segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Edmara, morena

Mais um dia entediado naquela escola. Mais um dia de trabalho chato. Aliás, prefiro me corrigir. O trabalho não é chato, é o seu modo repetitivo de como se fosse uma fábrica é que torna isso chato. O mesmo perfil, as mesmas perguntas e o mesmo lugar-comum. Mas é daqui que retiro o meu sustento para mim e para minha família. Imagino como Marx reagiria se todos os dias alguém lhe fizesse uma pergunta idiota sobre a acumulação de capital, mais-valia entre outras coisas. Por isso sento na minha cadeira na sala de professores numa salinha escondida de tudo e todos onde só há computadores velhos e uma cadeira onde pude colocar meu corpo e dormir por alguns minutos antes que o sino batesse.

Entretanto como se fosse esta a oitava praga do Egito o sinal tocou. Não havia cinco minutos que havia colocado meu corpo esquálido, com a barba por fazer, branco e de cabelos longos naquela poltrona. Ajeitei as minha longas madeixas num movimento rápido, segurando-os e pegando uma elástico qualquer fazendo um rabo de cavalo. Levantei-me, passei minhas mãos magras e alvas pelo meu rosto e percebi que não havia feito a barba hoje e um palavrão passou pela minha cabeça, não sendo pronunciado, pensado apenas. Peguei minha caixa de giz, de madeira, ajeitei minha camisa e minha calça, peguei o livro e fui para mais um dia de trabalho. Tinha o passo lento, vacilante, sem vontade na verdade. Alguns alunos passavam por mim e me cumprimentavam e eu apenas assentia com a cabeça, num gesto de aprovação.

Cheguei à sala, e vi o mesmo cenário de sempre: gente conversando, sentada nas mesas e na verdade àquela hora eu apenas queria dar minha aula e depois tomar uma xícara de café para espantar o sono de uma noite mal dormida anteriormente quando ex-mulher me ligou querendo falar sobre meu filho, que estava àquela altura com quinze anos e segundo ela, estava andando com gente segundo ela, “suspeita”. Mas na visão dela, gente suspeita poderia ser qualquer pessoa que tivesse uma atitude diferente. Nem parece que é uma pessoa formada. Nem tudo é o que aparenta ser. Convencê-la disso é que era o problema. A conversa foi longa, cansativa e por fim acabei por dar com o telefone na cara dela e não atendi mais depois. Vou visitar o garoto neste final de semana e conversar com ele. Preciso mostrar que ele tem de respeitar a mãe. Se ela acha a trupe dele esquisita, ele que trate de procurar uma mais “normal”, sorri, por causa dos meus pensamentos.

Finalmente entrando em minha sala de aula, com passos calmos, comecei a fazer a chamada, alguns respondendo, outros feito bobos não respondiam e então eu dava falta assim mesmo. Nisso, eu percebi uma aluna nova, a de número trinta e nove. Seu nome era Edmara de Paula Silva. Meu mundo parou naquele instante. Resolvi olhar quem era. Ela estava na última carteira da última fila, a minha esquerda. Assim como eu, ela me olhava fixamente. Vi o destaque dos seus olhos verdes, claros, da cor do mar. Os cabelos eram negros, cacheados, bem juntinhos que chegavam se enrolando até um pouco abaixo da altura dos ombros. Sua pele morena era de como se ela estivesse acabado de passar uma temporada na praia. Suas mãos, leves e delicadas, possuíam unhas longas, que me fez pensar que eram postiças. Tive vontade de me levantar da cadeira para ir lá conferir. E aproveitar para conferir também os finos lábios adornados com batom de cor avelã.

Levantei-me e comecei a ministrar minha aula. Qual aula? Sei lá o que estava falando, meus olhos agora só estavam fixados naquela morena de nome Edmara. O mundo que se danasse, que tudo ao meu redor que fosse ao inferno. O meu desejo era ter Edmara em meus braços. Eu sentia minha boca se mexer, meus lábios se movimentarem. Observava também junto com o murmurinho de alguns alunos que nunca prestavam a atenção na aula mesmo, que na verdade eu apenas prestava atenção nela. E senti que ela também me olhava, dava uns risinhos digamos diabólicos, como se me tentasse a cada olhar trocado, a cada passada minha na frente, de costas para o quadro-negro e de frente para turma, também tocar em mim.

Mas eu também estava no limite da ética. Eu professor, ela aluna. Apesar de solteiro, livre e desimpedido, qual era o limite da ética? E se alguém percebesse? E se ela realmente ficou afim de mim, e se nós resolvêssemos ter um caso? E se alguém descobrisse e resolvesse contar para todo mundo? Franzi o cenho por alguns segundos, tempo suficiente para uma aluna chamar-me algumas vezes, e depois perguntar se tudo estava bem. Eu dissera que sim, mas na verdade estava hipnotizado pela beleza daquela garota, que conseguira despertar a minha atenção. Nunca havia me sentido assim durante anos de docência, e também nunca tinha me sentido assim desde que me casei.

E assim ficamos durante um bom tempo, ela fixando o olhar em mim, eu sinceramente não me recordo o que estava falando. Mas podia perceber o vigor em minhas mãos nas raras vezes em que fui escrever ou apagar o quadro negro. A energia fluía em meu corpo como se eu estivesse possuído por alguma divindade ou qualquer outra coisa parecida. Eu mesmo parecia não estar cabendo em mim e isso parecia estranho, repetitivo, irreal. A jovialidade perdida em algum lugar do passado estava de volta em meu corpo. Não havia desânimo, cansaço ou fadiga. O simples fato de poder ter a possibilidade de tê-la para mim alimentou-me grandes esperanças.

