Em
defesa da honra
Escócia, 1298. Um homem corre apressadamente pelos
subúrbios de Stirling. Queria passar
despercebido por entre os camponeses, mas havia uma boa recompensa pela sua
cabeça. O seu tartã foi reconhecido por alguns, que de boca em boca fizeram
chegar a notícia de que um fora da lei estava nos arredores de Stirling. O
vassalo do senhor de Stirling, senhor do castelo de Doune reuniu seus homens e
resolveu confirmar o rumor de que talvez Willian Wallace estivesse em seus
domínios. Depois da campanha desastrosa de Falkik, e de seu desaparecimento, o
senhor do castelo de Doune refletiu que seria uma ótima ideia entregá-lo ao seu
suserano.
Partiu em sua busca com mais de trinta homens, um
exagero evidente, atrás de um homem a pé brandindo apenas sua honra e sua
espada que carregava sempre consigo. O senhor de Doune, Lorde Everton, espalhou
seus homens pelo campo, na expectativa de que pudesse capturá-lo. Seu primeiro
erro ao espalhar seus homens foi deixá-los em quinze duplas. Acontece que o
suposto Willian Wallace capturou sua primeira dupla na floresta, sendo os
guardas reais facilmente derrotados. Agora ele tinha um cavalo, e poderia
adentrar mais rapidamente. Mas ao invés de correr como um garotinho assustado,
ele fez, como sempre o inesperado. Caçou as duplas, matando seus oponentes
rapidamente com uma destreza rara entre os guerreiros escoceses da época. Lorde
Everton com medo, que não poderia deixar aparente conseguiu reunir o que
sobrara de sua tropa. Como ele havia escolhido o caminho do meio, em pouco
tempo os seus soldados rapidamente estavam reunidos. Total de soldados que
foram ao seu encontro: seis. Com nove homens no total, e com os rumores pelos
vilarejos de que alguns soldados haviam fugido, Lorde Everton determinou aos
seis que foram ao seu encontro que a todo e qualquer soldado que achasse pelas
redondezas e que não estivesse vindo de Doune, deveria ser passado na espada. Ele
então ficou com mais três homens e adentrou a floresta. No caminho, um cavalo
com a pata quebrada, teve sua misericórdia final com um tiro de uma besta
pequena que encharcou o pequeno cavalo de sangue.
Em sua cavalgada, procurando o que já havia
certeza de ser Willian Wallace, os homens cavalgaram fortemente para dentro da
floresta, para que pegassem-no o mais rápido possível. Após alguns quilômetros,
uma sombra dentro de uma trilha foi identificada. Depois de inúmeros pedidos
para que ele parasse ele resolveu correr. Ao sair da trilha, forçou Lorde
Everton e seus comandados a desmontar e correr para floresta. Lorde Everton
conhecia a floresta, conhecia seus caminhos, mas não gostava de sair de seu
castelo, principalmente para aquelas redondezas. Os elmos foram ficando pelo
caminho, devido ao seu peso, fazendo com que a eles sobrassem somente a cota de
malha e a espada. O perseguido vestia apenas seu kilt com o tartã de seu clã.
Em determinado momento, chegaram a uma clareira, perto do lago Ghleannain. Era uma clareira redonda,
parecia que as árvores haviam sido cortadas pelo homem, mas não havia tempo
para se pensar nisso. O homem desembainhou sua espada, não restando a Lorde
Everton e seus quatro homens fizessem o mesmo. Os homens se olharam, sem que
uma palavra fosse dita, já que na verdade as únicas palavras seriam o barulho
do aço contra aço, aço rasgando carne. Estando o homem com sua espada de um
lado e Lorde Everton, já sorrindo com seus soldados de outro, ele apenas disse:
Só o matem se ele resistir. Ou seja, se ele não abaixar essa espada, matem-no. O homem do outro lado, nada disse, apenas não
abaixou sua espada. Quando estavam próximos ao combate, uma flexa, caiu na
clareira entre eles e uma voz rouca gritou: Parem! Os homens entreolharam
quando da mata, surgiu uma figura soturna. Era alto, de cabelos e barbas
brancas como a neve. Seu kilt era todo negro e nenhum tartã. Todos se
entreolharam enquanto o homem de passos firmes entrava na clareira esticando
cinco cordas coloridas e de cores diferentes na sua mão esquerda. Lorde
Everton, assim como seus soldados, manteve sua espada em posição de guarda,
enquanto o suposto Willian Wallace abaixou a sua. Lorde Everton, o encarou e
perguntou:
-Pare em nome de quem velho? – disse Lorde
Everton, ajeitando os longos cabelos, metade loiro, metade branco. Vestia cota
de malha e o símbolo de sua casa na sua capa, um homem e uma mulher se olhando
e entre eles a coroa todos em vermelho. Sua espada era longa, de um aço novo, e
olhava fixamente o velho. Sua barba meio amarela e meio loira não deixava
mostrar a tensão em seu rosto, que reluzia naquela manhã na clareira.
