Este blog contém contos, textos e tudo mais o que vier a minha cabeça. Sou um escritor sem editora, portanto, tento através deste blog fazer com que talvez o que eu escrevo chegue de alguma maneira às pessoas tanto que gosto quanto as que detesto. Curtam e quem sabe um dia terei meu sonhado livro publicado?
sábado, 24 de dezembro de 2011
CONTOS URBANOS
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA
No fio da navalha
Sabe uma frase corriqueira que circula no meio masculino que diz: “Uma mulher bonita sempre vem acompanhada de uma baranga.”? Pois então. Isso se aplica aos homens também e às vezes acompanhado de outra sentença. Sempre o homem duro tem um amigo com grana para ajudar a pagar as contas. É ou era o meu caso. Essa é a segunda vez que escrevo parte de minha autobiografia e mais uma vez o cenário são os anos 90, mais precisamente no período da minha adolescência. Gostava daquele período, eu podia fumar sem ter de me preocupar com o câncer, beber se quiser sem me preocupar com meu fígado e a preocupação básica naquela época era de transar sempre com camisinha, afinal todos ficavam apavorados com as figuras da mídia que estavam aidéticas e que apareciam na mídia depois de tomar toneladas de AZT e ainda assim, se mostrarem esqueléticas, pálidas, quase mortos-vivos.
O som era mais pesado. Tínhamos o Nirvana, o Pearl Jam, Alice in Chains, o Guns (em franca decadência, mas tudo bem), Raimundos, Chico Science, O Rappa, o Charlie Brown surgindo e outras tantas. Não tinha essa frescura colorida de hoje, apesar de termos aqueles pagodeiros de quinta e um sertanejo que consistia em caras com calças atoxadas com cara de babaca. O Didi ainda chamava o Mussum de pé de rodo e o Mussum devolvia chamando ele de Cardeal. O politicamente correto era só mais uma viadagem(podíamos falar isso e não ser processados como eu provavelmente serei ao usar esse termo, mas vou mantê-lo em nome de uma liberdade de expressão da época, apesar de todo meu respeito pela comunidade gay e dizer que eles têm de ter seu espaço e direito) e ecologia era coisa de gente chata que achava que a vida se resumia a abraçar árvores e comer carne de soja.
Bom, naquela parca adolescência eu era o “homem-baranga” que tinha um amigo rico. O Luciano Xuxa. Apesar dele ser moreno, resolvemos dar esse apelido a ele por causa dos cabelos compridos e ralos. Eu era o pato feio da turma. Mas, a coisa não mudara muito daquela época para cá,mas vamos ao que interessa. Eu era um duro, minha família não tinha muitos recursos, mas não sei como eu conseguia me dar bem com a galera que tinha. Além do Xuxa, tinha o De Angelis, que não era o piloto, mas o pai dele tinha tanta grana que uma vez “moeu” um Mitsubishi na estrada e nem pagou para consertar o carro, jogou fora e comprou outro. O pai do Xuxa tinha menos grana, era dono de uma das maiores lotéricas da cidade, então obviamente. Assim os filhos dele tinham uma vida relativamente boa, podendo ir na base do “curtindo a vida adoidado que depois papai paga” que eu embarquei na onda também.
Foi numa dessas que a gente de bobeira na rua, quando o irmão do Xuxa, o Roni, passou tirando sarro com a nossa cara com o carro do pai deles. Deu tchauzinho junto da namorada e se foi embora. A gente pensou praticamente junto: “puta cara de sorte e a gente aqui, olhando para o vento.” Até que o Xuxa me disse que sabia onde ficava a chave do portão da garagem, e a chave da moto, uma XLX 250cc. Um olhou para o outro e o outro olhou para o um. Cabeça vazia é casa do diabo? Então ele alugou a gente por um bom tempo. Não pensamos duas vezes. Ele ia sair com a namoradinha tirando sarro com nossa cara? Nem nunca. Fomos para o apartamento do Xuxa, ele disse que ia tomar banho – e tomou mesmo – só que no caminho para pegar uma toalha ele passara pelo quarto do irmão dele, que por sua vez deixara de maneira descuidada as chaves do portão e da moto bem em cima da cômoda. Resultado: Na ida para o banheiro o Xuxa me joga a chave e eu espero uns 5 minutos até ele acabar de tomar o banho com as chaves da moto no bolso, com as quais eu saí do apartamento dele sem ninguém suspeitar de absolutamente nada.
