quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Escritos Urbanos



Alemanha Oriental, 1979

             A chuva caía ininterruptamente ladeada de raios que cortavam o céu carregado e os trovões pareciam o soar das trombetas a anunciar o apocalipse. O céu iluminava-se naquela noite a cada raio revelando as grandes e pesadas nuvens que pairavam sobre a cidade. Era uma chuva forte e que consequentemente forçava as pessoas a procurar abrigo em suas casas e quem não as tivesse num dos abrigos públicos da prefeitura ou então em igrejas ou instituições de caridade onde as bondosas freiras e padres ainda existentes naquela Alemanha dividida e agora comunista, consequentemente sem religião.
                        Mesmo não sendo aconselhável, uma figura taciturna cruzava sem chamar a atenção pelas ruas de Passau. O homem, alto, que usava um sobretudo grosso e negro entrara furtivamente na Catedral de Santo Estevão. Ele sacudira as gotas grossas de chuva que lhe caíram durante o trajeto e tirou o chapéu, também negro, fazendo o sinal da cruz assim que entrou e avistou o altar. Caminhou calmamente sem ser incomodado por ninguém e foi caminhando devagar, pelo longo corredor que ia ao altar. Passou por uma mesa de esculpida em rocha maciça onde o padre rezava ainda que vigiado as missas aos domingos para os poucos cristãos que lá apareciam e as freiras que viviam no prédio anexo a catedral. Ele chegou até a uma escultura do santo que era apedrejado por figuras estranhas em pedra sabão e ficara admirando-a enquanto os raios ao fundo cortavam o céu e iluminavam ao fundo dos grandes vitrais da catedral. O barulho dos trovões dentro da igreja pareciam ser ainda maiores e ecoavam pela catedral até que outra figura de preto adentrou a catedral e se dirigiu até ao homem.
                        -O Senhor esteja convosco – disse
                        - Ele está no meio de nós – e beijou a mão do padre o homem, ajoelhando-se a seus pés.
                        - Corações ao alto.
                        - O nosso coração está em Deus
                        -Dêmos graças a Deus
                        -É nosso dever e nossa salvação, terminou o padre. E antes que o home lhe falasse qualquer coisa ele lhe entregara um envelope. Depois disso entre um relampejar e outro ele se lançou às trevas e desaparecera deixando o homem sozinho dentro da capela.
                        Observado pelos afrescos de Carpoforo Tencalla, o homem sentou-se em um dos bancos, de frente para o altar, onde ali de maneira solitária, abriu o envelope. Era um envelope de papel pardo, cujas gotas grossas de chuva ainda caíam sobre ele. Levantou-se então, tirou o sobretudo negro e deixou-o repousar sobre o banco, enquanto perto de uma vela ali acendida, se aproximara para ver melhor o conteúdo do envelope. Depois de aberto, o homem, riu, cinicamente e depositou se conteúdo de volta no envelope.
                        Vestira novamente o sobretudo negro e caminhou calmamente sem ser incomodado até sair pela porta principal da catedral. A chuva ainda despejava generosas gotas grossas de chuva e a cidade parecia deserta. Novamente de chapéu, atravessou o grande pátio ladeado de árvores centenárias que agora na escuridão da noite pareciam figuras assombradas com alguma coisa, ou então mostravam-se como caricaturas de figuras divinas a censurar os passos daquele homem. Aumentando o passo, e depois entrou solitário na rua viela de nome Luragegasse onde se perdeu na escuridão da noite sem perceber que um carro branco, dera partida no motor sem acender os seus faróis e passara a segui-lo a uma certa distância.
                        Após sair sorrateiramente da viela, ele entrou em seu carro e deu partida no motor. O ronco abafara o soar dos trovões e ele engatou a primeira marcha e fez o carro andar ainda sem notar que estava sendo seguido. A chuva serpenteava loucamente a sua frente enquanto o carro branco mantinha uma certa distância do seu alvo, com seus dois ocupantes também vestidos de negro, irrompiam a tempestade, cujo alvo e objetivo ainda eram uma incógnita. Depois de dirigir pela Bratifishwinkel, contornou a esquerda na Brunngasse e parou em frente a um edifício antigo. Desceu do carro e mais atrás os homens do carro branco, estacionaram e desligaram o motor. Se entreolharam, entretanto, nada fizeram.