-Rá! Um velho chamando o outro de velho. Isso é
engraçado. Bom, mas chegaram em minha clareira, essa não parece ser, mas são
minhas terras, e eu, dito as leis por aqui.
-Velho – disse um dos soldados – largue essas
cordas idiotas e se renda. Lorde Everton é seu suserano, tem direitos e você
nada mais é que um camponês idiota.
-Não vai querer que eu largue as cordas, logo,
peço que cada um se sente nas pedras dispostas na clareira e nenhum mal lhes será
feito.
O soldado não atendeu a ordem e correu em direção
ao homem de kilt negro. O velho era rápido, com um movimento do braço direito
uma faca de arremesso foi cravada na cabeça do soldado que caiu agonizando. O
suposto Willian Wallace continuara parado, de espada baixa. Lorde Everton
ficava parado olhando, e com um movimento de cabeça um outro soldado, alto e
forte, branco e de cabelos negros correu em direção ao velho. Ao perceber a
aproximação rápida do soldado, ele largou a corda azul. Atrás dele apareceu uma
lança, que parecia ter sido arremessada por uma besta gigante que penetrou no
corpo do homem e levou-o a metros atrás do grupo sumindo na mata onde apenas
ouvíamos seu último grito de agonia.
-Agora, os senhores podem se sentar? Será um longo
dia e quero conforto para os senhores. Se tentarem fugir, morrerão, se tentarem
me atacar eu soltarei as cordas. O único ponto seguro é onde estou, onde as
lanças não me matarão. Mas se tentarem chegar aqui morrerão, como o amigo de
vocês há pouco. Então repetindo a ordem, sentem-se.
-É um truque, disse Lorde Everton. Nesse instante,
o homem de negro soltou a corda amarela, que atirou uma outra lança que passou
a frente dos olhos de todos sendo cravada fortemente numa árvore.
O velho sentou, e afagando sua barba branca,
começou a divagar sobre o que estava vendo: Olhe só. Lorde Everton. Dentro da
floresta. Um estranho que não sei o nome, com uma bela espada admito. O único
que calou a boca. Interessante. Para todos vocês estarem aqui, tão longe de seus
castelos e terras, atrás deste homem alguma coisa deve ele deve ter feito de
muito grave. A não ser que ele tenha fodido com sua esposa Lorde Everton, mas
acredito que não, porque aquele javali horroroso nem o senhor tem coragem de
fodê-la, pelo que contam nas vilas.
-Velho idiota. Reclamou, um soldado loiro, menor
que o soldado morto pela lança. Sua magreza aparente impressionava mais como
ele podia sustentar ainda sua armadura, cota de malha e manoplas, além é claro
da espada.
-O velho idiota tem as cordas, você não. Faça como
seu senhor. Cale a boca e não me encha o saco.
Lorde Everton então falou, apontando o dedo para o
homem de cabelos castanhos. O homem vestia um kilt marrom, com o tartã de seu
clã, das lowlands. Tinha a barba castanha, como seus cabelos e era forte apesar
da baixa estatura. Permanecera quieto todo o tempo, sem falar absolutamente
nada. Lorde Everton argumentara que se tratava de Willian Wallace, o
ex-protetor da Escócia que sumira e que deveria ser entregue a seu senhor em
Stirling, para ser julgado por seus crimes de guerra.
-Ah sim, ponderou o velho, o famoso guerreiro
Willian Wallace, que antes, era protetor de toda a Escócia contra o trono de
Eduardo I. Sim, fiquei sabendo de alguns feitos e de sua derrota em Falkirk. Um
desastre, mas também com senhores vendidos a Eduardo I ou que então se
acovardam em seus castelos se cagando de medo, não me admira que perdesse.
