim Alvaro Quintella? Quantas vezes eu lhe pedi para que não fizesse isso? Quantas vezes eu disse para não invadir minha sala, pegar meu jaleco e sair por aí como se fosse eu? Pilar por favor, Clozapina, Benperidol e Quetiapina para o paciente por favor. E depois rapazes, limpem essa bagunça em minha sala. Enquanto isso, Pedro Camacho continuava a escrever em sua máquina de escrever Hall, suas novelas para a rádio Panamericana.


*Diversas homenagens estão nesta história:
Primeiro, a Mario Vargas Llosa, um autor que gosto e me inspira.
Segundo, a meu irmão já falecido, Luiz Carlos, que assim como Pedro Camacho foi interno em instituições psiquiátricas (manicômio)
Terceiro, a todos os pacientes das casas terapêuticas ou que convivem com seus familiares apesar dos problemas psiquiátricos.