sábado, 24 de dezembro de 2011

CONTOS URBANOS


A indígena de Manhatan



Mina Makawee era uma descendente de índios Sioux. Mas, desde pequena vivera na ilha de Manhatan. Seu pai e sua mãe resolveram deixar a aldeia onde viviam pensando em um futuro melhor para sua filha, que eles não almejavam  viver trancafiada na tribo, vendendo artesanato para brancos imbecis que compravam parte de sua arte e cultura por pena e ignorância ao mesmo tempo. Mesmo assim, Mina recebeu quando nasceu na tribo o sopro da vida de  Takuskanskan e saíram da tribo antes que Mina menstruasse de forma a que assim evitariam de que ela tivesse mais compromissos para com a tribo, já que os pais de Mina pediram ao Chefe Homem de Bem para que pudessem partir com as bênçãos e a anuência do xamã Búfalo Que Dorme. Homem de Bem até que aceitara os argumentos do seu guerreiro, mas entretanto Búfalo Que Dorme, o Page, era contrario a saída do casal e apenas disse que a decisão seria do cacique, mas que como alerta disse que eles não deveriam se meter em assuntos de brancos, em terra de brancos ou no trabalho dos brancos. Deu de ombros e deixou o casal na tenda junto com o chefe, ignorando-os completamente. Desde então, vivendo em diversos bairros na cidade de Nova York ela constantemente mudava de endereço, pois seus pais tinham de trabalhar perto de seus respectivos empregos, que nem sempre faziam Mina se orgulhar deles. A família Makawee era sempre vista aonde quer que ia como um bando de esquisitos. Índios que na verdade deveriam ficar em sua tribo. Como se não bastasse,sua mãe, Chlumani Chapawee ficou doente e precisou ser internada em um hospital perto do Brooklin onde seu pai Eyota Hantaywee fixou trabalho em uma lanchonete e onde alugaram um quarto e sala para poderem ver todos os dias Chlumani. Mina acabou sendo transferida mais uma vez e sua origem mais uma vez era motivo de brincadeiras de risos e de piadas de alguns colegas. Mas nada que ela não superasse, não fosse a piora no estado de saúde de sua mãe. Sua mãe por exemplo não pode, infelizmente, presenciar o momento que Mina menstruou pela primeira vez. Eyota dissera a ela que se estivessem na tribo, todas as mulheres entrariam na tenda da Lua para ficarem juntas durante o período menstrual.
Chlumani não durou muito tempo, e com o passar do tempo, seu corpo fora definhando, até que cinqüenta dias após muito sofrimento ela sofrera uma parada cardiorespiratória e veio a falecer apesar de todos os esforços médicos que fizeram o que podiam. Este foi o primeiro choque na vida de Mina. Mas, não seria pior se este episódio não ocorresse justamente na noite de Natal. É, desta vez, Santa Claus não trouxe presente algum, e mesmo que ela acreditasse nele, naquele instante teve mais raiva daquele velhinho de barba branca e bonachão do que fosse ela a própria encarnação do Grinch!
A vida continuou após Chlumani ter sido enterrada em Nova York num cemitério próximo. Não, a tribo não autorizou que Chlumani fosse enterrada em seu solo sagrado por ordens do xamã, que na época da partida de seus pais não se conformou com o abandono do casal da reserva. Mina se revoltou com a atitude do xamã de sua tribo e prometeu a seu pai nunca mais voltar lá, o que causara grande decepção a Eyota que deixara a tribo amigavelmente, acabara por ver que sua filha estava completamente revoltada com a situação vivida por eles. Na escola as coisas também não andaram fáceis para Mina. Como descendente de índios seus costumes eram vistos como motivo de zombaria por grande parte dos alunos da escola. Mina era um pária dentro da sociedade americana e resolveu por si mesma trocar essa situação. Tanto que no baile de formatura do segundo grau, seu par, que havia se oferecido voluntariamente, no fim, mostrou-se um grandessíssimo imbecil, quando apareceu no baile vestido de índio, deixando Mina nervosa o suficiente para lhe dar um tapa no rosto e voltar para casa deixando para trás toda tentativa de escárnio. No final do segundo grau, ela resolvera cursar em Manhattan o curso de Administração na SNUC com o dinheiro que seu pai conseguir arrecadar ao longo dos anos.
Mina, não preciso nem dizer, mas deixo a título de menção, passou pelos mesmos problemas que tiveram no final do ensino fundamental e no segundo grau. Mas lá ela mostrou-se muito diferente. Não mostrou ser aquela indiazinha indefesa e coitadinha que todos pintavam ser. Pelo contrário, mostrou-se forte e determinada, aguerrida e inteligente o suficiente para ser um dos destaques de sua turma. E, os destaques independente de sua origem sempre são os escolhidos. Foi o que aconteceu com Mina ao final do curso, quando recebera um convite para trabalhar na RCL Group que trabalhava no mercado financeiro em Wall Street. Era o sonho de muitos universitários trabalhar naquela empresa. E Mina começara bem, fazendo apostas altas, ganhando muito dinheiro, para si e seu pai, assim como para a empresa. Entretanto, nem tudo foi bem nem para Mina, nem para seu pai, pois passados muitos anos após a morte de Chlumani agora foi a vez de seu velho pai, Eyota partir. Um câncer começou imperceptível em seu intestino e quando localizado foi fatal. Mina desta vez, tinha dinheiro, prestígio e poder, mas não tinha como salvar a vida do seu velho pai. Desta vez, Mina nem sequer tentou contatar sua tribo pois Búfalo Que Dorme ainda vivia e mesmo muito idoso provavelmente reprovaria a ida do corpo de seu pai para a tribo.
Ela no entanto tinha o seu lado vingativo. Sally era sua melhor amiga e também diretora do departamento de recursos humanos. E, foi aí que Mina cometeu seu maior e talvez mais crucial erro. Pediu que Sally vetasse toda e qualquer contratação de descendentes de indígenas na empresa. E assim foi feito. O que não demorou muito foi Sally ter guardado essa recomendação nos computadores que foram invadidos por hackers que rapidamente difundiram os conteúdos das conversas via e-mail para a imprensa que adorou seu novo brinquedinho. Fox, CNN, ABC e o que puderem pensar em empresas de comunicação tiveram o prazer de mostrar a dualidade de uma garota descendente de índios justamente por ser minoria, discriminar a minoria. Resultado: A empresa não queria ser manchete a toda hora. Então a demissão foi a maneira mais rápida e certeira que os chefes tiveram. Em uma reunião que durou menos de três horas o comunicado já estava sendo lido na imprensa. A carreira de Mina estava acabada, pois por mais competente que fosse, essa mancha não iria sair de sua vida. Mina então se refugiou dentro de seu apartamento na  W22ndST (22ª Oeste, Sul da Ilha de Manhattan), apartamento 16. Durante todo praticamente todo o mês de dezembro ela fora bombardeada com flash de câmeras  indiscretas como se fosse uma celebridade de Hollywood ou do show business e também querendo declarações suas de qualquer maneira. Mas para sorte de Mina, uma grande nevasca atingiu Nova York fazendo com que repórteres, fotógrafos, blogueiros e tudo o que puder pensar mudassem de alvo. Sobrou para Mina somente agora o sossego, a calma e a solidão do seu apartamento. Enfim, o vazio. O vazio de quem ficou desempregada e estava agora presa dentro do seu apartamento devido a nevasca, aumentando assim a sua pena em sua solitária improvisada. Não tinha mais amigos a quem ligar. Não tinha mais conhecidos a quem recorrer, já que neste momento todos resolveram lhe dar as costas e fingir que ela não existia.