- Não tenho medo, velho. – protestou Lorde
Everton. As forças de Stirling se uniram a este traidor. Eu fiquei em Doune
para...
-Se cagar de medo, abraçado com aquela porca gorda
que sequer te deu um herdeiro. E...
-Velho insolente! Levantou-se o soldado que o
tinha chamado de idiota anteriormente. Coube ao velho, largar a corda azul. Coube
a ele o tempo para que pudesse se virar, uma lança atingiu-o nas costas e
atirando o corpo para longe da clareira, passando a pelo menos dois metros do
homem de tartã negro que não se abalou. O barulho de ossos quebrando, dentro da
floresta, adicionado ao grito, já comum entre eles.
- Continuando – disse o velho, observado por Lorde
Everton aturdido sobre o que ele faria com aquelas lanças e de onde viriam. Eu
dizia que Lorde Everton, é um covarde cagão que não foi capaz de deixar um
castelão e seguir junto a seu senhor. Preferiu ficar onde é seguro. Mas isso
não lhe exime de culpa rapaz – olhou fixamente para Wallace. Apesar de toda
tragédia em Falkirk era sua responsabilidade ficar junto a seu povo, sua gente,
tanto das hilands quanto das lowlands. Mostrou-se covarde e quase tão cagão
quanto Lorde Everton.
- Esses porcos carniceiros estupraram minha
mulher, protestou o homem que estava calado. Esses porcos carniceiros da coroa
mataram minha mulher e meu povo de Elderlie a mando do xerife de Lanark.
-E está certo senhor Willian. Mas lembre-se, eram
ingleses, não seu próprio povo. Além de libertar nossa terra, desses porcos
ingleses, a batalha da ponte de Stirling foi memorável. Nos confins mais
longínquos todos souberam. E inclusive, deram uma coroa a algum desses idiotas
a qual Everton está acostumado a limpar a bunda ou beijar-lhes o saco. De que
adianta um rei escocês, se o mesmo fica dentro de seu castelo enquanto você e
seus soldados vão à batalha? O trágico, é que na única batalha que nosso rei
foi, perdeu. E você, chegou as hilands antes dele.
Lorde Everton ponderava ansiosamente, sem se
levantar da pedra, que Willian por sua traição deveria ser entregue ao rei.
Everton dizia que a honra deveria ser paga com sangue. Que todas as dívidas de
honra deveriam ser pagas com sangue. Willian retrucava, fazendo igual a Lorde
Everton não saindo da pedra. Justificava que ele morto não poderia comandar
novamente o exército contra as forças inglesas. Que deveria na verdade ir para
Stirling, mas que aguardaria alguns dias até voltar não como um fugitivo covarde,
mas sim como comandante das forças escocesas...
- Não se engane rapaz. Está sendo covarde. Mas
fugir é da natureza humana. Veja Lorde Everton. Vive dentro das muralhas de seu
castelo com medo e vergonha. E ainda sim é chamado de Lorde. E agora está aí,
me olhando como um idiota, na esperança de que eu não solte a corda e que a
lança não vá fazer com que ele tenha uma morte horrível. Ou que eu retire a
corda de você, um covarde, que deixou seu povo morrendo em Falkirk depois de
convencê-los que a liberdade de nós dependia de um ponto de partida, e que
aconteceu quando os ingleses estupraram sua mulher. Pelo que me contam, sir
Willian, era jus primae noctis de seu
senhor.
-Mas era violação, desonra,
tudo que pode imaginar, ponha-se no meu lugar homem! – esbravejou Willian e
agora sim, levantando-se e deixando o velho com um ar decepcionado.
-Ah, agora disse bem, sir
William. Acontece que eu entendo de violação, desonra, tudo que possa imaginar.
E pior, infelizmente, não comecei uma revolução por isso. Vou lhe contar a história, tudo começou
quando...
Um dos soldados de Lorde
Everton, acreditando que seria possível chegar no estranho, desambanhou sua
espada e partiu para cima do velho. Lorde Everton e William Wallace ficaram em
suas posições. O velho desambanhou uma espada longa e repeliu facilmente o
primeiro golpe que vinha em direção a seu flanco direito. Manuseando habilmente
a espada ambos travavam uma batalha no centro da clareira. O problema é que o
velho tinha de evitar que as cordas fossem cortadas e se manter vivo ao mesmo
tempo. Mas o soldado, encoberto por sua armadura era um adversário difícil,
apesar de toda a habilidade no conflito. Porém em determinado momento, o velho,
troca golpes com o soldado, e joga sua espada no chão. A surpresa é geral.