Capacete? Não precisava, então rapidamente a gente abriu o portão, e saiu por aí. Correndo pelas ruas afora. Irresponsável? Sim, mas isso fez parte da minha vida e eu gostava da adrenalina de correr que nem louco pelas ruas perto do bairro já que lá a polícia não aparecia. Só aparecia para apartar briga de vizinho, briga de marido e mulher e quando a gente ficava jogando bola numa rua próxima. Fora isso, era território sem lei. A primeira vez foi muito boa. Poderíamos ter parado por aí. Mas quem disse que a tentação resisitiria? Era só o irmão dele sair que a gente pegava as chaves da moto e pronto. Gasolina, poderiam perguntar, o Xuxa às vezes comprava e outras vezes o gasto era baixo e o irmão dele nem desconfiava.
O céu era o limite? Não. Além de ir na garupa para tentar pegar mulher (sim, os feios tem seu lugar ao sol, principalmente se as interesseiras acham que você tem grana também) decidimos que pegaríamos outro alvo. O carro. Algumas vezes o irmão do Xuxa saía com a moto, então ficávamos a pé. Resolvemos então fazer o seguinte, o carro substituiria a moto em caso da mesma ser utilizada pelo irmão dele. E foi o que fizemos. Eu fiquei incumbido de distrair o pai dele, “seu” Dirceu para que o Xuxa pegasse as chaves reservas. O carro não era lá essas coisas. Era um Corcel I, mas para os objetivos finais até que serviu numa boa. Correr. O famoso “cavalo de pau” era favorecido pelo freio de mão ficar perto do volante. Acho que a partir deste ponto a coisa começou a ficar fora de controle. Ora era a moto, ora era o carro. Cinto de segurança? Sei lá o que era isso, eu só arrancava risadas e a expressão de quero você prá mim das garotas. Claro que na nossa condição era “pegar” e largar. Não sabíamos nem o nome delas direito. E eu achava que tudo ficava divertido quando o Xuxa enchia a cara e aí que ele pisava fundo no acelerador mesmo. Inconseqüentes? Babacas? Suicidas? Claro que sim e não escondo isso. Babacas são esses caras que passaram por períodos na base do sexo, drogas e rock’n roll e hoje fazem musiquinhas contra as mesmas. Inconseqüente é quem vota no Tiririca e suicida é o cara que faz pose de não fumante e joga álcool de montão para dentro do estômago, fica doidão até demais dando vexames que o melhor bebum dos anos oitenta ficaria ruborizado.
Mas neste período a coisa também começou a desandar. O Xuxa arrumou uma namorada, a Rita. Aí eu fiquei a pé. Não tinha problema, eu dava umas voltas a pé com outra turma e a coisa ficava na boa. Mas o namoro do Xuxa não estava dando muito certo. Aliás outro dia conto uma história ótima da Rita. O pai dele resolveu “fornecer” o carro para ele – sim nessa época não podia, mas os pais davam os carros assim mesmo – e as manobras para impressionar a Rita foram ficando mais radicais. Uma vez, em plena avenida, ele deu o chamado “cento e oitenta”, mostrando que tinha controle do carro, só que eu ainda lembro que tinha acabado de chover e o asfalto ainda estava molhado. A galera foi ao delírio. Só que alquele foi o primeiro indício de que algo ia sair errado. Primeiro a Rita não gostou da manobra e terminou com o Xuxa. Então voltei ao cargo de co-piloto, ou navegador, como queiram. O ritmo mudou e a velocidade também. Éramos mais irresponsáveis ainda. E aproveitando as mágoas do Xuxa, toda vez que ele resolvia beber e perguntar se deveríamos roubar o carro eu prontamente dizia que sim. Arriscávamos nossa vida de todos o jeito. O carro atropelou uma pessoa, sem ferimentos graves (sim, prestamos socorro), arranhamos outros tantos, ele quase caiu em um buraco, fomos perseguidos por outros caras que perdiam para gente nos rachas entre outras coisas.
