segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CONTOS URBANOS



Em defesa da honra


                   Escócia, 1298. Um homem corre apressadamente pelos subúrbios de Stirling.  Queria passar despercebido por entre os camponeses, mas havia uma boa recompensa pela sua cabeça. O seu tartã foi reconhecido por alguns, que de boca em boca fizeram chegar a notícia de que um fora da lei estava nos arredores de Stirling. O vassalo do senhor de Stirling, senhor do castelo de Doune reuniu seus homens e resolveu confirmar o rumor de que talvez Willian Wallace estivesse em seus domínios. Depois da campanha desastrosa de Falkik, e de seu desaparecimento, o senhor do castelo de Doune refletiu que seria uma ótima ideia entregá-lo ao seu suserano.
                   Partiu em sua busca com mais de trinta homens, um exagero evidente, atrás de um homem a pé brandindo apenas sua honra e sua espada que carregava sempre consigo. O senhor de Doune, Lorde Everton, espalhou seus homens pelo campo, na expectativa de que pudesse capturá-lo. Seu primeiro erro ao espalhar seus homens foi deixá-los em quinze duplas. Acontece que o suposto Willian Wallace capturou sua primeira dupla na floresta, sendo os guardas reais facilmente derrotados. Agora ele tinha um cavalo, e poderia adentrar mais rapidamente. Mas ao invés de correr como um garotinho assustado, ele fez, como sempre o inesperado. Caçou as duplas, matando seus oponentes rapidamente com uma destreza rara entre os guerreiros escoceses da época. Lorde Everton com medo, que não poderia deixar aparente conseguiu reunir o que sobrara de sua tropa. Como ele havia escolhido o caminho do meio, em pouco tempo os seus soldados rapidamente estavam reunidos. Total de soldados que foram ao seu encontro: seis. Com nove homens no total, e com os rumores pelos vilarejos de que alguns soldados haviam fugido, Lorde Everton determinou aos seis que foram ao seu encontro que a todo e qualquer soldado que achasse pelas redondezas e que não estivesse vindo de Doune, deveria ser passado na espada. Ele então ficou com mais três homens e adentrou a floresta. No caminho, um cavalo com a pata quebrada, teve sua misericórdia final com um tiro de uma besta pequena que encharcou o pequeno cavalo de sangue.
                   Em sua cavalgada, procurando o que já havia certeza de ser Willian Wallace, os homens cavalgaram fortemente para dentro da floresta, para que pegassem-no o mais rápido possível. Após alguns quilômetros, uma sombra dentro de uma trilha foi identificada. Depois de inúmeros pedidos para que ele parasse ele resolveu correr. Ao sair da trilha, forçou Lorde Everton e seus comandados a desmontar e correr para floresta. Lorde Everton conhecia a floresta, conhecia seus caminhos, mas não gostava de sair de seu castelo, principalmente para aquelas redondezas. Os elmos foram ficando pelo caminho, devido ao seu peso, fazendo com que a eles sobrassem somente a cota de malha e a espada. O perseguido vestia apenas seu kilt com o tartã de seu clã. Em determinado momento, chegaram a uma clareira, perto do lago Ghleannain. Era uma clareira redonda, parecia que as árvores haviam sido cortadas pelo homem, mas não havia tempo para se pensar nisso. O homem desembainhou sua espada, não restando a Lorde Everton e seus quatro homens fizessem o mesmo. Os homens se olharam, sem que uma palavra fosse dita, já que na verdade as únicas palavras seriam o barulho do aço contra aço, aço rasgando carne. Estando o homem com sua espada de um lado e Lorde Everton, já sorrindo com seus soldados de outro, ele apenas disse: Só o matem se ele resistir. Ou seja, se ele não abaixar essa espada, matem-no.  O homem do outro lado, nada disse, apenas não abaixou sua espada. Quando estavam próximos ao combate, uma flexa, caiu na clareira entre eles e uma voz rouca gritou: Parem! Os homens entreolharam quando da mata, surgiu uma figura soturna. Era alto, de cabelos e barbas brancas como a neve. Seu kilt era todo negro e nenhum tartã. Todos se entreolharam enquanto o homem de passos firmes entrava na clareira esticando cinco cordas coloridas e de cores diferentes na sua mão esquerda. Lorde Everton, assim como seus soldados, manteve sua espada em posição de guarda, enquanto o suposto Willian Wallace abaixou a sua. Lorde Everton, o encarou e perguntou:
                   -Pare em nome de quem velho? – disse Lorde Everton, ajeitando os longos cabelos, metade loiro, metade branco. Vestia cota de malha e o símbolo de sua casa na sua capa, um homem e uma mulher se olhando e entre eles a coroa todos em vermelho. Sua espada era longa, de um aço novo, e olhava fixamente o velho. Sua barba meio amarela e meio loira não deixava mostrar a tensão em seu rosto, que reluzia naquela manhã na clareira.