- Não tem mais facas de
arremesso velho e não estou sentado nas pedras. Essas lanças não podem me
atingir.
- Sim, sou velho e não tão
hábil. Mas a inteligência me ensinou a prever coisas garoto, como a que fez
agora. A copa das árvores são verdes, e a morte é vermelha. – ele aponta para o
chão, mostrando que estão no meio da clareira e depois para o alto. Uma enorme
lança vem ao solo quando o velho deixa cair ao solo a corda verde que dispara a
enorme lança que transpassa o soldado, quase partindo-o ao meio. Ele calmamente
pega sua espada, finca no solo e continua a falar.
-Bom, não há mais idiotas
para me desafiar. Vou continuar, então. Sabe Sir Willian, eu entendo tudo sobre
tudo que acabara de me falar e até entendo sua revolta. Um momento. Edwin!!!
Gritara o velho. Willian e Everton se entreolharam com um certo espanto. Do
meio da mata saiu um rapaz de aproximadamente uns vinte anos. Loiro, alto, com
uma barba cerrada também loira e de cabelos compridos. Trajava um kilt também
negro, onde não se podia identificar o clã. Ele sentou-se bem na pedra onde o
soldado jazia morto na clareira, depois de indicado por seu pai.
-Sabe Sor Willian, um dia eu
já fui jovem como você. Um dia eu já fui trabalhador. Continuo trabalhador.
Mas, e essa é uma história que estou lhe contando pela primeira vez, tanto para
você, Lorde Everton e Edwin, que merece saber de tudo antes que eu parta. Há
muitos anos, eu estava aqui, sob domínio inglês, mas tinha uma vida pacata. Há
muitos anos eu me casei. Seu nome era Megan. Linda, loira, dos seios firmes, a
pele alva, a boca carnuda, que ria das minhas piadas horríveis. Ela era a
mulher mais bonita da vila, e por um milagre de Cristo eu a conquistei. E foi
então que nos casamos. No dia da nossa união, um lorde, veio ao nosso casamento
abençoando-nos e pedindo seu direito de sua jus primae noctis com minha Megan.
Imagine que com espadas, bestas e flechas apontadas para mim eu não tive opção.
Sou analfabeto e sei o suficiente para saber quando sou ameaçado. Então cedi.
Ela me foi devolvida no dia seguinte por uma guarnição muito bem armada sem que
uma palavra fosse me dita. Chorei como um bebê e quando ela chegou não tinha conseguido
me deitar com ela. E assim pelos longos dias, uma outra coisa aconteceu. Sempre
que ia ao lago Ghleannain
lavar nossas roupas, imediatamente, muito bem amparado por guardas, o lorde
voltava. E assim, ela foi não só violada na primeira noite. Mas toda vez que
teve oportunidade para fazê-lo, este lorde nojento e repugnante fazia. Até que
um dia Megan ficou grávida. Não era meu, porque não me deitava com ela desde
que ela me fora devolvida. Eu não disse nada, afinal, que era mais um bastardo
no mundo cruel que vivemos. Mas este lorde, louco, continuou a violá-la até
próximo ao nascimento do bebê.
-Mas porque ela não parou de
ir ao lago, interrompeu William.
Porque a guarnição que a
escoltava, disse que se ela deixasse de ir ao lago, eu seria morto e minha
cabeça seria exposta como traidor. Mas, continuando, o lorde sumiu, durante o
período que a criança nasceu. Mas foram procurá-la dois dias depois do
nascimento. Foram até a vila e queriam a todo custo fazer com que ela
entregasse o bebê. Ela tomou a decisão mais difícil e pulou no lago, e, como
não sabia nadar, morreu afogada. O lorde então se acovardou, sumira e desde
então tenho caçado na floresta na expectativa de poder encontrá-lo e matá-lo
com honra. Então Lorde Everton, pronto para um combate?
