UMA NOITE QUALQUER
Era uma noite qualquer
como qualquer outra em Criciúma . Na verdade a noite já havia adentrado há muito
tempo. Entretanto ela só estava ganhando vida quando Jaqueline, ou Jackie para
os íntimos ligava o computador. Claro que antes disso havia um pequeno ritual a
seguir: Primeiro uma boa ducha quente, onde a água passava pelo seu corpo
moreno e pequenino, escultural. Os quadris largos, os seios pequenos, as coxas
grossas e a pele bronzeada nos remetiam ao gosto do brasileiro na década de
oitenta. Era a mulher tipicamente brasileira. E que na minha opinião pessoal é
a melhor, pois realmente é maçante ver tanta guria siliconada por aí. A segunda
coisa após dar um beijo no filho, Eduardo, um pré adolescente de doze anos, que
já adormecia em seu quarto – em meio a pôsteres do Homem-aranha e de outros
super-heróis que ela nem sabia o nome direito – vinha a parte final: ela não
teclava sem levar consigo o seu “amargo”, ou como dizem no “norte”, seu
chimarrão. Aqueceu a água, colocando dentro de uma pequena garrafa térmica
prateada e depois colocou a erva mate no porongo de modo a que não prejudicasse
a colocação da bomba que tinha um símbolo peculiar. No meio de tantos enfeites
que os sulistas usam, ela conseguira uma bomba com um coração vermelho, da cor
do sangue, para enfeitá-lo. E, depois de sair da cozinha onde tinha aquecido a
água, dirigiu-se depois para seu quarto.
Ao longo dos seus 44
anos Jackie era invejada pelas gurias do seu bairro pela excelente forma
física. Os mais incautos dariam 30 anos para aquela mulher que entrara no
quarto com seu porongo e a garrafa térmica. Vestia um short-doll preto,
deixando os cabelos castanhos e lisos, porém curtos, soltos. Seu quarto tinha
uma mesa de computador cinza, que ficava no canto do quarto, ao lado do criado
mudo e da cama que estava posta com um lençol de renda rosa e travesseiros
macios como algodão. O guarda roupa marfim ficava no outro canto do quarto.
Antes de sentar-se em frente ao computador, Jackie apenas apreciou a noite
estrelada de Criciúma e fechou a persiana para evitar olhares indiscretos para
dentro de sua casa.
Ligou o computador e
enquanto os sistemas de hardware e software eram abertos e sincronizados ela
lentamente colocava água no porongo para poder saborear seu chimarrão. Este
hábito ela cultivava desde os tempos da Faculdade de Administração onde passava
as madrugadas lendo e tomando chimarrão. Às vezes claro, acontecia dela
adormecer em cima dos livros e só ser acordada pela manhã pela mãe, que a
criara sozinha, mas que era uma mulher de fibra. O pai de Jackie era
caminhoneiro, e ela nasceu fruto de uma aventura passageira. Passou, e,
infelizmente passou tanto que ele não voltou mais em Criciúma, para ver a linda
filha que teve. Azar o dele repetia ela para Eduardo quando este perguntava por
onde andava seu avô paterno.
Depois de tudo pronto,
luz do quarto apagado, a única luz provinha da tela do computador. Primeiro ela
foi ver suas mensagens no Facebook. A do Facebook “oficial” mensagens do
pessoal do trabalho e de Marcinha, sua melhor amiga. Passou então para o seu Facebook fake” ou falso. Neste ela tinha postado fotos
mais sensuais. Das coxas, dos pés, do bumbum avantajado e do colo. Nada vulgar.
Mas ela acabara de fazer amizade com os homens-machos (sim, “homens-machos”, ou
seja, aquele tipo de indivíduo que se mostra como o maior e mais forte, que é o
reprodutor, essas coisas darwinistas de sempre) de plantão. Pululavam na tela
de seu computador fotos de homens de barriga tanquinho, seminus, de sunga ou
mesmo de perfil, como se fossem modelos das mais famosas agencias do mundo.
Jackie ria. O pensamento pequeno deles deixava-a grande ante a ironia que fazia
sozinha em seu quarto sobre as qualidades que aglutinavam entre si. Eram homens
guapos é verdade, amantes perfeitos: jovens em sua maioria, ricos aparenemente
e bem sucedidos. De corpos esculturais que fariam qualquer Deus Grego morrer de
inveja, graças a horas de academia ou uma lipoescultura talvez. Claro que
muitos mentiram sobre essa condição. Eram na verdade, velhos, feios e
repugnantes com suas barrigas imensas, barbas por fazer e expressão de tarado.