Eis que na hora, em que fixamos olhares, o sinal tocou. Ah, maldito sinal que novamente vem a me perturbar. Pena que só houve sete pragas no Egito, pois se estivéssemos nos tempos modernos, com certeza esta seria a oitava. Eu a encarei pela última vez naquele dia e estava saindo quando ela levantou-se e veio em minha direção. A princípio eu me gelei de medo, pânico e pavor. O seu caminhar gracioso me fez parar de prestar a atenção nos outros alunos que me perguntavam algo, talvez sobre prova, ou exercícios. Mas eu não estava nem aí. Ela estendeu suas mãos delicadas segurando na minha dizendo:

- Desculpe professor eu não ter me apresentado formalmente. Eu vi de outra escola e não queria incomodar a sua aula que por sinal foi muito boa. Prazer, como o senhor já sabe meu nome é Edmara.

-O Senhor está no céu, retruquei, e já pensando na mancada que havia dado ao falar aquilo. Chamei-me de velho, obviamente.

-Desculpe professor, é à força do hábito.

-Não seu preocupe minha querida, eu que fui grosseiro.

A boa conversa só foi interrompida pelo professor de química que dava claros sinais de impaciência comigo. Disse que nos veríamos depois, e me voltei para a sala de professores. Entrei, apanhei mais giz, um livro e voltei à sala de aula. No caminho, indo para a próxima aula, eu me deparei com Edmara de novo no corredor. Não houve palavras, não houve toques, não houve beijos, não houve nada. Mas na nossa troca de olhares claramente existiu um desejo mútuo que parecia sair pelos nossos poros. Não sei quanto a ela, mas a minha respiração ficara ofegante e intensa, aumentando à medida que nos distanciávamos. Cheguei a minha sala de destino e mecanicamente começara a repetir as mesmas coisas para os rostos desinteressantes – e às vezes desinteressados de sempre - quem me ladeavam dentro daquele cubículo com poucas janelas, sem ventiladores e de aparência velha, gasta, aos quais os alunos em geral tinham certo asco. Eis que sou interrompido pela supervisora da escola que vem me dar um aviso:

-Professor, ao sinal, o senhor está dispensado...

-Por quê? – perguntei com certo nervosismo.

-O professor de literatura não vem e a professora de química também; então achamos por bem dispensar algumas turmas e então eles vão sair mais cedo.

-Ok, por mim tudo bem.

Então, como combinado ao som do sinal, me despedi dos alunos e fui novamente para a sala de professores. Encontrei com alguns colegas que diziam estar com sorte de estar indo embora mais cedo, outros com o semblante de inveja porque teriam de dar mais três aulas enquanto eu e os outros íamos embora mais cedo. Despedi-me e caminhei até ao estacionamento, onde entrei no meu carro. Não era um carro novo, mas também era o que eu podia pagar com o que sobrava depois de pagar todas as minhas contas e com o salário que atualmente nós professores ganhamos.

Entrei no carro, guardei minha mochila, laptop, e coloquei no aparelho de som do meu carro meu pen drive que continha algumas músicas que gosto, principalmente rock dos anos setenta e oitenta. Nisso, eu resolvo olhar para o espelho retrovisor e vejo novamente Edmara. Novamente nossos olhares se cruzam, porém desta vez ela não percebe que eu a vejo. É neste momento também que eu consigo perceber que roupa ela veste. Antes só tinha dado atenção ao seu rosto, seu sorriso, suas mãos. Não pude ver antes com detalhes o que estava vestindo. Ela vestia uma calça jeans branca, com tênis combinando da mesma cor e uma camisa vermelha colada ao corpo, que realçava provavelmente seus seios, já que ela carregava o seu fichário abraçada ao seu tronco, fazendo que os homens imaginassem que por trás daquele fichário provavelmente haveria um par de seios fartos.

Liguei o carro, dei marcha ré e saí pelo portão da escola. Ao passar por ela, resolvi não oferecer carona, já que era o primeiro dia e isso evidentemente ficaria óbvio a qualquer aluno que tivesse o mínimo de observação. Apenas buzinei, e estava indo embora, acelerando, quando eis que na mesma esquina em que contornei, havia lá um jovem forte, alto, de cabeça raspada, com uma tatuagem de uma serpente no braço. Pensei ser um assaltante e pensei também em Edmara. Reduzi a velocidade e praticamente parei o carro para poder ver o que estava acontecendo. Foi quando o jovem que vestia uma calça jeans e camiseta colada no corpo se interpôs a frente dela. Apertei nervosamente a embreagem e engatei a ré. Quando comecei a acelerar para trás, percebi que o rapaz a beijava intensamente juntamente com um abraço afetuoso. Freei. Eles se assustaram. Engatei a primeira marcha, e acelerei. Os pneus patinaram no asfalto liso e eu ganhei a estrada deixando-os para trás. Ganhei bastante velocidade, aumentei o volume do rádio e deixei que a atenção ficasse apenas na estrada. Mas no fundo no fundo, no íntimo, meu subconsciente dizia a mim: “Edmara, morena que serás um dia tua. Quando não importa, onde não importa. Serás tua.”

2 comentários:

JUCYMARA disse...

perfeito! maravilhoso!!

como sempre seus contos m fazem viajar!!sentir dentro deles!

mina_do_gueto disse...

Acho que me vi. A aluna que perguntava e você não dava atenção. Kkk