Com a moto o Xuxa passou a empiná-la freneticamente. A turma ia ao delírio com as manobras, e eu cada vez mais envolvido naquele circo de loucuras. Assim como o carro, foi um festival de empinadas, pegas, derrapagens e tudo mais que se podia fazer com uma XLX 250cc. E antes que alguém perguntasse se alguém da minha família sabia disso a resposta é simples: Não. Nadinha. Passava desapercebido. Até o dia que a verdade veio a tona não é? Foi o lance de maior sorte da minha vida naquele período de vida no fio da navalha. Duas coisas aconteceram para que a verdade viesse a tona. A primeira delas, o Flavinho, amigo do meu pai comprou um Monza, só que ele não podia usar a garagem dele, já que ele tinha transformado ela no Speed Caipira, uma lanchonete. O outro fator foi a mudança de uma menina, linda, modelo se não me engano para a rua Humaitá, uma rua sem saída. Tudo aconteceu nos primeiros dias de noventa e dois. O único problema de paquerar aquela garota para mim, foi de que ela tinha um metro e oitenta e cinco. Eu, chegando aos meus um metro e setenta e três atuais. Resumindo, não ia rolar mesmo.
Foi numa dessas que apareceu o Xuxa de moto. Foi no final da rua, derrapou, e parou na minha frente. Perguntou se eu queria ir e eu falei que não. Afinal a menina era mais importante. Ele subiu em direção a avenida principal e como eu pensei, ele iria dar a volta na pracinha e depois descer de novo a avenida. É aí que entra o Flavinho e meu pai. Sem lugar para estacionar ele pediu a vaga da garagem do meu pai, que ficava do outro lado da casa dele. Meu pai emprestou, afinal não tínhamos carro e ele era um cara gente boa, então não tinha razão para negar. Só que por volta da meia noite o Flavinho foi colocar o carro na garagem. Só que ao fazer a manobra para esquerda ele apenas viu a XLX crescendo em cima do lado do motorista. A pancada foi tão forte que moeu a lateral do carro do Flavinho toda. A moto se entortou toda. O Xuxa voou uns quatro metros, bateu em um poste e caiu no chão. Resultado: além das escoriações em geral ele quebrou apenas, é apenas o pulso. E eu. Terminei por aí a minha vida de riscos momentaneamente, sem seguir tão perto do fio da navalha, ou como foi cantar anos mais tarde Humberto Gessinger não dancei tão perto do campo minado. Depois disso o Xuxa tomou juízo e também parou de correr, a galera tomou um pouco mais de consciência em relação a bebida e direção, a Rita eu conto depois, mas ela sobreviveu ao trauma de ver o ex-amado se estatelando num poste e todos vivemos (nem sempre felizes e nem para sempre) até hoje.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Morte intermitente
Estávamos saindo do prédio de nossa empresa na Rua São Bento e conversávamos animadamente. Aliás, o Tavares estava mais animado do que nunca, afinal ele estava de amante nova. A secretária dele ficou grávida do marido e a farra com ela acabou. Mas por sorte dele, a publicitária estagiária, deu mole para ele uns dias atrás. Eu não a vi, mas o Tavares estava animadíssimo. Contava cada detalhe da noite anterior, de como ela era, da tatuagem que tinha no pé, ao piercing que tinha no umbigo. De como os seus cabelos esvoaçavam ao vento e como ela era assim digamos fogosa, entre quatro paredes. Claro que eu conhecia o Tavares e sabia que ele também exagerou em alguns atributos físicos da moça, mas nós continuamos andando e eu fui fingindo que tudo que ele me contava era a mais pura verdade. Acredito que boa parte era, mas ele gostava de que as coisas ficassem um pouco maiores como deveriam ser. Se for a estagiária que estou pensando que é, ela é bonita, mas o mal do Tavares é querer colocá-la como se fosse uma deusa grega. Como se fosse uma nova Afrodite. Mas não, não era bem assim. De repente o telefone do Tavares tocou. Era a mulher dele, a Leila. Eu sabia por que ninguém chama outra pessoa de “môzinho” para lá e para cá. Estão casados há dezoito anos e há dezoito anos o Tavares bota um par de chifres nela. Conheço o Tavares há vinte anos, desde que entramos como trainees na empresa e hoje ele é o CEO e eu sou vice-presidente. Ainda bem que pouca gente sabe que o Tavares sai com as moças da sede da empresa. Ele não acedia, eu não ia deixar, mas algumas mulheres têm quedas por homens poderosos, sejam eles casados ou não. Então o Tavares aproveita. Aproveita mais do que deveria. As traições são tantas que eu já perdi a conta. O pior de tudo isso é que muitas vezes eu tenho de fazer de cúmplice. Ele vai jogar pôquer na minha casa, vamos ver uma partida de tênis, vamos a um congresso, reuniões extensas – que às vezes eram realmente verdade- e toda a forma de desculpas que eu pudesse imaginar. Pagava caro por prostitutas de alto luxo. Eu acho que o Tavares é viciado em sexo, mas eu que não vou me meter nas confusões que ele mesmo arma atrás de mulheres. Desde que não dê problemas na empresa, por mim tudo bem, eu não sou a mulher dele mesmo. Só acho que esse vício dele vai prejudicá-lo um dia. Se já não o prejudicou, afinal não vivo vinte quatro horas com ele por dia. A velha cumplicidade masculina está de volta a ativa mais empolgada do que nunca. Eu que não vou quebrar este elo. Mas é um bom pai, um bom marido, trabalha bastante e esse meu argumento é tão machista que até eu tento me convencer que ele é válido. Fomos dar uma parada no Café Geronimo como sempre. Afinal hoje as reuniões foram muito cansativas e eu realmente precisava de bastante cafeína no meu corpo. Não sou mais jovem, mas uma boa xícara de café bem forte me reanima para pegar meu carro e voltar para casa.
