Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Num desses condomínios fechados, com seguranças armados para todos os lados, com exclusividade e privacidade para quem tiver dinheiro (e muito) para pagar. Nesses dias de verão, D. Maria, já idosa se prepara não para começar um dia de trabalho, mas sim para se despedir. Depois de mais de vinte anos de serviços prestados, ela resolvera se aposentar. Não por vontade própria, mas sim porque as costas já doíam, a velocidade já não era a mesma e a disposição também. Só lhe restava se despedir de dona Sofia e do doutor Flavio, seus patrões.Especialmente Flavio a quem ela viu cresce
- D. Maria, então a senhora vai nos deixar mesmo
-É meu filho, eu já não tenho tanta saúde assim né?
-Então vá com Deus, tudo de bom para a senhora.
-Agora, doutor, eu só queria pedir...
-É meu filho, eu já não tenho tanta saúde assim né?
-Então vá com Deus, tudo de bom para a senhora.
-Agora, doutor, eu só queria pedir...
-Que isso, D. Maria, a senhora é de casa! – enquanto falava Flavio e Sofia torcia a cara.
-É que se o senhor pudesse, colocasse no meu lugar minha neta. Ela já até terminou o segundo grau, mas sabe tudo de afazeres de casa.
-Faz o seguinte D. Maria, pede ela para vir aqui na segunda para conversar com a Sofia e aí ela decide. Tudo bem para senhora? – disse Flavio abraçando calorosamente a empregada fiel, sendo observado com ar de desdém pela esposa.
-Dona Sofia eu queria lhe dizer que...
-Dona Maria, disse Sofia, eu agradeço muito pelos serviços da senhora. Tomara que a senhora descanse bastante. Agora se me dá licença eu vou pegar o carro e levar o Paulinho na escolinha de futebol ta. Beijos para senhora tudo de bom.
E assim saíram, quase que ao mesmo tempo, uma pegou o carro e se dirigiu para a escolinha de futebol. A outra ainda foi pegar um trem para Duque de Caixas na baixada fluminense. Mal sabiam que a partir daquele momento o destino das duas estaria traçado por um bom período de tempo.
Aliás, aquela talvez não fosse a única separação.
De rompante, logo o fim de semana acabara, e Yasmim logo as 8:00 estava na portaria do condomínio. Aprendeu a primeira lição de que gente rica não acorda cedo. E que também não recebe ninguém antes do desjejum. Mas curiosamente, era ela que deveria estar preparando este desjejum, não Sofia, que uma hora depois se atrapalhava com os utensílios domésticos. Então, no seu ato de desespero, ligou para a portaria e soube que a “neta da D. Maria” já estava lá. Yasmim então finalmente teve permissão para entrar. Mas devido ao tamanho do condomínio não foi a pé. Foi num carro da segurança que gentilmente a levou para a casa do ex-patrão de sua avó. Não era uma casa como as outras quaisquer. Era uma casa de uma arquitetura moderna, parecia como diria D. Maria dos filmes da televisão. Ela foi atendida por Sofia que gentilmente a pediu para entrar pela porta de serviço e iniciou um curto diálogo:
-Bom dia...
-Yasmim, senhora.
-Bom dia de novo minha filha, olha, deixa eu te perguntar umas coisas: Você sabe lavar, passar, cozinhar e ter cuidado com coisas caras? Essas coisas que temos em casa são muito caras e é preciso muito zelo. Tem?
-Tenho sim senhora.
-Então minha filha, pega um uniforme que lhe sirva e termine o café da manhã, meu marido acorda para trabalhar daqui a pouco, seja breve, por favor.
Sofia, aquela mulher de quarenta e poucos anos sequer reparou em quem estava contratando. Uma garota de vinte e poucos anos. Negra como o ébano, mas de aplique no cabelo, deixando-o liso. As pernas torneadas, os seios: nem grandes, nem pequenos. E para completar, uma bunda que deixaria qualquer mulata do Sargenteli no chão ou que deixaria o cartunista Lan de queixo caído. Ela encontrou um uniforme, na verdade um tubinho bege de golas brancas com bordados azuis e o vestiu. Tinha trazido consigo também outro, negro, caso fosse necessário. Assim, que trocou de roupa, tratou de fazer rapidamente o café. Afinal não queria decepcionar o patrão. Habilmente então, ela usou de toda ginga e malemolência para poder terminar o café a tempo.
