Nem
sempre se oferece a outra face
-Leila!
Assim bradou Pedro,
Pedro Helmus. Na verdade era mais conhecido como Helmut. Descendente de alemães
era um homem alto, loiro e de olhos azuis. Porém, apesar dos atributos
iniciais, Pedro, era gordo, rabugento, mal-educado, arrogante e mesquinho.
Tinha uma barriga enorme, ao qual os amigos menos chegados lhe eram corteses à
sua frente, entretanto diziam que era impossível que ele pudesse enxergar seu
próprio pênis olhando de cima para baixo. Chamavam-no de falso, arrogante, metido
(como assim o eram também) e todos os adjetivos para uma de poucas qualidades
que pudessem imaginar.
A mão de Pedro, após
chamar Leila, bateu firmemente na mesa, fazendo voar o pouco de cerveja que
ainda restava em seu copo. A pequena Leila era uma morena de cabelos negros e
curtos (até os ombros),olhos amendoados, boca carnuda, de altura média (sim,
porque perto de Pedro ela parecia uma criança) e um corpo normal para uma dona
de casa de seus trinta e cinco anos e mãe de dois filhos. Conheceu Pedro em uma
festa em Santa Catarina onde estava a passeio com os amigos da faculdade de
letras que ela cursava em São Paulo. Começaram a namorar durante o evento, a
qual os amigos e amigas pensavam ser coisa passageira e para tal não mais
pensaram que poderiam ficar juntos. Trocaram e-mails, depois conversas online
em chats e bate-papos, até resolverem assumir o namoro tanto online quanto ao vivo.
Pedro aquela época era sedutor. Um galante, um cavaleiro descendente da Bavária
perfeito! Isso aparentemente. Tanto que Pedro era extremamente ciumento com os
colegas de Leila na faculdade. As vezes que vinha a São Paulo, na USP era
grosseiro com os colegas dela, fazia de tudo para deixa-los longe de Leila e
mostrava a todos quem mandava e através da força, intimidava-os. Os amigos
preferiram não entrar em conflito e começaram a se afastar na mesma proporção
que Leila se aproximava de Pedro. Via nele seu porto seguro e um homem
maravilhoso a qual deveria seguir a toda vida. Mal sabia ela na grande
armadilha a qual estava se metendo.
O começo de tudo foi
realmente só flores. O casamento feliz, a vida era feliz e doce. Pedro largara
família e tudo em Santa Catarina para fazer sua vida em São Paulo. Apesar do
casamento feliz a vida era difícil, já que não dispunham de tanto dinheiro
assim. Pedro por diversas vezes pediu a Leila que largasse a faculdade, mas ela
estava no último período e ele cedia. Ela posteriormente se formou e prestou
concurso para professora nas escolas do Estado de São Paulo, como professora de
língua portuguesa. O marido também prosperara, como agente imobiliário, ao qual
com o passar do tempo, conseguira uma carta de clientes grande o suficiente
para poder sobreviver com certa tranquilidade no mercado. Nesse meio tempo,
vieram os filhos, Alícia e Marcelo com diferença de dois anos entre um e outro. Entretanto, o que sempre incomodava Pedro era
o ambiente mais libertário da escola. Não era a violência, não era o baixo
salário, as condições de trabalho nada disso afetava a Pedro. O que lhe
realmente afetava era o ambiente de trabalho que era livre. Conversava-se de
tudo, entendia-se de tudo. Na cabeça de Pedro, ali era um ambiente propício
para que ele pudesse ser traído. Assim como na faculdade Pedro fazia questão de
querer espantar os “concorrentes”. Isso até o dia da chegada do professor de
ciências Gilberto, ou simplesmente, Gil. Era um moreno alto, forte, de cabelos
crespos e castanhos e grandes olhos negros. Pedro aparentemente não via um “concorrente”
fortíssimo, e logo usou da sua falta de educação para poder espantar o rapaz de
perto de sua esposa. Mas isso não impediu que na festa junina da escola, Pedro
pudesse ver uma cena que jamais iria imaginar: a de sua esposa dançando junto
do professor Gilberto. Pedro, calou-se. No caminho de volta para casa, após a
festa, nenhuma palavra com a mulher.
Ao chegar a casa,
mandara Marcelo e Alícia para o quarto e pediu a Leila que viesse conversar com
ele no quarto do casal. Pedro entrou na frente, suando como um porco, vermelho
de raiva. Assim que fechou a porta, Leila recebeu um violento tapa no rosto que
a fez girar em torno de si mesma. Antes que pudesse ir ao chão, foi pega, pelo
braço e jogada na cama. Pedro aproveitara-se do seu peso e subira no corpo da
pequena mulher com as pernas segurando o seu tronco e sua enorme barriga, em
cima de seu tórax.