Mina então, dentro da solidão do seu apartamento, da sua angústia de ter de ficar enclausurada pensava as mais diversas idiotices. De como foi burra ao resolver retirar das contratações qualquer descendente de índio e o que é pior, não se preocupou em fazer isso fora do meio eletrônico para que pudesse assim ficar longe de hackers. Sim, sem um telefone fixo ou celular tocando, sem um e-mail, twitter, scrap ou mensagem em seu facebook, Mina se sentia cada vez mais só. Nesse seu lampejo de solidão Mina levantou de seu sofá na sua grande sala e foi caminhando pelo tapete macio e bege indo em direção a cozinha. Resolveu então, já que não poderia sair de casa, devido a grande quantidade de neve- um pouco mais de meio metro - a sua porta que a fazia prisioneira, resolvera então cozinhar. Pelo menos ela teria uma ceia de Natal somente para si, sem que fosse importunada por ninguém. Quando foi pegar uma frigideira no armário branco que ficava entre a parede lateral e o fogão – também branco, assim como todos os móveis da cozinha – um pequeno frasco também branco, caiu no chão. Mina resolveu pegar o frasco e leu atenciosamente o rótulo: Chumbinho Mickey Mouse. Na embalagem mostrava um Mickey Mouse morto, caído ao chão. Mina lembrou-se de que este frasco foi um presente de Stella, uma amiga brasileira da companhia. Deixou a frigideira no fogão e retornou às sala onde pegou seu laptop e digitou no Google o significado da palavra “chumbinho” e para que servia mesmo, já que não se lembrava mais do que era aquilo. Leu que na verdade o “chumbinho” é um poderoso raticida, pequeno, em forma de bolinhas pretas que é dissolvido em alimentos para matar imediatamente roedores. Associado a isso, ela lera uma notícia sobre uma atriz brasileira que suicidara comendo o famigerado “chumbinho” com apenas algumas porções.
Da sala, grande espaçosa com um sofá imenso,  cor café, seu tapete grande e grosso bege, a TV de LCD na parede perto de uma estante cheia de DVDs, CDs e outra estante onde seu pai, guardava lembranças do tempo de que fazia parte da tribo Sioux e das suas origens que ele valorizava tanto. De lá ela saiu em direção a seu quarto, passando pela suíte hoje vazia do seu pai, pois ela resolvera dar para a caridade todos os pertences habituais de seus pais, deixando apenas as lembranças mais íntimas como determinadas peças de roupas indígenas, arcos, flechas, totens e alguns outros instrumentos. No seu quarto, onde havia uma grande cama king-size e também com um grande tapete felpudo e macio só que dessa vez da cor marrom  ela se sentou na cama olhando fixamente para o quarto. Olhou para a direita e pegou no criado mudo o controle remoto da TV onde um comentarista falava da nevasca em Nova York e de como os americanos estavam enfrentando dificuldades para poder viajar para seus determinados Estados para que assim pudessem celebrar o natal, enquanto em vários outros canais, ou se passava notícias ou tudo relacionado ao tema Natal. Músicas, programas especiais de TV, filmes, consertos de orquestras sinfônicas de Berlim até a sinfônica de Macau.
Isso acabou jogando Mina de volta ao seu assunto principal. Largou o controle remoto, e deitou-se na cama a pensar: a primeira coisa a fazer foi pensar no frasco que segurava. Será que valeria a pena? – pensou ela – num lampejo de que talvez usar o chumbinho em sua comida fosse a coisa certa a fazer. Rápido, sem dor e muito provavelmente fatal. Seus pais não estavam mais junto a ela, que havia se tornado uma pária no mundo dos homens e dentro de sua tribo. O mundo para ela havia acabado. Mina passou a pensar na possibilidade de ingerir aquele “chumbinho” com toda a intensidade já que sua vida não tem mais sentido. Ela então se levantou, foi novamente até a cozinha e preparou um cozido e adicionou nele o ingrediente proibido, o chumbinho. Enquanto cozinhava pensava na vida, nas possibilidades perdidas, nas gozações dos colegas, de ser chamada de esquisita, de ser discriminada em várias escolas e também na sua tribo. Ao fazer o cozido, todo o rancor, raiva e ódio estavam inseridos nele e seriam utilizados para sua morte rápida.
Ao terminar o cozido, Mina levou até a antessala, e colocou a grande travessa de prata, uma jarra com água, talheres, um copo e um prato com o chumbinho, a qual ela resolvera colocar o pote inteiro, para não haver dúvidas de que ela morreria mesmo. Voltou ao seu enorme quarto, vestiu calças indígenas  da tribo Sioux, que lhe deram de presente achando que iam agradá-la, mocassins, cocar e depois trançou seus longos cabelos negros e lisos e por fim, usou uma leve maquiagem. Ela sentou-se à mesa e respirou profundamente. Neste momento, ela pensou: “agora não há mais nada em minha vida, é chegada a hora de minha partida, devo me encontrar com meus ancestrais, esta é a minha passagem, este é o meu caminho, este é o meu dever, esta é a minha vida, este é meu guia e assim devo cumprir o meu papel. Minha wakan[1], como me ensinou minha mãe é o que sou agora. Devo seguir para ir em direção a minha tumpi[2]. A morte é mágica e a energia é eterna. Encheu o prato com o cozido, já que não sabia o quanto daquilo poderia ser suficiente para poder lhe matar.
No exato instante que Mina ia colocar a primeira garfada na sua boca, um uivo muito alto foi ouvido. Mas como? A nevasca estava intensa e as pessoas ilhadas em suas casas. Olhou para os lados e novamente pegou o garfo, novamente o cozido e quando ia levá-lo a boca, novamente ouviu um uivo. Ela então levantou-se, deixou o cozido de lado, pisou descalça sobre o piso de madeira vermelha e brilhante de sua sala de jantar, esquecendo-se até de calçar novamente os mocassins e chegou a janela do quarto do escritório que dava para a rua. Lá viu um cachorro, cinza e branco, com os olhos vidrados nela. Eles trocaram olhares, o cachorro latiu mais baixo e saiu correndo. Mina achou estranho, mas quando ia voltando a sala, seu telefone tocou. Era o novo cacique da tribo, Águia Prateada que estava do outro lado da linha. Mina perguntou como ele tinha conseguido o telefone dela, e ele respondeu que há alguns dias repórteres quiseram entrevistá-lo e perguntar sobre sua família, mas que ele não dissera nada. Perguntou a um deles sobre seu telefone e ele dera um cartão antigo de Mina achando que o telefone não era mais aquele –era o mesmo telefone, mas Mina somente atendia quem ela conhecia, identificando através da bina . Águia Prateada dissera que o xamã Búfalo Que Dorme tinha morrido naquele dia, e tinha deixado uma mensagem escrita para ela que ele tinha de o mais depressa possível avisá-la. Mina, assustada, pediu para o chefe ler o conteúdo, que dizia:
“Mina, somente eu sou responsável pelas minhas atitudes, assim como você e seus finados pais também. Entretanto você recebeu o sopro de vida de Takuskanskan e assim eu recebi o recado de que Nagi intercedeu por você a Tatetobi,que por sua vez intercedeu para Whope que intercedeu a Maka. Depois de grande conversa, decidiram, que você deve ficar e eu me propus a ir. Boa sorte, Búfalo Que Dorme.” Mina, estarrecida, desligou o telefone imediatamente, correu até a sala de jantar, despejou o cozido do prato na panela e pegou todo o cozido e jogou pelo ralo da pia da cozinha. Mina nunca tinha pensado nos deuses da sua tribo, mas ela pensou, desta vez eles deram-lhe mais uma chance. Como seria sua vida agora? Não importa, o primeiro passo para se reerguer já fora dado. E é isso realmente o que importa.



