terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CONTOS URBANOS

Cartinha de Natal




       A idade é uma coisa que às vezes nos faz bem, outras vezes nos deixa deprimido. No meu caso me deixa um pouco deprimido. Nunca fui uma pessoa de bem com a idade. O tempo é muito curto e o fato de que isso ocorra de uma maneira absurda me deixa assustado. Gostaria que isso estivesse acontecido com mais suavidade e que eu pudesse ter visto o tempo passar com mais habilidade. Vi minhas filhas crescerem, pude dar a elas uma boa educação e agora estou a espera dos lucros e dos louros da vitória que são a chegada dos meus netos. Porém nunca tinha pensado que a chegada dos anos fosse, digamos, um pouco dolorida. Aliás dor, é uma palavra um pouco recorrente quando se envelhece. Dor e cor. Dor, por que as juntas doem. A coluna cisma em doer. O joelho também tem essa cisma de vez em quando e quando dou uma batida a dor não vai embora quase imediatamente. Ela resolve ficar alguns dias me fazendo companhia. A cor também faz parte da velhice. Como sou branco, passei a ter como companhia algumas sardas de cor marrom pelo meu corpo. A pele que antes era um pouco alva e firme ainda na maior parte do tempo, continua alva, entretanto com alguns tons de rosa. E os cabelos? Eram negros. Agora estão completamente brancos. E de companhia a barba. A barba que finalmente pude deixar crescer por justamente trabalhar num ambiente onde não se poderia sob nenhuma hipótese deixá-la grande. Hoje ter barba, é um sonho que tive quando mais jovem e que não pude fazer. Hoje vejo muitos jovens por aí, como eles dizem, ostentando barbas enormes. Gosto é gosto. Não cheguei a “cultivar” uma barba enorme, mas uma barba suficientemente grande e de pelos brancos para digamos, disfarçar as marcas do tempo.
      Não queria, mas infelizmente, sem querer me avisar acabei por cultivar uma pequena protuberância entre o peito e as pernas. Esse volume de gordura é até interessante para mim durante o inverno, já que posso pelo menos durante esse período andar de camisa sem que seja incomodado. Mentira. Sou incomodado sim. Filhas, esposa, genros, netas sempre me perguntando: “Nossa pai, um frio desses e o senhor de camisa?” , “Vai pegar um resfriado hein!”, “Vovô, vovô, o senhor não sente frio não? A mamãe não deixa eu ficar sem agasalho de jeito nenhum!” E ouvir isso todos os dias durante o inverno, sim, é um pouco maçante. Até parece que sou de porcelana, que sou de vidro, ou algo do tipo. Deus do céu, tenho de ter a maior paciência do mundo. Ainda bem que sou uma pessoa muito, mas muito paciente. A mais paciente que possam imaginar.
      Com efeito, paciência também foi o meu forte durante todo meu período de trabalho. Quase sempre problemas, problemas e problemas. Mas, qual serviço não o tem? Todo trabalho tem seus problemas mas acredito eu que de formas diferentes as pessoas podem ser atingidas por problemas. A gente pode até pensar que o dono de lugar tal não tem porque é podre de rico. Esse é o detalhe. O dinheiro vai na mesma velocidade que vem, isso aprendi com a vida. Então o grande problema do rico é não ficar pobre.
       Outro problema de fim de ano, são as compras de Natal. Shoppings, amigo oculto do trabalho, amigo oculto da família, festa daqui e festa dali. Sim, é maçante. Haja paciência que eu não tenho. Então, depois que me aposentei, e vi que a coisa poderia ficar pior, vi um lugar muito bom para me esconder de tudo isso. Hora essa, quer um “bunker” melhor do que ser o Papai Noel de Shopping? Claro, há problemas . Mas de um jeito ou de outro consegui me livrar das compras de Natal e de certa forma, consegui também um jeito de dar uma forcinha na minha aposentadoria que não é lá grandes coisas. Certamente todos os dias, até o dia vinte e cinco há uma legião de crianças com pedidos e mais pedidos para mim. Pedem tudo. Precisam de tudo. Inclusive os pais e as mães. Bom, pelo menos um colírio para os olhos são as mães. Ora essa, estou aposentado mas não estou morto. Ou como diz aquele chef gordinho da televisão: “Não porque estou de regime que eu não posso olhar o cardápio.” Sim, mães muito bonitas elegantes e de fino trato. Fino trato com elas e mau tato com os filhos/as. Nenhum jeito. Nenhuma forma e nenhum conteúdo. Tem as mães carentes também que veem no Papai Noel uma espécie de fetiche e acham que por trás da barba e cabelos brancos sairá um daqueles caras das casas noturnas que dançam para as mulheres e eu fico me perguntando de onde vem tanta carência afetiva.
