segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CONTOS URBANOS



Em defesa da honra


                   Escócia, 1298. Um homem corre apressadamente pelos subúrbios de Stirling.  Queria passar despercebido por entre os camponeses, mas havia uma boa recompensa pela sua cabeça. O seu tartã foi reconhecido por alguns, que de boca em boca fizeram chegar a notícia de que um fora da lei estava nos arredores de Stirling. O vassalo do senhor de Stirling, senhor do castelo de Doune reuniu seus homens e resolveu confirmar o rumor de que talvez Willian Wallace estivesse em seus domínios. Depois da campanha desastrosa de Falkik, e de seu desaparecimento, o senhor do castelo de Doune refletiu que seria uma ótima ideia entregá-lo ao seu suserano.
                   Partiu em sua busca com mais de trinta homens, um exagero evidente, atrás de um homem a pé brandindo apenas sua honra e sua espada que carregava sempre consigo. O senhor de Doune, Lorde Everton, espalhou seus homens pelo campo, na expectativa de que pudesse capturá-lo. Seu primeiro erro ao espalhar seus homens foi deixá-los em quinze duplas. Acontece que o suposto Willian Wallace capturou sua primeira dupla na floresta, sendo os guardas reais facilmente derrotados. Agora ele tinha um cavalo, e poderia adentrar mais rapidamente. Mas ao invés de correr como um garotinho assustado, ele fez, como sempre o inesperado. Caçou as duplas, matando seus oponentes rapidamente com uma destreza rara entre os guerreiros escoceses da época. Lorde Everton com medo, que não poderia deixar aparente conseguiu reunir o que sobrara de sua tropa. Como ele havia escolhido o caminho do meio, em pouco tempo os seus soldados rapidamente estavam reunidos. Total de soldados que foram ao seu encontro: seis. Com nove homens no total, e com os rumores pelos vilarejos de que alguns soldados haviam fugido, Lorde Everton determinou aos seis que foram ao seu encontro que a todo e qualquer soldado que achasse pelas redondezas e que não estivesse vindo de Doune, deveria ser passado na espada. Ele então ficou com mais três homens e adentrou a floresta. No caminho, um cavalo com a pata quebrada, teve sua misericórdia final com um tiro de uma besta pequena que encharcou o pequeno cavalo de sangue.
                   Em sua cavalgada, procurando o que já havia certeza de ser Willian Wallace, os homens cavalgaram fortemente para dentro da floresta, para que pegassem-no o mais rápido possível. Após alguns quilômetros, uma sombra dentro de uma trilha foi identificada. Depois de inúmeros pedidos para que ele parasse ele resolveu correr. Ao sair da trilha, forçou Lorde Everton e seus comandados a desmontar e correr para floresta. Lorde Everton conhecia a floresta, conhecia seus caminhos, mas não gostava de sair de seu castelo, principalmente para aquelas redondezas. Os elmos foram ficando pelo caminho, devido ao seu peso, fazendo com que a eles sobrassem somente a cota de malha e a espada. O perseguido vestia apenas seu kilt com o tartã de seu clã. Em determinado momento, chegaram a uma clareira, perto do lago Ghleannain. Era uma clareira redonda, parecia que as árvores haviam sido cortadas pelo homem, mas não havia tempo para se pensar nisso. O homem desembainhou sua espada, não restando a Lorde Everton e seus quatro homens fizessem o mesmo. Os homens se olharam, sem que uma palavra fosse dita, já que na verdade as únicas palavras seriam o barulho do aço contra aço, aço rasgando carne. Estando o homem com sua espada de um lado e Lorde Everton, já sorrindo com seus soldados de outro, ele apenas disse: Só o matem se ele resistir. Ou seja, se ele não abaixar essa espada, matem-no.  O homem do outro lado, nada disse, apenas não abaixou sua espada. Quando estavam próximos ao combate, uma flexa, caiu na clareira entre eles e uma voz rouca gritou: Parem! Os homens entreolharam quando da mata, surgiu uma figura soturna. Era alto, de cabelos e barbas brancas como a neve. Seu kilt era todo negro e nenhum tartã. Todos se entreolharam enquanto o homem de passos firmes entrava na clareira esticando cinco cordas coloridas e de cores diferentes na sua mão esquerda. Lorde Everton, assim como seus soldados, manteve sua espada em posição de guarda, enquanto o suposto Willian Wallace abaixou a sua. Lorde Everton, o encarou e perguntou:
                   -Pare em nome de quem velho? – disse Lorde Everton, ajeitando os longos cabelos, metade loiro, metade branco. Vestia cota de malha e o símbolo de sua casa na sua capa, um homem e uma mulher se olhando e entre eles a coroa todos em vermelho. Sua espada era longa, de um aço novo, e olhava fixamente o velho. Sua barba meio amarela e meio loira não deixava mostrar a tensão em seu rosto, que reluzia naquela manhã na clareira.
                   -Rá! Um velho chamando o outro de velho. Isso é engraçado. Bom, mas chegaram em minha clareira, essa não parece ser, mas são minhas terras, e eu, dito as leis por aqui.
                   -Velho – disse um dos soldados – largue essas cordas idiotas e se renda. Lorde Everton é seu suserano, tem direitos e você nada mais é que um camponês idiota.
                   -Não vai querer que eu largue as cordas, logo, peço que cada um se sente nas pedras dispostas na clareira e nenhum mal lhes será feito.
                   O soldado não atendeu a ordem e correu em direção ao homem de kilt negro. O velho era rápido, com um movimento do braço direito uma faca de arremesso foi cravada na cabeça do soldado que caiu agonizando. O suposto Willian Wallace continuara parado, de espada baixa. Lorde Everton ficava parado olhando, e com um movimento de cabeça um outro soldado, alto e forte, branco e de cabelos negros correu em direção ao velho. Ao perceber a aproximação rápida do soldado, ele largou a corda azul. Atrás dele apareceu uma lança, que parecia ter sido arremessada por uma besta gigante que penetrou no corpo do homem e levou-o a metros atrás do grupo sumindo na mata onde apenas ouvíamos seu último grito de agonia.
                   -Agora, os senhores podem se sentar? Será um longo dia e quero conforto para os senhores. Se tentarem fugir, morrerão, se tentarem me atacar eu soltarei as cordas. O único ponto seguro é onde estou, onde as lanças não me matarão. Mas se tentarem chegar aqui morrerão, como o amigo de vocês há pouco. Então repetindo a ordem, sentem-se.
                   -É um truque, disse Lorde Everton. Nesse instante, o homem de negro soltou a corda amarela, que atirou uma outra lança que passou a frente dos olhos de todos sendo cravada fortemente numa árvore.
