terça-feira, 20 de outubro de 2015

PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA

Anjo


      As pessoas às vezes teimam em pedir ou perguntar porque este perfil não tem rosto. Além da privacidade que tenho de falar o que quero, sobre o que quero a hora que quero sob um certo anonimato, me dá uma liberdade sobre tal. Ser tomado por uma espécie de louco, tarado, estelionatário (não tinha me lembrado desde adjetivo) e por incrível que pareça, até por mulher já me confundiram. Tudo bem, faz parte pelo anonimato e pelo estilo “Daltoniano” de vida que estou planejando ter. Mas isso não quer dizer pro exemplo que eu não possa ou não deva escrever sobre mim mesmo. Claro que posso e claro que escreverei. Demorei um certo tempo para que pudesse escrever sobre mim porque na verdade não sou uma pessoa interessante. Sou uma pessoa comum. Não sou como Paulo Coelho que foi parceiro do Raul e que agora pode se refrescar numa ilha em Dubai e ser vizinho das celebridades. Não almejo isso também. Sou um homem (sim, se você tivesse lido as outras histórias antes, teria percebido, se não leu é preguiçoso/a) simples sem ser simplista, com hábitos normais, com vícios normais (café) e trabalho duro para ganhar a vida. Mas não é por isso, que vou apresentar a vocês, uma história da minha vida mal contada, sem os detalhes, sem coisas assim. Gosto de escrever para vocês de uma maneira interessante, de uma maneira que se apeguem a leitura e ao hábito de ler.
          O relato de hoje, data de mil novecentos e noventa e seis. Praticamente um ano antes da morte do meu pai (apenas um detalhe). Mas é que depois de uma busca minuciosa de um papel importante em minha vida, que tem inclusive a data do ocorrido, eu finalmente pude escrever sobre. Este papel está comigo há dezenove anos. Quase a minha idade quando ele foi escrito. Guardo comigo tudo o que é realmente importante, mas não sou esses coletores que aparecem nos programas da Fox, TLC entre outros da TV paga. Esse papel realmente tem uma significação. Valeu a pena eu ter guardado entre as minhas coisas. É importantíssimo, ou melhor, foi importantíssimo, principalmente no que tange a formação da minha vida amorosa. A minha vida amorosa não foi um abalo do início ao fim. Mas ela tem, devo me orgulhar, qualidade. Toda mulher que passou pela minha vida teve uma participação e significado ímpar. Cada qual a seu modo, inclusive a minha mãe (Freud ficaria orgulhoso disso, ter falado sobre a mãe)que me amou e me ama do seu jeito, da sua forma e pela qual eu não vou e nem pretendo mudar.
           Eu falo e muitas das pessoas não acreditam quando digo que não sou bonito. Pra ser sincero, eu mesmo não me pegaria se fosse uma mulher e que estivesse em sã consciência. Muitas pessoas dizem que eu deveria me valorizar mais, então acho que minha terapeuta (a qual ainda não fui,vou semana que vem, juro) terá um pouco de trabalho. Apesar de não ser mais o adolescente desengonçado (todo adolescente é) que fui, ainda era o cara feio e tímido. Essas características não sumiram com o tempo, e permanecem comigo até hoje. Logo, paquerar, era um suplício para mim que tinha (e tenho!) vergonha até de pedir informação a uma mulher sem me sentir idiota. As mais compreensíveis tiveram a paciência (e que paciência) de que eu tomasse a iniciativa, e as mais apressadinhas tomaram elas mesmas a iniciativa. Gostava mais do grupo das apressadinhas porque aí eu ficava desobrigado de ter de falar os galanteios necessários às suas belezas e a minha vontade imensurável de ficar junto ao lado delas. Era um cara também religioso (tá, eu ia uma vez a igreja, bater uma papo mais fraterno com Deus, antes de descobrir que não precisava de ir a uma para fazer isso de uma maneira mais íntima possível) e todo sábado eu ia ao encontro de jovens da Igreja do Evangelho Quadrangular. Sim, eu era crente, depois virei católico e hoje não sou nada, só cristão e está de bom tamanho para mim.