        As crianças? Ah sim. Na sua maioria, são muito amáveis. Na maior parte das vezes perguntam se é muito frio lá no Pólo Norte. Se as Renas comem muito. Como é que eu adivinho os pedidos de cada criança. Como eu dou uma volta ao redor da Terra tão rápido? Se eu conheço o coelhinho da páscoa? Se eu não estou sentindo calor (antes sim, agora comprei uma camisa com serpentina e um cooler fazendo um sistema simples de troca de água que me mantém sempre sem calor)? Outras crianças começam a ser um pouco mais abusadas. Sim, há crianças vingativas e que esperam praticamente um ano para poder chutar (de modo sutil, claro) a canela do pobre Papai Noel que não trouxe ano passado o seu presente de aniversário. Mas eu não sou um Papai Noel qualquer, apenas sou um Papai Noel prevenido que sorri para o garoto que ao chutar minha perna deu de encontro com minha caneleira de futebol. A reação de desânimo dele e a minha de riso, fez com que todos parecessem que eu estava me divertindo (e como não?) muito com o menino que ainda desferiu mais dois chutes na tentativa frustrada de me machucar. E ainda falou que eu deveria trazer para ele o brinquedo que eu não levei ano passado, senão ele viria aqui ano seguinte para me bater de novo. Era um garoto mais velho. Com certeza ano que vem ele vai se chatear por um tempo por ter sindo tanto tempo enganado pela mãe dele que não vai se lembrar mais de me bater.
       Logo depois, na fila, chegou uma menininha de uns onze anos aproximadamente, idade incomum para acreditar em mim. Mas ok. Ela sentou no meu colo, me deu um abraço como nunca tinha recebido na vida e perguntou se eu atendia todos os pedidos no Natal. Aquela conversa me saiu um pouco estranha, mas mesmo assim eu resolvi dar mais crédito a ela e então ela sacou uma carta e sem que muitas pessoas vissem me entregou. Assim que ela me entregou, alguém gritou “Lorena”. Era um rapaz alto, moreno, parecia ser um daqueles caras que ficam o dia inteiro dentro de uma academia malhando músculos ao invés do cérebro. Ele não pediu, aos berros, pediu que a menina voltasse rapidamente para perto dele e da esposa (uma moça, assim como a filha, loira, magra e baixinha). Assim que a Lorena chegou para perto deles ela teve o braço apertado e puxado para junto do rapaz. A moça até quis reclamar, mas levara um olhar tão repressivo que abaixou a cabeça e deixou que apenas ele falasse com a menina. Aliás falar foi um baita elogio. Ele parecia aterrorizar a menina. Eu ia colocar a cartinha dela dentro do pote junto de todas as outras, mas alguma coisa me fez voltar atrás. Apesar da fila grande, avisei uma das fotógrafas que precisava ir ao banheiro, que era coisa de velho e tals. Ela a contragosto, permitiu este senhor idoso aqui ir fazer suas necessidades. Ao adentrar no sanitário dos funcionários, por coincidência, eu me encontro com Reginaldo, chefe da segurança. Ele abre um sorriso, e diz:
       - Que dia hein? É quase Natal, tá acabando.
       -Nem fale. Ainda bem que está acabando.
      Antes de entrar na cabine, olhei para o Reginaldo e perguntei se podia me fazer um favor. Ele prontamente assentiu com a cabeça e me olhou querendo saber.
     -Reginaldo, tem um cara, alto, moreno (um metro e oitenta eu acho), vestindo uma camisa lilás acompanhado de uma moça loira, baixinha e magra. Eles parecem ter uma filha, também loirinha, baixinha e magrinha. Eu acho que tem alguma coisa errada ali. Vou fazer um xixi, mas peça para o seu pessoal ficar de olho neles. Qualquer coisa, a mínima, detenha-os.
     -Anda vendo muito filme de ação em Noel.
      -Palpite. Pode fazer isso por mim?
     - Claro. Vou lá, qualquer coisa eu aviso o senhor.
Me sentei no sanitário e abri o envelope. Estranhamente o envelope estava bem colado. Parecia que a Lorena não queria que ninguém visse o conteúdo da carta. Achei num primeiro momento estranho, mas depois vi, que para a idade dela, nesse mundo moderno de hoje, poderia ser mais um mico que ela poderia estar pagando. Ao abrir o envelope comecei a ler a cartinha que ela me escrevera.