[1] Aspecto visível da matéria
[2]Aspecto invisível da matéria

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA

No fio da navalha


Sabe uma frase corriqueira que circula no meio masculino que diz: “Uma mulher bonita sempre vem acompanhada de uma baranga.”? Pois então. Isso se aplica aos homens também e às vezes acompanhado de outra sentença. Sempre o homem duro tem um amigo com grana para ajudar a pagar as contas. É ou era o meu caso. Essa é a segunda vez que escrevo parte de minha autobiografia e mais uma vez o cenário são os anos 90, mais precisamente no período da minha adolescência. Gostava daquele período, eu podia fumar sem ter de me preocupar com o câncer, beber se quiser sem me preocupar com meu fígado e a preocupação básica naquela época era de transar sempre com camisinha, afinal todos ficavam apavorados com as figuras da mídia que estavam aidéticas e que apareciam na mídia depois de tomar toneladas de AZT e ainda assim, se mostrarem esqueléticas, pálidas, quase mortos-vivos.

O som era mais pesado. Tínhamos o Nirvana, o Pearl Jam, Alice in Chains, o Guns (em franca decadência, mas tudo bem), Raimundos, Chico Science, O Rappa, o Charlie Brown surgindo e outras tantas. Não tinha essa frescura colorida de hoje, apesar de termos aqueles pagodeiros de quinta e um sertanejo que consistia em caras com calças atoxadas com cara de babaca. O Didi ainda chamava o Mussum de pé de rodo e o Mussum devolvia chamando ele de Cardeal. O politicamente correto era só mais uma viadagem(podíamos falar isso e não ser processados como eu provavelmente serei ao usar esse termo, mas vou mantê-lo em nome de uma liberdade de expressão da época, apesar de todo meu respeito pela comunidade gay e dizer que eles têm de ter seu espaço e direito) e ecologia era coisa de gente chata que achava que a vida se resumia a abraçar árvores e comer carne de soja.

Bom, naquela parca adolescência eu era o “homem-baranga” que tinha um amigo rico. O Luciano Xuxa. Apesar dele ser moreno, resolvemos dar esse apelido a ele por causa dos cabelos compridos e ralos. Eu era o pato feio da turma. Mas, a coisa não mudara muito daquela época para cá,mas vamos ao que interessa. Eu era um duro, minha família não tinha muitos recursos, mas não sei como eu conseguia me dar bem com a galera que tinha. Além do Xuxa, tinha o De Angelis, que não era o piloto, mas o pai dele tinha tanta grana que uma vez “moeu” um Mitsubishi na estrada e nem pagou para consertar o carro, jogou fora e comprou outro. O pai do Xuxa tinha menos grana, era dono de uma das maiores lotéricas da cidade, então obviamente. Assim os filhos dele tinham uma vida relativamente boa, podendo ir na base do “curtindo a vida adoidado que depois papai paga” que eu embarquei na onda também.

Foi numa dessas que a gente de bobeira na rua, quando o irmão do Xuxa, o Roni, passou tirando sarro com a nossa cara com o carro do pai deles. Deu tchauzinho junto da namorada e se foi embora. A gente pensou praticamente junto: “puta cara de sorte e a gente aqui, olhando para o vento.” Até que o Xuxa me disse que sabia onde ficava a chave do portão da garagem, e a chave da moto, uma XLX 250cc. Um olhou para o outro e o outro olhou para o um. Cabeça vazia é casa do diabo? Então ele alugou a gente por um bom tempo. Não pensamos duas vezes. Ele ia sair com a namoradinha tirando sarro com nossa cara? Nem nunca. Fomos para o apartamento do Xuxa, ele disse que ia tomar banho – e tomou mesmo – só que no caminho para pegar uma toalha ele passara pelo quarto do irmão dele, que por sua vez deixara de maneira descuidada as chaves do portão e da moto bem em cima da cômoda. Resultado: Na ida para o banheiro o Xuxa me joga a chave e eu espero uns 5 minutos até ele acabar de tomar o banho com as chaves da moto no bolso, com as quais eu saí do apartamento dele sem ninguém suspeitar de absolutamente nada.

Capacete? Não precisava, então rapidamente a gente abriu o portão, e saiu por aí. Correndo pelas ruas afora. Irresponsável? Sim, mas isso fez parte da minha vida e eu gostava da adrenalina de correr que nem louco pelas ruas perto do bairro já que lá a polícia não aparecia. Só aparecia para apartar briga de vizinho, briga de marido e mulher e quando a gente ficava jogando bola numa rua próxima. Fora isso, era território sem lei. A primeira vez foi muito boa. Poderíamos ter parado por aí. Mas quem disse que a tentação resisitiria? Era só o irmão dele sair que a gente pegava as chaves da moto e pronto. Gasolina, poderiam perguntar, o Xuxa às vezes comprava e outras vezes o gasto era baixo e o irmão dele nem desconfiava.

O céu era o limite? Não. Além de ir na garupa para tentar pegar mulher (sim, os feios tem seu lugar ao sol, principalmente se as interesseiras acham que você tem grana também) decidimos que pegaríamos outro alvo. O carro. Algumas vezes o irmão do Xuxa saía com a moto, então ficávamos a pé. Resolvemos então fazer o seguinte, o carro substituiria a moto em caso da mesma ser utilizada pelo irmão dele. E foi o que fizemos. Eu fiquei incumbido de distrair o pai dele, “seu” Dirceu para que o Xuxa pegasse as chaves reservas. O carro não era lá essas coisas. Era um Corcel I, mas para os objetivos finais até que serviu numa boa. Correr. O famoso “cavalo de pau” era favorecido pelo freio de mão ficar perto do volante. Acho que a partir deste ponto a coisa começou a ficar fora de controle. Ora era a moto, ora era o carro. Cinto de segurança? Sei lá o que era isso, eu só arrancava risadas e a expressão de quero você prá mim das garotas. Claro que na nossa condição era “pegar” e largar. Não sabíamos nem o nome delas direito. E eu achava que tudo ficava divertido quando o Xuxa enchia a cara e aí que ele pisava fundo no acelerador mesmo. Inconseqüentes? Babacas? Suicidas? Claro que sim e não escondo isso. Babacas são esses caras que passaram por períodos na base do sexo, drogas e rock’n roll e hoje fazem musiquinhas contra as mesmas. Inconseqüente é quem vota no Tiririca e suicida é o cara que faz pose de não fumante e joga álcool de montão para dentro do estômago, fica doidão até demais dando vexames que o melhor bebum dos anos oitenta ficaria ruborizado.