        Meus amigos costumavam me pegar e íamos dar umas voltas, paquerar (eles conseguiam, eu não), comer um lanche, ir em algum show, ficar na porta dos barzinhos (era moda na época, não tínhamos dinheiro então ficávamos na porta dos barzinhos fazendo pose). Alguns gostavam de ir em alguns botecos. Mas alguns botecos na minha cidade mais pareciam pés-sujos do que botecos propriamente ditos. Então não rolava de jeito nenhum ir. Passávamos pelos pontos de prostituição só para ver a qualidade das moças (era só para ver, era de graça) e depois comparar qual delas estava em melhor forma. Eu tinha um grupo de cinco amigos que toda semana fazia esse papel de idiota. Mas naquele vinte e quatro de agosto, um sábado à noite, nenhum dos meus amigos foi me buscar. Nós não tínhamos celular. Nem pager. Era caro e, eu apesar de trabalhar nas Lojas Americanas, meu salário mensal era de cento e cinquenta e sete reais. O resto de nós não trabalhava, ou então faziam bicos como o Anderson e o Lauro que se viravam bem em informática. Bom, se não havia ninguém, o meu jeito foi ir sozinho mesmo. Ia fazer a mesma caminhada. Pelas ruas principais, como sempre, e voltar sozinho, como sempre.
Passei pela rua do museu, pela faculdade de direito, entrei na avenida principal e pensei em ir em algum dos Shoppings Centers, mas infelizmente já estavam fechados. Em um deles, apenas a pista de boliche estava aberta, mas e a grana? Não rolava mesmo. Então continuei andando pela avenida principal até que ao chegar na praça central da minha cidade fiquei sem saída. Seguir adiante, sentar na praça olhar o nada, ou continuar andando sem destino, sobrando para mim avaliar novamente as mesmas prostitutas com os mesmos rostos, os mesmos preços e enfim ir na lanchonete, com os poucos trocados que tinha, comer um cachorro quente e depois ir para casa arrumar minha cama e dormir.     
            Aos vinte anos hoje, vejo muita gente nas boates, bebendo, nas raves, casas de show sertanejo universitário, bailes funk, samba, pagode, no bar do rock'n roll. Pensei em ficar sozinho na porta de algum bar. Na falta de alternativa então, eu resolvi descer uma das ruas que ia em direção as prostitutas. Na falta do que fazer, a alternativa era essa. Ia paquerar quem? Só se fosse um poste e talvez eu levasse um belo de um fora. Mas sabe aquelas peças que a vida prega na gente? Pois é, ao escolher a primeira rua e não a segunda, mal sabia eu que o meu destino estaria mudado. Mudado por um encontro tão inusitado que eu penso que muitos e muitas que vão ler não vão acreditar no que aconteceu.
            Ao descer a rua, estava perto do meu local de trabalho na época, como havia contado antes, nas Lojas Americanas. Enquanto eu descia, uma moça subia. Não estava vestida como quem vai a uma festa ou algo assim. Ela estava de tênis brancos, calça jeans e uma jaqueta, dessas tipo militar, com um capuz na cabeça. Já falei dezenas de vezes por aqui que o que me importa não é de uma maneira contumaz, a beleza exterior, mas sim a beleza interior, de ser simples, sem ser simplista. A primeira coisa que me chamou a atenção foram os lábios muito vermelhos (não parecia em momento algum que ela usava batom, mas que ela já tinha aquela cor natural nos seus lábios, era um vermelho como sangue e que me chamara demais a atenção) em contraste com a pele alva e algumas mechas de cabelos loiros que teimavam em sair pelos lados do capuz. Bom, era noite, estava um frio de rachar, dois corpos solitários (aparentemente) e coube a mim, como cavalheiro ter o privilégio da paquera. Assim que ela passara a meu lado, coube a mim dizer “oi”, ao qual fui ignorado solenemente. Mas como assim, oi? Pedreiros em qualquer esquina brasileira tem a capacidade de uma cantada melhor do que a minha em qualquer hora ou ocasião do dia. Coube a mim então, dizer um solene “puta que me pariu!” abrir os braços e me sentar em frente a porta principal das Lojas Americanas e rir de mim mesmo da situação patética que me coloquei.