                        O homem grande, de sobretudo negro, adentrou o edifício, onde no fundo ficava a mesinha de um porteiro gordo e bonachão já dominado pelo sono e pelo marasmo de uma noite fria e chuvosa. Não fez pergunta alguma àquele homem gigantesco, protegido pelo seu chapéu e sobretudo negros que entrou como um gato no elevador fechando vigorosamente a porta de ferro trançado. O odor de madeira molhada impregnava o elevador, onde o homem tirou o chapéu e apertou o andar número quatro. Não obstante ao chegar no andar de número três, um raio caíra no poste em frente ao prédio fazendo com que a toda Brungasse ficasse sem luz e os homens no carro branco por um momento se entreolharam espantados com o número incontável de faíscas que se espalhou pela rua no momento que o raio atingira o poste.
                        Preso no elevador o homem não mostrara raiva no momento. Estava preso, enjaulado, e isso o deixou furioso. Ele tinha pressa, não havia muito tempo a perder. Então olhou as grades que o prendiam e o primeiro passo foi um chute bem forte na grade que tratou de tirá-la do trilho. Por conseguinte pegou as grades com as mãos e fez um grande esforço para puxá-las para dentro do elevador e deixar uma pequena passagem para que pudesse com calma abrir a porta externa do elevador, que com a falta de energia, se destravara facilmente.  Assim, saindo do seu casulo improvisado, tratou de subir em direção ao quarto andar onde no final do corredor o apartamento de número quarenta e quatro o aguardava. O trilho de água da chuva o seguiu do terceiro até a porta do número quarenta e quatro. Sem tirar o sobretudo, bateu vigorosamente na porta. Aguardou por um instante até que ouviu passos do sapato cravando a madeira do assoalho e uma pequena fonte de luz. A porta se abriu e sobre a luz de uma vela, seu rosto apareceu iluminado.
                        Os cabelos eram compridos e negros. Longos. Na pequena iluminação da vela, o homem viu apenas seu rosto, com os longos cabelos compridos e negros caindo em direção ao chão. Sua pele era alva, com os olhos cor de mel, as sobrancelhas eram arqueadas e tinham o mesmo tom de cor do cabelo. O nariz fino e reto e o pequeno queixo arredondado sustentavam seus lábios vermelhos e pequenos. Ela sorriu e abriu mais a porta para que o grande homem pudesse entrar. Ela rapidamente fechara a porta para que nenhum vizinho mais curioso resolvesse bisbilhotar quem estaria chegando àquela hora da noite. O apartamento estava às escuras, o pequeno corredor que levava a sala fora apenas iluminada pela vela que ela carregava consigo. Assim que se virou ele pôde vê-la. Vestia um camisão branco, amarrado por um pequeno cinto, uma calça preta colada ao corpo e um scarpin preto que equilibrava seu corpo esguio. Assim que ele foi adentrando a sala de jantar ela o seguia com a vela. Ao que de forma abrupta ele parou virou-se e disse:
                        - Chic?
                        - Não, CCD. – ela respondeu.
                        - Bom, eu trouxe a encomenda. Mas, sabe que não pode sair assim, vai ter de usar o seu guarda-roupa antigo.
                        - Tenho alternativa?
                        - Não. – ele balançara a cabeça.
                        Ela, caminhou então pelo corredor, virando a direita em direção aos quartos num outro corredor onde a primeira porta a esquerda ficava seu quarto. Ele a seguiu, com pisadas firmes tentando buscar a ultima fagulha da chama da vela dela. Ao adentrar ao quarto ela tinha pousado a vela na mesinha de cabeceira que ficava ao lado da cama. Outras quatro velas iluminavam o quarto enquanto a chuva torrencial teimava em não cessar. Vacilou, ele, ao ficar ao pé da porta enquanto a via começar a se despir, onde já havia tirado o camisão, ficando apenas com o scarpin preto e a calça de mesma cor.
                        - Não está vendo nenhuma novidade Theodor. – disse ela, enquanto a brancura de sua pele evidenciava-se pelo dorso nu, os seios entumecidos e rijos.
                        - Sua beleza me encanta a cada dia, sabe disso, por isso faço o que faço.
                        - Não vamos falar nisso agora. Ela disse para Theodor, indo na sua direção, colocando o dedo indicador a frente de seus lábios indicando que ele fizesse silêncio.