                   O velho sentou, e afagando sua barba branca, começou a divagar sobre o que estava vendo: Olhe só. Lorde Everton. Dentro da floresta. Um estranho que não sei o nome, com uma bela espada admito. O único que calou a boca. Interessante. Para todos vocês estarem aqui, tão longe de seus castelos e terras, atrás deste homem alguma coisa deve ele deve ter feito de muito grave. A não ser que ele tenha fodido com sua esposa Lorde Everton, mas acredito que não, porque aquele javali horroroso nem o senhor tem coragem de fodê-la, pelo que contam nas vilas.
                   -Velho idiota. Reclamou, um soldado loiro, menor que o soldado morto pela lança. Sua magreza aparente impressionava mais como ele podia sustentar ainda sua armadura, cota de malha e manoplas, além é claro da espada.
                   -O velho idiota tem as cordas, você não. Faça como seu senhor. Cale a boca e não me encha o saco.
                   Lorde Everton então falou, apontando o dedo para o homem de cabelos castanhos. O homem vestia um kilt marrom, com o tartã de seu clã, das lowlands. Tinha a barba castanha, como seus cabelos e era forte apesar da baixa estatura. Permanecera quieto todo o tempo, sem falar absolutamente nada. Lorde Everton argumentara que se tratava de Willian Wallace, o ex-protetor da Escócia que sumira e que deveria ser entregue a seu senhor em Stirling, para ser julgado por seus crimes de guerra.
                   -Ah sim, ponderou o velho, o famoso guerreiro Willian Wallace, que antes, era protetor de toda a Escócia contra o trono de Eduardo I. Sim, fiquei sabendo de alguns feitos e de sua derrota em Falkirk. Um desastre, mas também com senhores vendidos a Eduardo I ou que então se acovardam em seus castelos se cagando de medo, não me admira que perdesse.
                   - Não tenho medo, velho. – protestou Lorde Everton. As forças de Stirling se uniram a este traidor. Eu fiquei em Doune para...
                   -Se cagar de medo, abraçado com aquela porca gorda que sequer te deu um herdeiro. E...
                   -Velho insolente! Levantou-se o soldado que o tinha chamado de idiota anteriormente. Coube ao velho, largar a corda azul. Coube a ele o tempo para que pudesse se virar, uma lança atingiu-o nas costas e atirando o corpo para longe da clareira, passando a pelo menos dois metros do homem de tartã negro que não se abalou. O barulho de ossos quebrando, dentro da floresta, adicionado ao grito, já comum entre eles.
                   - Continuando – disse o velho, observado por Lorde Everton aturdido sobre o que ele faria com aquelas lanças e de onde viriam. Eu dizia que Lorde Everton, é um covarde cagão que não foi capaz de deixar um castelão e seguir junto a seu senhor. Preferiu ficar onde é seguro. Mas isso não lhe exime de culpa rapaz – olhou fixamente para Wallace. Apesar de toda tragédia em Falkirk era sua responsabilidade ficar junto a seu povo, sua gente, tanto das hilands quanto das lowlands. Mostrou-se covarde e quase tão cagão quanto Lorde Everton.
                   - Esses porcos carniceiros estupraram minha mulher, protestou o homem que estava calado. Esses porcos carniceiros da coroa mataram minha mulher e meu povo de Elderlie a mando do xerife de Lanark.
                   -E está certo senhor Willian. Mas lembre-se, eram ingleses, não seu próprio povo. Além de libertar nossa terra, desses porcos ingleses, a batalha da ponte de Stirling foi memorável. Nos confins mais longínquos todos souberam. E inclusive, deram uma coroa a algum desses idiotas a qual Everton está acostumado a limpar a bunda ou beijar-lhes o saco. De que adianta um rei escocês, se o mesmo fica dentro de seu castelo enquanto você e seus soldados vão à batalha? O trágico, é que na única batalha que nosso rei foi, perdeu. E você, chegou as hilands antes dele.
                   Lorde Everton ponderava ansiosamente, sem se levantar da pedra, que Willian por sua traição deveria ser entregue ao rei. Everton dizia que a honra deveria ser paga com sangue. Que todas as dívidas de honra deveriam ser pagas com sangue. Willian retrucava, fazendo igual a Lorde Everton não saindo da pedra. Justificava que ele morto não poderia comandar novamente o exército contra as forças inglesas. Que deveria na verdade ir para Stirling, mas que aguardaria alguns dias até voltar não como um fugitivo covarde, mas sim como comandante das forças escocesas...
                   - Não se engane rapaz. Está sendo covarde. Mas fugir é da natureza humana. Veja Lorde Everton. Vive dentro das muralhas de seu castelo com medo e vergonha. E ainda sim é chamado de Lorde. E agora está aí, me olhando como um idiota, na esperança de que eu não solte a corda e que a lança não vá fazer com que ele tenha uma morte horrível. Ou que eu retire a corda de você, um covarde, que deixou seu povo morrendo em Falkirk depois de convencê-los que a liberdade de nós dependia de um ponto de partida, e que aconteceu quando os ingleses estupraram sua mulher. Pelo que me contam, sir Willian, era jus primae noctis de seu senhor.
                   -Mas era violação, desonra, tudo que pode imaginar, ponha-se no meu lugar homem! – esbravejou Willian e agora sim, levantando-se e deixando o velho com um ar decepcionado.
                   -Ah, agora disse bem, sir William. Acontece que eu entendo de violação, desonra, tudo que possa imaginar. E pior, infelizmente, não comecei uma revolução por isso.  Vou lhe contar a história, tudo começou quando...
                   Um dos soldados de Lorde Everton, acreditando que seria possível chegar no estranho, desambanhou sua espada e partiu para cima do velho. Lorde Everton e William Wallace ficaram em suas posições. O velho desambanhou uma espada longa e repeliu facilmente o primeiro golpe que vinha em direção a seu flanco direito. Manuseando habilmente a espada ambos travavam uma batalha no centro da clareira. O problema é que o velho tinha de evitar que as cordas fossem cortadas e se manter vivo ao mesmo tempo. Mas o soldado, encoberto por sua armadura era um adversário difícil, apesar de toda a habilidade no conflito. Porém em determinado momento, o velho, troca golpes com o soldado, e joga sua espada no chão. A surpresa é geral.
                   - Não tem mais facas de arremesso velho e não estou sentado nas pedras. Essas lanças não podem me atingir.
                   - Sim, sou velho e não tão hábil. Mas a inteligência me ensinou a prever coisas garoto, como a que fez agora. A copa das árvores são verdes, e a morte é vermelha. – ele aponta para o chão, mostrando que estão no meio da clareira e depois para o alto. Uma enorme lança vem ao solo quando o velho deixa cair ao solo a corda verde que dispara a enorme lança que transpassa o soldado, quase partindo-o ao meio. Ele calmamente pega sua espada, finca no solo e continua a falar.
                   -Bom, não há mais idiotas para me desafiar. Vou continuar, então. Sabe Sir Willian, eu entendo tudo sobre tudo que acabara de me falar e até entendo sua revolta. Um momento. Edwin!!! Gritara o velho. Willian e Everton se entreolharam com um certo espanto. Do meio da mata saiu um rapaz de aproximadamente uns vinte anos. Loiro, alto, com uma barba cerrada também loira e de cabelos compridos. Trajava um kilt também negro, onde não se podia identificar o clã. Ele sentou-se bem na pedra onde o soldado jazia morto na clareira, depois de indicado por seu pai.