                As coisas poderiam piorar? Claro que sim, poderiam. Logo, assim que me sentei e fiquei olhando a placa escrito “LOJAS AMERICANAS” e que segunda feira seria mais um dia de trabalho duro, eu olho para a direita e me deparo que a moça a uns cinquenta metros de mim, parara. Ela parou, abaixara mais um pouco a cabeça e voltou! Eu acabei entrando em pânico, mas resolvi não fugir. Perdido por um, perdido por mil, então o máximo que iria acontecer era eu levar um baita esporro da moça. Mas como a rua estava deserta, resolvi ficar, esperar e enfrentar a situação. Afinal, que mais aconteceria do que um esporro? Ela me xingaria e tudo ficaria ali entre nós dois. Ninguém nos viria ou ouviria. Tecnicamente, apesar de fazer o que fosse, eu sairia em vantagem ampla e irrestrita. Quando ela chegou perto, eu resolvi encará-la, rosto a rosto, afinal se eu fosse perder que perdesse dignamente. Ela olhou para mim e disse: Levante-se! Eu apenas pude dizer: O quê (como assim, me preparei para enfrentar um touro bravo e fui recepcionado por uma ovelha)? Ela insistiu que eu me levantasse e o fiz.
              Delicadamente ela tirou o capuz e ficou a me encarar. Finalmente eu pude ver claramente seu rosto. Os cabelos eram longos e loiríssimos. Dourados como o ouro pode ser. Os olhos azuis como o céu. A pele, branca, bem branca. Os lábios, vermelhos como sangue. Apesar de não ter prestado a devida atenção, até porque o meu galanteio (quer dizer, o meu fracasso total e irrestrito) nós estávamos andando em direções opostas e ela estava de cabeça baixa. Mesmo assim, agora devidamente parados e olhando um para o outro, eu era mais alto do que ela. Ela me perguntou se eu ia ficar sentado ali. Eu falei que não tinha para onde ir, e então fui convidado por ela para dar uma volta. Eu perguntei onde e ela falou que era o mesmo destino que eu ia. Eu sorri e disse que não tinha destino algum. Então ela disse para gente ir sem destino mesmo. Eu ri de novo e resolvi segui-la, saímos de frente às Lojas Americanas e fomos caminhando na direção que ela estava.
             Ela me perguntara o meu nome, ao qual rapidamente respondi. Não perguntei o nome dela de volta. Desnecessário no momento. Ela me encheu de perguntas, dentre as quais aonde eu trabalhava. Perguntou também de onde eu tirei a ideia de me paquerar daquele jeito. Nenhuma pergunta ficou sem resposta. Eu estava hipnotizado por ela. Me perdi dentro dos olhos azuis e confesso que se ela tivesse me mandado fazer um streap-tease com direito a um poledance no poste acredito que eu o faria. Algumas mulheres tem poder, muito poder, só que algumas sabem usar outras não, creio eu. Até aquele momento nós não havíamos sequer nos tocado. Apenas conversávamos olhando nos olhos. Particularmente eu gosto disso. Nenhuma mulher me conquista, nenhuma mulher consegue algo de mim se não estiver me olhando nos olhos, porque se ela faz isso eu acredito no que ela quer dizer. Não acredito em mulheres que não conseguem olhar nos olhos de seus parceiros. É algo meio falso.
             Ficamos a andar pelas ruas do centro como dois zumbis. Evitei as ruas perigosas (para nem ela nem eu ficarmos em alguma roubada, não tenho vocação para herói que salva as mocinhas indefesas) e ficamos nas partes mais iluminadas e mais povoadas de casais. Não era irritante, mas ela sabia mais de mim do que eu dela. Na verdade, até hoje, ela deve ter sabido mais de mim do que eu dela.
