Alemanha Oriental, 1979
A chuva caía ininterruptamente ladeada de raios
que cortavam o céu carregado e os trovões pareciam o soar das trombetas a
anunciar o apocalipse. O céu iluminava-se naquela noite a cada raio revelando
as grandes e pesadas nuvens que pairavam sobre a cidade. Era uma chuva forte e que
consequentemente forçava as pessoas a procurar abrigo em suas casas e quem não
as tivesse num dos abrigos públicos da prefeitura ou então em igrejas ou
instituições de caridade onde as bondosas freiras e padres ainda existentes
naquela Alemanha dividida e agora comunista, consequentemente sem religião.
Mesmo não sendo aconselhável, uma figura
taciturna cruzava sem chamar a atenção pelas ruas de Passau. O homem, alto, que
usava um sobretudo grosso e negro entrara furtivamente na Catedral de Santo
Estevão. Ele sacudira as gotas grossas de chuva que lhe caíram durante o
trajeto e tirou o chapéu, também negro, fazendo o sinal da cruz assim que
entrou e avistou o altar. Caminhou calmamente sem ser incomodado por ninguém e
foi caminhando devagar, pelo longo corredor que ia ao altar. Passou por uma
mesa de esculpida em rocha maciça onde o padre rezava ainda que vigiado as missas
aos domingos para os poucos cristãos que lá apareciam e as freiras que viviam
no prédio anexo a catedral. Ele chegou até a uma escultura do santo que era
apedrejado por figuras estranhas em pedra sabão e ficara admirando-a enquanto
os raios ao fundo cortavam o céu e iluminavam ao fundo dos grandes vitrais da
catedral. O barulho dos trovões dentro da igreja pareciam ser ainda maiores e
ecoavam pela catedral até que outra figura de preto adentrou a catedral e se
dirigiu até ao homem.
-O
Senhor esteja convosco – disse
- Ele está no meio de nós – e beijou a mão do
padre o homem, ajoelhando-se a seus pés.
-
Corações ao alto.
-
O nosso coração está em Deus
-Dêmos graças a Deus
-É nosso dever e nossa salvação, terminou o
padre. E antes que o home lhe falasse qualquer coisa ele lhe entregara um
envelope. Depois disso entre um relampejar e outro ele se lançou às trevas e
desaparecera deixando o homem sozinho dentro da capela.
Observado pelos afrescos de Carpoforo
Tencalla, o homem sentou-se em um dos bancos, de frente para o altar, onde ali
de maneira solitária, abriu o envelope. Era um envelope de papel pardo, cujas
gotas grossas de chuva ainda caíam sobre ele. Levantou-se então, tirou o
sobretudo negro e deixou-o repousar sobre o banco, enquanto perto de uma vela
ali acendida, se aproximara para ver melhor o conteúdo do envelope. Depois de
aberto, o homem, riu, cinicamente e depositou se conteúdo de volta no envelope.
Vestira novamente o sobretudo negro e
caminhou calmamente sem ser incomodado até sair pela porta principal da
catedral. A chuva ainda despejava generosas gotas grossas de chuva e a cidade
parecia deserta. Novamente de chapéu, atravessou o grande pátio ladeado de
árvores centenárias que agora na escuridão da noite pareciam figuras assombradas
com alguma coisa, ou então mostravam-se como caricaturas de figuras divinas a
censurar os passos daquele homem. Aumentando o passo, e depois entrou solitário
na rua viela de nome Luragegasse onde se perdeu na escuridão da noite sem
perceber que um carro branco, dera partida no motor sem acender os seus faróis
e passara a segui-lo a uma certa distância.
Após sair sorrateiramente da viela, ele
entrou em seu carro e deu partida no motor. O ronco abafara o soar dos trovões
e ele engatou a primeira marcha e fez o carro andar ainda sem notar que estava
sendo seguido. A chuva serpenteava loucamente a sua frente enquanto o carro
branco mantinha uma certa distância do seu alvo, com seus dois ocupantes também
vestidos de negro, irrompiam a tempestade, cujo alvo e objetivo ainda eram uma
incógnita. Depois de dirigir pela Bratifishwinkel, contornou a esquerda na
Brunngasse e parou em frente a um edifício antigo. Desceu do carro e mais atrás
os homens do carro branco, estacionaram e desligaram o motor. Se entreolharam,
entretanto, nada fizeram.