Engano de quem se importava com isso. Flavio entrou cozinha adentro, ainda de pijama e se apresentara para nova empregada, sorrindo e se apresentando. A conversa foi muito informal. Ele achara que já estava ficando velho, mas Yasmim retrucara, dizendo que ele ainda estava moço. Que na verdade era só impressão dele. E logo, Flavio tomara café e disse que talvez voltasse na hora do almoço. Pegou o carro e saiu. Nesse exato instante, Sofia no quarto, começava a refletir muito bem quem tinha colocado para trabalhar dentro de casa. Uma moça linda e um homem rico era uma deixa completa para que Flavio pulasse a cerca. Ou na pior das hipóteses, fosse dar “uma volta noturna” no quarto da empregada. Sofia acordou, para valer, do que talvez estivesse cometendo um erro. Trazendo o inimigo para dentro de casa. Se levantou e pensou em alguma maneira de dispensá-la sem que Flavio pudesse perceber. Vestiu o roupão e voltou para cozinha. Novamente a cumprimentou friamente. Tomou rapidamente o café e pediu que ela acordasse Paulinho. Garoto espero, logo que viu aquela deusa, fez charme, jogou sorrisos, mas um berro de sua mãe o fez acordar para a realidade. E desceu sem dizer uma palavra e assim permaneceu até tomar café e se dirigir para a escolinha de natação.
Aliás Paulinho tinha uma vida agitada, pois sua agenda se resumia a: Segunda(natação), terças e quintas (inglês) quarta e sextas (futebol). Eventualmente ocorria dele jogar futebol também aos sábados. Então ficavam na casa pela manhã e a tarde – horário de estudo do Paulinho – apenas Sofia e Yasmim.
Flavio como de hábito não veio almoçar, sendo que Sofia então almoçasse apenas na companhia de Paulinho. Há um bom tempo isso estava ocorrendo, mas Sofia no momento não poderia pensar na ausência de Flavio no almoço, apenas na presença ameaçadora de Yasmim. Ela havia lido um livro que falava como as mulheres principalmente as de origem africana seduziam e mantinham seus maridos fiéis. Sofia, uma loira de seios com silicone, botox no rosto, cabelo tingido semanalmente e academia de ginástica três vezes por semana não seria páreo para uma mulher mais nova, mais insaciável, de corpo roliço, jovem, mais como diriam as amigas, “mais tudo”. E pensava também no marido. Flavio não era de se jogar fora. Ao longo dos seus quase cinqüenta anos, ele na verdade parecia ter dez anos menos. Alto, de braços fortes, coxas grossas, e cabelos levemente grisalhos fazia certo sucesso entre suas amigas, ela sabia, mas sempre sabia tira-las do caminho com certa facilidade. Mas Yasmim era uma ameaça iminente. Ela era demasiadamente sexy. Um problema futuro pensou.
À noite, de volta do trabalho, Flavio quis se inteirar mais de como era vida de Yasmim. Ela revelara que era pobre, que estudara sempre em escola pública, que com esforço terminou o ensino médio e que talvez tentasse fazer vestibular assim que tivesse uma folguinha financeira. Queria ser enfermeira. Essa revelação, fez quase Sofia pular da poltrona de onde ouvia a conversa de Flavio com a empregada na cozinha. Afinal, enfermeira é um fetiche masculino de proporções arrebatadoras, para qualquer casamento. E a longa conversa seguiu e Sofia se sentindo humilhada e ultrajada, fez questão de interromper a conversa para chamar o marido para dormir. Os olhares de Sofia para Yasmim pareciam navalhas a cortar-lhe a carne. E isso ainda era o primeiro dia de estadia da empregada. Já que ela fora aprovada, Flavio disse para Sofia que ela faria o mesmo esquema de trabalho de D. Maria, que dormiria no emprego e só voltaria para casa no fim de semana. Sofia parecia ter amargamente se arrependido, deveria ter prestado melhor a atenção no que estava fazendo. Mas aquela altura, Flavio jamais deixaria Yasmim ir embora.