Mas neste período a coisa também começou a desandar. O Xuxa arrumou uma namorada, a Rita. Aí eu fiquei a pé. Não tinha problema, eu dava umas voltas a pé com outra turma e a coisa ficava na boa. Mas o namoro do Xuxa não estava dando muito certo. Aliás outro dia conto uma história ótima da Rita. O pai dele resolveu “fornecer” o carro para ele – sim nessa época não podia, mas os pais davam os carros assim mesmo – e as manobras para impressionar a Rita foram ficando mais radicais. Uma vez, em plena avenida, ele deu o chamado “cento e oitenta”, mostrando que tinha controle do carro, só que eu ainda lembro que tinha acabado de chover e o asfalto ainda estava molhado. A galera foi ao delírio. Só que alquele foi o primeiro indício de que algo ia sair errado. Primeiro a Rita não gostou da manobra e terminou com o Xuxa. Então voltei ao cargo de co-piloto, ou navegador, como queiram. O ritmo mudou e a velocidade também. Éramos mais irresponsáveis ainda. E aproveitando as mágoas do Xuxa, toda vez que ele resolvia beber e perguntar se deveríamos roubar o carro eu prontamente dizia que sim. Arriscávamos nossa vida de todos o jeito. O carro atropelou uma pessoa, sem ferimentos graves (sim, prestamos socorro), arranhamos outros tantos, ele quase caiu em um buraco, fomos perseguidos por outros caras que perdiam para gente nos rachas entre outras coisas.

Com a moto o Xuxa passou a empiná-la freneticamente. A turma ia ao delírio com as manobras, e eu cada vez mais envolvido naquele circo de loucuras. Assim como o carro, foi um festival de empinadas, pegas, derrapagens e tudo mais que se podia fazer com uma XLX 250cc. E antes que alguém perguntasse se alguém da minha família sabia disso a resposta é simples: Não. Nadinha. Passava desapercebido. Até o dia que a verdade veio a tona não é? Foi o lance de maior sorte da minha vida naquele período de vida no fio da navalha. Duas coisas aconteceram para que a verdade viesse a tona. A primeira delas, o Flavinho, amigo do meu pai comprou um Monza, só que ele não podia usar a garagem dele, já que ele tinha transformado ela no Speed Caipira, uma lanchonete. O outro fator foi a mudança de uma menina, linda, modelo se não me engano para a rua Humaitá, uma rua sem saída. Tudo aconteceu nos primeiros dias de noventa e dois. O único problema de paquerar aquela garota para mim, foi de que ela tinha um metro e oitenta e cinco. Eu, chegando aos meus um metro e setenta e três atuais. Resumindo, não ia rolar mesmo.

Foi numa dessas que apareceu o Xuxa de moto. Foi no final da rua, derrapou, e parou na minha frente. Perguntou se eu queria ir e eu falei que não. Afinal a menina era mais importante. Ele subiu em direção a avenida principal e como eu pensei, ele iria dar a volta na pracinha e depois descer de novo a avenida. É aí que entra o Flavinho e meu pai. Sem lugar para estacionar ele pediu a vaga da garagem do meu pai, que ficava do outro lado da casa dele. Meu pai emprestou, afinal não tínhamos carro e ele era um cara gente boa, então não tinha razão para negar. Só que por volta da meia noite o Flavinho foi colocar o carro na garagem. Só que ao fazer a manobra para esquerda ele apenas viu a XLX crescendo em cima do lado do motorista. A pancada foi tão forte que moeu a lateral do carro do Flavinho toda. A moto se entortou toda. O Xuxa voou uns quatro metros, bateu em um poste e caiu no chão. Resultado: além das escoriações em geral ele quebrou apenas, é apenas o pulso. E eu. Terminei por aí a minha vida de riscos momentaneamente, sem seguir tão perto do fio da navalha, ou como foi cantar anos mais tarde Humberto Gessinger não dancei tão perto do campo minado. Depois disso o Xuxa tomou juízo e também parou de correr, a galera tomou um pouco mais de consciência em relação a bebida e direção, a Rita eu conto depois, mas ela sobreviveu ao trauma de ver o ex-amado se estatelando num poste e todos vivemos (nem sempre felizes e nem para sempre) até hoje.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Morte intermitente

Estávamos saindo do prédio de nossa empresa na Rua São Bento e conversávamos animadamente. Aliás, o Tavares estava mais animado do que nunca, afinal ele estava de amante nova. A secretária dele ficou grávida do marido e a farra com ela acabou. Mas por sorte dele, a publicitária estagiária, deu mole para ele uns dias atrás. Eu não a vi, mas o Tavares estava animadíssimo. Contava cada detalhe da noite anterior, de como ela era, da tatuagem que tinha no pé, ao piercing que tinha no umbigo. De como os seus cabelos esvoaçavam ao vento e como ela era assim digamos fogosa, entre quatro paredes. Claro que eu conhecia o Tavares e sabia que ele também exagerou em alguns atributos físicos da moça, mas nós continuamos andando e eu fui fingindo que tudo que ele me contava era a mais pura verdade. Acredito que boa parte era, mas ele gostava de que as coisas ficassem um pouco maiores como deveriam ser. Se for a estagiária que estou pensando que é, ela é bonita, mas o mal do Tavares é querer colocá-la como se fosse uma deusa grega. Como se fosse uma nova Afrodite. Mas não, não era bem assim. De repente o telefone do Tavares tocou. Era a mulher dele, a Leila. Eu sabia por que ninguém chama outra pessoa de “môzinho” para lá e para cá. Estão casados há dezoito anos e há dezoito anos o Tavares bota um par de chifres nela. Conheço o Tavares há vinte anos, desde que entramos como trainees na empresa e hoje ele é o CEO e eu sou vice-presidente. Ainda bem que pouca gente sabe que o Tavares sai com as moças da sede da empresa. Ele não acedia, eu não ia deixar, mas algumas mulheres têm quedas por homens poderosos, sejam eles casados ou não. Então o Tavares aproveita. Aproveita mais do que deveria. As traições são tantas que eu já perdi a conta. O pior de tudo isso é que muitas vezes eu tenho de fazer de cúmplice. Ele vai jogar pôquer na minha casa, vamos ver uma partida de tênis, vamos a um congresso, reuniões extensas – que às vezes eram realmente verdade- e toda a forma de desculpas que eu pudesse imaginar. Pagava caro por prostitutas de alto luxo. Eu acho que o Tavares é viciado em sexo, mas eu que não vou me meter nas confusões que ele mesmo arma atrás de mulheres. Desde que não dê problemas na empresa, por mim tudo bem, eu não sou a mulher dele mesmo. Só acho que esse vício dele vai prejudicá-lo um dia. Se já não o prejudicou, afinal não vivo vinte quatro horas com ele por dia. A velha cumplicidade masculina está de volta a ativa mais empolgada do que nunca. Eu que não vou quebrar este elo. Mas é um bom pai, um bom marido, trabalha bastante e esse meu argumento é tão machista que até eu tento me convencer que ele é válido. Fomos dar uma parada no Café Geronimo como sempre. Afinal hoje as reuniões foram muito cansativas e eu realmente precisava de bastante cafeína no meu corpo. Não sou mais jovem, mas uma boa xícara de café bem forte me reanima para pegar meu carro e voltar para casa.

