Chego
em minha casa. O lugar não importa. Tenho muita coisa a fazer.
Olhar, cuidar, lavar, dar comida a todos, e, também me alimentar.
Devo também fazer o que tenho de fazer que é o meu ofício e o que
acredito piamente que dará o sustento para mim até o fim dos meus
dias. Ah sim, já me falaram que a vida de escritor é difícil e que
não dá dinheiro, que a possibilidade (principalmente num país onde
as pessoas não lêem e que o livro tecnicamente é caro) de que eu
vá morrer de fome é enorme. Olha, já pensei várias formas de como
iria morrer, mas nunca me imaginei morrendo de inanição. Pedem
para que eu siga em frente, para que eu escreva. Não é uma tarefa
fácil. Pelo menos já escrevi mais de cento e cinqüenta palavras o
que para mim é uma boa vantagem. Menti para você, meu amigo leitor.
Só terminei de escrever as benditas cento e cinquenta palavras na
palavra “vantagem”. Fácil? Não, claro que não. Até porque não
é nenhum conto, não é nenhuma história com final feliz. Na
verdade é como um dia meu. E ultimamente ando chateado o suficiente
para não escrever porra nenhuma. Sim, minha chefe pelo menos
compreendeu meu momento de desatino e de angústia. Que apesar de ter
a porra de um livro registrado, não estou com clima de lançá-lo.
Agradeço a ela todos os dias pela compreensão para com este ser
vivente.
Acho
engraçado a visão que as pessoas tem de quem escreve. Geralmente
pensam que é só sentar a bunda da droga da cadeira e as palavras
fluem como pombos nas grandes cidades. Você não sabe quando, como
eles aparecem e se reproduzem (tanto não sabe que foi fuçar no
Google para saber). Não, a coisa não é tão simples assim. Além
de termos o cuidado esmero para com nossa obra, temos de ter outro
cuidado. Com nós escritores e escritoras. Somos seres humanos
também, ora essa. Rimos, choramos, oramos, não oramos, temos fé,
não levamos fé em nada, dormimos,comemos, fazemos sexo(ou não),
ouvimos música, enfim, fazemos tudo que você que está do outro
lado faz.Até o próximo parágrafo, saí de casa, fui dar uma
espairecida e fui a uma biblioteca. Até chegar lá e depois de ler
uns livros vou pensar em algo inteligente para escrever.
Agora,
não somos santos milagrosos – e para lembrá-los, eu cheguei à
biblioteca. A nossa vida sofre influências externas também. Uma vez
na minha cidade fui assistir a uma palestra do saudoso Rubem Alves a
qual ele dizia exatamente isso. Dizia que uma das maiores balelas do
mundo atual era a de que a história de : “Deixe seus problemas
para fora do seu ambiente de trabalho” era pura mentira, dizia ele.
Não há como você desconectar-se do mundo que o cerca. Então, se
você está mal, logo não vai produzir, ou então vai produzir
abaixo da sua capacidade. Mas se você está bem, feliz era claro e
evidente que você iria produzir mais e melhor. Eu realmente concordo
com tudo isso. E é justamente isso que está acontecendo comigo
agora. Não estou bem, logo não vou produzir, não está saindo
nada, e tudo que estou tentando, isso mesmo, tentando, é uma
porcaria de uma enormidade.
Tomem
por base este pequeno texto. Está horrível. Para piorar estou numa
biblioteca pública onde coloquei os fones de ouvido. Mas não estou
ouvindo música alguma. É que é engraçado, dar uma falsa liberdade
para as pessoas que acham que podem falar o que quiserem de tudo e
todos. Tem um cara na minha frente ao que me parece usando do mesmo
artifício. A minha esquerda uma senhora está contando para outras,
de como foi sua aprazível viagem aos Estados Unidos. Ela está
falando desde que cheguei enquanto as amigas ficam admiradas como ela
foi intrépida e monumental quando foi abordada pela imigração
americana. Na mesma mesa que eu, está uma moça alta e bonita (que
não faz meu tipo, pois sou quase um anão)que está fazendo um
esforço sobre-humano para ler o que estou escrevendo. Então, de
propósito eu olho para ela tentando ler, ao que rapidamente ela olha
para mim e ri. Ela deve estar me achando um panacão ou um nerd
qualquer ou que devo ser um tarado que está delineando suas curvas,
que na verdade são inexistentes. No fundo, quero uma jarra de café
expresso. Igualzinho a que servem na Casa do Alemão em Petrópolis.
Mas o ponto forte deles não é o café, e sim uma salsicha que eu
jamais comi.
Voltei
para casa no início da noite. Muita coisa para fazer. Muita coisa
para pensar. Então resolvi continuar escrevendo agora que são
00:25. Eu acho uma boa hora para se escrever quando se está sozinho.
Na verdade não gostaria de estar sozinho, porque estar sozinho é
muito ruim. Na verdade meu dia ainda não acabou. Tenho, ou
geralmente fico acordado até as três da manhã. Vasculhando meu pen
drive acabo também de descobrir mais um projeto de livro. Está tudo
esquematizado. Personagens, datas de nascimento, quem se relaciona
com o quê e quando. Nunca pensei que seria capaz de fazer um
“esqueminha” desses. Fiquei até impressionado comigo mesmo. O
problema é que agora concorro com a internet logada, a TV ligada em
algum programa qualquer e algumas músicas que estou ouvindo nos
fones. Qual a lógica da TV estar ligada se estou usando fones de
ouvido. Ainda não estou cego, então quando vir algo, por exemplo
como ocorreu agora: As pessoas desceram o cacete na Dilma e disseram
que ela ia falir a Petrobras. As ações caíram, caíram e caíram.
Antes que eu pensasse em comprar algumas ações, só rumor, isso
mesmo, rumor de que a presidente da estatal ia sair os papéis
valorizaram mais de 15 por cento. Interessante não? Acho que não
estou preparado para esse jogo. Talvez esteja e seja ingênuo demais.
Enfim,
meu dia acaba aqui. Nada de extraordinário. Na verdade foi uma droga
mesmo. Poderia ter sido melhor se não fosse minha dor de cotovelo,
minha saudade, meu bloqueio e minha vontade de jogar tudo para o
alto. Acho
melhor voltar para o meu rock, para os solos de guitarra, para a
bateria frenética, para os brados alucinados dos cantores contra
tudo e todos. No fim, às vezes um escritor precisa de alguma coisa
para ter disposição para escrever. A minha disposição atualmente
é zero, mas tenho meus motivos, que espero no mais tardar estejam
resolvidos. No mais é isso, pois como dizia o jornalista Affonso
Soares: Acabou o milho, acabou a pipoca! Fim!
Escritor Solitário