                        Theodor ficou ali, parado, enquanto ela, delicadamente retirara seu sobretudo negro, ainda molhado da chuva torrencial. Da mesma forma e delicadamente desabotoou um a um os botões de sua camisa branca. Assim, Theodor também ficara com seu dorso nu, de costas para ela ainda parado na porta. Os raios caíam sobre Passau como uma espada cortando o céu negro de uma ponta a outra. E a cada raio caído, as mãos dela, passeavam pelo seu corpo e um gemido baixinho pôde ser percebido. Theodor então, virou-se, pegando-a no colo e beijando intensamente. Baixinho, ele também disse: Sabine, eu te amo. Onde ao final desta frase ele sentira as mãos de Sabine lhe arranhar as costas. O beijo enlouquecido foi inevitável e  os dois entregaram se ali, com Theodor, fazendo com que Sabine repousada em seu colo fosse carregada por ele até a cama. As mãos fortes e vigorosas de Theodor de um só puxão, fizeram com que ela ficasse completamente nua em cima da cama. Theodor também tirou o resto de roupa que Sabine tinha começado e se entregou a ela. Ambos se entregaram ali, na penumbra de um quarto, numa cama de casal de madeira escura, um dos poucos móveis do quarto que continha apenas a mesinha de cabeceira, um guarda roupa da época da segunda guerra e uma cama, um pouco mais nova.
                        Ali, Sabine sentiu o passear da língua de Theodor pelo seu corpo, onde num clarão ele pôde ver as auréolas rosáceas dos seios de Sabine, com os quais beijou firmemente. Sabine gemia de prazer e desejava seu amado num misto selvageria e paixão envolvendo-os. Sabine acariciava os cabelos loiros e beijava sua boca de lábios finos e barba semicerrada passeava pelo seu rosto sem se preocuparem com o que acontecia fora do apartamento, inclusive a de que Theodor fora seguido pelos dois desconhecidos, coisa que no momento, não vinha a cabeça de nenhum dos dois. Por fim, Sabine, assumindo seu posto de dominadora, subiu no ventre de Theodor, comandando assim todas as ações. O momento era único e exclusivo, nada poderia atrapalhar. Sabine, assim dominou a situação, e extasiados de prazer; segurando com as mãos os lençóis, ela deu um grito como nunca antes deixando extravasar todo seu prazer por estar ali. Ambos após o gozo repousaram seus corpos nus sobre a cama. Enquanto a escuridão e a chuva serviam como mantos de seus corpos ali repousados no apartamento.
                        Pela manhã, a chuva que na noite anterior havia assolado a cidade, desta vez se havia se dissipado. O cheiro de café fresco havia dominado todo a cozinha, e Theodor havia feito café, ovos mexidos, e torradas. Sabine surgiu na cozinha, de roupão bege, que ela detestava, mas que havia sido fornecido pelo Estado e era uma das vestimentas obrigatórias do governo como forma de unificar todas as mulheres da RDA.
                        - Vamos, tome seu café rápido, o elevador já fora descoberto.
                        - Tudo pronto?
                        - Tudo.
                        Enquanto Sabine tomava seu café, Theodor terminava de fazer as malas. Também terminara de colocar seus coldres e verificar se as pistolas estavam carregadas e a munição estava pronta. Do lado de fora do prédio os homens que passaram a noite inteira acordados foram substituídos por outros dois, com uma expressão muito menos amigável que seus antecessores. Theodor colocou seu sobretudo preto e Sabine, teve de abandonar sua vestimenta por outra, a fornecida pelo Estado. Uma blusa de malha verde e uma calça de moletom  branca. Ela prendera os lindos cabelos negros num imponente rabo de cavalo, e também tratara de não usar nenhuma maquiagem. Enquanto isso, a porta de Theodor foi sacudida com safanões fazen
do com que ambos se entreolhassem aturdidos com o que era.
