A
indígena de Manhatan
Mina Makawee era uma descendente de
índios Sioux. Mas, desde pequena vivera na ilha de Manhatan. Seu pai e sua mãe
resolveram deixar a aldeia onde viviam pensando em um futuro melhor para sua
filha, que eles não almejavam viver
trancafiada na tribo, vendendo artesanato para brancos imbecis que compravam
parte de sua arte e cultura por pena e ignorância ao mesmo tempo. Mesmo assim,
Mina recebeu quando nasceu na tribo o sopro da vida de Takuskanskan e saíram da tribo antes que Mina
menstruasse de forma a que assim evitariam de que ela tivesse mais compromissos
para com a tribo, já que os pais de Mina pediram ao Chefe Homem de Bem para que
pudessem partir com as bênçãos e a anuência do xamã Búfalo Que Dorme. Homem de Bem
até que aceitara os argumentos do seu guerreiro, mas entretanto Búfalo Que
Dorme, o Page, era contrario a saída do casal e apenas disse que a decisão
seria do cacique, mas que como alerta disse que eles não deveriam se meter em
assuntos de brancos, em terra de brancos ou no trabalho dos brancos. Deu de
ombros e deixou o casal na tenda junto com o chefe, ignorando-os completamente.
Desde então, vivendo em diversos bairros na cidade de Nova York ela constantemente
mudava de endereço, pois seus pais tinham de trabalhar perto de seus
respectivos empregos, que nem sempre faziam Mina se orgulhar deles. A família
Makawee era sempre vista aonde quer que ia como um bando de esquisitos. Índios
que na verdade deveriam ficar em sua tribo. Como se não bastasse,sua mãe,
Chlumani Chapawee ficou doente e precisou ser internada em um hospital perto do
Brooklin onde seu pai Eyota Hantaywee fixou trabalho em uma lanchonete e onde
alugaram um quarto e sala para poderem ver todos os dias Chlumani. Mina acabou
sendo transferida mais uma vez e sua origem mais uma vez era motivo de
brincadeiras de risos e de piadas de alguns colegas. Mas nada que ela não
superasse, não fosse a piora no estado de saúde de sua mãe. Sua mãe por exemplo
não pode, infelizmente, presenciar o momento que Mina menstruou pela primeira
vez. Eyota dissera a ela que se estivessem na tribo, todas as mulheres
entrariam na tenda da Lua para ficarem juntas durante o período menstrual.
Chlumani não durou muito tempo, e com o
passar do tempo, seu corpo fora definhando, até que cinqüenta dias após muito
sofrimento ela sofrera uma parada cardiorespiratória e veio a falecer apesar
de todos os esforços médicos que fizeram o que podiam. Este foi o primeiro
choque na vida de Mina. Mas, não seria pior se este episódio não ocorresse
justamente na noite de Natal. É, desta vez, Santa Claus não trouxe presente
algum, e mesmo que ela acreditasse nele, naquele instante teve mais raiva
daquele velhinho de barba branca e bonachão do que fosse ela a própria
encarnação do Grinch!
A vida continuou após Chlumani ter sido
enterrada em Nova York num cemitério próximo. Não, a tribo não autorizou que
Chlumani fosse enterrada em seu solo sagrado por ordens do xamã, que na época
da partida de seus pais não se conformou com o abandono do casal da reserva. Mina
se revoltou com a atitude do xamã de sua tribo e prometeu a seu pai nunca mais
voltar lá, o que causara grande decepção a Eyota que deixara a tribo
amigavelmente, acabara por ver que sua filha estava completamente revoltada com
a situação vivida por eles. Na escola as coisas também não andaram fáceis para
Mina. Como descendente de índios seus costumes eram vistos como motivo de
zombaria por grande parte dos alunos da escola. Mina era um pária dentro da
sociedade americana e resolveu por si mesma trocar essa situação. Tanto que no
baile de formatura do segundo grau, seu par, que havia se oferecido
voluntariamente, no fim, mostrou-se um grandessíssimo imbecil, quando apareceu
no baile vestido de índio, deixando Mina nervosa o suficiente para lhe dar um
tapa no rosto e voltar para casa deixando para trás toda tentativa de escárnio.
No final do segundo grau, ela resolvera cursar em Manhattan o curso de
Administração na SNUC com o dinheiro que seu pai conseguir arrecadar ao longo
dos anos.
Mina, não preciso nem dizer, mas deixo a
título de menção, passou pelos mesmos problemas que tiveram no final do ensino
fundamental e no segundo grau. Mas lá ela mostrou-se muito diferente. Não
mostrou ser aquela indiazinha indefesa e coitadinha que todos pintavam ser. Pelo
contrário, mostrou-se forte e determinada, aguerrida e inteligente o suficiente
para ser um dos destaques de sua turma. E, os destaques independente de sua
origem sempre são os escolhidos. Foi o que aconteceu com Mina ao final do
curso, quando recebera um convite para trabalhar na RCL Group que trabalhava no
mercado financeiro em Wall Street. Era o sonho de muitos universitários
trabalhar naquela empresa. E Mina começara bem, fazendo apostas altas, ganhando
muito dinheiro, para si e seu pai, assim como para a empresa. Entretanto, nem
tudo foi bem nem para Mina, nem para seu pai, pois passados muitos anos após a
morte de Chlumani agora foi a vez de seu velho pai, Eyota partir. Um câncer
começou imperceptível em seu intestino e quando localizado foi fatal. Mina
desta vez, tinha dinheiro, prestígio e poder, mas não tinha como salvar a vida
do seu velho pai. Desta vez, Mina nem sequer tentou contatar sua tribo pois
Búfalo Que Dorme ainda vivia e mesmo muito idoso provavelmente reprovaria a ida
do corpo de seu pai para a tribo.