                   -Sabe Sor Willian, um dia eu já fui jovem como você. Um dia eu já fui trabalhador. Continuo trabalhador. Mas, e essa é uma história que estou lhe contando pela primeira vez, tanto para você, Lorde Everton e Edwin, que merece saber de tudo antes que eu parta. Há muitos anos, eu estava aqui, sob domínio inglês, mas tinha uma vida pacata. Há muitos anos eu me casei. Seu nome era Megan. Linda, loira, dos seios firmes, a pele alva, a boca carnuda, que ria das minhas piadas horríveis. Ela era a mulher mais bonita da vila, e por um milagre de Cristo eu a conquistei. E foi então que nos casamos. No dia da nossa união, um lorde, veio ao nosso casamento abençoando-nos e pedindo seu direito de sua jus primae noctis com minha Megan. Imagine que com espadas, bestas e flechas apontadas para mim eu não tive opção. Sou analfabeto e sei o suficiente para saber quando sou ameaçado. Então cedi. Ela me foi devolvida no dia seguinte por uma guarnição muito bem armada sem que uma palavra fosse me dita. Chorei como um bebê e quando ela chegou não tinha conseguido me deitar com ela. E assim pelos longos dias, uma outra coisa aconteceu. Sempre que ia ao lago Ghleannain lavar nossas roupas, imediatamente, muito bem amparado por guardas, o lorde voltava. E assim, ela foi não só violada na primeira noite. Mas toda vez que teve oportunidade para fazê-lo, este lorde nojento e repugnante fazia. Até que um dia Megan ficou grávida. Não era meu, porque não me deitava com ela desde que ela me fora devolvida. Eu não disse nada, afinal, que era mais um bastardo no mundo cruel que vivemos. Mas este lorde, louco, continuou a violá-la até próximo ao nascimento do bebê.
                   -Mas porque ela não parou de ir ao lago, interrompeu William.
                   Porque a guarnição que a escoltava, disse que se ela deixasse de ir ao lago, eu seria morto e minha cabeça seria exposta como traidor. Mas, continuando, o lorde sumiu, durante o período que a criança nasceu. Mas foram procurá-la dois dias depois do nascimento. Foram até a vila e queriam a todo custo fazer com que ela entregasse o bebê. Ela tomou a decisão mais difícil e pulou no lago, e, como não sabia nadar, morreu afogada. O lorde então se acovardou, sumira e desde então tenho caçado na floresta na expectativa de poder encontrá-lo e matá-lo com honra. Então Lorde Everton, pronto para um combate?
                   Tanto Edwin, quanto William ficam perplexos, ficando a olhar um para o outro. Aos olhos de William, o jeito que a mulher do homem fora torturada sexualmente, seria motivo suficiente para um genocício de todos os ingleses. Mas não, ele ficou em busca apenas de Lorde Everton. Edwin por sua vez, não conseguia acreditar que aquele homem que agora lutava com seu pai, era na verdade o seu próprio pai. E, que foi capaz de uma coisa tão terrível que sentia não pena, compaixão ou qualquer coisa do tipo por Lorde Everton. Sentia na verdade, asco, nojo, vontade de vomitar, de desembainhar sua própria espada e matar aquele velho desgraçado. Um covarde, um idiota, capaz de fazer uma coisa tão horrível. Que só não voltou pelo medo de ser morto por um único homem.
                   Enquanto os pensamentos corriam tanto na cabeça de William quanto na de Edwin, Lorde Everton atacava ferozmente com sua espada de cabo longo, tentando a todo custo encontrar a carne do velho grisalho. Mas apesar da idade ambos se mexiam habilmente. Lorde Everton, girara a espada da esquerda para a direita, acertando o vazio, enquanto o velho se abaixava e no retorno da lâmina o golpe foi habilmente defendido. Lorde Everton com as duas mãos desferiu um golpe de cima para baixo, onde o velho se esquivara para a direita acertando um pontapé em suas nádegas fazendo-o voar ao chão aos pés de Edwin que olhava assustado. Nesse ínterim ele aproveitara e guardara a ponta da corda preta debaixo da pedra onde estava sentado. Assim pôde manusear sua espada com as duas mãos mais habilmente. A dança no círculo de pés, mãos e espadas deixava aos dois únicos espectadores maravilhados pela habilidade de ambos. Por fim, o aço contra o aço, foi batido na altura das suas cabeças, Lorde Everton tentou um golpe da esquerda para a direita que foi defendido com o velho de costas para ele, onde num giro espetacular atingira o ombro de Lorde Everton. O barulho de ossos se quebrando, e um jato de sangue subindo manchando a roupa do Lorde, fez com que a sua espada de repente ficasse mais pesada. Com a força do golpe, Lorde Everton, caíra de joelhos de espada na mão, que fora arrancada com um golpe preciso na junção de sua manopla que defendia seus dedos, fazendo mão e espada voarem longe. O chute quebrando os dentes veio logo depois, deixando o Lorde deitado no solo. Com as duas mãos, o velho, enterrou sua espada entre o umbigo e o pênis, atravessando Lorde Everton e cravando a espada no chão úmido fazendo gritar e gemer. Calmamente o velho se levantou e pegou a corda de cor preta. E disse, tanto para o filho quanto para William: levantem-se e saiam de perto dessas pedras.
                   Quando eles chegam perto do ancião, o mesmo solta a corda que aciona duas lanças que se perdem dentro da floresta. Ele ri e se vira para William dizendo:
                   -Se esconder aqui não vai adiantar rapaz. Volte para seu povo. Volte para aqueles que precisam de você. Se vai morrer, não morra como aquele idiota, se escondendo. Essa terra foi feita para homens valentes, não para idiotas, covardes e traidores.  Neste momento Edwin também fala.
                   - Pai, eu também gostaria de ir. Eu quero ir com William.
                   -Não! – diz William. Vai encontrar somente o perigo da morte, aqui tem a seu pai, amigos, gente a ajudar a defender.
                   -Deixe que ele escolha William, ele é do seu povo, mas não é um garoto indefeso. Apenas peço que lhe dê uma espada decente, a minha vai ficar cravada um bom tempo naquele idiota ali. Eu estou consentindo que ele vá, não é um guerreiro tão bom quanto você, mas eu pude ensiná-lo algumas coisas.
                   -Mas antes, tinha dúvida se eu era William, como pode saber...
                   -Eu não tenho clã. Mas você sim. Seu clã ficou conhecido, logo, assim que botei os olhos sabia que era você. E, ao contrário de mim, você não tem filhos, eu sim. Eu esperarei meu filho. Vivo ou morto. É a honra que faz mover as espadas William, é a vontade ferrenha de fazer justiça. Por isso, não pode ficar escondido aqui. Reúna novamente suas forças e tire essa escória inglesa das nossas terras.