-Vagabunda, piranha,
safada! Disse ele baixo, para que as crianças não ouvissem. Leila tentava se
desvencilhar, mas o esforço era inútil. Tão inútil que veio logo outro tapa na
face. Olha aqui sua vagabunda de merda. Vou dizer o seguinte: se ficar de
gracinha com aquele bosta, você vai apanha. Todo dia entendeu? TODO DIA! Frisou
ele nessas pequenas quatro frases. Aquele dia de São João ficara marcado na
vida de Leila como o primeiro. O primeiro de várias agressões que viram pela
frente.
Depois do silêncio, das
marcas, das conversas paralelas na escola que Leila sabia que isso ocorria o
professor Gilberto saiu da escola. Nunca mais ninguém ouvira falar dele. Os
amigos disseram que ele era uma lenda urbana. Mas sim, simplesmente Gilberto
sumira, da vista de todas as pessoas que estavam em seu círculo. Nunca mais,
foi como se fosse uma miragem em meio ao deserto que Gilberto desapareceu.
Assim como chegara ele se fora. Sem notícias, sem informações, o mundo de Leila
voltou a ficar pequeno. A ela sobrara apenas a insossa e dolorosa companhia de
Pedro e da sua única felicidade que era a de estar junto aos seus filhos.
Após o aparecimento e
desaparecimento do professor Gilberto os tapas, socos e chutes antes não
frequentes, apenas em seus ataques de ciúmes, agora se tornaram corriqueiros. E
também vieram as primeiras desculpas dela como tombos de bicicletas, encontrões
e todo tipo de acidente doméstico. A última desculpa de Leila foi do cachorro.
A comida não estava satisfatória. Tudo voou no chão. As crianças em pânico correram
para seus respectivos quartos como de sempre. Leila tentou saber o que tinha
acontecido. Ao abrir os braços diante da fúria do pseudo ariano gordo, recebeu
um direto de direita. O nariz se quebrou em três partes. A desculpa como
sempre, pífia. Disse que seu cachorro – mas ela não tinha um – bateu
acidentalmente em seu rosto. Até Pedro ficou impressionado, com o golpe. E,
também pelo fato da mulher não o ter saído de casa, não ter ido procurar a
polícia e passivamente, ter ficado em casa. Ficou impressionado,
mas não menos pervertido. Devido a tanto álcool e má alimentação, há anos Pedro
não tinha uma ereção sem ajuda de remédios. Sem saber o que se passava na
cabeça daquele homem,o mesmo, tomou dois comprimidos de um estimulante sexual. Ele
não perguntou se Leila queria. Não fez questão. Aproximou-se da cama, tirou a
roupa, enquanto Leila, ainda inchada devido aos golpes observou assustada,
pensado “Ele não vai fazer isso comigo, depois de horas que passei no hospital,
do meu rosto inchado, do corpo doído.” Antes de qualquer reação dela, ele subiu
rapidamente em seu corpo, com o falo ereto devido aos remédios. Ela até tentou lutar, mas o peso muito maior
do corpo de Pedro tomou conta do resto. Ela não fez amor, foi estuprada pelo
marido. Leila não aguentou mais.
A partir daí começou a tomar uma
atitude. Mas antes disso, passara dias se humilhando, rastejando e apanhando
como sempre fizera. Contudo dessa vez ela planejava algo. Estava sempre
pensativa, calada. Pedro por sua fez, sem a ajuda dos medicamentos, era um
fracasso na cama inclusive com as prostitutas que sempre procurava. A maioria
era sempre muito compreensiva. Mas, uma delas não aguentou e riu. De maneira
delicada, mas riu. Pedro do alto de seu corpanzil reagira em fúria do vexame
feito e fechou o punho com o objetivo de fazer com ela o que sempre fazia com
Leila. Só não se lembrou de estar em território estranho ao qual o quarto de
hotel não era seu lugar, sua casa. Pintado com quadro de artistas baratos, uma cama de
casal com dois criados-mudos – que não tinha nada dentro – com dois abajures em
cima. O ventilador de metal, apenas refrescava, porém não tirava a atmosfera
pesada do lugar. Pedro só não sabia que próximo à cama, havia um botão que
chamava os leões de chácara do hotel. Antes de dar o primeiro soco, eles
invadiram o lugar e jogaram o corpo nu de Pedro. Deixaram-no se vestir no
corredor e depois empurraram o corpo flácido e gordo na rua.
Leila era a culpada, pensou ele. No
carro, segurava o volante com força. Ao chegar em casa, a noite, trouxe consigo
a atmosfera sombria e pesada do hotel onde estava, porém cinicamente, mandou as
crianças para a casa de sua sogra, que ficava a pouco mais de dois quarteirões
de onde morava. Leila apenas o observou, em pânico dentro de si. Porém, assim
que as crianças saíram de casa e Pedro caminhou em direção dela, seu olhar
mudou e ela disse firmemente:
- Pedro seu porco. Gordo, broxa, inútil!
Não serve para nada. Nada!