O pior ainda estava por vir. Sofia e Flavio foram convidados por Yasmim – sim, ela mesma – para assistirem um ensaio da escola de samba a qual era passista, a Grande Rio. Flavio ficara maravilhado, enquanto Sofia parecia estar a ponto de ter uma taquicardia. Sofia agradecera o convite, mas disse que às vezes as batidas da bateria lhe davam enxaqueca e justamente naquela semana ela estava com uma dor de cabeça horrível. Para não haver confusão, Flavio também não, sábado a noite ao ensaio técnico. As conversas entre Flavio e Yasmim foram ficando sempre longas e Sofia, que há muito tempo já não tinha o marido presente (em todos os sentidos) em sua cama foi ficando cada vez mais furiosa com a situação. Mas o pior dia em que ouvindo um barulho na madrugada, Sofia mandou o marido ir ver o que era. Madrugada de segunda, quase quatro horas da manhã, ela achou ser um assalto. Pediu ao marido para proteger o filho, e ver o que era. Paulinho dormia como um anjo, quando Flavio viu um vulto alto se mexendo. Rapidamente ele pegou a arma, acendeu a luz e gritou: Parado!
A visão era aterradora. Apenas para mulheres inseguras. Na verdade era Yasmim que voltava da folga do domingo com um adorno na cabeça, da quadra da escola. Como tinha a chave, resolvera voltar mais cedo. Vestia um traje minúsculo, composto apenas de short (curtíssimo), salto alto e tomara que caia colado ao corpo. Sofia logo percebera o jeito de Flavio. Paulinho também se assanhara. Era terrível ver a expressão boquiaberta dos dois. Sofia ralhou o quanto pode com Yasmim. Ela tentou justificar, mas não teve jeito. Ouviu tudo o que não queria. Só não foi demitida porque o marido interveio. Sofia não agüentava mais aquela situação. Os dias foram passando e Sofia não poderia mais agüentar aquela situação. Era humilhação demais. E para tanto ela resolveu terminar com o ciclo daquela garota na casa.
Numa das raras vezes que Flavio avisara que ia almoçar em casa, Sofia tratou de sabotar a comida da moça. O marido era alérgico a noz moscada, que providencialmente foi colocada na carne que ele comeu. Passou mal, foi ao hospital, mas se recuperou. Depois foram as camisas Saint-Laurent que ele adorava com algumas queimaduras de ferro de passar. O pior ainda estava por vir. Dois dias antes do carnaval, inexplicavelmente o terno Armani que ele mais gostava apareceu com uma mancha branca enorme nas costas.
-Yasmim! Bradou Flavio
-Olha, eu sei que faltam dois dias para o carnaval. Mas, dessa vez foi demais!
-Mas...
-Nem mas, nem meio mas. Olha Yasmim, eu adoro a sua avó. Mas não dá mais. Comida, tudo bem, você não sabia. Mas minhas roupas foram demais. Infelizmente não vou poder continuar com você, tudo bem?
O olhar de vitória de Sofia contrastava com o de tristeza de Yasmim que sabia que tinha sido sabotada. Restou a ela a resignação, voltar para casa e pensar agora somente no desfile de segunda-feira à noite. Sofia vencera. E Flavio apesar de ter mandado ela embora ainda ficou muito triste. Sofia ouvira uma conversa dele com Paulinho, dizendo o quanto Yasmim era boa pessoa, que assim como a avó era uma pessoa batalhadora e que não merecia isso. Entretanto, Flavio fez questão de dizer que a vida era assim hoje em dia: competitiva, cruel e esmagadora. Que infelizmente ela ia bem, mas a sucessão de erros a fez ser demitida. A esposa do outro lado da parede sorria de felicidade. E para tanto fez questão de contar para a melhor amiga, Cíntia.
