Hoje não sei por que eu me recordei da Lu. Sim, este é o modo carinhoso pelo qual a chamei durante algum tempo da minha vida. Ela não era daqui, era de Ponte Nova uma pequena cidade no interior de Minas Gerais. Mas, acho que estou atropelando um pouco a narração, já que isso eu só fui descobrir depois, afinal, o que me interessa mesmo, foi quando nos vimos pela primeira vez.
Eu estava enfurnado no meu quarto. Eu saia pouco e aquele verão de 1992 de sol avassalador parecia prometer. Morava em um digamos, “semi-cortiço”, uma vilazinha se é que assim posso dizer de nove casas, sendo a casa da frente, maior, com uns quatro quartos e mais varanda, jardim, etc. Havia um pátio grande, onde se estacionavam os carros – de quem tinha – e aonde as outras casas faziam um conjunto em “L” com quatro digamos “apartamentos” em cada extremidade. Eu comecei morando no apartamento 101, mas isso na verdade para esta história pouco importa. O que importa é que depois de se aposentar, meu pai continuou trabalhando e com o salário da aposentadoria de motorista de ônibus, mais a continuidade na mesma atividade fez com que nós nos mudássemos para o apartamento 202 no segundo andar, abaixo apenas das caixas d’água. Neste andar tinha como vizinhas D. Neuza e sua filha Isabel – uma gordinha muito simpática e inteligente – e Rosangela, que era assistente social e que teve um filho independente – que é o que nós antigamente, antes do politicamente correto, chamávamos de “mãe solteira”.
Para a missão de ajudar a criar a filha, ao qual eu não me lembro o nome, Rosangela precisou da ajuda da irmã, Elisangela, para olhar a sobrinha enquanto ela estivesse fora, trabalhando. Elisangela veio da cidade de sua irmã, São Lourenço, no sul de Minas Gerais, mais precisamente no “circuito das águas” por ter lá centenas de cidadezinhas com fontes de água mineral. Eu continuava na minha vida pacata de jogar bola com a turma da Rua Humaitá, andar de bicicleta – uma Caloi Cross Freestyle aro nº20, ir visitar meu amigo Neimar às tardes após o Globo Esporte e matar saudades da minha “velha” infância jogando algumas vezes futebol de botão, além de claro, não menos importante e fundamental para mim, ir à escola. Eu estudava no Colégio Nossa Senhora de Fátima, e naquele ano eu estava no segundo ano do segundo grau. O fim de ano estava por acabar e eu basicamente já estava matriculado para o terceiro ano, então poucas coisas em relação à escola me importunavam.
Foi em um sábado que a Elisangela recebera uma visita. Era uma moça, mas eu não conseguia vê-la. Ouvi a campainha bater, mas não atendi a porta. Isso ficou a cargo de minha mãe, D. Carminha. Bom, ela mais que depressa, bateu a porta do meu quarto para dizer que havia uma moça bonita junto com a Elisangela e que tinha pedido a ela um remédio para dor de cabeça, pois ela estava sentindo dores. Obviamente essa informação não era fútil. Hoje eu analiso que era um sinal discreto da minha mãe do tipo: “Ei filho, tem uma gatinha no apartamento ao lado, vai ficar aí parado?” Para chamar a atenção, eu colocava o som bem alto com as músicas que eu mais gostava o que deixava minha irmã chateada e minha mãe também. E, além de chatear minha família eu hoje sei que esta é uma das táticas mais idiotas que fiz em toda minha vida. Até porque não tinha o menor sentido eu ficar ouvindo o som alto, afinal se eu desejava conquistá-la deveria fazê-lo de outra maneira. Meu pai não estava nesse dia, pois estava trabalhando até as três da tarde.