Mas sinceramente, estava na hora da ação. Eu deveria tomar a iniciativa de qualquer maneira. Mas onde e como? Enquanto ela falava e falava e às vezes eu fingia prestar a atenção devida, eu simplesmente ficava pensando em alguma forma de trazê-la para mim. A única coisa a favor naquele momento é que de alguma forma (bendito puta que pariu) eu pude trazê-la até mim, só que faltava o passo seguinte que era justamente o de poder ficar o mais próximo possível dela. Sugeri então que fôssemos dar uma volta no parque (não, não era o do Ibirapuera e não, eu não sou o maníaco do parque até porque moro bem longe da capital paulistana) e ela aceitou. O parque da minha cidade era uma espécie de point que a turma ia (inclusive a turma da terceira idade, por incrível que pareça) para paquerar, mas se você já chegava no parque a certeza era a de que você ia beijar, isso é um fato certeiro.
           Resolvi fazer uma rota alternativa e ficamos atrás do parque, na igreja de São Sebastião, onde lá tem uma banca de jornais e ao lado da banca ficava um banco. O lugar foi escolhido por mim aleatoriamente, não sabia se teria sucesso ou não, mas afinal o papo já estava se esgotando e eu já estava começando a me cansar de tanto andar como uma barata tonta. Mas pelo menos ela aceitou e resolveu se sentar na minha companhia. Ficamos um de frente para o outro e aí sim (até que enfim!) trocamos as primeiras carícias. Eu deslizei meu dedo médio pelo seu rosto e ela sorriu. Fisicamente (e teoricamente, ela parecia um anjo) eu disse que ela parecia um anjo. Ela sorriu e olhou para o céu dizendo que anjos vivem no céu. Quando eu olhei para o céu o meu pescoço todo estalara e ela riu observando que eu não era muito de olhar para o céu. Realmente, não era e não sou mesmo. Ela disse que sempre admirava
e que se perdia na beleza das estrelas. Nesse momento sei lá o que eu disse (pô, são dezenove anos, não dezenove dias, não dar para lembrar assim tão detalhadamente) e consegui finalmente beijar sua boca vermelha. Ela usava batom, mas desses fraquinhos, pois seu rosto nem ficou vermelho. Mas a boca continuava lá. Vermelha. Parecia que apenas os lábios dela estavam irrigados com sangue.
               À medida que nos beijávamos ardorosamente e calorosamente, nossos braços se entrelaçavam numa entrega louca. Ela não sentara totalmente no meu colo, mas as suas pernas (grossas, torneadas) ficaram em cima das minhas, onde eu pude tocá-las assim como no seu cabelo loiro. Seus cabelos eram lisos até a altura dos olhos, a partir daí, pude notar que ao longo da sua blusa (agora já sem capuz) eles iam cacheando-se como um movimento de ondas douradas. Anjo (esqueça nomes) foi o que lhe disse o resto da noite. Nossas bocas envolvidas uma a uma numa troca frenética e intensa deixava tudo ao redor paralisado. Nada mais importava para nossas vidas, aquele momento era único e nós mal sabíamos disso. O futuro, não pairava sobre nossas cabeças. Estávamos vivendo o momento e aquele momento era único e inimaginável, éramos duas pessoas se completando em uma em cima daquele banco.
              Num movimento, sem querer, ao beijar o seu pescoço nos olhamos novamente. Apesar da luz fraca do poste (era melhor ficarmos num lugar para sermos vistos, não por exibicionismo, mas por segurança mesmo) um faixo de luz penetrou pelo grosso casaco militar e por baixo revelara uma blusa branca e que, minha anjinha não era adepta ao uso de sutiã. Pude ver sua pela alva, seus seios rígidos, e a auréola rosada dele. Apesar de não falar nada, ela entendeu toda a situação, e deslizou o fecho-ecler para baixo da sua blusa e da minha. Assim, eu pude continuar a beijá-la e agora tocar-lhe os seios, deslizar minhas mãos pelo seu tronco de pele lisa e macia. Não sou adivinho, mas assim como eu, muito provavelmente ela estava excitada. Ela gemia baixinho enquanto eu a acariciava e ela fazia o mesmo.