A conversa rendeu bastante tempo, até que Cintia lhe dera o endereço de uma candidata – que ela lhe garantira que era feia – que morava na Favela Nova Holanda, perto de São Cristóvão. Sofia agradeceu e para não ter problemas ligou logo para a moça de nome Jaqueline. Já tinha lá seus quarenta e cinco anos, mãe de três filhos. E como precisava do emprego, foi no domingo, dia que Flavio estava na banda de Ipanema comemorando o carnaval, que ela entrevistou a candidata. Tudo acertado ela começaria na segunda-feira mesmo.
Na segunda-feira Flavio viu que tinha esquecido um contrato no escritório. No afã de ir brincar o carnaval não o enviou para uma empresa que o contratou para prestar serviços de consultoria. E com a crise hoje, ele não estava para desperdiçar dinheiro. Nem tomou café, nem viu a tal de D. Jaqueline e foi ao escritório para poder novamente brincar o carnaval, inclusive assistir o desfile das escolas de samba, já que “estranhamente” a crise de enxaqueca de Sofia tinha passado. Sofia acordou logo depois do marido e perguntou para Jaqueline. A mesma disse não saber, pois o patrão não havia lhe fornecido endereço apenas que já fazia mais de uma hora que ele havia saído. Sofia então pegou seu carro e saiu atrás de Flavio. Pensou que ele estivesse ido atrás de Yasmim. Nem estava mais ligando para a fiscalização eletrônica. O que se soube é que na altura da Perimetral, o carro que Sofia conduzia bateu violentamente na traseira de um carro que estava a entrar no Motel Le Monde. A sorte é que ambos os carros tinham air-bag. Sofia assim que se recuperou abriu violentamente a porta do carro e sua voz ficou embargada quando viu que o carro em que bateu era o de
Flavio. Ela apenas caminhou em direção ao carro para ver quem era a vagabunda, mas não conseguiu, pois desmaiara no caminho.
Na delegacia, Flavio tentava dar explicações ao delegado pela conversão mal feita. Sofia já recuperada tentava entender o porque que Flavio fazia aquilo em uma outra sala. Foi quando ouviu uma voz estridente lhe falar:
-Não ligue, a maioria é casado. Apenas perdoe-o...
Sofia olhou para trás e viu uma moça com um saco de gelo no rosto de saia curtíssima preta, botas cano alto da mesma cor assim como a mini blusa, seios fartos, pele bronzeada. Não lhe disse uma palavra, mas Sofia lhe perguntou seu nome. O guarda que cuidava das duas disse que na verdade o nome era Marcos, mas que era conhecida por outro nome. Cabisbaixa, o travesti, revelara:
-Yasmim...
Aí então foi a vez de Sofia abaixar a cabeça e pensar...
-É que se o senhor pudesse, colocasse no meu lugar minha neta. Ela já até terminou o segundo grau, mas sabe tudo de afazeres de casa.
-Faz o seguinte D. Maria, pede ela para vir aqui na segunda para conversar com a Sofia e aí ela decide. Tudo bem para senhora? – disse Flavio abraçando calorosamente a empregada fiel, sendo observado com ar de desdém pela esposa.
-Dona Sofia eu queria lhe dizer que...
-Dona Maria, disse Sofia, eu agradeço muito pelos serviços da senhora. Tomara que a senhora descanse bastante. Agora se me dá licença eu vou pegar o carro e levar o Paulinho na escolinha de futebol ta. Beijos para senhora tudo de bom.
E assim saíram, quase que ao mesmo tempo, uma pegou o carro e se dirigiu para a escolinha de futebol. A outra ainda foi pegar um trem para Duque de Caixas na baixada fluminense. Mal sabiam que a partir daquele momento o destino das duas estaria traçado por um bom período de tempo.
Aliás, aquela talvez não fosse a única separação.
