sexta-feira, 30 de maio de 2014

Escritos Urbanos



UMA NOITE QUALQUER



                        Era uma noite qualquer como qualquer outra em Criciúma . Na verdade a noite já havia adentrado há muito tempo. Entretanto ela só estava ganhando vida quando Jaqueline, ou Jackie para os íntimos ligava o computador. Claro que antes disso havia um pequeno ritual a seguir: Primeiro uma boa ducha quente, onde a água passava pelo seu corpo moreno e pequenino, escultural. Os quadris largos, os seios pequenos, as coxas grossas e a pele bronzeada nos remetiam ao gosto do brasileiro na década de oitenta. Era a mulher tipicamente brasileira. E que na minha opinião pessoal é a melhor, pois realmente é maçante ver tanta guria siliconada por aí. A segunda coisa após dar um beijo no filho, Eduardo, um pré adolescente de doze anos, que já adormecia em seu quarto – em meio a pôsteres do Homem-aranha e de outros super-heróis que ela nem sabia o nome direito – vinha a parte final: ela não teclava sem levar consigo o seu “amargo”, ou como dizem no “norte”, seu chimarrão. Aqueceu a água, colocando dentro de uma pequena garrafa térmica prateada e depois colocou a erva mate no porongo de modo a que não prejudicasse a colocação da bomba que tinha um símbolo peculiar. No meio de tantos enfeites que os sulistas usam, ela conseguira uma bomba com um coração vermelho, da cor do sangue, para enfeitá-lo. E, depois de sair da cozinha onde tinha aquecido a água, dirigiu-se depois para seu quarto.
                        Ao longo dos seus 44 anos Jackie era invejada pelas gurias do seu bairro pela excelente forma física. Os mais incautos dariam 30 anos para aquela mulher que entrara no quarto com seu porongo e a garrafa térmica. Vestia um short-doll preto, deixando os cabelos castanhos e lisos, porém curtos, soltos. Seu quarto tinha uma mesa de computador cinza, que ficava no canto do quarto, ao lado do criado mudo e da cama que estava posta com um lençol de renda rosa e travesseiros macios como algodão. O guarda roupa marfim ficava no outro canto do quarto. Antes de sentar-se em frente ao computador, Jackie apenas apreciou a noite estrelada de Criciúma e fechou a persiana para evitar olhares indiscretos para dentro de sua casa.
                        Ligou o computador e enquanto os sistemas de hardware e software eram abertos e sincronizados ela lentamente colocava água no porongo para poder saborear seu chimarrão. Este hábito ela cultivava desde os tempos da Faculdade de Administração onde passava as madrugadas lendo e tomando chimarrão. Às vezes claro, acontecia dela adormecer em cima dos livros e só ser acordada pela manhã pela mãe, que a criara sozinha, mas que era uma mulher de fibra. O pai de Jackie era caminhoneiro, e ela nasceu fruto de uma aventura passageira. Passou, e, infelizmente passou tanto que ele não voltou mais em Criciúma, para ver a linda filha que teve. Azar o dele repetia ela para Eduardo quando este perguntava por onde andava seu avô paterno.
                        Depois de tudo pronto, luz do quarto apagado, a única luz provinha da tela do computador. Primeiro ela foi ver suas mensagens no Facebook. A do Facebook “oficial” mensagens do pessoal do trabalho e de Marcinha, sua melhor amiga. Passou então para o seu Facebook  fake” ou falso. Neste ela tinha postado fotos mais sensuais. Das coxas, dos pés, do bumbum avantajado e do colo. Nada vulgar. Mas ela acabara de fazer amizade com os homens-machos (sim, “homens-machos”, ou seja, aquele tipo de indivíduo que se mostra como o maior e mais forte, que é o reprodutor, essas coisas darwinistas de sempre) de plantão. Pululavam na tela de seu computador fotos de homens de barriga tanquinho, seminus, de sunga ou mesmo de perfil, como se fossem modelos das mais famosas agencias do mundo. Jackie ria. O pensamento pequeno deles deixava-a grande ante a ironia que fazia sozinha em seu quarto sobre as qualidades que aglutinavam entre si. Eram homens guapos é verdade, amantes perfeitos: jovens em sua maioria, ricos aparenemente e bem sucedidos. De corpos esculturais que fariam qualquer Deus Grego morrer de inveja, graças a horas de academia ou uma lipoescultura talvez. Claro que muitos mentiram sobre essa condição. Eram na verdade, velhos, feios e repugnantes com suas barrigas imensas, barbas por fazer e expressão de tarado.