                   -Rá! Um velho chamando o outro de velho. Isso é engraçado. Bom, mas chegaram em minha clareira, essa não parece ser, mas são minhas terras, e eu, dito as leis por aqui.
                   -Velho – disse um dos soldados – largue essas cordas idiotas e se renda. Lorde Everton é seu suserano, tem direitos e você nada mais é que um camponês idiota.
                   -Não vai querer que eu largue as cordas, logo, peço que cada um se sente nas pedras dispostas na clareira e nenhum mal lhes será feito.
                   O soldado não atendeu a ordem e correu em direção ao homem de kilt negro. O velho era rápido, com um movimento do braço direito uma faca de arremesso foi cravada na cabeça do soldado que caiu agonizando. O suposto Willian Wallace continuara parado, de espada baixa. Lorde Everton ficava parado olhando, e com um movimento de cabeça um outro soldado, alto e forte, branco e de cabelos negros correu em direção ao velho. Ao perceber a aproximação rápida do soldado, ele largou a corda azul. Atrás dele apareceu uma lança, que parecia ter sido arremessada por uma besta gigante que penetrou no corpo do homem e levou-o a metros atrás do grupo sumindo na mata onde apenas ouvíamos seu último grito de agonia.
                   -Agora, os senhores podem se sentar? Será um longo dia e quero conforto para os senhores. Se tentarem fugir, morrerão, se tentarem me atacar eu soltarei as cordas. O único ponto seguro é onde estou, onde as lanças não me matarão. Mas se tentarem chegar aqui morrerão, como o amigo de vocês há pouco. Então repetindo a ordem, sentem-se.
                   -É um truque, disse Lorde Everton. Nesse instante, o homem de negro soltou a corda amarela, que atirou uma outra lança que passou a frente dos olhos de todos sendo cravada fortemente numa árvore.
                   O velho sentou, e afagando sua barba branca, começou a divagar sobre o que estava vendo: Olhe só. Lorde Everton. Dentro da floresta. Um estranho que não sei o nome, com uma bela espada admito. O único que calou a boca. Interessante. Para todos vocês estarem aqui, tão longe de seus castelos e terras, atrás deste homem alguma coisa deve ele deve ter feito de muito grave. A não ser que ele tenha fodido com sua esposa Lorde Everton, mas acredito que não, porque aquele javali horroroso nem o senhor tem coragem de fodê-la, pelo que contam nas vilas.
                   -Velho idiota. Reclamou, um soldado loiro, menor que o soldado morto pela lança. Sua magreza aparente impressionava mais como ele podia sustentar ainda sua armadura, cota de malha e manoplas, além é claro da espada.
                   -O velho idiota tem as cordas, você não. Faça como seu senhor. Cale a boca e não me encha o saco.
                   Lorde Everton então falou, apontando o dedo para o homem de cabelos castanhos. O homem vestia um kilt marrom, com o tartã de seu clã, das lowlands. Tinha a barba castanha, como seus cabelos e era forte apesar da baixa estatura. Permanecera quieto todo o tempo, sem falar absolutamente nada. Lorde Everton argumentara que se tratava de Willian Wallace, o ex-protetor da Escócia que sumira e que deveria ser entregue a seu senhor em Stirling, para ser julgado por seus crimes de guerra.
                   -Ah sim, ponderou o velho, o famoso guerreiro Willian Wallace, que antes, era protetor de toda a Escócia contra o trono de Eduardo I. Sim, fiquei sabendo de alguns feitos e de sua derrota em Falkirk. Um desastre, mas também com senhores vendidos a Eduardo I ou que então se acovardam em seus castelos se cagando de medo, não me admira que perdesse.