Como eu mesmo descrevi minha vilazinha como um L, eu estava na porção maior enquanto Elisangela e Lu estavam no apartamento no que eu diria a “base” do L. Então da janela dela ela podia ver um pedaço do meu quarto – quem já morou em cortiços sabe que nem sempre temos a privacidade que queremos – e eu me aproveitei da situação para chegar a janela e poder cumprimentá-la e assim poder ver um pedacinho do rosto da sua misteriosa amiga. Ela tinha os cabelos ruivos, de cachos bem curtos e que chegavam até a altura de seus ombros. A pele era alva, mas não pude ver mais detalhes pois subitamente a nenê acordara e tirara delas e de mim qualquer chance de comunicação. Ficar só em meu quarto não era a solução e antes de ir para a rua, ainda consegui ver o especial dos Engenheiros do Hawaii na Rede Globo no lançamento do disco Várias Variáveis.
Após ver o especial, eu me dirigi a rua por volta das dezessete horas, com o intuito de me juntar a turma que ficava sentada em frente aos escombros do falido Supermercado Paineiras, à rua Olegário Maciel, logo após a minha vila. Lá chegando, estavam todos lá: Tica, Léo e seu irmão Guilherme, Alisson, Gordo, Josimar, Rodrigo e alguns outros ao qual eu não me lembro mais. Ficamos conversando coisas triviais, o Tica tentou me vender o disco (sim, era de vinil) justamente dos Engenheiros do Hawaii pois sabia que eu era fã e ele não tinha gostado. Eu infelizmente tive de dizer não, pois não tinha toca-discos, apenas rádios de fitas do tipo cassete.
Foi quando as duas surgiram. A Elisangela vestia uma bermuda jeans e uma blusa que me parecia roxa ou algo nesta cor, afinal eu não estava interessado nela. Quem me interessava era a sua amiga. Mais que depressa, eu me despedi da minha turma e fiz o caminho de volta para minha vila. Ora, eu ia ficar conversando com meus amigos e deixar uma possível chance passar? Aliás, eu como vizinho e utilizando da minha política de boa vizinhança eu deveria ir lá e perguntar se ela estava bem, se o remédio tinha feito efeito, se ela estava melhor, coisas assim. Logo cumprimentei Elisangela e ela me apresentou sua amiga. Seu nome era Lucilene e tinha vindo visitá-la - como se eu não soubesse. Ela estava usando um vestido tomara que caia chá, com pequenas flores de cor vermelha e sapatos pretos do tipo que se usa em bonequinhas de brinquedo. Seu rosto era redondinho, suas sobrancelhas eram finas e caiam vertiginosamente quase se encontrando próximo ao nariz. Seus olhos eram grandes e castanhos, entretanto, seu nariz era pequeno assim como sua boca que era pequena e rosácea. Ela era menor do que eu, talvez um metro e sessenta centímetros, tinha a pele alva e era muito, mas muito delicada para falar. Aliás, sua voz era leve, pausada, parecia sussurrar ao meu ouvido que naquele momento só tinha olhos e ouvidos para ela, fazendo-me esquecer de tudo a minha volta, inclusive Elisangela.
Aliás, ao começarmos a conversar, ambos esquecemos-nos da Elisangela, que por algum tempo, permaneceu junto a nós, fazendo com que nós nos conhecêssemos, falássemos de gostos, de costumes, de hábitos e vontades. De vez em quando ela ria baixinho, pousando os olhos para baixo enquanto os cachos de seus cabelos espalhavam-se ao vento com agradável leveza. Elisangela então nos disse que ia tomar banho, e voltou para o apartamento, onde sua irmã já cuidava da filha, deixando eu e Lucilene a sós. A conversa que já estava amável ficou ainda melhor, enquanto o tempo passava e nós nem percebíamos. O calor daquele fim de tarde acabou por passar despercebido, inclusive os olhares dos meus amigos que me vigiavam do ponto onde estavam sentados, em frente ao Supermercado Paineiras.