20/12/2015
Querido Papai Noel


      Eu, me chamo Lorena Bastos Silva e tenho onze anos. Ano passado, eu escrevi uma cartinha para o senhor, mas acho que o senhor me esqueceu. Apesar de ter crescido, eu ainda acredito muito no senhor, ou alguma coisa deve ter acontecido, já que eu tenho certeza de que mandei para o endereço certo mas o senhor não me escreveu de volta e nem apareceu. Aliás eu fiquei esperando na janela até adormecer e cair em cima da cama, já que depois da ceia, ganhei meu presente e aos berros, porque já estava muito bêbado, meu padrasto me mandou para cama. Acordei no outro dia e pensei que algo tinha mudado. Mas não. Tudo continuou do mesmo jeito. Então eu resolvi vir aqui ao shopping para entregar minha cartinha pessoalmente para o senhor na esperança de que dessa vez possa atender o meu pedido.
       Meu pedido é simples. Eu queria ganhar de Natal apenas um presente: Que o senhor mudasse o jeito do meu padrasto. Quando o meu pai foi embora, minha mãe depois de uns anos, cansada de ficar sozinha, começou a namorar com o Léo. Ele no começo não era assim. Era um cara legal, que brincava comigo, mas nunca ficava na nossa casa, ele sempre ia embora para casa dele. Até que um dia, ele apareceu lá em casa com todas as malas e mamãe parecia um pouco preocupada. No começo eu achei que ela ia ficar feliz. Mas não, ela estava um pouco apreensiva e não se mostrava feliz.
      Depois eu fui entender o porque. O léo bebe muito. E quando ele bebe, não fica normal. Ele arremessa as coisas dentro de casa, quebra tudo. Teve um dia que ele quebrou os vasinhos de flores da minha mãe e ela chorou muito. Ela sempre me mandava entrar para o meu quarto e não sair de lá. Acontecesse o que fosse. E eu sempre obedeci. Meu pai, não me visitou e nem me buscou mais para passear depois que o Léo veio morar aqui em casa.
      Foi aí que eu entendi porque minha mãe sempre me mandava para o quarto. Nas férias o Léo chegou muito tarde. Minha mãe começou a falar alto e ele também. Mas mamãe sempre tinha dito para eu ficar no quarto. Mas não aguentei. Fui no quarto deles ver se precisava de alguma coisa. Eu bati na porta e havia muitos gritos. Parecia que ninguém prestava a atenção em mim. Eu tinha então resolvido abrir a porta. No momento que abri a porta, o Léo deu um forte tapa na minha mãe que caiu na cama com força. Quando ele percebeu que eu tinha visto, saiu correndo atrás de mim. Eu corri para meu quarto e tranquei a porta. Não adiantou nada. Ele arrombou a porta e disse que para eu nunca mais aprender a entrar no quarto dos outro, ia me dar uma lição. E me bateu muito. Ele tirou o cinto da calça e me bateu. Me bateu tanto que as minhas pernas ficaram inchadas de tanto que apanhei.
      Sabe, a partir daí, nunca mais nossa vida foi a mesma. Quando minha mãe apanhava, eu apanhava também, mesmo estando dentro do meu quarto. Eu não aguento mais tomar tanta surra. É muita dor. Eu tentei pedir para o senhor ano passado, mas acho que algo deu errado. O senhor é minha última esperança. Por favor Papai Noel, não deixe o meu padrasto bater nem na minha mãe, nem em mim, por favor.
      É o único presente que eu peço para o senhor. Eu não quero mais nada. Minha mãe vive machucada. E toda hora o Léo fica ameaçando que vai nos espancar até a morte. É tudo que peço.