Na porta do Café, eu senti a mão do Tavares sobre o meu ombro, pois ele tinha ficado para trás ao desligar o Iphone. De repente, tudo escureceu. Já não havia mais luz. Morri, pensei comigo. Ou então devo ter entrado em algum estado de coma iminente, alguma veia em meu cérebro estourara ou tive algum AVC. Mas o silêncio, me fez pensar que realmente eu estava morto. Ou então aquelas velhas histórias, de “corra para a luz”, “siga o corredor escuro em direção ao lado mais claro” para mim não passavam de pequenos jeitos de explicar a morte. Mas de toda forma, eu não quero ir para luz merda nenhuma. Estou com cinqüenta anos, chega, já vivi muito e não estou afim mais. Cansei disso tudo. Já que minha hora chegou, então vamos. Não quero ficar adiar mis isso pois sinceramente estou cansado dessa vida. Que me perdoem os filhos, que ainda são adolescentes mas sinceramente terão de conviver com isso. O Carlos que é mais sensível, mais essencialista, vai ter de agüentar. O Marcelo é mais impulsivo, vai ficar revoltado de eu ter morrido assim. Tão ridículo, no meio de uma calçada cheia de gente me olhando, com as vozes de sempre pensando no que poderia ter sido, estirado no chão como um pedaço de carne dentro de um matadouro. Mas, no fim das contas, acho que isso foi melhor para todos. Inclusive para mim, que não quero ir para o ponto luminoso no fim do túnel.
Tudo aqui está escuro, acho que a transição da vida para a morte deve ser assim. No início a escuridão, o silêncio, o tédio. Acho que isso é assim mesmo, deve servir para nós refletirmos sobre a nossa vida. Mas refletir sobre o que? Eu não tive um vida tão emocionante assim. Claro, que as bebedeiras da faculdade foram ótimas. Ainda regime militar, anos negros, aos quais muitos amigos fazem questão de esquecer. Período de muitos estudos, mas também de muita maconha, cocaína e bebida. Na república que morava no Edifício Copan no antigo apartamento 414 no Bloco B morávamos eu, Tavares e Paulo. No apartamento vizinho moravam umas meninas que diziam fazer faculdade mas que faziam programa à noite. Foi lá que eu descobri as drogas e como eu as usava indiscriminadamente e aproveitava para negociá-la com minhas vizinhas para um programa grátis. Nós também não tínhamos muita grana. Eu trabalhava numa lanchonete a noite após a faculdade para um amigo do meu pai que disse que tinha de fazer como ele, se virar para arrumar a grana da faculdade. O Paulo era segurança de boate nos finais de semana e o Tavares que era o mais rico de todos nós, não fazia nada, apenas estudava, cheirava, fumava e transava com nossas vizinhas. Ficamos nesse função até o final da faculdade. O mais engraçado nesse período foi que o Tavares se formou antes de nós, mas só colou grau junto com a gente, um ano e meio depois. O problema foi depois. Passamos de estagiários a trainees de uma grande empresa. Mas como nos tirar do vício? Passamos um tempão nos Alcóolicos Anônimos para superar isso. Quer dizer, eu o Tavares. O Paulo? Esse foi antes de nós, tinha se tornado gerente da boate. Se relacionava com gente muito rica, poderosa e arrumava de tudo para eles. Inclusive a maconha, a coca e a heroína. Viveu intensamente, mas não sei do que morreu, pois só tive coragem de ir vê-lo no hospital depois que o corpo dele que antes parecia de um mamute, estava reduzido ao de uma gazela. Triste.