                   - Não tenho medo, velho. – protestou Lorde Everton. As forças de Stirling se uniram a este traidor. Eu fiquei em Doune para...
                   -Se cagar de medo, abraçado com aquela porca gorda que sequer te deu um herdeiro. E...
                   -Velho insolente! Levantou-se o soldado que o tinha chamado de idiota anteriormente. Coube ao velho, largar a corda azul. Coube a ele o tempo para que pudesse se virar, uma lança atingiu-o nas costas e atirando o corpo para longe da clareira, passando a pelo menos dois metros do homem de tartã negro que não se abalou. O barulho de ossos quebrando, dentro da floresta, adicionado ao grito, já comum entre eles.
                   - Continuando – disse o velho, observado por Lorde Everton aturdido sobre o que ele faria com aquelas lanças e de onde viriam. Eu dizia que Lorde Everton, é um covarde cagão que não foi capaz de deixar um castelão e seguir junto a seu senhor. Preferiu ficar onde é seguro. Mas isso não lhe exime de culpa rapaz – olhou fixamente para Wallace. Apesar de toda tragédia em Falkirk era sua responsabilidade ficar junto a seu povo, sua gente, tanto das hilands quanto das lowlands. Mostrou-se covarde e quase tão cagão quanto Lorde Everton.
                   - Esses porcos carniceiros estupraram minha mulher, protestou o homem que estava calado. Esses porcos carniceiros da coroa mataram minha mulher e meu povo de Elderlie a mando do xerife de Lanark.
                   -E está certo senhor Willian. Mas lembre-se, eram ingleses, não seu próprio povo. Além de libertar nossa terra, desses porcos ingleses, a batalha da ponte de Stirling foi memorável. Nos confins mais longínquos todos souberam. E inclusive, deram uma coroa a algum desses idiotas a qual Everton está acostumado a limpar a bunda ou beijar-lhes o saco. De que adianta um rei escocês, se o mesmo fica dentro de seu castelo enquanto você e seus soldados vão à batalha? O trágico, é que na única batalha que nosso rei foi, perdeu. E você, chegou as hilands antes dele.
                   Lorde Everton ponderava ansiosamente, sem se levantar da pedra, que Willian por sua traição deveria ser entregue ao rei. Everton dizia que a honra deveria ser paga com sangue. Que todas as dívidas de honra deveriam ser pagas com sangue. Willian retrucava, fazendo igual a Lorde Everton não saindo da pedra. Justificava que ele morto não poderia comandar novamente o exército contra as forças inglesas. Que deveria na verdade ir para Stirling, mas que aguardaria alguns dias até voltar não como um fugitivo covarde, mas sim como comandante das forças escocesas...
                   - Não se engane rapaz. Está sendo covarde. Mas fugir é da natureza humana. Veja Lorde Everton. Vive dentro das muralhas de seu castelo com medo e vergonha. E ainda sim é chamado de Lorde. E agora está aí, me olhando como um idiota, na esperança de que eu não solte a corda e que a lança não vá fazer com que ele tenha uma morte horrível. Ou que eu retire a corda de você, um covarde, que deixou seu povo morrendo em Falkirk depois de convencê-los que a liberdade de nós dependia de um ponto de partida, e que aconteceu quando os ingleses estupraram sua mulher. Pelo que me contam, sir Willian, era jus primae noctis de seu senhor.
                   -Mas era violação, desonra, tudo que pode imaginar, ponha-se no meu lugar homem! – esbravejou Willian e agora sim, levantando-se e deixando o velho com um ar decepcionado.
                   -Ah, agora disse bem, sir William. Acontece que eu entendo de violação, desonra, tudo que possa imaginar. E pior, infelizmente, não comecei uma revolução por isso.  Vou lhe contar a história, tudo começou quando...
                   Um dos soldados de Lorde Everton, acreditando que seria possível chegar no estranho, desambanhou sua espada e partiu para cima do velho. Lorde Everton e William Wallace ficaram em suas posições. O velho desambanhou uma espada longa e repeliu facilmente o primeiro golpe que vinha em direção a seu flanco direito. Manuseando habilmente a espada ambos travavam uma batalha no centro da clareira. O problema é que o velho tinha de evitar que as cordas fossem cortadas e se manter vivo ao mesmo tempo. Mas o soldado, encoberto por sua armadura era um adversário difícil, apesar de toda a habilidade no conflito. Porém em determinado momento, o velho, troca golpes com o soldado, e joga sua espada no chão. A surpresa é geral.