                   O velho deu um abraço em William e logo depois um abraço no filho. Indicou o caminho que deveriam partir e ficou na clareira, vendo os dois sumirem na mata, enquanto Lorde Everton ainda agonizava no solo, com a espada cravada em seu corpo.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Contos Urbanos

Vigia

                   A monotonia tomou conta de mim. Já não bastasse o dia a dia aqui, pregado, parado, eu fico com a sensação de estar com algum tipo de impotência sei lá. Tinha uma professora minha de história, que dizia que nós negros tínhamos “banzo”, que nós crioulos tínhamos isso quando éramos da senzala. Então estou com banzo. Tem um tempo que não vejo a professora. Mas qual era o nome dela mesmo? Ludmila. Isso. É, estou com um baita banzo então. Prá mim, estou goiabando, mas se ela quer que chame de banzo, é banzo.
                        Tenho de ficar aqui de vigia. Mas confesso que não aguento mais. Apesar da cobertura, da água e do rango, ficar aqui olhando para o nada é chato. Apesar de ter um parceiro, o Jonas, de verdade mesmo, meu companheiro mais leal é meu fuzil. Sem ele eu não sou ninguém e além do mais é ele que me protege. Minha cabeça na verdade, está longe, muito longe. Eu sinceramente gostaria de saber o que minha mãe está fazendo, mas pelo horário, três e meia, provavelmente deve estar fazendo um café. Eu não gosto de café, meu lance mesmo é achocolatado. Gelado, doce. Que saudade. Café é para meu padrasto, que deve em plena segunda, já ter enchido a cara de cachaça. É o que tem prá hoje, eu me conformo. Pelos menos ele não bate na minha mãe ou nas minhas irmãs. Cai no sofá, estendido, que nem um idiota, e fica por lá. Minha mãe leva um café forte para ele e o cheiro fica pela casa toda. Se estivesse em casa provavelmente eu já tinha chamado minha irmã, a filha do cachaceiro, para tomar um Nescau. Meu pai eu nem lembro que rolou com ele. Também não quero saber. Provavelmente a galera lá pelas cinco, ia descer para o campinho e me chamar para bater uma bola.
                        Eu que escolhi estar aqui. Estar no meio do mato, com um fuzil, um outro cara com outro fuzil nesse calor infernal. Eu que achava isso maneiro, via os caras tanto na televisão quanto pelas ruas que achava top. Eu que me apresentei, eu que me recrutei, então agora tenho de aguentar. Eu tenho de ficar atento isso sim e esquecer essa porcaria de calor. Parece que dá para cozinhar um ovo no asfalto. Um banho de mar para refrescar ia bem agora. Ia bem também ver a mulherada. Lugar quente, chato, cheio de homem e sem mulher é foda. Ficar no meio do mato assim não compensa. Ou talvez sim, senão a maioria que tá no comando não tinha aceitado. Eles falaram que passaram por tudo isso que tem de ter disciplina, ficar atento, e um monte de conversa fiada. Eu me conformo.
                        Eu bem que podia atirar para quebrar o clima, mas é melhor não. Só falaram para eu atirar quando tivesse certeza. Como não tenho certeza de nada eu deixo quieto. Não quero confusão para minha cabeça. Mais do que já arrumei. Por falar em confusão me lembrei da Karoline. Menina ciumenta. Posso nem olhar para o lado. Mas em compensação, ela fica de conversinha com aquele professor de física. Daí a pouco o cara some vão ficar falando, enchendo o saco. Mas tem uma fofoca também de que ela tá grávida. Vou esperar ela falar. Se tiver,  tranquilo, mas eu queria mesmo que se tiver que fosse de um moleque. Vai jogar no mengão, já fico até imaginando: torcida enlouquecida, um monte de bandeirões, agitação total e gritando o nome dele. E eu? Só de camarote, afinal pai de craque tem esse direito, só na bebida fina, na comida de bacana e meu filho arrebentando em campo. Se ela tiver mesmo grávida, fico imaginando esse moleque fazendo sucesso no mengão e depois na Europa, deixando os gringos de boca aberta que vão até falar: Neymar? Que Neymar? Já que não tenho nada prá fazer aqui, acho que vou pensar um nome. Enquanto isso, lá longe, passa um helicóptero. Mas mesmo longe, não deixa de fazer barulho. É um barulho chato, que nem pernilongo. Pior para quem fica aqui de noite, se não passar repelente, se lasca, já que o sol abaixa e eles vem. Parece um exército de demônios voadores.
                        De onde eu estou o trânsito parece piorar. Maioria compra carro com ar condicionado e fica lá, no fresquinho vegetando que nem eu. Eu to aqui de vigia, agora, fico pensando no que faz uma pessoa comprar um carrão e ficar lá dentro de boa. Tem internet, ar fresco, televisão e o cacete a quatro. Mas na verdade pode estar lá, tomando um chifre, poderia estar no bar até mais tarde tomando umas e depois voltar com a galera, ou então sair com a família. A pessoa desperdiça tudo isso dentro de um carro.  Enquanto isso fico eu sentado aqui só vendo a atividade. Essa vida passa rápido. Até demais. Gostaria que não fosse assim. Até pouco tempo, eu tava brincando de carrinho, agora to aqui de vigia, eu, meu fuzil, meu amigo lesado e o fuzil dele.
                        Cara, o Jonas é muito lerdo. Eu fico de cara. Ele fica lá sentadão na dele, com o fuzil na mão. Olha de um lado para o outro, e não relaxa. Cara mais desconfiado que esse eu nunca vi. Parece que vai estourar uma bomba aqui e agora. Ou que nem naqueles filmes de zumbi, vão aparecer uns trinta e vão comer a gente por mais que a gente atire neles, porque a gente não tem bala infinita. Esse modo cabreiro dele eu confesso que me deixa nervoso. Eu fico com a sensação de que ele vai me dar uma “azeitona” a qualquer momento. Ele morava umas quatro casas acima da minha. Talvez seja porque o que aconteceu lá na casa dele tenha deixado ele cabreiro. O pai dele cismou que a mãe dele tava traindo ele com o padeiro. Parece aquelas histórias antigas que a gente aprende na televisão que você acha que nunca vai acontecer na sua casa. Mas foi verdade.