De rompante, logo o fim de semana acabara, e Yasmim logo as 8:00 estava na portaria do condomínio. Aprendeu a primeira lição de que gente rica não acorda cedo. E que também não recebe ninguém antes do desjejum. Mas curiosamente, era ela que deveria estar preparando este desjejum, não Sofia, que uma hora depois se atrapalhava com os utensílios domésticos. Então, no seu ato de desespero, ligou para a portaria e soube que a “neta da D. Maria” já estava lá. Yasmim então finalmente teve permissão para entrar. Mas devido ao tamanho do condomínio não foi a pé. Foi num carro da segurança que gentilmente a levou para a casa do ex-patrão de sua avó. Não era uma casa como as outras quaisquer. Era uma casa de uma arquitetura moderna, parecia como diria D. Maria dos filmes da televisão. Ela foi atendida por Sofia que gentilmente a pediu para entrar pela porta de serviço e iniciou um curto diálogo:
-Bom dia...
-Yasmim, senhora.
-Bom dia de novo minha filha, olha, deixa eu te perguntar umas coisas: Você sabe lavar, passar, cozinhar e ter cuidado com coisas caras? Essas coisas que temos em casa são muito caras e é preciso muito zelo. Tem?
-Tenho sim senhora.
-Então minha filha, pega um uniforme que lhe sirva e termine o café da manhã, meu marido acorda para trabalhar daqui a pouco, seja breve, por favor.
Sofia, aquela mulher de quarenta e poucos anos sequer reparou em quem estava contratando. Uma garota de vinte e poucos anos. Negra como o ébano, mas de aplique no cabelo, deixando-o liso. As pernas torneadas, os seios: nem grandes, nem pequenos. E para completar, uma bunda que deixaria qualquer mulata do Sargenteli no chão ou que deixaria o cartunista Lan de queixo caído. Ela encontrou um uniforme, na verdade um tubinho bege de golas brancas com bordados azuis e o vestiu. Tinha trazido consigo também outro, negro, caso fosse necessário. Assim, que trocou de roupa, tratou de fazer rapidamente o café. Afinal não queria decepcionar o patrão. Habilmente então, ela usou de toda ginga e malemolência para poder terminar o café a tempo.
Engano de quem se importava com isso. Flavio entrou cozinha adentro, ainda de pijama e se apresentara para nova empregada, sorrindo e se apresentando. A conversa foi muito informal. Ele achara que já estava ficando velho, mas Yasmim retrucara, dizendo que ele ainda estava moço. Que na verdade era só impressão dele. E logo, Flavio tomara café e disse que talvez voltasse na hora do almoço. Pegou o carro e saiu. Nesse exato instante, Sofia no quarto, começava a refletir muito bem quem tinha colocado para trabalhar dentro de casa. Uma moça linda e um homem rico era uma deixa completa para que Flavio pulasse a cerca. Ou na pior das hipóteses, fosse dar “uma volta noturna” no quarto da empregada. Sofia acordou, para valer, do que talvez estivesse cometendo um erro. Trazendo o inimigo para dentro de casa. Se levantou e pensou em alguma maneira de dispensá-la sem que Flavio pudesse perceber. Vestiu o roupão e voltou para cozinha. Novamente a cumprimentou friamente. Tomou rapidamente o café e pediu que ela acordasse Paulinho. Garoto espero, logo que viu aquela deusa, fez charme, jogou sorrisos, mas um berro de sua mãe o fez acordar para a realidade. E desceu sem dizer uma palavra e assim permaneceu até tomar café e se dirigir para a escolinha de natação.
Aliás Paulinho tinha uma vida agitada, pois sua agenda se resumia a: Segunda(natação), terças e quintas (inglês) quarta e sextas (futebol). Eventualmente ocorria dele jogar futebol também aos sábados. Então ficavam na casa pela manhã e a tarde – horário de estudo do Paulinho – apenas Sofia e Yasmim.
Flavio como de hábito não veio almoçar, sendo que Sofia então almoçasse apenas na companhia de Paulinho. Há um bom tempo isso estava ocorrendo, mas Sofia no momento não poderia pensar na ausência de Flavio no almoço, apenas na presença ameaçadora de Yasmim. Ela havia lido um livro que falava como as mulheres principalmente as de origem africana seduziam e mantinham seus maridos fiéis. Sofia, uma loira de seios com silicone, botox no rosto, cabelo tingido semanalmente e academia de ginástica três vezes por semana não seria páreo para uma mulher mais nova, mais insaciável, de corpo roliço, jovem, mais como diriam as amigas, “mais tudo”. E pensava também no marido. Flavio não era de se jogar fora. Ao longo dos seus quase cinqüenta anos, ele na verdade parecia ter dez anos menos. Alto, de braços fortes, coxas grossas, e cabelos levemente grisalhos fazia certo sucesso entre suas amigas, ela sabia, mas sempre sabia tira-las do caminho com certa facilidade. Mas Yasmim era uma ameaça iminente. Ela era demasiadamente sexy. Um problema futuro pensou.