                                                     Com amor
                                                                                                                                                    Lorena


      Eu entrei em pânico. Saí correndo do banheiro em busca de um segurança. Assim que achei um pedi para entrar em contato com o Reginaldo que era coisa grave e para pegar. Um segurança entrou em contato com o Reginaldo e disse que eles estavam vigiando e que estavam todos na praça de alimentação. Peguei o elevador, até o quinto andar, e me dirigi a praça de alimentação. Não conseguia pensar em mais nada. Minha cabeça girava. Reginaldo veio ao meu encontro só que eu não conseguia dizer muita coisa. Apenas peguei a carta e disse ao chefe de segurança: prenda esse imbecil, agora!
       -Mas ele não fez nada, como vou prender ele?
       -Chame a polícia, não deixe esse marginal ir embora.
      Na hora, crianças começaram a me cercar e eu tinha de ser sutil. Não podia decepcionar as crianças e também não podia fazer com que aquele facínora fosse embora. Então à medida do possível, fui me aproximando, devagarinho para não assustar ninguém. Nesse momento, apenas Lorena percebeu minha presença. Às vezes, a troca de olhar faz com que ela, de rompante, se levante e venha correndo em minha direção. O abraço dado em mim, foi quase uma confissão de alívio. Não houve palavras trocadas, não houve gritos e gemidos. Ela apenas apertou meu corpo e chorava copiosamente. Eu levantei levemente a cabeça e vi que a mãe parecia ter percebido o que tinha acontecido enquanto Léo me olhava fulminantemente com os olhos semicerrados. O pânico da mãe aumentou quando Léo a olhou e depois olhou para mim como se soubesse o que tinha acontecido.
       Ele se levantou, veio em minha direção, enquanto os seguranças ainda cercavam Reginaldo para saber o que fazer. E, o mesmo chefe de segurança, lia atônito a carta que me era endereçada. Antes que os seguranças pudessem fazer alguma coisa, Léo, um pouco mais alto que eu chega até a mim e Lorena. Eu passo a menina para trás de mim e o encaro.
      -Velho, o que está fazendo com minha enteada? É pedófilo?
      -Não rapaz, e você, é covarde?
      -O que essa língua grande te falou?
     -A verdade rapaz. A verdade.
     -Lorena “bora”, a gente vai conversar em casa.
     -A Lorena não vai, rapaz. Vocês vão para a delegacia, você tem muita coisa a esclarecer.
     Nesse momento, Léo tenta me desferir um soco. Eu desvio e agarro sua mão e ao invés de segurá-la eu deixo o braço do rapaz seguir seu caminho e pego seu punho mais a frente e puxo seu braço para trás fazendo um triângulo por cima do ombro direito. Antes que ele pense em reagir, eu o desequilibro com a perna fazendo-o cair no chão. Os outros seguranças correm em minha direção e agarram o rapaz que se debate como um touro. Quando dominado, eu o olho e digo calmamente:
      -Você me toma por um velho, mas cuidado rapaz. Às vezes velhos são faixa preta em Aikido.
      A praça de alimentação entra em polvorosa e as pessoas ficam extasiadas. Eu nunca fui de exibir meu conhecimento em artes marciais, mas infelizmente dessa vez foi extremamente necessário. A mãe veio e me abraçou. Eu a aconselhei a ir a delegacia, prestar, queixa e se separar desse indivíduo, afinal ninguém merece apanhar. Voltei para minha cadeira, ovacionado por alguns clientes que estavam no shopping e viram a cena. E, ainda tive tempo de ver saindo algemado, o tal de Léo, e Lorena e a mãe, atrás dos policiais me deram um discreto tchauzinho com um ar aliviado.


FELIZ NATAL E FELIZ 2016!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Crônica

   
 Não me ame, eu tenho muitos defeitos.