Na porta do Café, eu senti a mão do Tavares sobre o meu ombro, pois ele tinha ficado para trás ao desligar o Iphone. De repente, tudo escureceu. Já não havia mais luz. Morri, pensei comigo. Ou então devo ter entrado em algum estado de coma iminente, alguma veia em meu cérebro estourara ou tive algum AVC. Mas o silêncio, me fez pensar que realmente eu estava morto. Ou então aquelas velhas histórias, de “corra para a luz”, “siga o corredor escuro em direção ao lado mais claro” para mim não passavam de pequenos jeitos de explicar a morte. Mas de toda forma, eu não quero ir para luz merda nenhuma. Estou com cinqüenta anos, chega, já vivi muito e não estou afim mais. Cansei disso tudo. Já que minha hora chegou, então vamos. Não quero ficar adiar mis isso pois sinceramente estou cansado dessa vida. Que me perdoem os filhos, que ainda são adolescentes mas sinceramente terão de conviver com isso. O Carlos que é mais sensível, mais essencialista, vai ter de agüentar. O Marcelo é mais impulsivo, vai ficar revoltado de eu ter morrido assim. Tão ridículo, no meio de uma calçada cheia de gente me olhando, com as vozes de sempre pensando no que poderia ter sido, estirado no chão como um pedaço de carne dentro de um matadouro. Mas, no fim das contas, acho que isso foi melhor para todos. Inclusive para mim, que não quero ir para o ponto luminoso no fim do túnel.

Tudo aqui está escuro, acho que a transição da vida para a morte deve ser assim. No início a escuridão, o silêncio, o tédio. Acho que isso é assim mesmo, deve servir para nós refletirmos sobre a nossa vida. Mas refletir sobre o que? Eu não tive um vida tão emocionante assim. Claro, que as bebedeiras da faculdade foram ótimas. Ainda regime militar, anos negros, aos quais muitos amigos fazem questão de esquecer. Período de muitos estudos, mas também de muita maconha, cocaína e bebida. Na república que morava no Edifício Copan no antigo apartamento 414 no Bloco B morávamos eu, Tavares e Paulo. No apartamento vizinho moravam umas meninas que diziam fazer faculdade mas que faziam programa à noite. Foi lá que eu descobri as drogas e como eu as usava indiscriminadamente e aproveitava para negociá-la com minhas vizinhas para um programa grátis. Nós também não tínhamos muita grana. Eu trabalhava numa lanchonete a noite após a faculdade para um amigo do meu pai que disse que tinha de fazer como ele, se virar para arrumar a grana da faculdade. O Paulo era segurança de boate nos finais de semana e o Tavares que era o mais rico de todos nós, não fazia nada, apenas estudava, cheirava, fumava e transava com nossas vizinhas. Ficamos nesse função até o final da faculdade. O mais engraçado nesse período foi que o Tavares se formou antes de nós, mas só colou grau junto com a gente, um ano e meio depois. O problema foi depois. Passamos de estagiários a trainees de uma grande empresa. Mas como nos tirar do vício? Passamos um tempão nos Alcóolicos Anônimos para superar isso. Quer dizer, eu o Tavares. O Paulo? Esse foi antes de nós, tinha se tornado gerente da boate. Se relacionava com gente muito rica, poderosa e arrumava de tudo para eles. Inclusive a maconha, a coca e a heroína. Viveu intensamente, mas não sei do que morreu, pois só tive coragem de ir vê-lo no hospital depois que o corpo dele que antes parecia de um mamute, estava reduzido ao de uma gazela. Triste.

A escuridão não muda, começara então a caminhar no escuro e no nada. Vejo então as imagens que passaram da minha vida. A saída do vício. Quando o Tavares conheceu a Leila, sua futura mulher, uma japinha, que misturava a eficiência nipônica com uns resquícios hippies. Linda, mas eu acho que o Tavares a escolheu por conveniência dele, afinal o Tavares não namorava direito ninguém. E quando fazia isso, ele só pensava em transar, transar e transar tendo a parceira dele prazer ou não. Nesse período eu conheci a Lilian. Alta, loira, magra. Parecia uma mulher nórdica- mas na verdade ela era de Bauru, estava em Sampa para arrumar um emprego, era formada em psicologia, sempre calada, sem sorrir muito, mas muito bem relacionada. Namoramos por cinco anos, quando decidimos nos casar. Fizemos uma cerimônia simples, sem muitas delongas, sem muitas frescuras. Com uma grana que economizamos mais uma grana que nossos pais deram, fomos morar em um apartamento legal na Vila Madalena. Daí, à medida que eu ia subindo de posto na empresa, mudávamos para um lugar melhor. E o último lugar foi o Morumbi.

Mas não adiantou muita coisa tanta mudança. Afinal os filhos vieram depois de alguns anos e pudemos estabilizar nossa vida. E com isso uma rotina chata. Ainda bem que eu morri. Não agüentava mais, o casamento me sufocava e os filhos já estavam criados. Não era espalhafatoso que nem o Tavares, mas as minhas amantes eram mais discretas, entretanto, amantes demais chateia, pedem dinheiro demais. De um tempo para cá era melhor utilizar as prostitutas mesmo. Sexo fácil, rápido e sem sentimentos, cobranças e obrigações a cumprir. Ninguém sobrevive a um casamento sem amantes. Ninguém é tão certinho ou certinha assim, o tempo todo. Pior, os puritanos são piores. Claro que há puritanos que de tão puritanos são chatos e sinceramente acho que deveriam ir para o inferno. E por falar nisso, acho que isso está demorando tanto que eu devo é ir para o inferno. Até porque ouço vozes, muitas vozes, acho que estou mais perto do inferno ou seja lá onde for.

Nunca acreditei muito em Deus, mas acho que Ele também faz questão de não acreditar em mim. Não é que nunca acreditei Nele. É que na verdade nunca acreditei em milagres. Tive tragédias demais na minha vida para crer nisso. Então resolvi deixá-lo de lado para que eu pudesse viver minha vida. Então foi como um divórcio. Então agora estamos aqui para resolver tudo isso. Se o meu destino for o inferno, tudo bem. Não deve ser que nem o de Dante mas eu aceito assim mesmo. Afinal, uma hora eu teria de pagar pelos pecados cometidos. Fico pensando se eu ficaria ardendo no infinito. Sei lá, não fui muito apegado em religião, então como um semi-ateu eu devo achar que não vou ficar em lugar nenhum. Mas acho que estou errado, ouço sons, sirenes, buzinas, mais vozes e eu aqui, no escuro. Acho que o pós-morte deve ser isso. Tomara que tenham me enterrado decentemente. Não pedi muita pompa, mas todo mundo deve ter um funeral decente. Será que a minha mulher chorou, ou está chorando? Mais barulho. Acho que não fui enterrado, pois ouço tantos sons comuns que devo estar no hospital então. Com um desses médicos sádicos que teimam em abrir nossos corpos afim de saber do que morremos. Para quê? Não vou voltar a vida por que ele descobriu que eu morri de enfarto, engasgado, dançando ou qualquer que seja a causa. Acho isso ridículo.