                        Quando abriu a porta, Theodor se deparou com Klaus Honecker, o administrador do prédio. Klaus tinha lutado na segunda grande guerra e se orgulhava de ter mantido longe o capitalismo e que vivia feliz como um comunista igual a todos, igual ao povo. Dizia que os separatistas eram uma vergonha ao se entregarem ao capitalismo. Klaus gritava freneticamente para Theodor dizendo que o mesmo havia danificado o elevador e com isso ele deveria pagar tudo. Theodor com toda a calma do mundo, bateu a porta no seu nariz e voltou para o apartamento. Seus olhos com Sabine se cruzaram e ele apenas disse: chegou a hora. Ela assentiu e pegou a sua mochila preta e olhou pela última vez para o apartamento em cada cômodo. Depois, antes de saírem, deu um caloroso beijo em Theodor e seguiram em direção ao pequeno corredor da sala onde a porta da sala tremia de tanto que Klaus batia na porta. Ao abrir a porta, Theodor viu aquele homem baixinho esperneando a sua frente.
                        -Por favor querida, pode passar.
                        -Safado! Vai ter de pagar pelo elevador, eu vou denunciá-lo ao comitê.
                        -Sim, e leve esta lembrança minha para eles! – Theodor pegara Klaus pelo colarinho e lhe deu uma cabeçada vigorosa, fazendo com que o homem desmaiasse e caísse dentro do corredor. Ele cuidadosamente fechara a porta observada por Sabine que não resistira e riu da situação. Eles desceram os quatro andares apressadamente, reduzindo a velocidade apenas quando chegaram ao térreo. Ao serem interpelados pelo porteiro da manhã, se limitaram a dizer que estava tudo certo. Que estavam indo pegar dinheiro no banco e que voltariam para pagar o senhor Klaus.
                        Ao se dirigirem para o carro, as chaves de Theodor caíram ao chão. Neste momento involuntariamente virara o rosto para a sua direita, exatamente onde estava o carro dos homens que o seguiram na noite anterior. Parou por alguns segundos e observou as rodas. Tanto os carros de Theodor quanto dos homens que o seguiam, eram iguais, menos as rodas. Theodor olhara para Sabine quase que sussurrando um “fique aqui, já volto” e foi em direção aos homens. Aos se aproximar deles, os homens ficaram em pãnico e pareciam não saber o que fazer. Theodor se aproximara e se abaixando para perto dos motoristas cumprimentou-os.
                        -Bom dia camaradas!
                        -Bom dia, responderam.
                        -Eu tenho uma pergunta, será que poderiam me responder?
                        -Claro, já diziam os suados homens.
                        -Onde conseguiram essas rodas e esses pneus largos? Não me digam que o Estado agora estão fabricando novos modelos de rodas?
                        - Bem...erh...
                        - O Estado está fazendo testes, um modelo novo que talvez saia ano que vem.
                        -Era só, bom dia e obrigado! – disse Theodor voltando para seu carro.
                        - Então? – perguntou Sabine, nervosa.
                        - Fomos descobertos, vamos embora. Não sei quem são, mas as rodas daquele Trabant não são originais, é para dar mais aderência. Vamos correr.
                        Antes que Sabine dissesse algo, Theodor acelerou o carro. O Trabant verde-oliva em direção a Heiliggeistgasse surpreendendo os homens que também arrancaram com seu Trabant branco. Sabine estava no banco do carona nervosa pensando o que seria deles caso fossem pegos. Antes que pudessem pensar alguma coisa Theodor investira o carro contra as placas de publicidade dos restaurantes locais despedaçando-as em diversos pedaços. Quando ele resolvera olhar para Sabine no momento que entrara na avenida Shanzl a primeira bala destroçara o vidro traseiro se alojando no painel. Sabine gritou e mas que depressa, Theodor retirou a pistola do coldre esquerdo e atirou em direção ao Trabant perseguidor. As pessoas corriam em pânico e Theodor ziguezagueava alucinadamente em direção a uma saída. Antes que o segundo tiro atingisse a Trabant de Theodor, ele virara bruscamente na Donaulände alucinadamente. Sabine não titubeou ao abrir a mochila e pegar a submetralhadora que carregava. O barulho ensurdecedor fez Theodor encolher os ombros.  Mas o resultado dera certo, a Trabant branca num desvio dos tiros acabara por bater em outra tornando-as quase que uma só. Só aí Theodor pôde relaxar e diminuir a marcha.