O homem grande, de sobretudo negro, adentrou
o edifício, onde no fundo ficava a mesinha de um porteiro gordo e bonachão já
dominado pelo sono e pelo marasmo de uma noite fria e chuvosa. Não fez pergunta
alguma àquele homem gigantesco, protegido pelo seu chapéu e sobretudo negros
que entrou como um gato no elevador fechando vigorosamente a porta de ferro
trançado. O odor de madeira molhada impregnava o elevador, onde o homem tirou o
chapéu e apertou o andar número quatro. Não obstante ao chegar no andar de
número três, um raio caíra no poste em frente ao prédio fazendo com que a toda
Brungasse ficasse sem luz e os homens no carro branco por um momento se
entreolharam espantados com o número incontável de faíscas que se espalhou pela
rua no momento que o raio atingira o poste.
Preso no elevador o homem não mostrara raiva
no momento. Estava preso, enjaulado, e isso o deixou furioso. Ele tinha pressa,
não havia muito tempo a perder. Então olhou as grades que o prendiam e o
primeiro passo foi um chute bem forte na grade que tratou de tirá-la do trilho.
Por conseguinte pegou as grades com as mãos e fez um grande esforço para
puxá-las para dentro do elevador e deixar uma pequena passagem para que pudesse
com calma abrir a porta externa do elevador, que com a falta de energia, se
destravara facilmente. Assim, saindo do
seu casulo improvisado, tratou de subir em direção ao quarto andar onde no
final do corredor o apartamento de número quarenta e quatro o aguardava. O
trilho de água da chuva o seguiu do terceiro até a porta do número quarenta e
quatro. Sem tirar o sobretudo, bateu vigorosamente na porta. Aguardou por um
instante até que ouviu passos do sapato cravando a madeira do assoalho e uma pequena
fonte de luz. A porta se abriu e sobre a luz de uma vela, seu rosto apareceu
iluminado.
Os cabelos eram compridos e negros. Longos.
Na pequena iluminação da vela, o homem viu apenas seu rosto, com os longos
cabelos compridos e negros caindo em direção ao chão. Sua pele era alva, com os
olhos cor de mel, as sobrancelhas eram arqueadas e tinham o mesmo tom de cor do
cabelo. O nariz fino e reto e o pequeno queixo arredondado sustentavam seus
lábios vermelhos e pequenos. Ela sorriu e abriu mais a porta para que o grande
homem pudesse entrar. Ela rapidamente fechara a porta para que nenhum vizinho
mais curioso resolvesse bisbilhotar quem estaria chegando àquela hora da noite.
O apartamento estava às escuras, o pequeno corredor que levava a sala fora
apenas iluminada pela vela que ela carregava consigo. Assim que se virou ele
pôde vê-la. Vestia um camisão branco, amarrado por um pequeno cinto, uma calça
preta colada ao corpo e um scarpin preto que equilibrava seu corpo esguio.
Assim que ele foi adentrando a sala de jantar ela o seguia com a vela. Ao que
de forma abrupta ele parou virou-se e disse:
- Chic?
- Não, CCD. – ela respondeu.
- Bom, eu trouxe a encomenda. Mas, sabe que
não pode sair assim, vai ter de usar o seu guarda-roupa antigo.
- Tenho alternativa?
- Não. – ele balançara a cabeça.
Ela, caminhou então pelo corredor, virando a
direita em direção aos quartos num outro corredor onde a primeira porta a
esquerda ficava seu quarto. Ele a seguiu, com pisadas firmes tentando buscar a
ultima fagulha da chama da vela dela. Ao adentrar ao quarto ela tinha pousado a
vela na mesinha de cabeceira que ficava ao lado da cama. Outras quatro velas
iluminavam o quarto enquanto a chuva torrencial teimava em não cessar. Vacilou,
ele, ao ficar ao pé da porta enquanto a via começar a se despir, onde já havia
tirado o camisão, ficando apenas com o scarpin preto e a calça de mesma cor.
- Não está vendo nenhuma novidade Theodor. –
disse ela, enquanto a brancura de sua pele evidenciava-se pelo dorso nu, os
seios entumecidos e rijos.
- Sua beleza me encanta a cada dia, sabe
disso, por isso faço o que faço.
- Não vamos falar nisso agora. Ela disse para
Theodor, indo na sua direção, colocando o dedo indicador a frente de seus
lábios indicando que ele fizesse silêncio.