                        Deixavam recados dos mais variados tipos para ela. Prometiam mundos e fundos. Amor eterno, um mundo onde a infelicidade não existiria. Um mundo apenas de boas notícias. Descarte aí toda e qualquer possibilidade de mau humor, doença, má vontade ou seja o negativismo em geral. De uma profunda paixão de um profundo amor. Apenas um, que tinha um perfil falso, de codinome X deixava recados mais amáveis. X era uma pessoa mais sensível. Deixava poemas, fotos de lugares lindos, paisagens bucólicas e falava de tudo um pouco: livros, TV, teatro, contava piadas, mas nunca mostrara sua verdadeira face. Jackie sempre curiosa, ficava insistindo para que ele se apresentasse.
                        Mas ao mesmo tempo Jackie não queria que ele se revelasse. Ela se julgava não estar pronta para uma relação. Sim, a última foi com Pedro. Professor, era um cara legal, mas era perfeito demais. Exigente demais. Em tudo, seja na mais comum das coisas como o preparo de um jantar informal a dois até o dia que ele resolvera fuçar na sua tese de mestrado e discorrer críticas sobre ela. O porém é que Pedro sendo agrônomo de nada entendia de Administração e Recursos Humanos. Foi o fim. Aliás, na verdade fora o começo. O começo da dura realidade ao qual Jackie estava imposta. Os homens que a procuravam estavam na verdade completamente loucos com seu corpo. Mas não queriam compromisso. Na verdade não queriam nem amá-la. No fim, tudo era sexo. Somente sexo. E Jackie era um furacão em se tratando disso. Fazia questão de mostrar que na verdade ninguém mandava nela. Os poucos que povoaram sua cama e tentaram se impor como machos, Jackie ao perceber que na verdade queriam somente sexo, mostrava-os o como não se deveria tratar uma mulher. Antes de terminar, Jackie os impunha – sem que eles soubessem claro – a uma verdadeira maratona sexual ao qual eles em todas às vezes não agüentavam. Ouviam sempre a palavra “frouxo”, e depois eram mandados embora. Não maldade e sim o doce prazer da vingança de quem queria que ela sempre se sentisse inferior.
                        Um dos poucos a tentar fazer isso foi Eliezer, ex-marido de Jackie durante alguns anos. Programador de computadores recebeu com desdém a notícia de que Jackie iria tentar o vestibular de Administração. Mas ela fez. Passou e durante quatro anos suportou uma tripla jornada: Estudante, esposa e mãe. Na sua formatura, durante a festa de formatura no banheiro feminino, ela ouvira sem querer a conversa de que um tal de Eliezer estava lá. As mulheres que conversavam falavam o quanto esse Eliezer era safado tanto na sua vida particular quanto a cama. O porém é que este “tal” que estava na festa de formatura da esposa, levara a amante também, o que as mulheres riam e desdenhavam. Jackie ao voltar do banheiro, olhou muito bem para a situação: os jogos de olhares entre Eliezer e sua amante. A amante que era na verdade colega de faculdade de Jackie. Jackie havia já estava trabalhando na mesma que seu marido. E, para piorar, sua colega também, em um setor próximo. Entretanto, Jackie era a responsável pelo RH da empresa. Fez o que achou certo: Demitiu Eliezer e sua amante. Claro que Eliezer fora duplamente demitido, porque fora demitido de sua vida também.
                        Seu amigo X ficava boquiaberto de tantas idas e vindas na vida da catarinense que digitava e entre uma pausa e outra tomava seu chimarrão. Eram amigos durante muito tempo. Neste período X descobriu onde era a casa dela pelo computador, X também ganhou sua confiança quando viu que eles tinham muita coisa em comum. Gostos, hábitos, livros, discos e programas de TV. Jackie sentia atração por X, apesar de nunca tê-lo visto na sua vida. Ficava imaginando quem era aquele cavalheiro por trás daquela armadura de um perfil em um site de relacionamentos. A frieza do computador era compensada por gestos como a rosa virtual que ele mandou para ela. Logo ele, que se dizia um anti-romântico e que não gostava dessas coisas meio melosas. Mas X falava o que ela queria ouvir. Era romântico e os encontros ficaram freqüentes. Começaram quinzenais e hoje, depois de alguns meses passaram a ser diários. Com o tempo também X deu algumas dicas. Ele se revelou professor de português, que era mais novo que ela, pois um dia num descuido revelou sua idade, 33 anos. Revelou também que já havia estado perto de Criciúma, só que como turista, surfando na praia da Joaquina em Florianópolis. Porém ao revelar este segredo (pequeno, mas era um segredo). Jackie acabara ficando fascinada por X. Mas ela sempre com os pés no chão e de fibra como ela só, sempre dava um jeito de virar o jogo.