À noite, de volta do trabalho, Flavio quis se inteirar mais de como era vida de Yasmim. Ela revelara que era pobre, que estudara sempre em escola pública, que com esforço terminou o ensino médio e que talvez tentasse fazer vestibular assim que tivesse uma folguinha financeira. Queria ser enfermeira. Essa revelação, fez quase Sofia pular da poltrona de onde ouvia a conversa de Flavio com a empregada na cozinha. Afinal, enfermeira é um fetiche masculino de proporções arrebatadoras, para qualquer casamento. E a longa conversa seguiu e Sofia se sentindo humilhada e ultrajada, fez questão de interromper a conversa para chamar o marido para dormir. Os olhares de Sofia para Yasmim pareciam navalhas a cortar-lhe a carne. E isso ainda era o primeiro dia de estadia da empregada. Já que ela fora aprovada, Flavio disse para Sofia que ela faria o mesmo esquema de trabalho de D. Maria, que dormiria no emprego e só voltaria para casa no fim de semana. Sofia parecia ter amargamente se arrependido, deveria ter prestado melhor a atenção no que estava fazendo. Mas aquela altura, Flavio jamais deixaria Yasmim ir embora.
O pior ainda estava por vir. Sofia e Flavio foram convidados por Yasmim – sim, ela mesma – para assistirem um ensaio da escola de samba a qual era passista, a Grande Rio. Flavio ficara maravilhado, enquanto Sofia parecia estar a ponto de ter uma taquicardia. Sofia agradecera o convite, mas disse que às vezes as batidas da bateria lhe davam enxaqueca e justamente naquela semana ela estava com uma dor de cabeça horrível. Para não haver confusão, Flavio também não, sábado a noite ao ensaio técnico. As conversas entre Flavio e Yasmim foram ficando sempre longas e Sofia, que há muito tempo já não tinha o marido presente (em todos os sentidos) em sua cama foi ficando cada vez mais furiosa com a situação. Mas o pior dia em que ouvindo um barulho na madrugada, Sofia mandou o marido ir ver o que era. Madrugada de segunda, quase quatro horas da manhã, ela achou ser um assalto. Pediu ao marido para proteger o filho, e ver o que era. Paulinho dormia como um anjo, quando Flavio viu um vulto alto se mexendo. Rapidamente ele pegou a arma, acendeu a luz e gritou: Parado!
A visão era aterradora. Apenas para mulheres inseguras. Na verdade era Yasmim que voltava da folga do domingo com um adorno na cabeça, da quadra da escola. Como tinha a chave, resolvera voltar mais cedo. Vestia um traje minúsculo, composto apenas de short (curtíssimo), salto alto e tomara que caia colado ao corpo. Sofia logo percebera o jeito de Flavio. Paulinho também se assanhara. Era terrível ver a expressão boquiaberta dos dois. Sofia ralhou o quanto pode com Yasmim. Ela tentou justificar, mas não teve jeito. Ouviu tudo o que não queria. Só não foi demitida porque o marido interveio. Sofia não agüentava mais aquela situação. Os dias foram passando e Sofia não poderia mais agüentar aquela situação. Era humilhação demais. E para tanto ela resolveu terminar com o ciclo daquela garota na casa.
Numa das raras vezes que Flavio avisara que ia almoçar em casa, Sofia tratou de sabotar a comida da moça. O marido era alérgico a noz moscada, que providencialmente foi colocada na carne que ele comeu. Passou mal, foi ao hospital, mas se recuperou. Depois foram as camisas Saint-Laurent que ele adorava com algumas queimaduras de ferro de passar. O pior ainda estava por vir. Dois dias antes do carnaval, inexplicavelmente o terno Armani que ele mais gostava apareceu com uma mancha branca enorme nas costas.