Nossa, ouço até a voz do Tavares agora. Ah não, nem aqui embaixo? Eu tenho de ter esse direito. Não quero ouvir a voz de ninguém conhecido, estou de saco cheio, já disse. Gritei, não resisti. Saí correndo pela escuridão afora, afim de que eu pudesse achar a salvação desta vida detestável. Não, não queria mais viver. Os motivos são tantos que não quero entrar em detalhes. Chega. Lilian que me desculpe, mas não quero mais estar neste plano, nesse universo, sei lá aonde for. Quero o fim da pressão, o fim de tudo. Das contas a pagar, dos filhos que querem dinheiro, da mulher que apesar de linda, com o passar dos anos se tornara uma parasita dentro da minha vida, já que a mesma com o passar dos anos só se fez a aproveitar as benesses do que o dinheiro pode proporcionar como uma casa boa, carro importado, jóias e tudo mais.

Quando me dou conta, vejo a luz. Não, não vou voltar, o silêncio aqui é muito reconfortante. Fora de conflitos, pressão de patrões, álcool, drogas, parasitas ao meu redor – que não se manifestavam apenas na forma da minha mulher - mas também em funcionários pedantes, clientes pedantes, reuniões, festas chatas, reuniões chatas tudo muito chato em minha vida. Deveria ter afundado nas drogas e álcool e virado um “nóia’ do centro de São Paulo para ter um pouco de paz e de conforto. Mas eu sinto a luz se aproximar, meu corpo se enrigecer e a luz cada vez mais próxima. Me dou conta que não consigo mais me mover, que infelizmente não tenho como resistir a ir a esta luz. Será a redenção? Que coisa mais estranha. Não entendo mais nada. A luz fica cada vez mais forte.

Não tenho mais forças, sinto meu corpo cansado. Próximo a luz vejo uma mulher, loira, de coque. Ela me chama pelo nome e sinto meu corpo rígido. Parece que estou um pouco cansado, tenho vontade de ir embora, tenho vontade de me mexer, mas sinto que a mão da loira toca meu ombro. A luz me conforta. Mãos frias tocam minha nuca, pois parece que estou deitado.Parecia que eu estava no vácuo. Sensação estranha. Ela me chama pelo nome. Ela é bonita. Ela é, uma enfermeira! Droga! Eu ainda estou vivo! Aconteceu de novo. Outro ataque epilético. De volta a esta vida miserável. Fazer o que afinal de contas, já que o Tavares vem em minha direção querendo talvez me consolar pelo ataque com o qual convivo há anos. Deveria ter me lembrado. Mas o estado de ser de um epilético como eu, faz com que às vezes esqueçamos isso. Acontece, a morte intermitente seja pelas mãos de Deus, seja pela minha ineficácia de fugir da luz, manifesta-se novamente que também nos coloca como talvez uma dádiva. Epiléticos são como as fênix, morrem e renascem, só não é utilizado o fogo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Edmara, morena

Mais um dia entediado naquela escola. Mais um dia de trabalho chato. Aliás, prefiro me corrigir. O trabalho não é chato, é o seu modo repetitivo de como se fosse uma fábrica é que torna isso chato. O mesmo perfil, as mesmas perguntas e o mesmo lugar-comum. Mas é daqui que retiro o meu sustento para mim e para minha família. Imagino como Marx reagiria se todos os dias alguém lhe fizesse uma pergunta idiota sobre a acumulação de capital, mais-valia entre outras coisas. Por isso sento na minha cadeira na sala de professores numa salinha escondida de tudo e todos onde só há computadores velhos e uma cadeira onde pude colocar meu corpo e dormir por alguns minutos antes que o sino batesse.

Entretanto como se fosse esta a oitava praga do Egito o sinal tocou. Não havia cinco minutos que havia colocado meu corpo esquálido, com a barba por fazer, branco e de cabelos longos naquela poltrona. Ajeitei as minha longas madeixas num movimento rápido, segurando-os e pegando uma elástico qualquer fazendo um rabo de cavalo. Levantei-me, passei minhas mãos magras e alvas pelo meu rosto e percebi que não havia feito a barba hoje e um palavrão passou pela minha cabeça, não sendo pronunciado, pensado apenas. Peguei minha caixa de giz, de madeira, ajeitei minha camisa e minha calça, peguei o livro e fui para mais um dia de trabalho. Tinha o passo lento, vacilante, sem vontade na verdade. Alguns alunos passavam por mim e me cumprimentavam e eu apenas assentia com a cabeça, num gesto de aprovação.

Cheguei à sala, e vi o mesmo cenário de sempre: gente conversando, sentada nas mesas e na verdade àquela hora eu apenas queria dar minha aula e depois tomar uma xícara de café para espantar o sono de uma noite mal dormida anteriormente quando ex-mulher me ligou querendo falar sobre meu filho, que estava àquela altura com quinze anos e segundo ela, estava andando com gente segundo ela, “suspeita”. Mas na visão dela, gente suspeita poderia ser qualquer pessoa que tivesse uma atitude diferente. Nem parece que é uma pessoa formada. Nem tudo é o que aparenta ser. Convencê-la disso é que era o problema. A conversa foi longa, cansativa e por fim acabei por dar com o telefone na cara dela e não atendi mais depois. Vou visitar o garoto neste final de semana e conversar com ele. Preciso mostrar que ele tem de respeitar a mãe. Se ela acha a trupe dele esquisita, ele que trate de procurar uma mais “normal”, sorri, por causa dos meus pensamentos.

Finalmente entrando em minha sala de aula, com passos calmos, comecei a fazer a chamada, alguns respondendo, outros feito bobos não respondiam e então eu dava falta assim mesmo. Nisso, eu percebi uma aluna nova, a de número trinta e nove. Seu nome era Edmara de Paula Silva. Meu mundo parou naquele instante. Resolvi olhar quem era. Ela estava na última carteira da última fila, a minha esquerda. Assim como eu, ela me olhava fixamente. Vi o destaque dos seus olhos verdes, claros, da cor do mar. Os cabelos eram negros, cacheados, bem juntinhos que chegavam se enrolando até um pouco abaixo da altura dos ombros. Sua pele morena era de como se ela estivesse acabado de passar uma temporada na praia. Suas mãos, leves e delicadas, possuíam unhas longas, que me fez pensar que eram postiças. Tive vontade de me levantar da cadeira para ir lá conferir. E aproveitar para conferir também os finos lábios adornados com batom de cor avelã.