                        Os encontros foram ficando mais frequentes, as visitas virtuais, os textos novos, declarações mútuas. O clima entre os dois começava a ficar mais íntimo. Tão íntimo que eles começaram a trocar fotos íntimas entre eles. Nunca de rosto,  apenas das partes do corpo, que com o tempo de simples fotos sensuais de biquíni ou sunga, podemos dizer que as mesmas peças passaram a deixar de existir. A intimidade surgia naturalmente, mas eles por um motivo ou outro nunca deixavam seus rostos a mostra. O professor X ainda não tinha nome, mas ele nunca fora casado, era o solteiro convicto, que não acreditava até aquele momento no amor. Teve sim, namoradas, mas fugia delas toda vez que alguma insinuava noivado ou algum tipo de compromisso mais sério. Jackie nesse momento ficava consternada, achando que nunca mais teria a chance de ter alguém do seu lado novamente que não fosse seu filho que era até então sua única companhia. Apesar de acalorados os diálogos, as fotos e até mesmo a troca de vozes através de um aplicativo no computador para que pudessem conversar melhor. Mas isso não era suficiente. A cada dia a vontade de se encontrar era recíproca.
                         Mas apesar do desejo mútuo, da vontade grande, do interesse, de tudo; o casal virtual não se encontrava. Ela não entendia por que. Feriados prolongados, férias escolares, todo o tipo de interrupção no trabalho de ambos. Jackie acabava ficando se perguntando se o professor X era na verdade um homem casado que estava apenas querendo sexo virtual fácil. Numa conversa pelo Facebook, ele se irritara, ligara a câmera e fez um tour pelo seu apartamento. Era um apartamento pequeno, um quarto e sala. No quarto uma cama de solteiro e uma estante com muitos livros próximo a porta. No canto ao lado da cama, havia uma mesa com material de escritório e possivelmente onde estava o notebook. A frente da cama, uma tv presa a parede e embaixo uma cômoda onde ele guardava suas roupas. Entrou no pequeno corredor do apartamento onde a direita estava uma porta que ele não abrira possivelmente sendo o banheiro e na sala, uma pequena estante acumulava outro televisor e um pequeno aparelho de som. À sua direita, um sofá de cor azulada compunha o conjunto mobiliário junto a um violão que descansava sobre o seu suporte. A frente ficava um pequeno balcão com três banquinhos que talvez ele improvisasse ali uma mesa de jantar. Na pequena cozinha ainda compunha o ambiente alguns armários brancos da mesma cor de sua geladeira e fogão. A seguir ele voltara ao quarto onde digitara: NÃO DUVIDE DE MIM. Foi nesse instante que ao digitar sua mensagem que ela viu uma tatuagem próxima a seu pulso com a palavra FÉ. Jackie não falou nada, pediu desculpas e desligou seu computador.