                        Foi assim: O pai do Jonas era vigilante num banco aí. Trabalhava de noite para ter um ganho melhor. Além do Jonas ainda tinha a Grecy Kelly, a Tabata, e o Breno para completar. Então o lance era ralar muito porque tinha muita boca para alimentar né? Porque já viu, seis bocas é muita comida. Lá em casa que é metade, já era um baita problema, imagina na casa do Jonas? Mas a galera, não perde tempo na fofoca. Quando o Breno nasceu, geral foi lá né? Vai um dia, dois, três, uma semana. Moleque maneiro, só chorava, comia e dormia. Vida boa. Só que o pai do Jonas era um negão muito alto e forte chamado Natanael. A dona Rosa, mulher dele foi dessas mulatas de escola de samba, mas disse que virou crente e parou com tudo. Então era aquele lance de ir para igreja, volta da igreja e espera o Natanael, uma mesmice só. Espero que não tenha um casamento assim.E foi aí que o bagulho ficou doido. O moleque foi crescendo, mas ao invés de escurecer, tava do mesmo jeito, mais clarinho que todo mundo. Aí já viu né? Geral, ficou falando que seu Natanael era corno, que isso, que aquilo. Povo do bar atormentava. Mas no começo o pai do Jonas nem aí. Ficou de boa. Mas sabe como é o povo. Fala uma vez, duas, três, até que o pai dele realmente começou a ficar bolado. Não deu outra. Cara vigilante, esperto, começou a  colher o que a turma falava – fofocava.
                        Alguém tinha de pagar o preço. Sobrou para o José Carlos, ou simplesmente Zé Galego, que tinha esse apelido porque era branco que só. De vez em quando se gabava de que talvez tinha sangue de alemão na veia. Essas coisas de DNA que na televisão sempre tem. E não é que a D. Rosa só comprava o pão do Zé Galego? Aí já viu, a conta ficou no colo dele.  Seu Natanael ficou boladão, mesmo. Chegou um dia, à noite, ele ficou na espreita perto do barraco do Zé Galego. Quando ficou tudo calmo, ele bateu na porta, o Zé atendeu e “pow!” tomou um tirambaço nos cornos que caiu durinho. Aí o seu Natanael já estava transtornado. O homem saiu correndo para sua casa e já veio gritando com arma na mão o nome da D. Rosa. O Jonas tava no colégio, na turma do lado da minha. Os moleques é que viram como tudo ficou. Seu Natanael não teve perdão. Salpicou oito tiros na D. Rosa. Depois mandou um balaço na cabeça dele mesmo, mas deu azar. Ficou vivo e agora fica em casa numa cadeira de rodas babando e não sabe nem o que ta acontecendo.
                        O reboliço no colégio foi geral. Molecada é foda, ficou todo mundo de conversinha por causa do ocorrido. A namorada do Jonas deixou ele. Pessoal tinha medo dele ficar maluco e sair atirando em geral. Eu como não conversava com ele mesmo, só fiquei na minha, ligado no que geral falava. Achei a parada triste,mas minha mãe também falou para eu não me envolver que podia dar merda. E assim ficou sendo a vida dele. Ninguém dava uma ideia, um apoio, um nada. Então eu fiquei na minha também. Fiquei calado e só vim conversar com ele aqui, quando chamaram a gente para trabalhar juntos. E ele sempre foi assim, na dele, sem falar muita coisa, caladão.
                        E essa hora que não passa. Já to cansado de ficar aqui. Mas é isso ou não ter o que comer direito. Então o lance é ficar de vigia, e se alguém vier é largar o dedo. Nunca matei ninguém, e qual deve ser a sensação? No videogame já matei um montão, mas de verdade, nunca. Já vi gente morrendo, que é uma coisa sinistra. Tanto de doença quanto por tiro. De doença foi lá no hospital quando fui levar minha irmã no médico junto com minha mãe,porque se dependesse do cachaceiro ela ia morrer de febre. Posto médico é uma droga. Maioria desses filhos da puta de branco só sabem passar com o nariz empinado achando que são Deus. Enquanto isso, tem gente no chão, na maca, em tudo quanto é lugar, parece açougue de gente. Sempre tem alguém vomitando algo esquisito no chão. E geralmente tem sangue junto. Ficamos mais de quatro horas na fila do pediatra até que uma hora antes de chamarem a gente, uma mão enrugada, fria, e magra pegou no meu braço, fazendo eu tomar um puta de um susto. Era uma velha. Magra e esquelética de cabelos brancos que nem pó de mármore. Os olhos eram cinza, mas ela ainda tinha força. E muita pelo sinal. Quando a gente se trocou olhar ela fez uns sons esquisitos. Falou, falou e eu não entendi nada. Mas fiquei lá, minha irmã ainda não tinha sido atendida. De repente a velha revirou os olhos e ficou lá com eles arregalados. Minha mãe correu até mim e eu nem tinha percebido que ela tinha morrido, e segurando meu braço. Minha mãe me puxou e não falou nada. Uns minutos depois, vieram uns enfermeiros, não perguntaram nada e levaram a velha para um corredor longo que eu logo a perdi de vista. Aí, minha irmã finalmente foi atendida. Dengue. Mas ficou de boa. Também a quantidade de vala negra, água parada que tem ao redor lá de casa, era para eu ter pegado também. Lá em casa não passa o fumacê, mas de vez em quando rola daqueles tiozinhos com uma mangueira com um veneno lá que mata essas pragas.
                        A outra vez que vi gente morrendo, foi uma vez na Av. Brasil. Nem lembro o que tava fazendo. Passou um cara por mim, correndo a vera. Tinha uma galera gritando ladrão, e o cara foi vazado. Atrás dele tinha uns playboys atrás dele. Só sei que o cara que tava correndo se ferrou. Umas duas viaturas passaram por mim a milhão. E lá na esquina juntou tudo, o ladrão, os playboys, a PM e mais uma galera que resolveu correr atrás também. Claro que eu queria ver também então saí vazado. Quando cheguei na esquinam tava muita gente cercando o cara. Ele tinha um boné nas mãos e encostado na parede enquanto o chefe das viaturas falava que ele tava fodido. Mandou ele levantar as mãos e um dos playboys pegou o boné de volta, fez uma continência e saiu. O PM olhou para o cara como um saco de areia, deu uma olhada para o colega dele e o cara nem piscou. Calibre doze. A cara do maluco ficou toda destruída. A população ao redor tava se divertindo ao que parecia. Quando o tiro pegou na cara, ele deu um pulo caiu estendido no chão com uma parte dizendo: Vagabundo, Ladrão tem mais é de se foder mesmo, tomou no cu, se fodeu, entre outras coisas. O sangue voou alto, e os caras das patrulhas entraram como se tivessem indo tomar café. Um deles passou por mim, já que eu tava atrás deles na rodinha do ladrão e perguntou: Quer foi moleque, perdeu alguma coisa? Eu abaixei a cabeça e pude ouvir um dizer: Porra Brandão, deixa de ser filho da puta. Caramba, que coisa, justamente o que pensei da mãe dele. Mas eu fiquei quieto, se o ladrão de boné tomou uma de doze na cara, eu que não ia atrás de confusão.