Deixavam recados dos
mais variados tipos para ela. Prometiam mundos e fundos. Amor eterno, um mundo
onde a infelicidade não existiria. Um mundo apenas de boas notícias. Descarte
aí toda e qualquer possibilidade de mau humor, doença, má vontade ou seja o
negativismo em geral. De uma profunda paixão de um profundo amor. Apenas um,
que tinha um perfil falso, de codinome X deixava recados mais amáveis. X era
uma pessoa mais sensível. Deixava poemas, fotos de lugares lindos, paisagens
bucólicas e falava de tudo um pouco: livros, TV, teatro, contava piadas, mas
nunca mostrara sua verdadeira face. Jackie sempre curiosa, ficava insistindo
para que ele se apresentasse.
Mas ao mesmo tempo
Jackie não queria que ele se revelasse. Ela se julgava não estar pronta para
uma relação. Sim, a última foi com Pedro. Professor, era um cara legal, mas era
perfeito demais. Exigente demais. Em tudo, seja na mais comum das coisas como o
preparo de um jantar informal a dois até o dia que ele resolvera fuçar na sua
tese de mestrado e discorrer críticas sobre ela. O porém é que Pedro sendo
agrônomo de nada entendia de Administração e Recursos Humanos. Foi o fim. Aliás,
na verdade fora o começo. O começo da dura realidade ao qual Jackie estava
imposta. Os homens que a procuravam estavam na verdade completamente loucos com
seu corpo. Mas não queriam compromisso. Na verdade não queriam nem amá-la. No
fim, tudo era sexo. Somente sexo. E Jackie era um furacão em se tratando disso.
Fazia questão de mostrar que na verdade ninguém mandava nela. Os poucos que
povoaram sua cama e tentaram se impor como machos, Jackie ao perceber que na
verdade queriam somente sexo, mostrava-os o como não se deveria tratar uma
mulher. Antes de terminar, Jackie os impunha – sem que eles soubessem claro – a
uma verdadeira maratona sexual ao qual eles em todas às vezes não agüentavam.
Ouviam sempre a palavra “frouxo”, e depois eram mandados embora. Não maldade e
sim o doce prazer da vingança de quem queria que ela sempre se sentisse
inferior.
Um dos poucos a tentar
fazer isso foi Eliezer, ex-marido de Jackie durante alguns anos. Programador de
computadores recebeu com desdém a notícia de que Jackie iria tentar o
vestibular de Administração. Mas ela fez. Passou e durante quatro anos suportou
uma tripla jornada: Estudante, esposa e mãe. Na sua formatura, durante a festa de
formatura no banheiro feminino, ela ouvira sem querer a conversa de que um tal
de Eliezer estava lá. As mulheres que conversavam falavam o quanto esse Eliezer
era safado tanto na sua vida particular quanto a cama. O porém é que este “tal”
que estava na festa de formatura da esposa, levara a amante também, o que as
mulheres riam e desdenhavam. Jackie ao voltar do banheiro, olhou muito bem para
a situação: os jogos de olhares entre Eliezer e sua amante. A amante que era na
verdade colega de faculdade de Jackie. Jackie havia já estava trabalhando na
mesma que seu marido. E, para piorar, sua colega também, em um setor próximo.
Entretanto, Jackie era a responsável pelo RH da empresa. Fez o que achou certo:
Demitiu Eliezer e sua amante. Claro que Eliezer fora duplamente demitido,
porque fora demitido de sua vida também.
Seu amigo X ficava
boquiaberto de tantas idas e vindas na vida da catarinense que digitava e entre
uma pausa e outra tomava seu chimarrão. Eram amigos durante muito tempo. Neste
período X descobriu onde era a casa dela pelo computador, X também ganhou sua
confiança quando viu que eles tinham muita coisa em comum. Gostos, hábitos,
livros, discos e programas de TV. Jackie sentia atração por X, apesar de nunca
tê-lo visto na sua vida. Ficava imaginando quem era aquele cavalheiro por trás
daquela armadura de um perfil em um site de relacionamentos. A frieza do
computador era compensada por gestos como a rosa virtual que ele mandou para
ela. Logo ele, que se dizia um anti-romântico e que não gostava dessas coisas
meio melosas. Mas X falava o que ela queria ouvir. Era romântico e os encontros
ficaram freqüentes. Começaram quinzenais e hoje, depois de alguns meses
passaram a ser diários. Com o tempo também X deu algumas dicas. Ele se revelou
professor de português, que era mais novo que ela, pois um dia num descuido
revelou sua idade, 33 anos. Revelou também que já havia estado perto de
Criciúma, só que como turista, surfando na praia da Joaquina em Florianópolis.