                        Theodor então inesperadamente, entrou na viela que tinha percorrido a pé na noite anterior. Sabine olhou para Theodor com uma expressão de espanto, mas viu que ele estava extremamente calmo após a perseguição. A olhou com ternura, manteve-se calmo. O carro parara em frente a catedral. Eles apressadamente desceram do carro e portando a mochila se dirigiram para o interior da capela. Os passos foram em direção ao altar onde ao que parecia Theodor gostaria de fazer a última oração antes de fugirem da Alemanha Oriental. Como sempre a Catedral estava vazia e as freiras já haviam se recolhido. Theodor se aproximara da estátua de São Estevão e quando começara a rezar foi interrompido por um grito irrompendo a Catedral. Sabine teve tempo apenas para ver o rosto dos homens que na noite anterior seguiram Theodor. Um era calvo e alto, vestia um terno negro e empunhava uma pistola semiautomática. O seu comparsa vestia um terno marrom, com ombreiras e uma gravata vermelha, cor de sangue e não empunhava arma alguma. Sabine empunhou a submetralhadora mas o tiro em Theodor foi certeiro. Ele com o impacto, caiu segurando o peito que se esvaía em sangue. Sabine atirou sem nem fazer uma mira direito, mas por precaução os homens se atiraram entre os bancos vazios da Catedral enquanto o som da submetralhadora e suas balas destruíam dezenas de bancos da Catedral. Neste momento, um padre irrompeu a Catedral despejou a sua fúria:
                        - Parem, respeitem a casa de Deus!!!
                        Todos se entreolharam e Sabine abaixou a arma. Os homens olharam o padre que fez um sinal e o de terno marrom acendeu um cigarro e fez sinal para o de negro que não entendera nada mas que saiu ainda que contrariado, sempre observados pelo padre. Sabine chorava sobre o corpo de Theodor quando o padre tocara no seu ombro fazendo-a se levantar abraçando-a enquanto o corpo de Theodor estava aos pés da estátua de São Estevão. O padre então puxou o corpo de Sabine que não queria estar longe do corpo de Theodor. Ele fez o sinal da cruz no corpo de Theodor e rapidamente pegou o mesmo envelope que dera a Theodor na noite anterior. Voltou-se novamente para Sabine e abraçando-a ele a levou para dentro da sala paroquial. A igreja novamente pousou em silêncio.
                        Dez anos mais tarde, uma figura feminina entrara novamente na Catedral de São Estevão. Ela trajava um vestido longo e preto. O barulho de seu scarpin ecoava pela catedral que estava novamente vazia. A mulher parou por um instante em frente ao altar e fez o sinal da cruz. Ela entrou na pequena cabine do confessionário e rezou uma Ave-Maria ao passo que terminando, aberta a portinhola onde se via a figura de um home de cabelos compridos, disse:
                        - Sem pecado, concebida. Abençoe-me padre porque pequei. Há dez anos fiz minha última confissão.
                        - Ave-Maria Puríssima, pode falar minha filha:
                        - Padre, seremos livres hoje.
                        - Tem certeza minha filha?
                        - O senhor sabe, todos estão indo para o portão.  Por isso a igreja está mais vazia do que antes. Mas o antigo pároco daqui, onde está?
                        - A Santa Madre Igreja o chamou para uma viagem ao Vaticano. Há cinco anos esperamos sua volta.
                        - Creio que ele não voltará padre.
                        - Como sabe?
                        - Porque o padre digamos, fora arrebatado.
                        - Um milagre?
                        - Sim, assim como também acontecerá com o senhor.
                        A mulher então lhe entrega um envelope de papel pardo por uma fresta do confessionário. O padre leu e sorriu. Ela ficou calada sobre todo esse tempo. Foi então que o homem se levantou e fechou a portinhola do confessionário. De súbito a cortina do confessionário da mulher se abriu. Um homem alto, de cabelos compridos entregara a ela uma pequena jóia. Na verdade era uma bala muito bem polida pendurada por um cordão de prata finíssimo. Ela entreolhou o homem e sorriu. O envelope ele guardara no seu sobretudo negro e lhe perguntou:
                        - Tem certeza que é seguro?
                        - Se não fosse não estaria aqui. Estou aqui porque eu te amo.
                        - E eu esperei todo esse tempo porque também te amo.
                        Ambos se beijaram, aos olhares da estátua de São Estevão enquanto longe dali em Berlim, as primeiras marteladas no muro começavam a deixar um rastro de medo para trás. Velhos Trabants atravessavam o portão de Brandenburgo num buzinaço ensurdecedor. Mas para Theodor e Sabine, nada disso mais importava, apenas que estavam juntos de volta...