                        Pelo jeito de se vestir e pelo desespero na verdade parecia mais é que ele queria o boné para fumar uma pedra. Crack é foda. O cara já começa com um cachimbo e logo depois fica que nem um zumbi. Pior mesmo é esse monte de playboy atrás de pó. Os caras não são de gastar pouco não. Compram com força mesmo. Quando eu era pequeno, tinha uma boca lá perto de casa que depois mudou de lugar por causa da polícia. Mas quando eles estavam por lá, caraca , era só carrão no pé do morro. Uma vez eu vi uma dessas madames aí de novela entrando de boa na favela. Mas como a galera sabia o que ela queria ninguém pediu autógrafo nem nada. Ela tava toda estranha, se escondendo, com bonés e vestida que nem a gente. Entrou e saiu rapidinho, para não ser vista. Eu fico sem entender, a pessoa tem dinheiro, carrão, moto e o escambau e fica atrás de farinha? É coisa de gente que parece que tem dinheiro e não tem o que fazer com ele. Mas ao invés de ir atrás da mulherada ou o contrário, vem atrás dessa porra. Depois fica aí, pelos cantos, muito louco. Quando era adolescente eu uma vez vi um cara fungar um prato de farinha e ficou muito doidão. Prá que? Saiu do morro, bateu a porra do carro e morreu. Grande vida ele teve. Deve ter vivido nas costas do pai, depois cresceu, virou babaca, cheirador e agora ta aonde? A sete palmos do chão.
                        Ufa, olho no relógio, são cinco horas da tarde. Já deu né? Então eu vou vazar porque aturar o Jonas nesse calor é foda e para mim quero mais é jantar e dormir porque amanhã é outro dia de vigia. Vou dar uma olhada no horizonte, dar uma esticada e vazar né? O Jonas fica ali olhando para minha cara. Eu me levanto, estico os braços e deixo o meu fuzil encostado na pedra. Coloco minhas mãos nas costas e arqueio. É quando lá no morro do Jordão eu vejo uma luz. Parecia um espelho, mas, porra pela posição não era espelho.
                        O tiro veio no peito certeiro. Voei longe. Enquanto caía via Jonas se jogar no chão e metralhar aleatoriamente para o lugar de onde veio o tiro. Era muito sangue, deve ter sido no peito. Caralho vou morrer, que sinistro. Eu fui burro, prá que fui levantar da porra da pedra e achar que ta tudo tranqüilo? Deve ser fuzil de mira. O radio começa a alucinar com um monte de gente falando, parece gente do outro morro, PM,  gente do meu morro. Eu ponho a mão entre o buraco que a bala fez. Vou pro saco, isso é fato, só queria saber quem foi se foi PM ou se foi traficante que nem eu. O Jonas correu para o rádio e falou de maneira nervosa:
                        -Caralho, o Marquinhos tomou um no peito e aí?
                        -Viu quem foi? Perguntam.
                        -Não,caralho, mas tão atirando que nem loucos.
                        -E ele?
                        -Já era – falou resignado. Já era? Pô, to vivo teu corno. Tento falar e a voz não sai. Tento levantar a mão e nada acontece. Tento tudo, dói tudo. A única coisa que vejo é Jonas se arrastar enquanto ouço um monte de tiros. Acho que era só eu cair e pronto. Tá queimando, tá queimando, penso eu, mas a voz não sai. Jonas tá abaixado e responde de volta. Dá uma rajada, duas e os tiros ficam mais escassos.

                        Eu já não consigo distinguir o que estão falando. Sei lá que horas são agora, mas está escurecendo. Ou sou eu que não enxergo mais nada. Dói e queima. Dói e me deixa louco. Estou muito zonzo mas consigo manter o fio de consciência. Já era. Fodeu mesmo. Tomei um no peito. Tava sem alternativa. Sem dinheiro e sem porra nenhuma. Só me sobrou entrar para o tráfico. Mas e se eu fosse alemão? Do exército? Do caralho a quatro? Ia morrer de qualquer jeito. De repente, silêncio. Jonas parece que se arrastando ainda, me vira de lado. Nesse momento ainda consigo ver o que ele está fazendo. De barriga no chão, ele faz a mira. E, atira. Bem no coração. Acabou.

sábado, 19 de julho de 2014

CONTOS URBANOS



Fogo fátuo

                   Mais um dia. Da minha vida patética, mas um dia. A manhã está fria e o meu ânimo é zero. Nesse momento eu gostaria de estar longe, muito longe. Pensei em vários lugares e não cheguei a destino algum. Pensei em amores possíveis e impossíveis e esses amores também foram embora. Passei a observar a minha volta. Mais uma segunda-feira agitada, entretanto de gente tão ou mais patética do que eu. Na outra esquina o mendigo estava sentado insultando quem passava. Se bem que apontar defeitos talvez não seja insultar. Uma moça gorda passou por ele com uma calça justíssima. Ele riu e disse que estava ridículo. E estava mesmo. Ela fez que não viu e foi embora. Um senhor de idade avançada também passara por ele de mãos dadas com uma moça uns vinte anos mais jovem, ao qual ele não perdoou e gritou: corno! O velho fez que ia voltar e bater nele, mas fora contido pela pseudo-Lolita. Eu não sei do que estou rindo, afinal tenho quase a mesma idade que ele e não tenho nenhuma garotinha de mãos dadas comigo. Na verdade, não tem ninguém de mãos dadas comigo. Sou e estou sozinho, como já disse, na minha vida patética. Olhei para o prédio em frente e a fome apertou. Afinal, trabalho duro e um café não ia mal agora. Meu vício. Café forte, de macho, isso que eu preciso. Vou à padaria que fica na outra esquina, mais monótono que meu dia pode ficar impossível. Mas antes disso, fui à banca de jornais ver quais eram as manchetes do dia. O café ainda podia esperar apesar do meu estado de sono. Então despretensiosamente, comecei a ler as manchetes do jornais. Nada de novo no front. Assassinatos, tráfico, bandidos presos, bandidos em fuga, políticos roubando, políticos presos. Time que ganha, time que perde. Concursos públicos, ah os concursos. Sempre uma chance de se ganhar dinheiro fácil. E demissão que não rola.
                        Foi nesse momento que eu vi o fogo. As janelas acima da padaria arderam de repente. Pessoas próximas correram e eu fiquei paralisado de medo. Funcionários da padaria saíram correndo ao que consequentemente veio depois: uma grande explosão atirando aço e vidro para todos os lados. A banca de jornal que ficava na esquina do outro lado da rua onde eu estava, me protegeu dos estilhaços. Azar quem teve foi o mendigo que teve uma barra de metal ironicamente estilhaçando sua garganta. Uma visão triste, mas mesmo assim o canalha (se é que posso chamá-lo assim) ainda morrera com a língua para fora com seus órgãos genitais – não sei como foi possível, já que na hora, dei um passo para trás da banca – para fora como se afrontasse a ira Divina. O problema é que na esquina para onde ia tomar o meu café ficava as duas mais importantes avenidas da minha cidade, onde se convergiam como um X onde eu me encontrava – como sempre, na parte de baixo dele.
