Querido diário;
Mais um dia se foi. Mais uma noite vem chegando. E eu não gosto quando as noites vêm. Sabe diário, não é nada fácil ser uma menina de quinze anos, principalmente quando essa menina, no caso eu, tem todos os problemas do mundo. O primeiro deles é que eu ainda desabafo em um diário. Quantas, meu Deus, meninas fazem isso hoje em dia? Eu acho que praticamente nenhuma, porque tem Orkut,Facebook,Twitter e mais uma porção de lugares na internet que podemos fazer isso. Eu sei disso porque já mexi nessas coisas na lanhouse aqui perto de casa. É o único lugar aonde eu tenho de ir, já que aqui em casa não tem computador. Aliás, aqui em casa não tem é nada! Também pudera, não temos condições, como diz o meu professor de geografia, financeiras para ter determinadas coisas.
Também pudera o meu pai coitado, é um zero a esquerda. Ladrão é sua profissão, se é que posso dizer que isso pode ser considerado uma profissão. Foi roubar um cara, no que na gíria dos ladrões chamam de “saidinha de banco”. Dá vontade de rir, mas foi o meu pai lá, de arma na mão querendo assaltar um velhinho, só que ele deu azar que um lutador de jiu-jitsu viu e pegou ele. Nem sei quantos anos ele vai ficar preso, só sei que não vou visitar ele não. É muita humilhação, ter de ficar pelada, ver comida revirada, ouvir piada daquelas piranhas que se acham só porque tem um revólver na cintura aqui na favela ou são mulher de traficante que tá preso ou que tá foragido. É só a cadeia ter rebelião que elas são as primeiras que se pelam de medo, mas depois se encorajam e vão lá para a porta do presídio. Mas voltando a falar do meu pai, tenho dó dele, mas não vou ver ele não, eu apenas acho que ele deveria ter ido procurar um trabalho quando foi solto da primeira vez. É, a primeira vez ele foi preso por tráfico. Nesse morro um monte de gente traficava e meu pai achou que era um bom negócio quando minha mãe ficou grávida de mim. O meu padrasto, é outra besta. Burro que nem uma porta. Mas pelo menos é honesto. Honesto no sentido que não rouba ninguém. Ele é servente de pedreiro numa obra no centro. Eu fico passada das coisas que ele fala: “aio”, “arubu”, “avoa”, “aliforme” “esmagrece”, “pobrema”, “dregau”, entre outras coisas que eu não vou escrever porque tenho medo de te emburrecer, rs.O que mata é que o babaca desse zero a esquerda ainda fica dando em cima das vizinhas, que se colocam short curto ele fica babando. E fica pagando uma de crente. Crente do pinto quente né? Eu sei que ele trai minha mãe com a Cíntia, a mulata empregada de um artista da televisão. Ela vive chamando o meu pai para fazer concerto lá na casa dela que é bem embaixo aqui no morro e idiota da minha mãe não vê. O povo comenta e ri.
A minha mãe é agarrada na igreja. Tudo para ela é pecado e para ela eu estou no “mundo”e vive rezando para eu ir à Igreja.A Igreja Pentecostal do Manto Branco de Cristo. Ah, mas eu não vou não. Nada contra, todo mundo tem sua religião, sua crença, mas o pastor tem cara de que rouba os fiéis. Minha mãe não pode nem saber que eu escrevo isso! Mas ele tem carro do ano, mora no asfalto, e todo mundo que é fiel, obreiro, obreira ou toca na Igreja, mora aqui na favela. E vai dinheiro, minha mãe gasta muito dinheiro lá dentro, eu fico até pasma. Mas ela diz que vem recebendo glórias e mais glórias. Bom, pelo menos nessa parte ela não mentiu muito, já que nenhum dos meus irmãos (Ronaldo, Bruno, Ismael e Jonas) não entraram no tráfico. E a turma aqui é da pesada. Nossa, todo dia indo para a escola ou eu vejo pelo menos um cadáver na descida ou eu vejo eles de fuzil na mão. Piora quando a polícia sobe o morro. Quer dizer quando o Bope sobe o morro, porque polícia aqui na verdade são eles. Aqueles carros azulzinhos já dão até para saber que eles estão é recebendo grana da turma aqui do morro. E nem recolhem os cadáveres de quem eles acham quem são x-9 aqui no morro, matam sem dó e deixam lá no pé para servir de exemplo.