     Não me ame. Não goste de mim. Não perca seu tempo comigo. Eu já dei e dou trabalho. Dou trabalho, logo sou um porre. Prá que gostar de mim? É desnecessário, não vejo motivo algum, e para ser sincero você vai ser mais feliz. Tenho defeitos demais para uma pessoa tão pequena como eu. Apesar do meu um metro e setenta e três de altura, atualmente sou um anão no meio de tantos jovens com mais de um metro e oitenta. Mas afinal são números. Números bobos. Na verdade números são apenas números e somados dão outros números que multiplicados ou divididos dão outros números.
     Não sei porque estou contando isso para vocês. Mentira eu sei sim mas isso não importa agora. Às vezes eu minto, é verdade. Nossa, ficou confuso isso! Mas prefiro mentir do que fazer qualquer pessoa sofrer. Na verdade se for para sofrer eu prefiro que seja eu mesmo. Não, eu não sou nenhum tipo de herói ou cavaleiro em um cavalo com sua armadura prateada, espada na cinta , elmo e escudo na mão. Esqueça. Não sou também nenhum tipo de herói lendário, um semideus grego, ou o próprio Deus em questão. Então não se preocupe. Deixe que eu faço isso, por você e por mim. Não pense que sou aquele soldado bonzinho que no final das contas coloca seu corpo contra a bala inimiga. Não sei quem disse a frase que no amor e na guerra tudo é válido. Bom, quase tudo, porque algumas coisas eu não abro mão. Sou meio Ned Stark, que pregou a honra e perdeu a cabeça. Literalmente.
      Sabe, você que está lendo pode ter certeza que eu resolvi enumerar meus defeitos. Porque simplesmente eu sou muito autocrítico quanto isso. Pode ser por isso que eu tive de reescrever tudo o que já tinha escrito. Me amar é muito difícil. É complicadíssimo sim, eu gostaria de salientar isso, já que eu tenho muitas questões para comigo mesmo e até acho que externá-las é uma forma de poder deixar toda e qualquer pessoa que resolva gostar de mim, a par da aparente roubada que é ter de viver comigo. Eu não ia fazer isso, mas talvez elencar algumas coisas, seja deveras interessante, fazendo a quem ler ter uma grande viagem ao desconhecido mundo do meu eu.
        A primeira coisa, é se você for nova é que estou envelhecendo. Ano que vem eu faço quarenta anos. Não se iluda muito com o bordão de que a "vida começa aos quarenta". Fiz umas contas básicas, e não é idiotice, me baseei na idade do meu pai, minha mãe (vivíssima, graças a Deus) e resolvi tirar uma mediana (não média) de quanto tempo de vida terei. Se nada der errado, talvez eu viva até aos oitenta a oitenta e cinco anos de idade. Não se iluda de que ficarei jovem pare sempre. E sim, terá de amar um velho, com todos os seus problemas de velho e talvez ter o desprazer de providenciar os papéis do meu enterro. Não, velório não vai ter. Não quero ninguém que me odeia a beira do meu caixão dizendo que eu era "uma boa pessoa".
         A segunda coisa, é que apesar de estar ficando velho, não quer dizer que eu não possa olhar as mulheres na rua. Antes que venha com esse papinho de compromisso e tal, faça o favor de ir ao inferno e ficar lá. Todo ser humano olha alguém bonito. Não importa a idade. Não venha com esse papinho de que nunca olhou e nunca olhará. É papo, é besteirol, e eu não quero mais ficar pensando se você está com ciúmes ou não. Dane-se, eu vou olhar e se você quiser olhar, olhe, não estou te colocando amarras nos olhos.
        A terceira coisa é que sou epilético. Ou seja, não posso dirigir aqueles carrões que você tanto acha que eu dirijo. Mas nossa seita é mais eclética, nós podemos dirigir sim, desde que não seja carros potentes e motos potentes. Quem tem epilepsia faz parte de uma "seita secreta" onde certas verdades é melhor ser omitida. Então, como essa doença não tem cura, infelizmente é mais um fator para eu morrer mais cedo e não é muito legal saber disso.