Theodor ficou ali, parado, enquanto ela,
delicadamente retirara seu sobretudo negro, ainda molhado da chuva torrencial.
Da mesma forma e delicadamente desabotoou um a um os botões de sua camisa
branca. Assim, Theodor também ficara com seu dorso nu, de costas para ela ainda
parado na porta. Os raios caíam sobre Passau como uma espada cortando o céu
negro de uma ponta a outra. E a cada raio caído, as mãos dela, passeavam pelo
seu corpo e um gemido baixinho pôde ser percebido. Theodor então, virou-se,
pegando-a no colo e beijando intensamente. Baixinho, ele também disse: Sabine,
eu te amo. Onde ao final desta frase ele sentira as mãos de Sabine lhe arranhar
as costas. O beijo enlouquecido foi inevitável e os dois entregaram se ali, com Theodor,
fazendo com que Sabine repousada em seu colo fosse carregada por ele até a
cama. As mãos fortes e vigorosas de Theodor de um só puxão, fizeram com que ela
ficasse completamente nua em cima da cama. Theodor também tirou o resto de
roupa que Sabine tinha começado e se entregou a ela. Ambos se entregaram ali,
na penumbra de um quarto, numa cama de casal de madeira escura, um dos poucos
móveis do quarto que continha apenas a mesinha de cabeceira, um guarda roupa da
época da segunda guerra e uma cama, um pouco mais nova.
Ali, Sabine sentiu o passear da língua de
Theodor pelo seu corpo, onde num clarão ele pôde ver as auréolas rosáceas dos
seios de Sabine, com os quais beijou firmemente. Sabine gemia de prazer e
desejava seu amado num misto selvageria e paixão envolvendo-os. Sabine
acariciava os cabelos loiros e beijava sua boca de lábios finos e barba semicerrada
passeava pelo seu rosto sem se preocuparem com o que acontecia fora do
apartamento, inclusive a de que Theodor fora seguido pelos dois desconhecidos,
coisa que no momento, não vinha a cabeça de nenhum dos dois. Por fim, Sabine,
assumindo seu posto de dominadora, subiu no ventre de Theodor, comandando assim
todas as ações. O momento era único e exclusivo, nada poderia atrapalhar.
Sabine, assim dominou a situação, e extasiados de prazer; segurando com as mãos
os lençóis, ela deu um grito como nunca antes deixando extravasar todo seu
prazer por estar ali. Ambos após o gozo repousaram seus corpos nus sobre a
cama. Enquanto a escuridão e a chuva serviam como mantos de seus corpos ali
repousados no apartamento.
Pela manhã, a chuva que na noite anterior
havia assolado a cidade, desta vez se havia se dissipado. O cheiro de café
fresco havia dominado todo a cozinha, e Theodor havia feito café, ovos mexidos,
e torradas. Sabine surgiu na cozinha, de roupão bege, que ela detestava, mas
que havia sido fornecido pelo Estado e era uma das vestimentas obrigatórias do
governo como forma de unificar todas as mulheres da RDA.
- Vamos, tome seu café rápido, o elevador já
fora descoberto.
- Tudo pronto?
- Tudo.
Enquanto Sabine tomava seu café, Theodor
terminava de fazer as malas. Também terminara de colocar seus coldres e
verificar se as pistolas estavam carregadas e a munição estava pronta. Do lado
de fora do prédio os homens que passaram a noite inteira acordados foram
substituídos por outros dois, com uma expressão muito menos amigável que seus
antecessores. Theodor colocou seu sobretudo preto e Sabine, teve de abandonar
sua vestimenta por outra, a fornecida pelo Estado. Uma blusa de malha verde e
uma calça de moletom branca. Ela
prendera os lindos cabelos negros num imponente rabo de cavalo, e também
tratara de não usar nenhuma maquiagem. Enquanto isso, a porta de Theodor foi
sacudida com safanões fazen
do com que ambos se
entreolhassem aturdidos com o que era.
