quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Um dia comum

           Chego em minha casa. O lugar não importa. Tenho muita coisa a fazer. Olhar, cuidar, lavar, dar comida a todos, e, também me alimentar. Devo também fazer o que tenho de fazer que é o meu ofício e o que acredito piamente que dará o sustento para mim até o fim dos meus dias. Ah sim, já me falaram que a vida de escritor é difícil e que não dá dinheiro, que a possibilidade (principalmente num país onde as pessoas não lêem e que o livro tecnicamente é caro) de que eu vá morrer de fome é enorme. Olha, já pensei várias formas de como iria morrer, mas nunca me imaginei morrendo de inanição. Pedem para que eu siga em frente, para que eu escreva. Não é uma tarefa fácil. Pelo menos já escrevi mais de cento e cinqüenta palavras o que para mim é uma boa vantagem. Menti para você, meu amigo leitor. Só terminei de escrever as benditas cento e cinquenta palavras na palavra “vantagem”. Fácil? Não, claro que não. Até porque não é nenhum conto, não é nenhuma história com final feliz. Na verdade é como um dia meu. E ultimamente ando chateado o suficiente para não escrever porra nenhuma. Sim, minha chefe pelo menos compreendeu meu momento de desatino e de angústia. Que apesar de ter a porra de um livro registrado, não estou com clima de lançá-lo. Agradeço a ela todos os dias pela compreensão para com este ser vivente.
            Acho engraçado a visão que as pessoas tem de quem escreve. Geralmente pensam que é só sentar a bunda da droga da cadeira e as palavras fluem como pombos nas grandes cidades. Você não sabe quando, como eles aparecem e se reproduzem (tanto não sabe que foi fuçar no Google para saber). Não, a coisa não é tão simples assim. Além de termos o cuidado esmero para com nossa obra, temos de ter outro cuidado. Com nós escritores e escritoras. Somos seres humanos também, ora essa. Rimos, choramos, oramos, não oramos, temos fé, não levamos fé em nada, dormimos,comemos, fazemos sexo(ou não), ouvimos música, enfim, fazemos tudo que você que está do outro lado faz.Até o próximo parágrafo, saí de casa, fui dar uma espairecida e fui a uma biblioteca. Até chegar lá e depois de ler uns livros vou pensar em algo inteligente para escrever.
            Agora, não somos santos milagrosos – e para lembrá-los, eu cheguei à biblioteca. A nossa vida sofre influências externas também. Uma vez na minha cidade fui assistir a uma palestra do saudoso Rubem Alves a qual ele dizia exatamente isso. Dizia que uma das maiores balelas do mundo atual era a de que a história de : “Deixe seus problemas para fora do seu ambiente de trabalho” era pura mentira, dizia ele. Não há como você desconectar-se do mundo que o cerca. Então, se você está mal, logo não vai produzir, ou então vai produzir abaixo da sua capacidade. Mas se você está bem, feliz era claro e evidente que você iria produzir mais e melhor. Eu realmente concordo com tudo isso. E é justamente isso que está acontecendo comigo agora. Não estou bem, logo não vou produzir, não está saindo nada, e tudo que estou tentando, isso mesmo, tentando, é uma porcaria de uma enormidade.
              Tomem por base este pequeno texto. Está horrível. Para piorar estou numa biblioteca pública onde coloquei os fones de ouvido. Mas não estou ouvindo música alguma. É que é engraçado, dar uma falsa liberdade para as pessoas que acham que podem falar o que quiserem de tudo e todos. Tem um cara na minha frente ao que me parece usando do mesmo artifício. A minha esquerda uma senhora está contando para outras, de como foi sua aprazível viagem aos Estados Unidos. Ela está falando desde que cheguei enquanto as amigas ficam admiradas como ela foi intrépida e monumental quando foi abordada pela imigração americana. Na mesma mesa que eu, está uma moça alta e bonita (que não faz meu tipo, pois sou quase um anão)que está fazendo um esforço sobre-humano para ler o que estou escrevendo. Então, de propósito eu olho para ela tentando ler, ao que rapidamente ela olha para mim e ri. Ela deve estar me achando um panacão ou um nerd qualquer ou que devo ser um tarado que está delineando suas curvas, que na verdade são inexistentes. No fundo, quero uma jarra de café expresso. Igualzinho a que servem na Casa do Alemão em Petrópolis. Mas o ponto forte deles não é o café, e sim uma salsicha que eu jamais comi.
            Voltei para casa no início da noite. Muita coisa para fazer. Muita coisa para pensar. Então resolvi continuar escrevendo agora que são 00:25. Eu acho uma boa hora para se escrever quando se está sozinho. Na verdade não gostaria de estar sozinho, porque estar sozinho é muito ruim. Na verdade meu dia ainda não acabou. Tenho, ou geralmente fico acordado até as três da manhã. Vasculhando meu pen drive acabo também de descobrir mais um projeto de livro. Está tudo esquematizado. Personagens, datas de nascimento, quem se relaciona com o quê e quando. Nunca pensei que seria capaz de fazer um “esqueminha” desses. Fiquei até impressionado comigo mesmo. O problema é que agora concorro com a internet logada, a TV ligada em algum programa qualquer e algumas músicas que estou ouvindo nos fones. Qual a lógica da TV estar ligada se estou usando fones de ouvido. Ainda não estou cego, então quando vir algo, por exemplo como ocorreu agora: As pessoas desceram o cacete na Dilma e disseram que ela ia falir a Petrobras. As ações caíram, caíram e caíram. Antes que eu pensasse em comprar algumas ações, só rumor, isso mesmo, rumor de que a presidente da estatal ia sair os papéis valorizaram mais de 15 por cento. Interessante não? Acho que não estou preparado para esse jogo. Talvez esteja e seja ingênuo demais.
            Enfim, meu dia acaba aqui. Nada de extraordinário. Na verdade foi uma droga mesmo. Poderia ter sido melhor se não fosse minha dor de cotovelo, minha saudade, meu bloqueio e minha vontade de jogar tudo para o alto. Acho melhor voltar para o meu rock, para os solos de guitarra, para a bateria frenética, para os brados alucinados dos cantores contra tudo e todos. No fim, às vezes um escritor precisa de alguma coisa para ter disposição para escrever. A minha disposição atualmente é zero, mas tenho meus motivos, que espero no mais tardar estejam resolvidos. No mais é isso, pois como dizia o jornalista Affonso Soares: Acabou o milho, acabou a pipoca! Fim!
Escritor Solitário