Levantei-me e comecei a ministrar minha aula. Qual aula? Sei lá o que estava falando, meus olhos agora só estavam fixados naquela morena de nome Edmara. O mundo que se danasse, que tudo ao meu redor que fosse ao inferno. O meu desejo era ter Edmara em meus braços. Eu sentia minha boca se mexer, meus lábios se movimentarem. Observava também junto com o murmurinho de alguns alunos que nunca prestavam a atenção na aula mesmo, que na verdade eu apenas prestava atenção nela. E senti que ela também me olhava, dava uns risinhos digamos diabólicos, como se me tentasse a cada olhar trocado, a cada passada minha na frente, de costas para o quadro-negro e de frente para turma, também tocar em mim.

Mas eu também estava no limite da ética. Eu professor, ela aluna. Apesar de solteiro, livre e desimpedido, qual era o limite da ética? E se alguém percebesse? E se ela realmente ficou afim de mim, e se nós resolvêssemos ter um caso? E se alguém descobrisse e resolvesse contar para todo mundo? Franzi o cenho por alguns segundos, tempo suficiente para uma aluna chamar-me algumas vezes, e depois perguntar se tudo estava bem. Eu dissera que sim, mas na verdade estava hipnotizado pela beleza daquela garota, que conseguira despertar a minha atenção. Nunca havia me sentido assim durante anos de docência, e também nunca tinha me sentido assim desde que me casei.

E assim ficamos durante um bom tempo, ela fixando o olhar em mim, eu sinceramente não me recordo o que estava falando. Mas podia perceber o vigor em minhas mãos nas raras vezes em que fui escrever ou apagar o quadro negro. A energia fluía em meu corpo como se eu estivesse possuído por alguma divindade ou qualquer outra coisa parecida. Eu mesmo parecia não estar cabendo em mim e isso parecia estranho, repetitivo, irreal. A jovialidade perdida em algum lugar do passado estava de volta em meu corpo. Não havia desânimo, cansaço ou fadiga. O simples fato de poder ter a possibilidade de tê-la para mim alimentou-me grandes esperanças.

Eis que na hora, em que fixamos olhares, o sinal tocou. Ah, maldito sinal que novamente vem a me perturbar. Pena que só houve sete pragas no Egito, pois se estivéssemos nos tempos modernos, com certeza esta seria a oitava. Eu a encarei pela última vez naquele dia e estava saindo quando ela levantou-se e veio em minha direção. A princípio eu me gelei de medo, pânico e pavor. O seu caminhar gracioso me fez parar de prestar a atenção nos outros alunos que me perguntavam algo, talvez sobre prova, ou exercícios. Mas eu não estava nem aí. Ela estendeu suas mãos delicadas segurando na minha dizendo:

- Desculpe professor eu não ter me apresentado formalmente. Eu vi de outra escola e não queria incomodar a sua aula que por sinal foi muito boa. Prazer, como o senhor já sabe meu nome é Edmara.

-O Senhor está no céu, retruquei, e já pensando na mancada que havia dado ao falar aquilo. Chamei-me de velho, obviamente.

-Desculpe professor, é à força do hábito.

-Não seu preocupe minha querida, eu que fui grosseiro.

A boa conversa só foi interrompida pelo professor de química que dava claros sinais de impaciência comigo. Disse que nos veríamos depois, e me voltei para a sala de professores. Entrei, apanhei mais giz, um livro e voltei à sala de aula. No caminho, indo para a próxima aula, eu me deparei com Edmara de novo no corredor. Não houve palavras, não houve toques, não houve beijos, não houve nada. Mas na nossa troca de olhares claramente existiu um desejo mútuo que parecia sair pelos nossos poros. Não sei quanto a ela, mas a minha respiração ficara ofegante e intensa, aumentando à medida que nos distanciávamos. Cheguei a minha sala de destino e mecanicamente começara a repetir as mesmas coisas para os rostos desinteressantes – e às vezes desinteressados de sempre - quem me ladeavam dentro daquele cubículo com poucas janelas, sem ventiladores e de aparência velha, gasta, aos quais os alunos em geral tinham certo asco. Eis que sou interrompido pela supervisora da escola que vem me dar um aviso:

-Professor, ao sinal, o senhor está dispensado...

-Por quê? – perguntei com certo nervosismo.

-O professor de literatura não vem e a professora de química também; então achamos por bem dispensar algumas turmas e então eles vão sair mais cedo.

-Ok, por mim tudo bem.

Então, como combinado ao som do sinal, me despedi dos alunos e fui novamente para a sala de professores. Encontrei com alguns colegas que diziam estar com sorte de estar indo embora mais cedo, outros com o semblante de inveja porque teriam de dar mais três aulas enquanto eu e os outros íamos embora mais cedo. Despedi-me e caminhei até ao estacionamento, onde entrei no meu carro. Não era um carro novo, mas também era o que eu podia pagar com o que sobrava depois de pagar todas as minhas contas e com o salário que atualmente nós professores ganhamos.

Entrei no carro, guardei minha mochila, laptop, e coloquei no aparelho de som do meu carro meu pen drive que continha algumas músicas que gosto, principalmente rock dos anos setenta e oitenta. Nisso, eu resolvo olhar para o espelho retrovisor e vejo novamente Edmara. Novamente nossos olhares se cruzam, porém desta vez ela não percebe que eu a vejo. É neste momento também que eu consigo perceber que roupa ela veste. Antes só tinha dado atenção ao seu rosto, seu sorriso, suas mãos. Não pude ver antes com detalhes o que estava vestindo. Ela vestia uma calça jeans branca, com tênis combinando da mesma cor e uma camisa vermelha colada ao corpo, que realçava provavelmente seus seios, já que ela carregava o seu fichário abraçada ao seu tronco, fazendo que os homens imaginassem que por trás daquele fichário provavelmente haveria um par de seios fartos.

Liguei o carro, dei marcha ré e saí pelo portão da escola. Ao passar por ela, resolvi não oferecer carona, já que era o primeiro dia e isso evidentemente ficaria óbvio a qualquer aluno que tivesse o mínimo de observação. Apenas buzinei, e estava indo embora, acelerando, quando eis que na mesma esquina em que contornei, havia lá um jovem forte, alto, de cabeça raspada, com uma tatuagem de uma serpente no braço. Pensei ser um assaltante e pensei também em Edmara. Reduzi a velocidade e praticamente parei o carro para poder ver o que estava acontecendo. Foi quando o jovem que vestia uma calça jeans e camiseta colada no corpo se interpôs a frente dela. Apertei nervosamente a embreagem e engatei a ré. Quando comecei a acelerar para trás, percebi que o rapaz a beijava intensamente juntamente com um abraço afetuoso. Freei. Eles se assustaram. Engatei a primeira marcha, e acelerei. Os pneus patinaram no asfalto liso e eu ganhei a estrada deixando-os para trás. Ganhei bastante velocidade, aumentei o volume do rádio e deixei que a atenção ficasse apenas na estrada. Mas no fundo no fundo, no íntimo, meu subconsciente dizia a mim: “Edmara, morena que serás um dia tua. Quando não importa, onde não importa. Serás tua.”