A escuridão não muda, começara então a caminhar no escuro e no nada. Vejo então as imagens que passaram da minha vida. A saída do vício. Quando o Tavares conheceu a Leila, sua futura mulher, uma japinha, que misturava a eficiência nipônica com uns resquícios hippies. Linda, mas eu acho que o Tavares a escolheu por conveniência dele, afinal o Tavares não namorava direito ninguém. E quando fazia isso, ele só pensava em transar, transar e transar tendo a parceira dele prazer ou não. Nesse período eu conheci a Lilian. Alta, loira, magra. Parecia uma mulher nórdica- mas na verdade ela era de Bauru, estava em Sampa para arrumar um emprego, era formada em psicologia, sempre calada, sem sorrir muito, mas muito bem relacionada. Namoramos por cinco anos, quando decidimos nos casar. Fizemos uma cerimônia simples, sem muitas delongas, sem muitas frescuras. Com uma grana que economizamos mais uma grana que nossos pais deram, fomos morar em um apartamento legal na Vila Madalena. Daí, à medida que eu ia subindo de posto na empresa, mudávamos para um lugar melhor. E o último lugar foi o Morumbi.
Mas não adiantou muita coisa tanta mudança. Afinal os filhos vieram depois de alguns anos e pudemos estabilizar nossa vida. E com isso uma rotina chata. Ainda bem que eu morri. Não agüentava mais, o casamento me sufocava e os filhos já estavam criados. Não era espalhafatoso que nem o Tavares, mas as minhas amantes eram mais discretas, entretanto, amantes demais chateia, pedem dinheiro demais. De um tempo para cá era melhor utilizar as prostitutas mesmo. Sexo fácil, rápido e sem sentimentos, cobranças e obrigações a cumprir. Ninguém sobrevive a um casamento sem amantes. Ninguém é tão certinho ou certinha assim, o tempo todo. Pior, os puritanos são piores. Claro que há puritanos que de tão puritanos são chatos e sinceramente acho que deveriam ir para o inferno. E por falar nisso, acho que isso está demorando tanto que eu devo é ir para o inferno. Até porque ouço vozes, muitas vozes, acho que estou mais perto do inferno ou seja lá onde for.
Nunca acreditei muito em Deus, mas acho que Ele também faz questão de não acreditar em mim. Não é que nunca acreditei Nele. É que na verdade nunca acreditei em milagres. Tive tragédias demais na minha vida para crer nisso. Então resolvi deixá-lo de lado para que eu pudesse viver minha vida. Então foi como um divórcio. Então agora estamos aqui para resolver tudo isso. Se o meu destino for o inferno, tudo bem. Não deve ser que nem o de Dante mas eu aceito assim mesmo. Afinal, uma hora eu teria de pagar pelos pecados cometidos. Fico pensando se eu ficaria ardendo no infinito. Sei lá, não fui muito apegado em religião, então como um semi-ateu eu devo achar que não vou ficar em lugar nenhum. Mas acho que estou errado, ouço sons, sirenes, buzinas, mais vozes e eu aqui, no escuro. Acho que o pós-morte deve ser isso. Tomara que tenham me enterrado decentemente. Não pedi muita pompa, mas todo mundo deve ter um funeral decente. Será que a minha mulher chorou, ou está chorando? Mais barulho. Acho que não fui enterrado, pois ouço tantos sons comuns que devo estar no hospital então. Com um desses médicos sádicos que teimam em abrir nossos corpos afim de saber do que morremos. Para quê? Não vou voltar a vida por que ele descobriu que eu morri de enfarto, engasgado, dançando ou qualquer que seja a causa. Acho isso ridículo.
Nossa, ouço até a voz do Tavares agora. Ah não, nem aqui embaixo? Eu tenho de ter esse direito. Não quero ouvir a voz de ninguém conhecido, estou de saco cheio, já disse. Gritei, não resisti. Saí correndo pela escuridão afora, afim de que eu pudesse achar a salvação desta vida detestável. Não, não queria mais viver. Os motivos são tantos que não quero entrar em detalhes. Chega. Lilian que me desculpe, mas não quero mais estar neste plano, nesse universo, sei lá aonde for. Quero o fim da pressão, o fim de tudo. Das contas a pagar, dos filhos que querem dinheiro, da mulher que apesar de linda, com o passar dos anos se tornara uma parasita dentro da minha vida, já que a mesma com o passar dos anos só se fez a aproveitar as benesses do que o dinheiro pode proporcionar como uma casa boa, carro importado, jóias e tudo mais.