Porém ao revelar este segredo (pequeno, mas era um segredo). Jackie acabara
ficando fascinada por X. Mas ela sempre com os pés no chão e de fibra como ela
só, sempre dava um jeito de virar o jogo.
Os encontros foram
ficando mais frequentes, as visitas virtuais, os textos novos, declarações
mútuas. O clima entre os dois começava a ficar mais íntimo. Tão íntimo que eles
começaram a trocar fotos íntimas entre eles. Nunca de rosto, apenas das partes do corpo, que com o tempo
de simples fotos sensuais de biquíni ou sunga, podemos dizer que as mesmas
peças passaram a deixar de existir. A intimidade surgia naturalmente, mas eles
por um motivo ou outro nunca deixavam seus rostos a mostra. O professor X ainda
não tinha nome, mas ele nunca fora casado, era o solteiro convicto, que não
acreditava até aquele momento no amor. Teve sim, namoradas, mas fugia delas
toda vez que alguma insinuava noivado ou algum tipo de compromisso mais sério.
Jackie nesse momento ficava consternada, achando que nunca mais teria a chance
de ter alguém do seu lado novamente que não fosse seu filho que era até então
sua única companhia. Apesar de acalorados os diálogos, as fotos e até mesmo a
troca de vozes através de um aplicativo no computador para que pudessem
conversar melhor. Mas isso não era suficiente. A cada dia a vontade de se
encontrar era recíproca.
Mas apesar do desejo mútuo, da vontade grande,
do interesse, de tudo; o casal virtual não se encontrava. Ela não entendia por
que. Feriados prolongados, férias escolares, todo o tipo de interrupção no
trabalho de ambos. Jackie acabava ficando se perguntando se o professor X era
na verdade um homem casado que estava apenas querendo sexo virtual fácil. Numa
conversa pelo Facebook, ele se irritara, ligara a câmera e fez um tour pelo seu
apartamento. Era um apartamento pequeno, um quarto e sala. No quarto uma cama
de solteiro e uma estante com muitos livros próximo a porta. No canto ao lado
da cama, havia uma mesa com material de escritório e possivelmente onde estava
o notebook. A frente da cama, uma tv presa a parede e embaixo uma cômoda onde
ele guardava suas roupas. Entrou no pequeno corredor do apartamento onde a
direita estava uma porta que ele não abrira possivelmente sendo o banheiro e na
sala, uma pequena estante acumulava outro televisor e um pequeno aparelho de
som. À sua direita, um sofá de cor azulada compunha o conjunto mobiliário junto
a um violão que descansava sobre o seu suporte. A frente ficava um pequeno
balcão com três banquinhos que talvez ele improvisasse ali uma mesa de jantar. Na
pequena cozinha ainda compunha o ambiente alguns armários brancos da mesma cor
de sua geladeira e fogão. A seguir ele voltara ao quarto onde digitara: NÃO
DUVIDE DE MIM. Foi nesse instante que ao digitar sua mensagem que ela viu uma
tatuagem próxima a seu pulso com a palavra FÉ. Jackie não falou nada, pediu
desculpas e desligou seu computador.
Enquanto isso apesar do
tempo, quem não estava engolindo apesar de todo o tempo já passado com a
separação era Eliezer. Tomado por uma fúria irracional, a garrafa de cerveja
que estava tomando explode na tela do televisor. Ele busca a sua jaqueta de
couro e bate a porta com vigor e força suficiente para ela voltar a se abrir e
deixar o apartamento escancarado. Subiu em cima da sua moto e saiu como um
louco pelo estacionamento do condomínio onde morava. Jackie por sua vez, depois de ter brigado
virtualmente com seu cavaleiro sem cavalo, com seu Don Juan invisível continuou,
enquanto no quarto ao lado o filho dormia, lia os e-mails da empresa de modo a
adiantar ou seu trabalho para o dia de amanhã. Mal sabia ela que ameaçadoramente
seu ex-marido vinha perigosamente em sua
direção. Eliezer estacionara a moto um quarteirão acima da casa de Jackie. Ajeitou
a calça jeans. Subiu mais ainda o zíper da jaqueta preta. O capacete, de mesma
cor, foi levado debaixo do braço esquerdo. Caminhou vagarosamente e apreciando
a paisagem da rua, deserta e gelada daquela terça-feira, rumou para dar um novo
destino a Jackie. Ele então adentrou sem dificuldade no jardim e de súbito com
um chute arrebentou a porta. Jackie de sobressalto, tentou sem sucesso pegar
seu celular e ligar para a polícia. Como seu quarto ficava no fim do corredor,
ele passou correndo pela sala e novamente com outro chute arrebentara a porta.