                   - Não tem mais facas de arremesso velho e não estou sentado nas pedras. Essas lanças não podem me atingir.
                   - Sim, sou velho e não tão hábil. Mas a inteligência me ensinou a prever coisas garoto, como a que fez agora. A copa das árvores são verdes, e a morte é vermelha. – ele aponta para o chão, mostrando que estão no meio da clareira e depois para o alto. Uma enorme lança vem ao solo quando o velho deixa cair ao solo a corda verde que dispara a enorme lança que transpassa o soldado, quase partindo-o ao meio. Ele calmamente pega sua espada, finca no solo e continua a falar.
                   -Bom, não há mais idiotas para me desafiar. Vou continuar, então. Sabe Sir Willian, eu entendo tudo sobre tudo que acabara de me falar e até entendo sua revolta. Um momento. Edwin!!! Gritara o velho. Willian e Everton se entreolharam com um certo espanto. Do meio da mata saiu um rapaz de aproximadamente uns vinte anos. Loiro, alto, com uma barba cerrada também loira e de cabelos compridos. Trajava um kilt também negro, onde não se podia identificar o clã. Ele sentou-se bem na pedra onde o soldado jazia morto na clareira, depois de indicado por seu pai.
                   -Sabe Sor Willian, um dia eu já fui jovem como você. Um dia eu já fui trabalhador. Continuo trabalhador. Mas, e essa é uma história que estou lhe contando pela primeira vez, tanto para você, Lorde Everton e Edwin, que merece saber de tudo antes que eu parta. Há muitos anos, eu estava aqui, sob domínio inglês, mas tinha uma vida pacata. Há muitos anos eu me casei. Seu nome era Megan. Linda, loira, dos seios firmes, a pele alva, a boca carnuda, que ria das minhas piadas horríveis. Ela era a mulher mais bonita da vila, e por um milagre de Cristo eu a conquistei. E foi então que nos casamos. No dia da nossa união, um lorde, veio ao nosso casamento abençoando-nos e pedindo seu direito de sua jus primae noctis com minha Megan. Imagine que com espadas, bestas e flechas apontadas para mim eu não tive opção. Sou analfabeto e sei o suficiente para saber quando sou ameaçado. Então cedi. Ela me foi devolvida no dia seguinte por uma guarnição muito bem armada sem que uma palavra fosse me dita. Chorei como um bebê e quando ela chegou não tinha conseguido me deitar com ela. E assim pelos longos dias, uma outra coisa aconteceu. Sempre que ia ao lago Ghleannain lavar nossas roupas, imediatamente, muito bem amparado por guardas, o lorde voltava. E assim, ela foi não só violada na primeira noite. Mas toda vez que teve oportunidade para fazê-lo, este lorde nojento e repugnante fazia. Até que um dia Megan ficou grávida. Não era meu, porque não me deitava com ela desde que ela me fora devolvida. Eu não disse nada, afinal, que era mais um bastardo no mundo cruel que vivemos. Mas este lorde, louco, continuou a violá-la até próximo ao nascimento do bebê.
                   -Mas porque ela não parou de ir ao lago, interrompeu William.
                   Porque a guarnição que a escoltava, disse que se ela deixasse de ir ao lago, eu seria morto e minha cabeça seria exposta como traidor. Mas, continuando, o lorde sumiu, durante o período que a criança nasceu. Mas foram procurá-la dois dias depois do nascimento. Foram até a vila e queriam a todo custo fazer com que ela entregasse o bebê. Ela tomou a decisão mais difícil e pulou no lago, e, como não sabia nadar, morreu afogada. O lorde então se acovardou, sumira e desde então tenho caçado na floresta na expectativa de poder encontrá-lo e matá-lo com honra. Então Lorde Everton, pronto para um combate?