Quando me dou conta, vejo a luz. Não, não vou voltar, o silêncio aqui é muito reconfortante. Fora de conflitos, pressão de patrões, álcool, drogas, parasitas ao meu redor – que não se manifestavam apenas na forma da minha mulher - mas também em funcionários pedantes, clientes pedantes, reuniões, festas chatas, reuniões chatas tudo muito chato em minha vida. Deveria ter afundado nas drogas e álcool e virado um “nóia’ do centro de São Paulo para ter um pouco de paz e de conforto. Mas eu sinto a luz se aproximar, meu corpo se enrigecer e a luz cada vez mais próxima. Me dou conta que não consigo mais me mover, que infelizmente não tenho como resistir a ir a esta luz. Será a redenção? Que coisa mais estranha. Não entendo mais nada. A luz fica cada vez mais forte.
Não tenho mais forças, sinto meu corpo cansado. Próximo a luz vejo uma mulher, loira, de coque. Ela me chama pelo nome e sinto meu corpo rígido. Parece que estou um pouco cansado, tenho vontade de ir embora, tenho vontade de me mexer, mas sinto que a mão da loira toca meu ombro. A luz me conforta. Mãos frias tocam minha nuca, pois parece que estou deitado.Parecia que eu estava no vácuo. Sensação estranha. Ela me chama pelo nome. Ela é bonita. Ela é, uma enfermeira! Droga! Eu ainda estou vivo! Aconteceu de novo. Outro ataque epilético. De volta a esta vida miserável. Fazer o que afinal de contas, já que o Tavares vem em minha direção querendo talvez me consolar pelo ataque com o qual convivo há anos. Deveria ter me lembrado. Mas o estado de ser de um epilético como eu, faz com que às vezes esqueçamos isso. Acontece, a morte intermitente seja pelas mãos de Deus, seja pela minha ineficácia de fugir da luz, manifesta-se novamente que também nos coloca como talvez uma dádiva. Epiléticos são como as fênix, morrem e renascem, só não é utilizado o fogo.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Edmara, morena
Mais um dia entediado naquela escola. Mais um dia de trabalho chato. Aliás, prefiro me corrigir. O trabalho não é chato, é o seu modo repetitivo de como se fosse uma fábrica é que torna isso chato. O mesmo perfil, as mesmas perguntas e o mesmo lugar-comum. Mas é daqui que retiro o meu sustento para mim e para minha família. Imagino como Marx reagiria se todos os dias alguém lhe fizesse uma pergunta idiota sobre a acumulação de capital, mais-valia entre outras coisas. Por isso sento na minha cadeira na sala de professores numa salinha escondida de tudo e todos onde só há computadores velhos e uma cadeira onde pude colocar meu corpo e dormir por alguns minutos antes que o sino batesse.
Entretanto como se fosse esta a oitava praga do Egito o sinal tocou. Não havia cinco minutos que havia colocado meu corpo esquálido, com a barba por fazer, branco e de cabelos longos naquela poltrona. Ajeitei as minha longas madeixas num movimento rápido, segurando-os e pegando uma elástico qualquer fazendo um rabo de cavalo. Levantei-me, passei minhas mãos magras e alvas pelo meu rosto e percebi que não havia feito a barba hoje e um palavrão passou pela minha cabeça, não sendo pronunciado, pensado apenas. Peguei minha caixa de giz, de madeira, ajeitei minha camisa e minha calça, peguei o livro e fui para mais um dia de trabalho. Tinha o passo lento, vacilante, sem vontade na verdade. Alguns alunos passavam por mim e me cumprimentavam e eu apenas assentia com a cabeça, num gesto de aprovação.
Cheguei à sala, e vi o mesmo cenário de sempre: gente conversando, sentada nas mesas e na verdade àquela hora eu apenas queria dar minha aula e depois tomar uma xícara de café para espantar o sono de uma noite mal dormida anteriormente quando ex-mulher me ligou querendo falar sobre meu filho, que estava àquela altura com quinze anos e segundo ela, estava andando com gente segundo ela, “suspeita”. Mas na visão dela, gente suspeita poderia ser qualquer pessoa que tivesse uma atitude diferente. Nem parece que é uma pessoa formada. Nem tudo é o que aparenta ser. Convencê-la disso é que era o problema. A conversa foi longa, cansativa e por fim acabei por dar com o telefone na cara dela e não atendi mais depois. Vou visitar o garoto neste final de semana e conversar com ele. Preciso mostrar que ele tem de respeitar a mãe. Se ela acha a trupe dele esquisita, ele que trate de procurar uma mais “normal”, sorri, por causa dos meus pensamentos.