                        Depois da explosão o fogo ardeu com força. As labaredas em cores vivas: laranja, vermelho, azul fizeram uma armadilha mortal. Quem estava na padaria, ficara caído pela rua com o impacto. Ajudei, como pude, a arrastar uma senhora para longe. E aquela altura, o meu café de macho estava detonado, literalmente. Outras pessoas ajudavam os transeuntes. Entretanto a coisa poderia piorar? Claro que sim, como não? As labaredas atingiram todo o pavilhão inferior do prédio. Os moradores foram acordados com terror, medo e insegurança. A gritaria das pessoas pelo corpo de bombeiros era intensa. Alias, gritar era a regra, a exceção era eu que me mantive calado apenas observando o que de fato acontecia. Cabeças começaram a saltar das janelas do edifício, e eu ali, imóvel do outro lado do X, mas o que poderia eu fazer? Já havia puxado a velhinha. Ia fazer mais o que? Ir tirar a barra de ferro da garganta do mendigo que , a todo momento que o fogo aumentava e deixava as pessoas desesperadas ele parecia rir de toda a situação e ainda com os genitais a mostra? Não. Meu trabalho não consistia nisso.
                        O corpo de bombeiros chegou. Grande coisa, não havia hidrantes por perto porque o prefeito não se preocupou com isso. Um idiota incompetente. Uma segunda explosão atingira o segundo andar e novamente outra chuva de aço e vidro. Eu me refugiei atrás da banca de jornal como sempre. Não houve feridos dessa vez. Apenas o mendigo continuava a sorrir. As pessoas no prédio começaram a se desesperar e começaram a subir para os outros andares. Outras pessoas não. Ficavam dentro dos seus apartamentos. É incrível como nessas horas as pessoas ainda se apegam a seus bens materiais. Os mais desapegados subiram os mesquinhos ficaram. E quem eu vejo nesse momento? O velho que fora insultado pelo mendigo. Acabei dando sorte e o vento estava contra o prédio lançando a fumaça para o lado oposto de onde estava. Então pude ver no quinto andar, a namoradinha dele, na janela, fazendo sinais para os bombeiros. Ele não, quis ficar como o último soldado da caserna fazendo papel de idiota. O fogo logo chegou rapidamente até ele e os bombeiros nada puderam fazer. Nem na morte ele se dignificou a pedir perdão. Ficou lá, no parapeito da sua janela insultando os bombeiros enquanto seu corpo se transformava em uma bola incandescente. De nada adiantou os bombeiros, nobremente jogarem água nele e dentro do apartamento dele. Ao que parece, o fogo foi mais forte. E, enquanto isso, de genitália de fora, o mendigo ria da situação. Pareceu rir mais, quando o braço do velho despencara na calçada. Uma moça ao meu lado, dizia que se tratava de castigo Divino, pelo fato do velho segundo ela, estar de fornicação e adultério. Não me aguentei e perguntei se ela conhecia o falecido. Ao terminar de dizer não, nem esperei o que ela ia dizer e mandei-a calar a boca e mostrei o dedo do meio para ela, que fez o sinal da cruz e se afastou de mim.
                        Os bombeiros tentavam em vão agora era resfriar os prédios vizinhos. Parece que pela avaliação deles os habitantes daquele prédio de dez andares, que um dia, tinha a pintura cor creme e que agora estava enegrecido pela fuligem estavam condenados e que por isso os habitantes dos prédios vizinhos tinham mais chance. Eu não sei precisar quantas pessoas haviam ali naquele prédio. Vi que, com efeito, o fogo abalou a estrutura do edifício e um barulho grande pareceu ter vindo dele. Péssima hora para isso acontecer, já que a namorada do velho se afobou. Ao se afobar ela teve a genial ideia de pular. As pessoas próximas gritavam para ela não fazer aquilo. Eu não falei nada porque não era da minha conta. Então ela tomou a decisão e pulou. Seu corpo magro, de seios firmes,cabelos compridos ao vento, chocou-se com toda a força contra um poste de sinalização de trânsito empalando-a; causando o choro e a resignação de muitas pessoas e, curiosamente o estranho riso do mendigo com a cena, já que o poste ficava do outro lado da rua onde estava sentado e morto e de um garoto que ao ver a cena por entre os dedos da mãe, exclamou: “Que maneiro mãe, que nem naquele seriado!” Nesse momento eu também quis rir, mas o estrondo de vidro se partindo e o velho prédio se transformando em uma pira olímpica me deixou quieto. Fiquei mais quieto ainda quando o corpo de um bebê fora atirado pela janela em chamas. Ele caíra em cima do caminhão do corpo de bombeiros.Ao passo que o comandante da operação se aproximara outro corpo em chamas, quem sabe, mãe ou pai porque na verdade já era um torrão em chamas também voou de encontro ao caminhão de bombeiros vindo do terceiro andar. Ao perceber a cena o comandante quis entrar em desespero, mas ao olhar o mendigo que, a seu modo, ria com um vergalhão na garganta, resignou-se.
                        O vento agiu como um agitador. Deixando aberta as feridas causadas pelo fogo, percebia-se claramente que a as pessoas não tinham chance. Cada um sabe de seus pecados, mas o vento, que naquele momento era bem forte, não deixou que as pessoas morressem por asfixia mecânica. Então restavam as seguintes alternativas: pular ou morrer queimado. O controle da população também estava inviável. A aglomeração de pessoas, curiosas, religiosas, chatas e analistas de política e economia começaram a se aglomerar perto de mim. Nada contra, mas de uns anos para cá, passei a gostar menos de gente do que posso imaginar. Assim como o fogo destruía o prédio, sentia como minha vida também estivesse sendo consumida. Dividas, trabalho ruim, chateações, vizinhos chatos, parentes chatos. Daria tudo para que alguns deles estivessem queimando naquele inferno e não aquelas pobres almas que teimavam em se jogar no vazio e se estatelar no chão. A cada queda, a cada grito mórbido daquela plateia ridícula era um sinal de um pastor ficar gritando que era o “fim dos tempos” que aquelas pessoas estavam pagando pelos seus pecados, que não temiam a Deus e ao proferir isso mais uma explosão acontecera. Mais cacos de vidro e aço foram lançados a mórbida plateia. E, mais uma vez o corpo do mendigo fora atingido. Apesar de não perder o sorriso, uma ironia acontecera. Um dos vergalhões fora lançado em sua direção atingindo sua genitália que estava à mostra. Na verdade isso acabou tendo um efeito contrário, já que, ao ir de encontro a genitália do mendigo, o vergalhão de ferro estacionou no seu corpo e deu a impressão que dessa vez ele tinha um superpênis. E o sorriso, continuou, intacto.