Quando abriu a porta, Theodor se deparou com
Klaus Honecker, o administrador do prédio. Klaus tinha lutado na segunda grande
guerra e se orgulhava de ter mantido longe o capitalismo e que vivia feliz como
um comunista igual a todos, igual ao povo. Dizia que os separatistas eram uma
vergonha ao se entregarem ao capitalismo. Klaus gritava freneticamente para
Theodor dizendo que o mesmo havia danificado o elevador e com isso ele deveria
pagar tudo. Theodor com toda a calma do mundo, bateu a porta no seu nariz e
voltou para o apartamento. Seus olhos com Sabine se cruzaram e ele apenas
disse: chegou a hora. Ela assentiu e pegou a sua mochila preta e olhou pela
última vez para o apartamento em cada cômodo. Depois, antes de saírem, deu um
caloroso beijo em Theodor e seguiram em direção ao pequeno corredor da sala
onde a porta da sala tremia de tanto que Klaus batia na porta. Ao abrir a
porta, Theodor viu aquele homem baixinho esperneando a sua frente.
-Por favor querida, pode passar.
-Safado! Vai ter de pagar pelo elevador, eu
vou denunciá-lo ao comitê.
-Sim, e leve esta lembrança minha para eles! –
Theodor pegara Klaus pelo colarinho e lhe deu uma cabeçada vigorosa, fazendo
com que o homem desmaiasse e caísse dentro do corredor. Ele cuidadosamente
fechara a porta observada por Sabine que não resistira e riu da situação. Eles desceram
os quatro andares apressadamente, reduzindo a velocidade apenas quando chegaram
ao térreo. Ao serem interpelados pelo porteiro da manhã, se limitaram a dizer
que estava tudo certo. Que estavam indo pegar dinheiro no banco e que voltariam
para pagar o senhor Klaus.
Ao se dirigirem para o carro, as chaves de
Theodor caíram ao chão. Neste momento involuntariamente virara o rosto para a
sua direita, exatamente onde estava o carro dos homens que o seguiram na noite
anterior. Parou por alguns segundos e observou as rodas. Tanto os carros de
Theodor quanto dos homens que o seguiam, eram iguais, menos as rodas. Theodor
olhara para Sabine quase que sussurrando um “fique aqui, já volto” e foi em
direção aos homens. Aos se aproximar deles, os homens ficaram em pãnico e
pareciam não saber o que fazer. Theodor se aproximara e se abaixando para perto
dos motoristas cumprimentou-os.
-Bom dia camaradas!
-Bom dia, responderam.
-Eu tenho uma pergunta, será que poderiam me
responder?
-Claro, já diziam os suados homens.
-Onde conseguiram essas rodas e esses pneus
largos? Não me digam que o Estado agora estão fabricando novos modelos de
rodas?
- Bem...erh...
- O Estado está fazendo testes, um modelo
novo que talvez saia ano que vem.
-Era só, bom dia e obrigado! – disse Theodor
voltando para seu carro.
- Então? – perguntou Sabine, nervosa.
- Fomos descobertos, vamos embora. Não sei
quem são, mas as rodas daquele Trabant não são originais, é para dar mais aderência.
Vamos correr.
Antes que Sabine dissesse algo, Theodor
acelerou o carro. O Trabant verde-oliva em direção a Heiliggeistgasse
surpreendendo os homens que também arrancaram com seu Trabant branco. Sabine
estava no banco do carona nervosa pensando o que seria deles caso fossem pegos.
Antes que pudessem pensar alguma coisa Theodor investira o carro contra as
placas de publicidade dos restaurantes locais despedaçando-as em diversos
pedaços. Quando ele resolvera olhar para Sabine no momento que entrara na
avenida Shanzl a primeira bala destroçara o vidro traseiro se alojando no
painel. Sabine gritou e mas que depressa, Theodor retirou a pistola do coldre
esquerdo e atirou em direção ao Trabant perseguidor. As pessoas corriam em
pânico e Theodor ziguezagueava alucinadamente em direção a uma saída. Antes que
o segundo tiro atingisse a Trabant de Theodor, ele virara bruscamente na Donaulände
alucinadamente. Sabine não titubeou ao abrir a mochila e pegar a
submetralhadora que carregava. O barulho ensurdecedor fez Theodor encolher os
ombros. Mas o resultado dera certo, a
Trabant branca num desvio dos tiros acabara por bater em outra tornando-as
quase que uma só. Só aí Theodor pôde relaxar e diminuir a marcha.