Hoje à noite tá um saco. Os meninos estão vendo futebol na única TV da casa no gatonet. Também, único jeito de poder ver algo decente por aqui. Pelo menos eu te atualizo já que é uma briga aqui em casa para poder ver novela e os meninos com essa praga de jogo de futebol. Pelo menos o imprestável desse padrasto que minha mãe arrumou fez um puxadinho só para mim. Daqui tem uma janelinha e pelo menos eu posso ver Ipanema daqui de cima. Deve ser legal, morar no asfalto. Eu jurei para mim mesma que eu vou morar no asfalto, largar essa vida miserável de não saber o que vai comer hoje à noite, de ter de ficar andando em ônibus lotado, de ser esculachada pela polícia quando sobe o morro e de ter de ficar deitada no chão com a janela trancada quando a polícia ou os traficantes entram em confronto. Ter de ficar horas esperando o tiroteio passar. Outro dia entrou uma bala no meu quarto. Passou pela janela e furou a parede. Coloquei um pôster por cima para dar uma disfarçada. Ficar ouvindo piadinha de traficante que fica te chamando de gostosa o tempo todo. Só não faz pior porque não dou idéia pra esses caras e porque a merda desse padrasto também serve para impor um pouco de respeito como homem religioso, apesar de todo mundo do tráfico saber dos casos dele. Tem traficante que fala alto que só não entrega ele porque ele não dedura ninguém e que minha mãe, essa sim tá mais que agarrada com Deus.
Aqui a vida no Morro do Macaco Molhado é assim: Sobe e desce de trabalhador, sobe e desce de polícia, sobe e desce de traficante, tiro, facada, igreja evangélica, pastor, pai de santo, mãe de santo, macumba, gente morta, mototáxi, pagode, funk, puta, jogador de futebol, gente que fuma, cheira, que vende e que compra. Aqui dá de tudo e sinceramente eu ando farta dessa vida. Esse sobe e desce de ladeira, de ter de ajudar a pegar água no poço, de ter de ficar procurando o seu Manoel pelo morro quando o gatonet falha faz da minha vida às vezes uma droga. Ter pai preso, pai falso, mãe fanática também. Pelo menos meus irmãos não enchem tanto o saco. Por isso que nem tenho namorado. Quem do asfalto quer vir aqui no morro? E namorar alguém daqui? Fala sério! Se eu quiser em atolar ainda mais no barro eu realmente namoraria alguém daqui. A maioria quer ir para o tráfico, não sabe nem escrever direito. Só sabe essas coisas de “vida loca”, “é isso ái malandro”, “jah é” “coh é” ou “sinistro” ou um “pode crê”. Aí fico assim, os meninos do asfalto não sobem aqui. E não sou a única a sofrer com isso. Quer dizer sofro porque não sou associada a traficantes, porque os playboizinhos que sobem aqui e ficam com as meninas cheiram mais do que ficam com elas. Não sobrou ninguém, infelizmente, a solidão então eu preencho aqui escrevendo para poder passar o tempo, para poder não pensar bobagem e não agir que nem uma piriguete entre traficantes e bailes funk muito pó e maconha. Mas também não quero ficar agarrada a religião de crente, não quero ficar proibida de usar minhas minissaias, meus shorts, meus batons, minha maquiagem, poder assistir minha novela, meus filmes. Quero poder achar o Jacob lindo, o Edward uma graça e a BellaSwan uma fofa.
Engraçado, aqui em volta está tudo tão silencioso. Tudo tão “normal”. Não ouço latidos dos cachorros aqui perto, não ouço o funk proibidão. Mas o mais esquisito é que também não tem tiro. Não tem gritaria. Não vou me arriscar a ir na sala onde tudo também está muito quieto. Mas a tv está ligada, o que significa que teríamos gente em casa. Acho que vou gritar minha mãe. Ou é melhor não gritar? Ai meu Deus, começo a ficar assustada com isso. Acho que vou pular a janela. Vou pegar minha bolsa e pular a janela, alguma coisa aconteceu. Ou está todo mundo na sala morto e acham que não estou aqui porque meu puxadinho fica em cima da casa e só tem a escada. Acho que vou embora des¹
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1.Nota do autor: O diário termina aqui. Talvez a seqüência desta história termine em outro conto mais adiante. Por enquanto somente posso aconselhar que as pessoas pensem no que pode ter acontecido e que reflitam sobre qual final dariam a esta história...
Um comentário:
...sa casa, não posso ir deixar minha mãe aqui, vou ver porque tudo está tão estranho e silencioso vou descer bem devagarinho pra ver, ué minha mãe está na sala, o meu padastro está abraçando ela porque ela chora ele deve ter aprontado...mãe..mãe!!!
Porque não responde estou aqui falando com você, que papel é esse que tem nas mãos...ah é uma foto minha, fiquei bonita né...
Mãe...do que ele está falando que tiroteio foi esse que aconteceu, porque você chora, ninguém me vê estou aqui, tem alguma coisa me puxando mãe, não quero deixar você, mas a luz é tão linda, estou sentindo uma paz um silêncio. FIM
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