Tanto Edwin, quanto William
ficam perplexos, ficando a olhar um para o outro. Aos olhos de William, o jeito
que a mulher do homem fora torturada sexualmente, seria motivo suficiente para
um genocício de todos os ingleses. Mas não, ele ficou em busca apenas de Lorde
Everton. Edwin por sua vez, não conseguia acreditar que aquele homem que agora
lutava com seu pai, era na verdade o seu próprio pai. E, que foi capaz de uma
coisa tão terrível que sentia não pena, compaixão ou qualquer coisa do tipo por
Lorde Everton. Sentia na verdade, asco, nojo, vontade de vomitar, de
desembainhar sua própria espada e matar aquele velho desgraçado. Um covarde, um
idiota, capaz de fazer uma coisa tão horrível. Que só não voltou pelo medo de
ser morto por um único homem.
Enquanto os pensamentos
corriam tanto na cabeça de William quanto na de Edwin, Lorde Everton atacava
ferozmente com sua espada de cabo longo, tentando a todo custo encontrar a
carne do velho grisalho. Mas apesar da idade ambos se mexiam habilmente. Lorde
Everton, girara a espada da esquerda para a direita, acertando o vazio,
enquanto o velho se abaixava e no retorno da lâmina o golpe foi habilmente
defendido. Lorde Everton com as duas mãos desferiu um golpe de cima para baixo,
onde o velho se esquivara para a direita acertando um pontapé em suas nádegas
fazendo-o voar ao chão aos pés de Edwin que olhava assustado. Nesse ínterim ele
aproveitara e guardara a ponta da corda preta debaixo da pedra onde estava
sentado. Assim pôde manusear sua espada com as duas mãos mais habilmente. A
dança no círculo de pés, mãos e espadas deixava aos dois únicos espectadores
maravilhados pela habilidade de ambos. Por fim, o aço contra o aço, foi batido
na altura das suas cabeças, Lorde Everton tentou um golpe da esquerda para a direita
que foi defendido com o velho de costas para ele, onde num giro espetacular
atingira o ombro de Lorde Everton. O barulho de ossos se quebrando, e um jato
de sangue subindo manchando a roupa do Lorde, fez com que a sua espada de
repente ficasse mais pesada. Com a força do golpe, Lorde Everton, caíra de
joelhos de espada na mão, que fora arrancada com um golpe preciso na junção de
sua manopla que defendia seus dedos, fazendo mão e espada voarem longe. O chute
quebrando os dentes veio logo depois, deixando o Lorde deitado no solo. Com as
duas mãos, o velho, enterrou sua espada entre o umbigo e o pênis, atravessando
Lorde Everton e cravando a espada no chão úmido fazendo gritar e gemer. Calmamente
o velho se levantou e pegou a corda de cor preta. E disse, tanto para o filho
quanto para William: levantem-se e saiam de perto dessas pedras.
Quando eles chegam perto do
ancião, o mesmo solta a corda que aciona duas lanças que se perdem dentro da
floresta. Ele ri e se vira para William dizendo:
-Se esconder aqui não vai
adiantar rapaz. Volte para seu povo. Volte para aqueles que precisam de você.
Se vai morrer, não morra como aquele idiota, se escondendo. Essa terra foi
feita para homens valentes, não para idiotas, covardes e traidores. Neste momento Edwin também fala.
- Pai, eu também gostaria de
ir. Eu quero ir com William.
-Não! – diz William. Vai
encontrar somente o perigo da morte, aqui tem a seu pai, amigos, gente a ajudar
a defender.
-Deixe que ele escolha
William, ele é do seu povo, mas não é um garoto indefeso. Apenas peço que lhe
dê uma espada decente, a minha vai ficar cravada um bom tempo naquele idiota
ali. Eu estou consentindo que ele vá, não é um guerreiro tão bom quanto você,
mas eu pude ensiná-lo algumas coisas.
-Mas antes, tinha dúvida se
eu era William, como pode saber...
-Eu não tenho clã. Mas você
sim. Seu clã ficou conhecido, logo, assim que botei os olhos sabia que era
você. E, ao contrário de mim, você não tem filhos, eu sim. Eu esperarei meu
filho. Vivo ou morto. É a honra que faz mover as espadas William, é a vontade
ferrenha de fazer justiça. Por isso, não pode ficar escondido aqui. Reúna
novamente suas forças e tire essa escória inglesa das nossas terras.
O velho deu um abraço em William
e logo depois um abraço no filho. Indicou o caminho que deveriam partir e ficou
na clareira, vendo os dois sumirem na mata, enquanto Lorde Everton ainda
agonizava no solo, com a espada cravada em seu corpo.