-Yasmim! Bradou Flavio
-Olha, eu sei que faltam dois dias para o carnaval. Mas, dessa vez foi demais!
-Mas...
-Nem mas, nem meio mas. Olha Yasmim, eu adoro a sua avó. Mas não dá mais. Comida, tudo bem, você não sabia. Mas minhas roupas foram demais. Infelizmente não vou poder continuar com você, tudo bem?
O olhar de vitória de Sofia contrastava com o de tristeza de Yasmim que sabia que tinha sido sabotada. Restou a ela a resignação, voltar para casa e pensar agora somente no desfile de segunda-feira à noite. Sofia vencera. E Flavio apesar de ter mandado ela embora ainda ficou muito triste. Sofia ouvira uma conversa dele com Paulinho, dizendo o quanto Yasmim era boa pessoa, que assim como a avó era uma pessoa batalhadora e que não merecia isso. Entretanto, Flavio fez questão de dizer que a vida era assim hoje em dia: competitiva, cruel e esmagadora. Que infelizmente ela ia bem, mas a sucessão de erros a fez ser demitida. A esposa do outro lado da parede sorria de felicidade. E para tanto fez questão de contar para a melhor amiga, Cíntia.
A conversa rendeu bastante tempo, até que Cintia lhe dera o endereço de uma candidata – que ela lhe garantira que era feia – que morava na Favela Nova Holanda, perto de São Cristóvão. Sofia agradeceu e para não ter problemas ligou logo para a moça de nome Jaqueline. Já tinha lá seus quarenta e cinco anos, mãe de três filhos. E como precisava do emprego, foi no domingo, dia que Flavio estava na banda de Ipanema comemorando o carnaval, que ela entrevistou a candidata. Tudo acertado ela começaria na segunda-feira mesmo.
Na segunda-feira Flavio viu que tinha esquecido um contrato no escritório. No afã de ir brincar o carnaval não o enviou para uma empresa que o contratou para prestar serviços de consultoria. E com a crise hoje, ele não estava para desperdiçar dinheiro. Nem tomou café, nem viu a tal de D. Jaqueline e foi ao escritório para poder novamente brincar o carnaval, inclusive assistir o desfile das escolas de samba, já que “estranhamente” a crise de enxaqueca de Sofia tinha passado. Sofia acordou logo depois do marido e perguntou para Jaqueline. A mesma disse não saber, pois o patrão não havia lhe fornecido endereço apenas que já fazia mais de uma hora que ele havia saído. Sofia então pegou seu carro e saiu atrás de Flavio. Pensou que ele estivesse ido atrás de Yasmim. Nem estava mais ligando para a fiscalização eletrônica. O que se soube é que na altura da Perimetral, o carro que Sofia conduzia bateu violentamente na traseira de um carro que estava a entrar no Motel Le Monde. A sorte é que ambos os carros tinham air-bag. Sofia assim que se recuperou abriu violentamente a porta do carro e sua voz ficou embargada quando viu que o carro em que bateu era o de
Flavio. Ela apenas caminhou em direção ao carro para ver quem era a vagabunda, mas não conseguiu, pois desmaiara no caminho.
Na delegacia, Flavio tentava dar explicações ao delegado pela conversão mal feita. Sofia já recuperada tentava entender o porque que Flavio fazia aquilo em uma outra sala. Foi quando ouviu uma voz estridente lhe falar:
-Não ligue, a maioria é casado. Apenas perdoe-o...
Sofia olhou para trás e viu uma moça com um saco de gelo no rosto de saia curtíssima preta, botas cano alto da mesma cor assim como a mini blusa, seios fartos, pele bronzeada. Não lhe disse uma palavra, mas Sofia lhe perguntou seu nome. O guarda que cuidava das duas disse que na verdade o nome era Marcos, mas que era conhecida por outro nome. Cabisbaixa, o travesti, revelara:
-Yasmim...
Aí então foi a vez de Sofia abaixar a cabeça e pensar...