        A quarta é que eu sou urbano demais. Não me chame para uma casinha na porra de um mato qualquer. Desde que esse mato qualquer não seja uma montanha na Escócia. Sim, só vale a Escócia. Fora isso não quero ir a cabaninha em mato em lugar nenhum. Esqueça. Esse lance de ficar num lugar distante de tudo e todos com hortinha, vaca, galinha e cachorro não é minha praia. Se você quiser ir para São Paulo viver comigo, pode ser uma boa. Lá tem poluição, é barulhento e violento. Se eu vou mudar de ideia, talvez. Quando estiver velho e quiser ir morrer num lugar tranquilo.
          A quinta coisa é fisiológica. Não espere em mim um espécie de ator pornô. Não sou, não serei e quando eu envelhecer eu vou sim tomar a pilulazinha mágica por que é meu direito e ninguém tem nada a ver com isso. Então terá que se acostumar com isso também.
           A sexta coisa. Sou pai. Não palhaço, então quero ter a convivência total e irrestrita com as criança ainda que as crianças tenham quase trinta anos de idade. Já vi muito pai por aí que simplesmente "largou" os filhos por aí e no máximo paga uma pensão. Além da pensão, tenho de dar carinho, afeto e vou dar tudo o que for necessário.
           A sétima coisa é que tenho meu time de futebol. "Futebol é paixão e na Globo é muito mais emoção" bradava há muitos anos atrás o jornalista Kléber Leite. Sou brasileiro, logo adoro e amo futebol. Não que eu vá ver XV de Piracicaba e Matonense porque deve ser uma pelada de todo o tamanho. Só assisto aos jogos do meu time de coração. Aí sim, se for contra o XV de Piracicaba ou a Matonense não vai ser pelada. Acostume-se.
          A oitava coisa é que gosto de Fórmula 1 também, e não perco um GP desde os anos 80. Então não adianta ficar de mimimi dizendo que é uma coisa idiota um monte de carros rodando em volta de um circuito. Eu gosto, já até tive um blog sobre esse assunto e pronto. Eu vejo filmes, eu vejo documentários, ou seja, quando é tudo é tudo. Ah, e para sua breve informação, eu não gosto do Ayrton Senna. Não do piloto, mas sim da pessoa. E não me venha com esse "melhor de todos os tempos" que sinto uma vontade de bater a cabeça na primeira coluna que achar.
        A nona coisa é que eu sou teimoso. Essa minha teimosia é um saco. Às vezes para escrever uma coisa perfeita. Às vezes para consertar algo. É, não é fácil, mas isso se deve ao fato de que não quero fazer absolutamente nada mal feito. Não é mania de perfeição. Mas a teimosia de fazer algo que agrade as pessoas talvez me faça um cara teimoso com mania de perfeição. Putz, piorei a coisa. Melhor pular.
         Por fim, afinal, vou elencar somente dez. Devo ter mais defeitos. Mas esses dez eu achei importante. É café. Não vou dizer que é um vício maldito, mas comecei tarde na arte de degustar café. Mas eu amo café. Meu reino por um café. Pode ser ele expresso, coador de tecido, de papel, mas eu tenho de tomar pelo menos três xícaras grandes dele por dia. E porra, não tem como. Pode ser às dez da noite, mas eu tenho de tomar o meu café. E sim, durmo tranquilamente. Como um anjo.
           Viu, tenho defeitos demais, esses dez foram apenas os mais relevantes. Eu sei, sou um humano, não sou nenhum extraterrestre, mestre Jedi, super herói, não sou um mutante, enfim sou uma pessoa normal. Apenas acho que não mereço ser amado na proporção que às vezes amo e que dizem que me amam. Gostaria de ter menos defeitos, mas a essa altura da vida vejo que isso não vai ser possível. Então teriam de me aceitar assim. Então para a mercadoria (no caso eu) não soar como um black friday brasileiro, eu mesmo coloquei porque não me comprar. É como um vendedor das Casas Bahia recomendar o cliente a ir no Ricardo Eletro.Bom, enfim pessoal, é isso. Amem outro, esse aqui está que nem Minas Gerais: um mar de morros.. E morro ninguém gosta, todo mundo prefere a planície. E futuramente, vai virar um Serrado: Baixo, velho e desgastado. Por hoje é só.