Antes que terminasse a ligação a bofetada com as costas da mão atingira seu
rosto ao mesmo tempo que o grito de vagabunda ecoou pela casa. Ao cair em cima
da cama, semi desfalecida, seu filho, entra no quarto e ao tentar defender a mãe
leva um tapa no rosto e cai desmaiado. Jackie, retirando forças não se sabe de
onde se agarra no pescoço do ex-marido que novamente se desvencilha e a joga de
volta na cama. Elizer sobe em seu dorso e começa a apertar seu pescoço. Seu
rosto começa a ficar vermelho, e o rosto de Eliezer começa a ficar turvo.
Nesse momento o
estampido de uma arma de fogo atinge as costas de Eliezer. Com o impacto da
bala automaticamente Eliezer solta o pescoço de Jackie e seu corpo despenca em
cima de Jackie deixando-a completamente suja de seu sangue. Na porta da sala o
atirador. Ele caminha devagar pela sala, recolocando a arma de volta na cintura
enquanto ajeita o paletó. Ele para na porta do quarto, pega o telefone celular
e diz:
- Uma ambulância por
favor. Rápido. Um ferido a bala, e uma mulher e uma criança precisam de atendimento
médico urgente. Quem solicita é o detetive Sérgio do 95º DP.
Detetive Sérgio retira o
corpo de Eliezer e, quando o faz, ainda que desfalecida, Jackie percebe que em
seu pulso está escrita a palavra FÉ. Ela tenta dizer algo, mas na verdade é
Sérgio quem resolve falar. Ele diz enquanto a ambulância não chega que o que
aconteceu foi uma grande coincidência. Ele não quis revelar a ela que não era
detetive por questões de segurança. Por isso inventou a história de que era
professor de língua portuguesa. Era mais fácil, mais seguro e que não queria
que ela se preocupasse. A coincidência maior foi que por esses dissabores do
destino Eliezer veio a ser o vizinho de Sérgio. Ambos, dizia ele, eram vizinhos
de porta e que certa vez conversando, Eliezer contou toda a sua história de
vida para Sérgio. Ele logo percebera que a ex-mulher que ele tanto odiava na
verdade era ela. Ele então manteve a mesma mentira para Eliezer e Jackie até
que na noite de hoje, depois de ouvir seu vizinho xingá-la tanto e ao
arrebentar a garrafa na tv e deixar a porta aberta, Sérgio entrara. No meio a
bagunça, havia um porta retrato com a foto dela com a palavra “puta” do lado.
Jackie ouvia tudo sem dizer nada, enquanto Sérgio terminava dizendo que então
resolvera checar aonde ia tão apressado seu vizinho e pegou sua moto também e seguiu
de maneira segura o agora cadáver, ensanguentado e inerte de Eliezer.
Os socorristas chegaram,
tomaram a frente de tudo socorrendo Jackie e seu filho, enquanto Sérgio ficara
para trás para dar um depoimento sobre o que havia ocorrido para a polícia que
também fora chamada. Para Jackie um alívio, já que não teria a presença
incômoda de seu ex-marido. Interrompendo os policiais, Sérgio foi até a
ambulância onde a maca que levava Jackie
se preparava para entrar. Ele tomou sua mão e disse:
- Hoje, você vai
sozinha. Quando acordar, não estará mais. Se assim, você quiser é claro.
Sem dizer nada, ela
sorriu, assentiu com a cabeça e os socorristas acabaram por colocá-la dentro da
ambulância que partiu rapidamente rumo ao hospital mais próximo. Sérgio ficou
na calçada observando o furgão vermelho e branco com as luzes piscando e como
uma flecha, ruidosamente dobrou a esquina naquela madrugada gelada.