                Conversamos mais um pouco, falamos da vida. De como tinha sido uma coisa tão diferente. E, realmente ela concordou. Disse que se soubesse que seria tão bom, ela teria cedido no primeiro “oi”. A ironia da vida tinha resolvido juntar dois corações solitários, que vagavam pela noite a procura de sabe-se lá o quê. Não me lembro detalhadamente o que veio a ocorrer, mas ficamos naquele banco por um bom tempo, entre carícias ardentes e pausas para contemplar os astros. E eu nunca tinha perguntado seu nome. Era muito superficial. Conversamos sobre trabalho, anseios futuros. O irônico disso tudo que não falamos sobre namoro. Mas eu queria. Caramba, como eu queria que ela tocasse nesse assunto. A única coisa que soube é que ela também estava só. Ela não era nem casada. Vi pelos sinais. Que sinais? Ora, o primeiro que ela não usava aliança. O segundo é que chegou uma hora que ela tinha de voltar para casa. E ela me levou até onde ela pegaria o ônibus. Eu não precisava, ia voltar a pé mesmo. Ela me mostrou os lugares onde trabalhou (por incrível que pareça, ela tinha trabalhado próximo a mim) e no ponto de ônibus ficamos abraçados. E sim, pessoas conhecidas, passaram por ela e a cumprimentaram. Ninguém que é casado, daria uma bandeira dessas (sei disso porque já passei por uma situação em que contarei depois) de forma que conhecidos e conhecidas passassem por ela e a cumprimentassem. Me lembro que a noite estava um pouco fria, então ficamos no ponto abraçados um ao outro até que o ônibus dela chegasse. Quando o ônibus chegou, ela me beijou, subiu e eu fiquei parado, olhando ela se sentar, e quando o mesmo arrancou e me pus a caminhar.
                  A caminhada foi um misto de emoções. Na verdade não queria que aquela noite acabasse de jeito algum. Era um pecado mortal. Mas ainda assim, a caminhada para casa foi nas nuvens. Me pegava em alguns momentos rindo sozinho e em alguns momentos eu me pegava olhando as estrelas como ela fez. Não era uma pessoa de ficar olhando para o céu. Admirar estrelas. Pura bobagem. Naquele dia não mais. Não estava ligando para o frio, não estava ligando para nada na verdade. Cheguei em casa nas nuvens. Um sábado que prometia ser um lixo, se tornou uma das noites mais memoráveis da minha vida. Ao chegar em casa, tomei um banho, fui para o meu quarto e não queria dormir. Queria pensar naquele anjo de cabelos loiros que me acolhera quando eu estava imerso em solidão. O travesseiro, deu lugar ao seu perfume. O colchão e as cobertas me lembravam de quando estávamos abraçados naquele banquinho em frente a Igreja de São Sebastião. O quanto não vimos o tempo passar, o quanto nós nos apegávamos a sensações, sorrisos, beijos e abraços.
               Quando acordei achei que estava sonhando. Minha mãe fez, no café da manhã, piada de como naquele domingo eu estava meio abobalhado(sim, eu me lembro). Ela me deu um sorriso malandro de que sabia de alguma coisa, mas era melhor não perguntar os detalhes. Esperei meu melhor amigo sair de casa a tarde para que eu pudesse contar o que havia me acontecido. Ele era mais velho e mais experiente. Deve ter me achado um bocó lhe contando as desventuras apaixonadas da madrugada. Mas alguém tinha de saber. E no fim, aquele domingo bucólico passou bem, bem devagar, como se não quisesse terminar. Mas eu sabia que no dia seguinte tudo ia ser como antes para minha tristeza. Eu sabia que novamente eu iria voltar para as Lojas Americanas, que ao final do dia eu voltaria para casa e assim sucessivamente. Ou seja, a mesmice da minha vida voltaria. Nada de novo aconteceria, previa eu.
                E o domingo, o último daquele Agosto de mil novecentos e noventa e seis, passou bucólico, devagar. Eu só tinha de esperar a segunda-feira e novamente encarar o trabalho como operador comercial (no caso eu era balanceiro) das Lojas Americanas. No mais não tive nenhuma novidade até porque eu não saí à noite. Preferi ir dormir cedo para novamente sonhar com aqueles momentos mágicos. Me entreguei a escuridão para poder rever em minha mente, todos os detalhes da noite anterior. Como naquele domingo, e até hoje, é engraçado quando paro para pensar que um baita palavrão me fez trazer até mim uma mulher maravilhosa, a qual não esqueci até hoje e que marcou minha vida. No mais, fiquei pensando naqueles momentos até novamente adormecer e encarar a segunda-feira iminente.