                        Enquanto isso apesar do tempo, quem não estava engolindo apesar de todo o tempo já passado com a separação era Eliezer. Tomado por uma fúria irracional, a garrafa de cerveja que estava tomando explode na tela do televisor. Ele busca a sua jaqueta de couro e bate a porta com vigor e força suficiente para ela voltar a se abrir e deixar o apartamento escancarado. Subiu em cima da sua moto e saiu como um louco pelo estacionamento do condomínio onde morava.  Jackie por sua vez, depois de ter brigado virtualmente com seu cavaleiro sem cavalo, com seu Don Juan invisível continuou, enquanto no quarto ao lado o filho dormia, lia os e-mails da empresa de modo a adiantar ou seu trabalho para o dia de amanhã. Mal sabia ela que ameaçadoramente  seu ex-marido vinha perigosamente em sua direção. Eliezer estacionara a moto um quarteirão acima da casa de Jackie. Ajeitou a calça jeans. Subiu mais ainda o zíper da jaqueta preta. O capacete, de mesma cor, foi levado debaixo do braço esquerdo. Caminhou vagarosamente e apreciando a paisagem da rua, deserta e gelada daquela terça-feira, rumou para dar um novo destino a Jackie. Ele então adentrou sem dificuldade no jardim e de súbito com um chute arrebentou a porta. Jackie de sobressalto, tentou sem sucesso pegar seu celular e ligar para a polícia. Como seu quarto ficava no fim do corredor, ele passou correndo pela sala e novamente com outro chute arrebentara a porta. Antes que terminasse a ligação a bofetada com as costas da mão atingira seu rosto ao mesmo tempo que o grito de vagabunda ecoou pela casa. Ao cair em cima da cama, semi desfalecida, seu filho, entra no quarto e ao tentar defender a mãe leva um tapa no rosto e cai desmaiado. Jackie, retirando forças não se sabe de onde se agarra no pescoço do ex-marido que novamente se desvencilha e a joga de volta na cama. Elizer sobe em seu dorso e começa a apertar seu pescoço. Seu rosto começa a ficar vermelho, e o rosto de Eliezer começa a ficar turvo.
                        Nesse momento o estampido de uma arma de fogo atinge as costas de Eliezer. Com o impacto da bala automaticamente Eliezer solta o pescoço de Jackie e seu corpo despenca em cima de Jackie deixando-a completamente suja de seu sangue. Na porta da sala o atirador. Ele caminha devagar pela sala, recolocando a arma de volta na cintura enquanto ajeita o paletó. Ele para na porta do quarto, pega o telefone celular e diz:
                        - Uma ambulância por favor. Rápido. Um ferido a bala, e uma mulher e uma criança precisam de atendimento médico urgente. Quem solicita é o detetive Sérgio do 95º DP.
                        Detetive Sérgio retira o corpo de Eliezer e, quando o faz, ainda que desfalecida, Jackie percebe que em seu pulso está escrita a palavra FÉ. Ela tenta dizer algo, mas na verdade é Sérgio quem resolve falar. Ele diz enquanto a ambulância não chega que o que aconteceu foi uma grande coincidência. Ele não quis revelar a ela que não era detetive por questões de segurança. Por isso inventou a história de que era professor de língua portuguesa. Era mais fácil, mais seguro e que não queria que ela se preocupasse. A coincidência maior foi que por esses dissabores do destino Eliezer veio a ser o vizinho de Sérgio. Ambos, dizia ele, eram vizinhos de porta e que certa vez conversando, Eliezer contou toda a sua história de vida para Sérgio. Ele logo percebera que a ex-mulher que ele tanto odiava na verdade era ela. Ele então manteve a mesma mentira para Eliezer e Jackie até que na noite de hoje, depois de ouvir seu vizinho xingá-la tanto e ao arrebentar a garrafa na tv e deixar a porta aberta, Sérgio entrara. No meio a bagunça, havia um porta retrato com a foto dela com a palavra “puta” do lado. Jackie ouvia tudo sem dizer nada, enquanto Sérgio terminava dizendo que então resolvera checar aonde ia tão apressado seu vizinho e pegou sua moto também e seguiu de maneira segura o agora cadáver, ensanguentado e inerte de Eliezer.
                        Os socorristas chegaram, tomaram a frente de tudo socorrendo Jackie e seu filho, enquanto Sérgio ficara para trás para dar um depoimento sobre o que havia ocorrido para a polícia que também fora chamada. Para Jackie um alívio, já que não teria a presença incômoda de seu ex-marido. Interrompendo os policiais, Sérgio foi até a ambulância onde a maca que levava Jackie  se preparava para entrar. Ele tomou sua mão e disse:
                        - Hoje, você vai sozinha. Quando acordar, não estará mais. Se assim, você quiser é claro.
                        Sem dizer nada, ela sorriu, assentiu com a cabeça e os socorristas acabaram por colocá-la dentro da ambulância que partiu rapidamente rumo ao hospital mais próximo. Sérgio ficou na calçada observando o furgão vermelho e branco com as luzes piscando e como uma flecha, ruidosamente dobrou a esquina naquela madrugada gelada.