Escritor Solitário.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

OPINIÃO






A ALCUNHA DO CUNHA




 
      Desde semana passada, Brasília anda em polvorosa quando na quarta-feira o Presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, resolveu à tarde, acolher o pedido de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Esse processo se deu quando o mesmo recebe a notícia do conselho de ética da Câmara dos Deputados que os componentes do Partido dos Trabalhadores tinham decidido em conjunto, votar para que se abra o processo contra o Eduardo Cunha. Aliás, o mesmo, já recebe sinais dos próprios companheiros censuras como do Deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), Alessandro Molon (REDE-RJ) e uma censura, chamando-o de indigno de se sentar na cadeira de presidente da deputada Mara Gabrili do (PSDB-SP).
       Acontece que Eduardo Cunha continua ali. E, como um ato de revanchismo, como um ato de uma criança revoltada com a outra que chutou a bola longe e não quis pegar, resolveu brigar com ela e não conversar mais. Acho incrível que o Eduardo Cunha recebera dezenas de pedidos de impeachment e não aceitou nenhum deles enquanto ele podia se manter moralmente no poder. As pessoas se mantinham em polvorosa em alguns momentos. Fotos com a polícia, manifestações em verde e amarelo e dezenas de pessoas com a camiseta: “Somos todos Cunha!”.
       No entanto, o Ministério Público Suíço revelou tanto na Suíça quanto enviou para o Brasil extratos de contas movimentadas por Eduardo Cunha. Então viu-se que até aulas de tênis no exterior, sua mulher, pagou. Admitiu-se então o pedido. Lido numa quinta-feira, quando imponente o presidente da Câmara resolveu numa atitude de revanche acatar o pedido. Acontece que esse pedido ocorre num momento em que o Brasil passar por problemas estruturais, econômicos e sociais imensos. Enquanto isso, no Estado de São Paulo, escolas são fechadas para uma “reorganização” que mais desorganiza do que ajuda. No Paraná, professores foram recebidos a bala de borracha, cassetetes e uma pancadaria sem a mínima noção de civilidade. No meio de tudo isso, o deputado, nobre, porém não, dá uma entrevista para uma grande emissora dizendo que as contas não são dele. Que ele é apenas um usufrutuário de um trust que é administrado por pessoas, fruto de um rendimento ao qual ele vendeu carne nos anos oitenta para países africanos. Sem demonstrar notas fiscais, deu um depoimento vago. A alcunha de usufrutuário caberia bem ao deputado Cunha. Some-se isso, o Senador Delcídio, ao qual já falei semana passada, está na dúvida se delata todo mundo ou finge que nada está acontecendo assim como seu amigo de partido José Dirceu.
        A minha opinião sobre isso é baseada no discurso dos professores Dalmo Dallari e Cláudio Lembo (esse inclusive, uma figura ilustre do DEMOCRATAS) de que não houve crime, tanto do ponto de vista criminal (sem dolo) quanto do ponto de vista econômico onde num cenário de crise medidas urgentes deveriam ter sido tomadas. Acredito que o parecer de Janaína Paschoal e Hélio Bicudo, está baseado numa decisão política. E, o senhor usufrutuário, não tem moral alguma para pedir impeachment. Inclusive, se não me engano, está na Constituição que qualquer pessoa pode (assim como fizeram Janaína Paschoal e Hélio Bicudo) pedir o impeachment. Agora, uma pessoa sem a mínima condição moral, digna e ilibada pode acatar ou não o pedido. A minha opinião é de que primeiro ele não deveria estar sentado lá desde que suas contas apareceram, pois para mim, ele automaticamente já estaria impedido de presidir a Câmara.
        Cabe lembrar a todos que há alguns anos atrás o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti teve de renunciar a presidência da Câmara por receber um “mensalinho” de quinze mil reais. Recebeu um “pito” do ex-deputado e agora jornalista Fernando Gabeira. Hoje, políticos que perderam as eleições, dão graças a Deus pelo tipo de gente que povo a Câmara dos Deputados hoje. Vergonha alheia, é o sentimento da nação.


Escritor Solitário