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Suicida

Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.
E a violência travestida faz seu trottoir...(Humberto Gessinger)



Foi de repente. As pessoas ao redor não tiveram muito tempo para se abrigar. O som foi abafado, porém muito forte. Depois do impacto, pedaços do crânio, sangue e massa encefálica voaram longe. Todos ficaram perplexos como aquele homem pudera ter feito aquilo. Aliás só se chegou ao consenso de que era um homem pela sua vestimenta. O rosto desfigurou-se, transformando-se numa pasta disforme de ossos, carne e sangue. Os braços estavam esticados, e as pernas juntas parecendo mais como uma tentativa frustrada de voar. Era literalmente um Ícaro para lá de frustrado, sofrível, digno de ter pena.
Passado o susto da queda, os populares se aglomeraram ao redor do corpo, numa tentativa mórbida de saber quem é, ou melhor quem era. Que diferença fazia para aquele povo todo? Que falta do que fazer! Primeiro correram para não serem atingidos pelos respingos de sangue do defunto, agora se aglomeram junto a ele. Afinal para que? Ninguém é parente deste cidadão, muito menos partilham da mesma dor que ele sentia antes de se jogar do edifício. Era um cidadão alto, não sei tinha barba pois o rosto ficou em mil pedaços, mas os cabelos eram bem compridos. Afinal só deu para ver os cabelos mesmo, já que o rosto caiu em cima do concreto que suporta essas lixeiras da rua. A roupa era bem surrada. Um jeans velho, botas velhas e uma jaqueta de couro que usava-se muito antigamente para cobrir sofás que dava-se o nome de “courinho” preta. Policiais que estavam por perto logo chegam e conseguem em uma loja de variedades um lençol para cobrir o corpo daquele pobre homem. Mas o mal feito já estava lá, afinal aquele homem alto já havia morrido, e ao passo que os policiais chegavam o síndico do prédio também chegara coitado, esbaforido sem saber quem ao certo tinha pulado da janela.
Os fotógrafos de plantão com seus celulares tiraram fotos o quanto podiam e correram para a lan house que fica ao lado da Ótica Águia afim de serem os primeiros a postarem as fotos do coitado suicida. Um policial de bigode claro, expressão fechada, tentava afastar os curiosos – os mesmos que correram do impacto suicida – de perto do corpo, enquanto um outro policial, branco, cara de poucos amigos, resolvera aos poucos ir verificando o estado do morto, se portava documentos, apalpando-lhe em todas as partes para que pudesse ter uma noção de quem era.
A primeira coisa que achou foi a foto de uma apresentadora infantil.Logo pude reconhecer, pois era uma foto de corpo inteiro e a reconheci por uma pinta. Era uma foto velha de uma revista. Mostrou ao policial bigodudo que fez cara de desdén. Colocou a mão novamente no bolso esquerdo da calça jeans e parece ter encontrado uma carta. Abriu, leu e fez a conexão rapidamente mostrando a foto e o que me pareceu ser uma carta, talvez quem sabe, de amor, agradecimento, sei lá. Quem sabe esse moribundo não conheçeu ela ao vivo e se decepcionou? Parecia que ele tinha feito uma carta para a apresentadora e talvez ela a tenha recusado.
O policial branco continuava sua busca pelo corpo do moribundo, que tinha se esfacelado no chão. Enquanto isso, um cara com roupa de pastor murmurava “Isso é coisa do maléfico! É falta de ir na igreja” enquanto o velhinho voltando da caminhada dizia para a dondoca ávida de sangue “droga é uma merda, acaba com a vida do sujeito”. Nisso o policial branco, achou mais uma coisa no bolso da jaqueta do sujeito. Um livro. Chamava-se O Céu e o Inferno. Não vi quem era o autor. Não me lembro de ter lido. O barulho da sirene e uma viatura da policia civil chega. Mais um carro grande, o popular rabecão. Iam finalmente retirar o morto dali e eu posso voltar a ficar tranquilo na minha portaria trabalhando. Ao passo que estou voltando esbarro em uma coisa. Olho de volta ao chão. Um álbum. Parece ser do morto. Ninguém viu, então rapidamente eu pego e entro para a portaria. Juvenal, meu colega de portaria que não quis ver o morto, pergunta o que é. Digo apenas que é um álbum de um amigo e digo que vou dar um tempo no quartinho, que não estou bem, porque vi o suicídio e peço para avisar a síndica que vou descansar um pouco pois estou com dor de cabeça (mentira).
Começo a folhear o álbum e vejo muitos rostos de gente famosa. Escritores, deputados, ministros que eu conhecia somente pelos jornais que lia no meu intervalo na portaria, rostos de gente muito famosa. Mas no fim eu não conhecia quem era afinal o rapaz nas fotos. Isso me intrigava ao extremo , já que eu o vi, praticamente cair na minha frente, deixando para trás tanta, tanta coisa que eu mesmo não consigo imaginar. E eu folheava impiedosamente aqueles papeis de forma a tentar descobrir porque ele tinha se jogado. Duvido muito que tenha sido por causa da carta, mas acredito que talvez tenha sido por outro motivo. A investigação paralela também não poderia avançar tanto, já que eu estava de posse do álbum eu não poderia devolvê-lo ao dono e muito menos a polícia já que eu temi por estar escondendo provas. As fotos impregnadas daquele álbum chegavam ao fim quando de repente eu encontro ao final de seu álbum uma foto com o suicida, a apresentadora de televisão e uma outra atriz, grávida. Anexo a foto estava um envelope de um laboratório. Não resisti e abri o tal envelope. Nele na verdade parecia um exame. A foto do suicida, e seu nome: Márcio Guimarães. A atriz e um bebê. Era um exame de DNA.
Acostumado a ver na minha pequena tevê, as brigas pela paternidade, eu logo fui para a última página. Nela, estava escrito que na verdade a paternidade era de Márcio Guimarães. Então eu me lembrei da atriz. Era a resposta. Na verdade ele era o pai biológico, entretanto, quem era o pai “verdadeiro”? Me lembrei de uma revista que há alguns dias estava esquecida na portaria. Guardei o álbum, e retornei à portaria e peguei a revista. Era uma revista de fofocas, chamada “Acontece na TV”. Folheei a página até achar a foto da atriz. A manchete dizia seu nome: “Ludmila exibe seu primeiro filho ao lado do seu marido, o empresário Caio César.” Na reportagem dizia sobre a extrema feliciade de ambos com a chegada de Vinícius e como tudo aconteceu desde o primeiro ultrasson até o parto. Na reportagem com várias fotos, a reportagem fazia questão de salientar a incrível semelhança física entre pai e filho. Olhando atentamente a reportagem, apesar do olhar bravio do meu colega que acabara por me render mais cedo na portaria, eu acabara por ler no canto inferior direito, quase ilegível: “Foto: Márcio Guimarães”. Juvenal, pousou a mão em meu ombro e perguntou: E aí companheiro, tudo bem? Você depois que pegou essa revista aí ficou branco como uma vela. Eu respondi que estava tudo bem, mas que não queria falar mais. Por último, Juvenal me perguntara: e o álbum do seu amigo, gostou? Secamente eu respondi. “Não, achei um pouco triste”.


Homenagem a um grande cara que fez e faz uma grande música, Humberto Gessinger...