Finalmente entrando em minha sala de aula, com passos calmos, comecei a fazer a chamada, alguns respondendo, outros feito bobos não respondiam e então eu dava falta assim mesmo. Nisso, eu percebi uma aluna nova, a de número trinta e nove. Seu nome era Edmara de Paula Silva. Meu mundo parou naquele instante. Resolvi olhar quem era. Ela estava na última carteira da última fila, a minha esquerda. Assim como eu, ela me olhava fixamente. Vi o destaque dos seus olhos verdes, claros, da cor do mar. Os cabelos eram negros, cacheados, bem juntinhos que chegavam se enrolando até um pouco abaixo da altura dos ombros. Sua pele morena era de como se ela estivesse acabado de passar uma temporada na praia. Suas mãos, leves e delicadas, possuíam unhas longas, que me fez pensar que eram postiças. Tive vontade de me levantar da cadeira para ir lá conferir. E aproveitar para conferir também os finos lábios adornados com batom de cor avelã.
Levantei-me e comecei a ministrar minha aula. Qual aula? Sei lá o que estava falando, meus olhos agora só estavam fixados naquela morena de nome Edmara. O mundo que se danasse, que tudo ao meu redor que fosse ao inferno. O meu desejo era ter Edmara em meus braços. Eu sentia minha boca se mexer, meus lábios se movimentarem. Observava também junto com o murmurinho de alguns alunos que nunca prestavam a atenção na aula mesmo, que na verdade eu apenas prestava atenção nela. E senti que ela também me olhava, dava uns risinhos digamos diabólicos, como se me tentasse a cada olhar trocado, a cada passada minha na frente, de costas para o quadro-negro e de frente para turma, também tocar em mim.
Mas eu também estava no limite da ética. Eu professor, ela aluna. Apesar de solteiro, livre e desimpedido, qual era o limite da ética? E se alguém percebesse? E se ela realmente ficou afim de mim, e se nós resolvêssemos ter um caso? E se alguém descobrisse e resolvesse contar para todo mundo? Franzi o cenho por alguns segundos, tempo suficiente para uma aluna chamar-me algumas vezes, e depois perguntar se tudo estava bem. Eu dissera que sim, mas na verdade estava hipnotizado pela beleza daquela garota, que conseguira despertar a minha atenção. Nunca havia me sentido assim durante anos de docência, e também nunca tinha me sentido assim desde que me casei.
E assim ficamos durante um bom tempo, ela fixando o olhar em mim, eu sinceramente não me recordo o que estava falando. Mas podia perceber o vigor em minhas mãos nas raras vezes em que fui escrever ou apagar o quadro negro. A energia fluía em meu corpo como se eu estivesse possuído por alguma divindade ou qualquer outra coisa parecida. Eu mesmo parecia não estar cabendo em mim e isso parecia estranho, repetitivo, irreal. A jovialidade perdida em algum lugar do passado estava de volta em meu corpo. Não havia desânimo, cansaço ou fadiga. O simples fato de poder ter a possibilidade de tê-la para mim alimentou-me grandes esperanças.
Eis que na hora, em que fixamos olhares, o sinal tocou. Ah, maldito sinal que novamente vem a me perturbar. Pena que só houve sete pragas no Egito, pois se estivéssemos nos tempos modernos, com certeza esta seria a oitava. Eu a encarei pela última vez naquele dia e estava saindo quando ela levantou-se e veio em minha direção. A princípio eu me gelei de medo, pânico e pavor. O seu caminhar gracioso me fez parar de prestar a atenção nos outros alunos que me perguntavam algo, talvez sobre prova, ou exercícios. Mas eu não estava nem aí. Ela estendeu suas mãos delicadas segurando na minha dizendo:
- Desculpe professor eu não ter me apresentado formalmente. Eu vi de outra escola e não queria incomodar a sua aula que por sinal foi muito boa. Prazer, como o senhor já sabe meu nome é Edmara.