Pedro correu atrás de Leila, mas seu
peso o deixava em grandessíssima desvantagem. Leila corria e sorria. Corria pela casa, tanto
no quintal, no jardim ou demais outros locais abertos onde às pessoas os viam,
correndo. O sorriso de Leila indicava que uma inocente brincadeira de casal ali
ocorria. A “brincadeira” durou alguns minutos quando Pedro começou a se
arrastar pela casa. Sentara na cadeira da copa. Arfava assustadoramente. E
Leila assistia a tudo e sorria. E Pedro sem entender nada, apenas o cansaço que
lhe trazia dores no peito. Pedro sem entender a observava.
Leila se aproximava e cada vez mais
perto tirava uma peça de roupa, deixando Pedro confuso. Primeiro os tênis,
depois a calça jeans. As mãos de Pedro no peito que doía, enquanto ela retirava
a blusa, sensualmente ficando apenas de calcinha e sutiã. Pedro percebeu aí do
que se tratava seu cansaço e suas dores no peito, que se tornaram tão fortes
que ele acabou por cair da cadeira. Leila se aproximou observou os olhos quase
convulsivantes, a respiração intensa, onde ela sensualmente sentou-se no dorso
gordo de Pedro que punha as mãos no peito e gemia de dor e olhando para seu
rosto, cuspiu. E novamente repetira a ele as palavras que o deixaram
transtornado:
-Inúitil!
-Broxa!
-Vagabundo!
-Covarde!
-Estuprador!
Pedro gemia de dor, com os olhos
arregalados de medo da mulher que se agigantou sobre ele. O então machista
convicto, forte, dono de si e do destino da mulher que chamou tantas vezes
hipocritamente de amor a viu se agigantar sobre ele. O machista inveterado, que contava suas proezas nas mesas de bar, na roda com os amigos, com os colegas de trabalho agora no
chão estava praticamente acabado, humilhado.
-Você é um bandido, um marginal sem
classe. Maldita hora que me casei com você. Prá quê? Apanhar? Ser estuprada?
Seu fim chegou!
-Achou que ia tomar esses remédios para
me estuprar sem punição? Não. Você seu inútil, se esqueceu que quem faz sua comida sou eu? Depois que fui
estuprada seu idiota, resolvi tomar uma atitude. Na escola, perguntei a alguns
colegas professores, usei o computador para pesquisar. Enquanto você me comia
com esses remédios vagabundos e comia a minha comida, eu administrei doses de
anticongelante na sua comida. Quando correu atrás de mim fiz com que o anticongelante
agisse mais rapidamente, e já que chegou tão furioso, deve ter broxado com uma
dessas vagabundas então os dois devem ter feito seu corpo entrar em colapso.
Sim, seu babaca, você está morrendo, mas não se preocupe. Seu enterro será
lindo. Leila então pôs o pé com o salto no peito dele e aguardou seu último
suspiro.
O velório? Foi bonito. Como sempre,
pessoas chorando, filhos chorando, enfim a atmosfera nauseante e triste de
todos os velórios. O padre perguntar se Leila tinha algo a dizer e, ela recusou.
Ninguém então falou. A chuva fina, típica de uma tarde paulista, dava o tom
triste do momento. Todos caminharam em silêncio, tristes, contrastando com
Leila, que por dentro, estava alegre, entretanto disfarçando.
Enquanto o caixão descia, as poucas
pessoas, respeitosamente observavam a caixa de cedro retangular descer
lentamente no grande buraco aberto na terra preta e agora úmida. As flores
foram jogadas pelos filhos, parentes e parcos amigos enquanto os coveiros
jogavam a terra por cima. Pacientemente, Leila esperou por tudo, assistiu
pacientemente a todo o procedimento. Os filhos foram levados pela madrinha
assim que a primeira pá de terra caiu. Leila ficou lá, imóvel.Assim que todos
se afastaram, Leila começou a dizer baixinho:
-Filho da puta miserável. Carinha de
santo para os outros, um demônio dentro de casa. Eu não me esqueci. Dos chutes,
dos socos, das humilhações. As putas que você usou, as bebedeiras, a falsidade.
Eu cansei. Não sei se serei punida por anjos ou demônios, mas nesta vida, neste
plano, eu me libertei da sua presença. Arda no inferno seu merda!
Ela cuspiu na terra úmida, virou o corpo
esguio e caminhou vitoriosamente pelo
cemitério. Levou o buquê de flores consigo não até a saída, mas até outro
túmulo. Ao chegar ficou de frente a uma lápide que dizia: “Ao professor Gilberto,
vítima da violência, mas que jamais será esquecido em nossos corações. Sua mãe,
pai, amigos e alunos.” (1980 – 2010). Leila chorou, deixou o buquê de rosas
vermelhas, suspirou “meu amor”, passou a mão na lápide e foi embora, sozinha.
Um comentário:
lindo, perfeito, magnifico, como só vc sabe fazer aplausos! maravilhoso!
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