                   Tanto Edwin, quanto William ficam perplexos, ficando a olhar um para o outro. Aos olhos de William, o jeito que a mulher do homem fora torturada sexualmente, seria motivo suficiente para um genocício de todos os ingleses. Mas não, ele ficou em busca apenas de Lorde Everton. Edwin por sua vez, não conseguia acreditar que aquele homem que agora lutava com seu pai, era na verdade o seu próprio pai. E, que foi capaz de uma coisa tão terrível que sentia não pena, compaixão ou qualquer coisa do tipo por Lorde Everton. Sentia na verdade, asco, nojo, vontade de vomitar, de desembainhar sua própria espada e matar aquele velho desgraçado. Um covarde, um idiota, capaz de fazer uma coisa tão horrível. Que só não voltou pelo medo de ser morto por um único homem.
                   Enquanto os pensamentos corriam tanto na cabeça de William quanto na de Edwin, Lorde Everton atacava ferozmente com sua espada de cabo longo, tentando a todo custo encontrar a carne do velho grisalho. Mas apesar da idade ambos se mexiam habilmente. Lorde Everton, girara a espada da esquerda para a direita, acertando o vazio, enquanto o velho se abaixava e no retorno da lâmina o golpe foi habilmente defendido. Lorde Everton com as duas mãos desferiu um golpe de cima para baixo, onde o velho se esquivara para a direita acertando um pontapé em suas nádegas fazendo-o voar ao chão aos pés de Edwin que olhava assustado. Nesse ínterim ele aproveitara e guardara a ponta da corda preta debaixo da pedra onde estava sentado. Assim pôde manusear sua espada com as duas mãos mais habilmente. A dança no círculo de pés, mãos e espadas deixava aos dois únicos espectadores maravilhados pela habilidade de ambos. Por fim, o aço contra o aço, foi batido na altura das suas cabeças, Lorde Everton tentou um golpe da esquerda para a direita que foi defendido com o velho de costas para ele, onde num giro espetacular atingira o ombro de Lorde Everton. O barulho de ossos se quebrando, e um jato de sangue subindo manchando a roupa do Lorde, fez com que a sua espada de repente ficasse mais pesada. Com a força do golpe, Lorde Everton, caíra de joelhos de espada na mão, que fora arrancada com um golpe preciso na junção de sua manopla que defendia seus dedos, fazendo mão e espada voarem longe. O chute quebrando os dentes veio logo depois, deixando o Lorde deitado no solo. Com as duas mãos, o velho, enterrou sua espada entre o umbigo e o pênis, atravessando Lorde Everton e cravando a espada no chão úmido fazendo gritar e gemer. Calmamente o velho se levantou e pegou a corda de cor preta. E disse, tanto para o filho quanto para William: levantem-se e saiam de perto dessas pedras.
                   Quando eles chegam perto do ancião, o mesmo solta a corda que aciona duas lanças que se perdem dentro da floresta. Ele ri e se vira para William dizendo:
                   -Se esconder aqui não vai adiantar rapaz. Volte para seu povo. Volte para aqueles que precisam de você. Se vai morrer, não morra como aquele idiota, se escondendo. Essa terra foi feita para homens valentes, não para idiotas, covardes e traidores.  Neste momento Edwin também fala.
                   - Pai, eu também gostaria de ir. Eu quero ir com William.
                   -Não! – diz William. Vai encontrar somente o perigo da morte, aqui tem a seu pai, amigos, gente a ajudar a defender.
                   -Deixe que ele escolha William, ele é do seu povo, mas não é um garoto indefeso. Apenas peço que lhe dê uma espada decente, a minha vai ficar cravada um bom tempo naquele idiota ali. Eu estou consentindo que ele vá, não é um guerreiro tão bom quanto você, mas eu pude ensiná-lo algumas coisas.
                   -Mas antes, tinha dúvida se eu era William, como pode saber...
                   -Eu não tenho clã. Mas você sim. Seu clã ficou conhecido, logo, assim que botei os olhos sabia que era você. E, ao contrário de mim, você não tem filhos, eu sim. Eu esperarei meu filho. Vivo ou morto. É a honra que faz mover as espadas William, é a vontade ferrenha de fazer justiça. Por isso, não pode ficar escondido aqui. Reúna novamente suas forças e tire essa escória inglesa das nossas terras.
                   O velho deu um abraço em William e logo depois um abraço no filho. Indicou o caminho que deveriam partir e ficou na clareira, vendo os dois sumirem na mata, enquanto Lorde Everton ainda agonizava no solo, com a espada cravada em seu corpo.