E a violência travestida faz seu trottoir...(Humberto Gessinger)
Foi de repente. As pessoas ao redor não tiveram muito tempo para se abrigar. O som foi abafado, porém muito forte. Depois do impacto, pedaços do crânio, sangue e massa encefálica voaram longe. Todos ficaram perplexos como aquele homem pudera ter feito aquilo. Aliás só se chegou ao consenso de que era um homem pela sua vestimenta. O rosto desfigurou-se, transformando-se numa pasta disforme de ossos, carne e sangue. Os braços estavam esticados, e as pernas juntas parecendo mais como uma tentativa frustrada de voar. Era literalmente um Ícaro para lá de frustrado, sofrível, digno de ter pena.
Passado o susto da queda, os populares se aglomeraram ao redor do corpo, numa tentativa mórbida de saber quem é, ou melhor quem era. Que diferença fazia para aquele povo todo? Que falta do que fazer! Primeiro correram para não serem atingidos pelos respingos de sangue do defunto, agora se aglomeram junto a ele. Afinal para que? Ninguém é parente deste cidadão, muito menos partilham da mesma dor que ele sentia antes de se jogar do edifício. Era um cidadão alto, não sei tinha barba pois o rosto ficou em mil pedaços, mas os cabelos eram bem compridos. Afinal só deu para ver os cabelos mesmo, já que o rosto caiu em cima do concreto que suporta essas lixeiras da rua. A roupa era bem surrada. Um jeans velho, botas velhas e uma jaqueta de couro que usava-se muito antigamente para cobrir sofás que dava-se o nome de “courinho” preta. Policiais que estavam por perto logo chegam e conseguem em uma loja de variedades um lençol para cobrir o corpo daquele pobre homem. Mas o mal feito já estava lá, afinal aquele homem alto já havia morrido, e ao passo que os policiais chegavam o síndico do prédio também chegara coitado, esbaforido sem saber quem ao certo tinha pulado da janela.
Os fotógrafos de plantão com seus celulares tiraram fotos o quanto podiam e correram para a lan house que fica ao lado da Ótica Águia afim de serem os primeiros a postarem as fotos do coitado suicida. Um policial de bigode claro, expressão fechada, tentava afastar os curiosos – os mesmos que correram do impacto suicida – de perto do corpo, enquanto um outro policial, branco, cara de poucos amigos, resolvera aos poucos ir verificando o estado do morto, se portava documentos, apalpando-lhe em todas as partes para que pudesse ter uma noção de quem era.
A primeira coisa que achou foi a foto de uma apresentadora infantil.Logo pude reconhecer, pois era uma foto de corpo inteiro e a reconheci por uma pinta. Era uma foto velha de uma revista. Mostrou ao policial bigodudo que fez cara de desdén. Colocou a mão novamente no bolso esquerdo da calça jeans e parece ter encontrado uma carta. Abriu, leu e fez a conexão rapidamente mostrando a foto e o que me pareceu ser uma carta, talvez quem sabe, de amor, agradecimento, sei lá. Quem sabe esse moribundo não conheçeu ela ao vivo e se decepcionou? Parecia que ele tinha feito uma carta para a apresentadora e talvez ela a tenha recusado.
O policial branco continuava sua busca pelo corpo do moribundo, que tinha se esfacelado no chão. Enquanto isso, um cara com roupa de pastor murmurava “Isso é coisa do maléfico! É falta de ir na igreja” enquanto o velhinho voltando da caminhada dizia para a dondoca ávida de sangue “droga é uma merda, acaba com a vida do sujeito”. Nisso o policial branco, achou mais uma coisa no bolso da jaqueta do sujeito. Um livro. Chamava-se O Céu e o Inferno. Não vi quem era o autor. Não me lembro de ter lido. O barulho da sirene e uma viatura da policia civil chega. Mais um carro grande, o popular rabecão. Iam finalmente retirar o morto dali e eu posso voltar a ficar tranquilo na minha portaria trabalhando. Ao passo que estou voltando esbarro em uma coisa. Olho de volta ao chão. Um álbum. Parece ser do morto. Ninguém viu, então rapidamente eu pego e entro para a portaria. Juvenal, meu colega de portaria que não quis ver o morto, pergunta o que é. Digo apenas que é um álbum de um amigo e digo que vou dar um tempo no quartinho, que não estou bem, porque vi o suicídio e peço para avisar a síndica que vou descansar um pouco pois estou com dor de cabeça (mentira).
Começo a folhear o álbum e vejo muitos rostos de gente famosa. Escritores, deputados, ministros que eu conhecia somente pelos jornais que lia no meu intervalo na portaria, rostos de gente muito famosa. Mas no fim eu não conhecia quem era afinal o rapaz nas fotos. Isso me intrigava ao extremo , já que eu o vi, praticamente cair na minha frente, deixando para trás tanta, tanta coisa que eu mesmo não consigo imaginar. E eu folheava impiedosamente aqueles papeis de forma a tentar descobrir porque ele tinha se jogado. Duvido muito que tenha sido por causa da carta, mas acredito que talvez tenha sido por outro motivo. A investigação paralela também não poderia avançar tanto, já que eu estava de posse do álbum eu não poderia devolvê-lo ao dono e muito menos a polícia já que eu temi por estar escondendo provas. As fotos impregnadas daquele álbum chegavam ao fim quando de repente eu encontro ao final de seu álbum uma foto com o suicida, a apresentadora de televisão e uma outra atriz, grávida. Anexo a foto estava um envelope de um laboratório. Não resisti e abri o tal envelope. Nele na verdade parecia um exame. A foto do suicida, e seu nome: Márcio Guimarães. A atriz e um bebê. Era um exame de DNA.
Acostumado a ver na minha pequena tevê, as brigas pela paternidade, eu logo fui para a última página. Nela, estava escrito que na verdade a paternidade era de Márcio Guimarães. Então eu me lembrei da atriz. Era a resposta. Na verdade ele era o pai biológico, entretanto, quem era o pai “verdadeiro”? Me lembrei de uma revista que há alguns dias estava esquecida na portaria. Guardei o álbum, e retornei à portaria e peguei a revista. Era uma revista de fofocas, chamada “Acontece na TV”. Folheei a página até achar a foto da atriz. A manchete dizia seu nome: “Ludmila exibe seu primeiro filho ao lado do seu marido, o empresário Caio César.” Na reportagem dizia sobre a extrema feliciade de ambos com a chegada de Vinícius e como tudo aconteceu desde o primeiro ultrasson até o parto. Na reportagem com várias fotos, a reportagem fazia questão de salientar a incrível semelhança física entre pai e filho. Olhando atentamente a reportagem, apesar do olhar bravio do meu colega que acabara por me render mais cedo na portaria, eu acabara por ler no canto inferior direito, quase ilegível: “Foto: Márcio Guimarães”. Juvenal, pousou a mão em meu ombro e perguntou: E aí companheiro, tudo bem? Você depois que pegou essa revista aí ficou branco como uma vela. Eu respondi que estava tudo bem, mas que não queria falar mais. Por último, Juvenal me perguntara: e o álbum do seu amigo, gostou? Secamente eu respondi. “Não, achei um pouco triste”.
Homenagem a um grande cara que fez e faz uma grande música, Humberto Gessinger...
2 comentários:
eu compraria uma editora so para publicar seu contos!
maravilhosos!amo!!
Vc é tudo!! Amei os contos, você merece conquistar o mundo!!!
Postar um comentário