Theodor então inesperadamente, entrou na
viela que tinha percorrido a pé na noite anterior. Sabine olhou para Theodor
com uma expressão de espanto, mas viu que ele estava extremamente calmo após a
perseguição. A olhou com ternura, manteve-se calmo. O carro parara em frente a
catedral. Eles apressadamente desceram do carro e portando a mochila se
dirigiram para o interior da capela. Os passos foram em direção ao altar onde
ao que parecia Theodor gostaria de fazer a última oração antes de fugirem da
Alemanha Oriental. Como sempre a Catedral estava vazia e as freiras já haviam
se recolhido. Theodor se aproximara da estátua de São Estevão e quando começara
a rezar foi interrompido por um grito irrompendo a Catedral. Sabine teve tempo
apenas para ver o rosto dos homens que na noite anterior seguiram Theodor. Um
era calvo e alto, vestia um terno negro e empunhava uma pistola semiautomática.
O seu comparsa vestia um terno marrom, com ombreiras e uma gravata vermelha,
cor de sangue e não empunhava arma alguma. Sabine empunhou a submetralhadora
mas o tiro em Theodor foi certeiro. Ele com o impacto, caiu segurando o peito
que se esvaía em sangue. Sabine atirou sem nem fazer uma mira direito, mas por
precaução os homens se atiraram entre os bancos vazios da Catedral enquanto o
som da submetralhadora e suas balas destruíam dezenas de bancos da Catedral.
Neste momento, um padre irrompeu a Catedral despejou a sua fúria:
- Parem, respeitem a casa de Deus!!!
Todos se entreolharam e Sabine abaixou a
arma. Os homens olharam o padre que fez um sinal e o de terno marrom acendeu um
cigarro e fez sinal para o de negro que não entendera nada mas que saiu ainda
que contrariado, sempre observados pelo padre. Sabine chorava sobre o corpo de
Theodor quando o padre tocara no seu ombro fazendo-a se levantar abraçando-a
enquanto o corpo de Theodor estava aos pés da estátua de São Estevão. O padre
então puxou o corpo de Sabine que não queria estar longe do corpo de Theodor. Ele
fez o sinal da cruz no corpo de Theodor e rapidamente pegou o mesmo envelope
que dera a Theodor na noite anterior. Voltou-se novamente para Sabine e
abraçando-a ele a levou para dentro da sala paroquial. A igreja novamente
pousou em silêncio.
Dez anos mais tarde, uma figura feminina
entrara novamente na Catedral de São Estevão. Ela trajava um vestido longo e
preto. O barulho de seu scarpin ecoava pela catedral que estava novamente
vazia. A mulher parou por um instante em frente ao altar e fez o sinal da cruz.
Ela entrou na pequena cabine do confessionário e rezou uma Ave-Maria ao passo
que terminando, aberta a portinhola onde se via a figura de um home de cabelos
compridos, disse:
- Sem pecado, concebida. Abençoe-me padre
porque pequei. Há dez anos fiz minha última confissão.
- Ave-Maria Puríssima, pode falar minha
filha:
- Padre, seremos livres hoje.
- Tem certeza minha filha?
- O senhor sabe, todos estão indo para o
portão. Por isso a igreja está mais
vazia do que antes. Mas o antigo pároco daqui, onde está?
- A Santa Madre Igreja o chamou para uma
viagem ao Vaticano. Há cinco anos esperamos sua volta.
- Creio que ele não voltará padre.
- Como sabe?
- Porque o padre digamos, fora arrebatado.
- Um milagre?
- Sim, assim como também acontecerá com o
senhor.
A mulher então lhe entrega um envelope de
papel pardo por uma fresta do confessionário. O padre leu e sorriu. Ela ficou
calada sobre todo esse tempo. Foi então que o homem se levantou e fechou a
portinhola do confessionário. De súbito a cortina do confessionário da mulher
se abriu. Um homem alto, de cabelos compridos entregara a ela uma pequena jóia.
Na verdade era uma bala muito bem polida pendurada por um cordão de prata
finíssimo. Ela entreolhou o homem e sorriu. O envelope ele guardara no seu
sobretudo negro e lhe perguntou:
- Tem certeza que é seguro?
- Se não fosse não estaria aqui. Estou aqui
porque eu te amo.
- E eu esperei todo esse tempo porque também
te amo.
Ambos se beijaram, aos olhares da estátua de
São Estevão enquanto longe dali em Berlim, as primeiras marteladas no muro
começavam a deixar um rastro de medo para trás. Velhos Trabants atravessavam o
portão de Brandenburgo num buzinaço ensurdecedor. Mas para Theodor e Sabine,
nada disso mais importava, apenas que estavam juntos de volta...