-O Senhor está no céu, retruquei, e já pensando na mancada que havia dado ao falar aquilo. Chamei-me de velho, obviamente.
-Desculpe professor, é à força do hábito.
-Não seu preocupe minha querida, eu que fui grosseiro.
A boa conversa só foi interrompida pelo professor de química que dava claros sinais de impaciência comigo. Disse que nos veríamos depois, e me voltei para a sala de professores. Entrei, apanhei mais giz, um livro e voltei à sala de aula. No caminho, indo para a próxima aula, eu me deparei com Edmara de novo no corredor. Não houve palavras, não houve toques, não houve beijos, não houve nada. Mas na nossa troca de olhares claramente existiu um desejo mútuo que parecia sair pelos nossos poros. Não sei quanto a ela, mas a minha respiração ficara ofegante e intensa, aumentando à medida que nos distanciávamos. Cheguei a minha sala de destino e mecanicamente começara a repetir as mesmas coisas para os rostos desinteressantes – e às vezes desinteressados de sempre - quem me ladeavam dentro daquele cubículo com poucas janelas, sem ventiladores e de aparência velha, gasta, aos quais os alunos em geral tinham certo asco. Eis que sou interrompido pela supervisora da escola que vem me dar um aviso:
-Professor, ao sinal, o senhor está dispensado...
-Por quê? – perguntei com certo nervosismo.
-O professor de literatura não vem e a professora de química também; então achamos por bem dispensar algumas turmas e então eles vão sair mais cedo.
-Ok, por mim tudo bem.
Então, como combinado ao som do sinal, me despedi dos alunos e fui novamente para a sala de professores. Encontrei com alguns colegas que diziam estar com sorte de estar indo embora mais cedo, outros com o semblante de inveja porque teriam de dar mais três aulas enquanto eu e os outros íamos embora mais cedo. Despedi-me e caminhei até ao estacionamento, onde entrei no meu carro. Não era um carro novo, mas também era o que eu podia pagar com o que sobrava depois de pagar todas as minhas contas e com o salário que atualmente nós professores ganhamos.
Entrei no carro, guardei minha mochila, laptop, e coloquei no aparelho de som do meu carro meu pen drive que continha algumas músicas que gosto, principalmente rock dos anos setenta e oitenta. Nisso, eu resolvo olhar para o espelho retrovisor e vejo novamente Edmara. Novamente nossos olhares se cruzam, porém desta vez ela não percebe que eu a vejo. É neste momento também que eu consigo perceber que roupa ela veste. Antes só tinha dado atenção ao seu rosto, seu sorriso, suas mãos. Não pude ver antes com detalhes o que estava vestindo. Ela vestia uma calça jeans branca, com tênis combinando da mesma cor e uma camisa vermelha colada ao corpo, que realçava provavelmente seus seios, já que ela carregava o seu fichário abraçada ao seu tronco, fazendo que os homens imaginassem que por trás daquele fichário provavelmente haveria um par de seios fartos.
Liguei o carro, dei marcha ré e saí pelo portão da escola. Ao passar por ela, resolvi não oferecer carona, já que era o primeiro dia e isso evidentemente ficaria óbvio a qualquer aluno que tivesse o mínimo de observação. Apenas buzinei, e estava indo embora, acelerando, quando eis que na mesma esquina em que contornei, havia lá um jovem forte, alto, de cabeça raspada, com uma tatuagem de uma serpente no braço. Pensei ser um assaltante e pensei também em Edmara. Reduzi a velocidade e praticamente parei o carro para poder ver o que estava acontecendo. Foi quando o jovem que vestia uma calça jeans e camiseta colada no corpo se interpôs a frente dela. Apertei nervosamente a embreagem e engatei a ré. Quando comecei a acelerar para trás, percebi que o rapaz a beijava intensamente juntamente com um abraço afetuoso. Freei. Eles se assustaram. Engatei a primeira marcha, e acelerei. Os pneus patinaram no asfalto liso e eu ganhei a estrada deixando-os para trás. Ganhei bastante velocidade, aumentei o volume do rádio e deixei que a atenção ficasse apenas na estrada. Mas no fundo no fundo, no íntimo, meu subconsciente dizia a mim: “Edmara, morena que serás um dia tua. Quando não importa, onde não importa. Serás tua.”
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O Suicida
E a violência travestida faz seu trottoir...(Humberto Gessinger)
Homenagem a um grande cara que fez e faz uma grande música, Humberto Gessinger...