                        Um grupo de bombeiros, correra em nossa direção pedindo para que fôssemos embora. Eu me resignei a dizer que até que gostaria, mas ainda faltavam uma hora. Outras pessoas, inclusive as da imprensa, diziam no direito de estar ali, que a constituição permitia etc, etc. Eu quase podia ver o riso de canto, quase imperceptível, a cada corpo que se jogava. A cada apelo dos bombeiros, a cada pedido para nos afastarmos e não ver aquela cena. Era um corpo, um take. Um corpo, um take. Uma vez trabalhei numa emissora de televisão fazendo faxina. Sabia como era. Abutres que se importam com seu ego e com as maravilhosas notícias que podem dar sobre toda e qualquer tragédia que possa ocorrer.  Pessoas eram meticulosamente entrevistadas. Menos eu que recusei todas, apesar de a todo instante estar presente e ter visto o momento exato da explosão daquela padaria. Teorias absurdas, até de ataque terrorista, tudo porque uma das vizinhas é de origem libanesa foram vomitadas nos microfones das emissoras.
                        Uma repórter de uma emissora de rádio, quando observei narrava os fatos com afinco e dedicação. Era uma narração perfeita. Quem estivesse ouvindo, em qualquer canto daquela cidade poderia facilmente dizer que estaria vendo na sua casa uma forma  minúscula e detalhada daquele inferno. O que não esperava ver é que a repórter, de microfone em punho era bolinada por um tarado. Tarados, estão em toda parte. Nos ônibus, metrôs, lojas e porque não nas tragédias. Era nítido ver o volume em suas calças ir de encontro as nádegas redondas e uniformes da repórter que se sentiu sim incomodada com o fato. Era um estupro velado e eu estava vendo, mas o que eu podia fazer? Exatamente o que ela estava fazendo. Nada. Eu, era um velho, agora não entendi porque ela, com microfone na mão não denunciou aquele disparate.Se ela resolveu ficar quieta, eu que não ia falar nada.
                        Assim como não falei nada sobre aquele trombadinha que estava fazendo a festa com as carteiras alheias. Enquanto as pessoas ficavam na expectativa de mais corpos pularem do edifício, o jovem ladrão que devia ter uns dezesseis anos com uma mão bem leve estava abrindo bolsas, recolhendo carteiras e pegando dinheiro. As pessoas estavam mais preocupadas com as tragédias dos outros do que com seus próprios problemas.Curioso é que os policiais presentes, ajudando a fazer o cordão de isolamento estavam mais preocupados em paquerar aos moças bonitas que estavam lá a assistir as tragédias do que da segurança pública. Os bombeiros iam para trás dos caminhões, onde uma estranha conferência estava ali. Apenas um, ainda inutilmente, continuava a tentar apagar o fogo. E enquanto eu olhei o tarado e o ladrão, mais corpos apareceram no chão, estatelados, queimados e sem vida.
                        O cheiro de corpos queimados é estranho. Uma moça disse ao meu lado que estava sentindo cheiro de churrasco. Ela poderia ser uma canibal e eu também. Estranho que tivemos o mesmo pensamento. Não que eu desejasse comer carne humana, mas realmente foi uma observação ao mesmo tempo mórbida, interessante. Nunca tinha visto por essa perspectiva de que carne humana pudesse provocar aquele tipo de observação e comentário. As coisas começaram a ficar piores quando começaram, no desespero, a atirar bichos. Cães, gatos, gaiolas dos vários tipos foram atiradas ao chão de maneira desesperada. O comandante da operação ficou imóvel, não sabia mais o que fazer ou o que decidir. A loucura e a insanidade já estava presente naquele grupo de pessoas que antes de tomar coragem e se lançar ao chão, jogavam agora seus animais de estimação com o propósito de que os mesmos não viessem a sofrer. O problema é que as mesmas pessoas subiram até ao terraço para começar a fazer aquilo. Era uma imagem trágica, mas que era captada pelas câmeras das emissoras de televisão e narrados meticulosamente pelas de rádio.
                        As minhas pernas doíam muito, mas eu não queria sair dali. Na verdade minhas pernas doem todo dia. Não aguento mais meu emprego. Mas pelo menos ele leva comida à minha boca. Não pude evitar, não tive escolha. Fiz então o trivial. Me encostei em um poste e por ali fiquei. Afinal de uma forma ou de outra estava fazendo o meu trabalho. Assim como os socorristas recolhiam em vão os corpos que caiam do edifício, mas curiosamente não recolheram o do mendigo que continuava com seu jeito de escárnio e deboche para todos que pudessem ver. Mais um cão fora atirado do prédio, mas esse bateu em uma marquise e ficou ao lado do mendigo ganindo. Um sofrimento sem precedentes que eu não tinha explicação. Mas ao começar a ganir, o cachorro parecia dar voz, ficando ao lado do mendigo. Era um ganido estranho, que parecia fazer com que o mendigo gargalhase. Era estranho. Um morador de rua com as genitálias para fora, com um vergalhão na garganta e um cão lhe dando voz.
                        Foi demais para o comandante. Ambos se entreolharam e, a fúria devido a impotência do comandante ante ao escárnio provocado pelo canido do cachorro, fez com que, num ato de fúria, o comandante pegasse o machado e decapitasse o pobre morador de rua seguindo do cão. Triste e cruel, mas quem disse que a vida é feliz e bonita? As pessoas ficaram horrorizadas, o pastor fez o sinal da cruz, os policiais começaram a mandar todos embora, mas praticamente ninguém queria ir. Eu, como sempre, achei que já tinha visto de tudo e minha curiosidade não valia a pena continuar por ali. Meu cansaço, e minhas pernas também mereciam um descanso. Ninguém podia fazer mais nada por aquelas pobres almas que estavam num inferno.
                        Virei as costas e fui caminhando em direção a esquina oposta. Chega, o circo acabara. Não adiantaria nada estar ali. Enxugei o suor da testa causado pelo calor do prédio em chamas e tomei o rumo da minha casa. Sem remorsos, sem culpa, apenas pedindo a alguma Divindade que interviesse pelas almas restantes. E, praticamente, segundos após eu pedir isso, pareceu que um machado Divino e invisível atendesse ao meu pedido. Virei-me para trás no exato instante que o prédio era rasgado pela sua diagonal, onde uma enorme rachadura deixou a mostra móveis, talvez corpos ou o que estivesse  lá dentro. Eu estava longe demais para perceber. As pessoas que teimaram em continuar na esquina vinham aos tropeções junto com bombeiros e policiais por último
                        Por fim, eu ouvi o estrondo. O edifício ruíra levando as vidas que restavam, e agora sem o sorriso do mendigo. Sem o desespero do comandante. O tarado talvez tenha ido buscar outra vítima, assim como a repórter o deve ter feito também. No fim vitimas interessam a bombeiros, policiais, tarados, repórteres, cinegrafistas e porque não fazendo a alegria dos mendigos. E para mim, foi interessante também. No fim das contas, o tempo que o prédio ardeu, foi suficiente para ser visto. Enquanto a nuvem de poeira, subia pelas minhas costas eu me lembrava de tirar o meu objeto de trabalho. Meu maldito emprego, ao qual eu odeio. Peguei meu colete amarelo que em letras garrafais diziam “COMPRO OURO” e um telefone e o dobrei meticulosamente e coloquei-o dentro do bolso. Dever cumprido, trabalho feito. Hora de ir para casa, minhas pernas doem e amanhã é mais um dia.