               Num piscar de olhos, o tempo passou muito rápido. Os raios de sol invadiram meu quarto naquela manhã de segunda. Mais um dia, como tinha feito assim, durante dois anos. Tomei meu café rapidamente, despedi como sempre da minha mãe e quando abri o portão de casa, vi ao longe o meu pai voltando de sua caminhada matinal que ia de casa até a pracinha para conversar com seus amigos. Ele vinha em passos lentos, até porque depois do seu avc, ele não foi mais como antes, mas a caminhada lenta, mostrava pelo menos que ele ainda estava estava lutando o que era digno de me dar um belo sorriso no rosto.
             Como sempre faço, ao chegar a loja, vou para o vestiário, troco minhas roupas e fico esperando o horário para poder “bater ponto”. Como não tenho muitos amigos no mesmo horário que eu, e como chegamos todos um pouco afobados com medo de chegar atrasado, não há tempo hábil para podermos conversar sobre o que nos aconteceu no final de semana. Comecei, após registrar a minha entrada, indo direto para minha seção. A dos chocolates, balas, doces e guloseimas. Comecei como sempre, arrumando as mercadorias desarrumadas no sábado. Foi aí que uma das funcionárias me chamou. Dei a volta ao redor do balcão, quando vi quem me chamava eu congelei. Era o anjo, meu anjo. Ela estava vestida de calça jeans clara, um jaleco cinza. Ela fez um afago no meu rosto, nós trocamos olhares (Deus, como eu queria beijar e abraçar aquela mulher!)e ela me deu um papel dobrado e pediu para que eu lesse depois. Ela se virou e se foi, e eu ali, paralisado sequer podia sair da loja para segui-la e pedir que não fosse embora. Não aguentei, abri o bilhete e estava escrito:

Risos inocentes soltamos ontem à noite
E depois, de um caloroso beijo, ficamos contemplando as estrelas
Sorríamos alegremente, no suar de um orvalho límpido
De uma noite especial
Nunca se esqueça de sorrir,
Seu sorriso é sua maior virtude.

Ass: Anjo(assim como você disse)"

             Li e reli aquele bilhete dezenas de vezes. Novamente, parecia que todos estavam paralisados ao meu redor. Na hora do meu almoço, bem de levinho, quase imperceptível, havia uma outra assinatura. Era o seu nome verdadeiro. Simone. Já basta para quem está lendo saber. Meu anjo chamava Simone. Foi a última vez que a vi. Foi a última vez que vi aqueles lindos cabelos loiros, os olhos azuis e aquela boca vermelha, foi embora da minha vida para sempre. Não sei para onde ela foi. Não sei que rumo ela tomou.
            Os anos se passaram e a Simone sempre ficou na minha cabeça. Simone foi uma mulher que me deixou um monte de questões. A primeira foi a de querer saber o que a fez voltar. A segunda , ela também não parecia feliz. Se estava triste, era por alguma razão que jamais saberei. Seu destino também foi desconhecido, pois eu até hoje me pergunto quando pego o bilhete, por onde ela anda. E sim, procurei por todas as redes sociais existentes. E: nada. Ela se foi. Durante um bom período, sem que ela soubesse ela foi a dona do meu coração. Nunca mais a tive nos braços, nunca mais beijei sua boca, senti seu cheiro e pude sentir sua pele alva e lisa. Aquela noite e o bilhete não sairão da minha cabeça. Esse é um fato da minha vida que quis compartilhar com vocês, de que há pessoas que entram e saem de nossas vidas mas que deixam marcas inesquecíveis. E, para sempre.

Um comentário:

Lápis-Lazúli disse...

Admiro tua maneira de escrever um texto como poesia...uma história tão linda...
Amei...
Vou torcer que um dia apareça caçadores de talentos para ler tanta descrição
e de tão fino trato...rico de detalhes...e de leitura agradável fazendo com que só desviasse meus olhos e sentidos para o próximo parágrafo...
Parabéns...
Beijos...