Por fim, depois de um tempo percebemos que Elisangela estava demorando muito. Então resolvemos sentar na escada que dava para o segundo andar onde ficavam os nossos apartamentos. Continuamos a conversa e a noite caiu, rápida, e quase que na mesma velocidade já estávamos de mãos dadas. Mas as mãos dadas no inicio apenas tinham o valor simbólico de uma amizade, nada mais. Com o decorrer dos minutos esse sentimento mudara radicalmente. Assim como a noite chegara rápido, nós chegamos a duas conclusões: Que a Elisangela estava demorando demais para terminar o seu banho e a segunda era a de que se nós não nos beijássemos naquele momento e naquele instante nós nunca mais faríamos aquilo. Então mais que depressa nós, de mãos dadas, nos beijamos naquela escada de cimento pintada de vermelho sangue. Foi um longo beijo, apaixonado, de gosto inigualável, a qual somente os grandes apaixonados podem saber. O seu batom, vermelho, misturou-se aos meus lábios, enquanto eu deixava de lhe dar as mãos e a envolvia em meus braços fazendo com que a mão esquerda lhe apoiasse as costas e a mão direita penetrava pelos seus cabelos cacheados, transformado tudo num momento muito bonito e doce.
Este momento só foi interrompido pela Kelma, filha da D. Marlene, do apartamento 104. Ela abrira rapidamente a porta e se assustara ao nos ver aos beijos naquela escada escura, ao qual ela acabara por dar um grito. Dona Marlene veio ver o que era enquanto nós estávamos nos recompondo das nossas carícias inocentes e do delicioso beijo que ganhava. Dona Marlene riu, fez uma brincadeira com Kelma e disse que nos deixaria em paz fechando a porta enquanto Kelma passeava pelo pátio da vila indo em direção a rua Olegário. No mesmo instante, provavelmente alertada pelo grito, Elisangela apareceu, rindo, dizendo que nós demoramos demais para nos acertar. Entretanto mal sabia ela que eu e Lu éramos tímidos convictos e que, portanto não era uma tarefa fácil. A partir daquele momento, comecei a namorar a Lucilene, que deixava aliás este nome para trás e passou a ser chamada carinhosamente por mim de Lu.
Escrevo isso porque estes dias andei pensando muito nela. Bateu uma saudade. Uma saudade gostosa de um tempo bom que eu sei que não vai voltar. Ela tem sua vida e eu a minha. Mas claro que fica aqui várias especulações no campo do se. Se aquele beijo não tivesse acontecido, se ela não tivesse ido a minha casa pedir um remédio, se entre outras coisas nós resolvêssemos ficar juntos para sempre, talvez eu nem estivesse escrevendo este texto. Mas fica a lembrança de um tempo muito, muito bom, de uma pessoa maravilhosa a qual eu tenho todo o carinho do mundo e que lhe desejo muito, muito bem. E que neste momento confesso que lembro perfeitamente do seu cheiro, do gosto de sua boca, do seu sorriso tímido e de suas palavras doces. Sim eu sei, são lembranças, mas lembranças de uma época muito boa em minha vida. Aliás, uma das lembranças mais bonitas da minha vida.
Escritor Solitário...
Este blog contém contos, textos e tudo mais o que vier a minha cabeça. Sou um escritor sem editora, portanto, tento através deste blog fazer com que talvez o que eu escrevo chegue de alguma maneira às pessoas tanto que gosto quanto as que detesto. Curtam e quem sabe um dia terei meu sonhado livro publicado?
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA
Lu
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3 comentários:
ainda ama essa mulher?????????
Nossa, que pergunta dificil. Eu não sei, só sei que ando pensando muito nela. Na sua voz, na primeira vez que nos encontramos, nas brigas, nos recomeços.
Vai ver ela até foi a mulher da minha vida que passou por aqui e no fim das contas eu não aproveitei a chance. Pensei ser uma pessoa e era outra. Como fui burro não? Essa vida é muito irônica, às vezes até penso que a vida tem por vezes um pouco de humor negro...
Comigo aconteceu quase a mesma história ..só sentamos lado a lado e não conseguimos trocar uma só palavra..só que ele queria ser padre,quando eu soube chorei dia todo,mas hoje penso será que era ele mesmo que eu amava ou não passou de uma paixão proibida por isso me prendia tanto.Depois de muitos anos o vi... ele muito diferente mas vivido e casado tbm ..e consegui ver que foi um passado bom e não era para ser meu...porque não senti o mesmo que antes
Sua história é linda mas são lembranças boas que fizeram parte da nossa vida...isso vale a pena sinal que somos capazes de amar outra vez.
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