Ela no entanto tinha o seu lado
vingativo. Sally era sua melhor amiga e também diretora do departamento de
recursos humanos. E, foi aí que Mina cometeu seu maior e talvez mais crucial
erro. Pediu que Sally vetasse toda e qualquer contratação de descendentes de
indígenas na empresa. E assim foi feito. O que não demorou muito foi Sally ter
guardado essa recomendação nos computadores que foram invadidos por hackers que
rapidamente difundiram os conteúdos das conversas via e-mail para a imprensa
que adorou seu novo brinquedinho. Fox, CNN, ABC e o que puderem pensar em
empresas de comunicação tiveram o prazer de mostrar a dualidade de uma garota
descendente de índios justamente por ser minoria, discriminar a minoria.
Resultado: A empresa não queria ser manchete a toda hora. Então a demissão foi
a maneira mais rápida e certeira que os chefes tiveram. Em uma reunião que
durou menos de três horas o comunicado já estava sendo lido na imprensa. A
carreira de Mina estava acabada, pois por mais competente que fosse, essa
mancha não iria sair de sua vida. Mina então se refugiou dentro de seu
apartamento na W22ndST (22ª Oeste, Sul
da Ilha de Manhattan), apartamento 16. Durante todo praticamente todo o mês de
dezembro ela fora bombardeada com flash de câmeras indiscretas como se fosse uma celebridade de
Hollywood ou do show business e também querendo declarações suas de qualquer
maneira. Mas para sorte de Mina, uma grande nevasca atingiu Nova York fazendo com
que repórteres, fotógrafos, blogueiros e tudo o que puder pensar mudassem de
alvo. Sobrou para Mina somente agora o sossego, a calma e a solidão do seu
apartamento. Enfim, o vazio. O vazio de quem ficou desempregada e estava agora
presa dentro do seu apartamento devido a nevasca, aumentando assim a sua pena
em sua solitária improvisada. Não tinha mais amigos a quem ligar. Não tinha
mais conhecidos a quem recorrer, já que neste momento todos resolveram lhe dar
as costas e fingir que ela não existia.
Mina então, dentro da solidão do seu
apartamento, da sua angústia de ter de ficar enclausurada pensava as mais
diversas idiotices. De como foi burra ao resolver retirar das contratações
qualquer descendente de índio e o que é pior, não se preocupou em fazer isso
fora do meio eletrônico para que pudesse assim ficar longe de hackers. Sim, sem
um telefone fixo ou celular tocando, sem um e-mail, twitter, scrap ou mensagem
em seu facebook, Mina se sentia cada vez mais só. Nesse seu lampejo de solidão
Mina levantou de seu sofá na sua grande sala e foi caminhando pelo tapete macio
e bege indo em direção a cozinha. Resolveu então, já que não poderia sair de
casa, devido a grande quantidade de neve- um pouco mais de meio metro - a sua
porta que a fazia prisioneira, resolvera então cozinhar. Pelo menos ela teria
uma ceia de Natal somente para si, sem que fosse importunada por ninguém.
Quando foi pegar uma frigideira no armário branco que ficava entre a parede
lateral e o fogão – também branco, assim como todos os móveis da cozinha – um
pequeno frasco também branco, caiu no chão. Mina resolveu pegar o frasco e leu
atenciosamente o rótulo: Chumbinho Mickey
Mouse. Na embalagem mostrava um Mickey Mouse morto, caído ao chão. Mina
lembrou-se de que este frasco foi um presente de Stella, uma amiga brasileira
da companhia. Deixou a frigideira no fogão e retornou às sala onde pegou seu
laptop e digitou no Google o significado da palavra “chumbinho” e para que
servia mesmo, já que não se lembrava mais do que era aquilo. Leu que na verdade
o “chumbinho” é um poderoso raticida, pequeno, em forma de bolinhas pretas que
é dissolvido em alimentos para matar imediatamente roedores. Associado a isso,
ela lera uma notícia sobre uma atriz brasileira que suicidara comendo o
famigerado “chumbinho” com apenas algumas porções.
Da sala, grande espaçosa com um sofá
imenso, cor café, seu tapete grande e
grosso bege, a TV de LCD na parede perto de uma estante cheia de DVDs, CDs e
outra estante onde seu pai, guardava lembranças do tempo de que fazia parte da
tribo Sioux e das suas origens que ele valorizava tanto. De lá ela saiu em
direção a seu quarto, passando pela suíte hoje vazia do seu pai, pois ela
resolvera dar para a caridade todos os pertences habituais de seus pais,
deixando apenas as lembranças mais íntimas como determinadas peças de roupas
indígenas, arcos, flechas, totens e alguns outros instrumentos. No seu quarto,
onde havia uma grande cama king-size e também com um grande tapete felpudo e
macio só que dessa vez da cor marrom ela
se sentou na cama olhando fixamente para o quarto. Olhou para a direita e pegou
no criado mudo o controle remoto da TV onde um comentarista falava da nevasca
em Nova York e de como os americanos estavam enfrentando dificuldades para
poder viajar para seus determinados Estados para que assim pudessem celebrar o
natal, enquanto em vários outros canais, ou se passava notícias ou tudo
relacionado ao tema Natal. Músicas, programas especiais de TV, filmes,
consertos de orquestras sinfônicas de Berlim até a sinfônica de Macau.
Isso acabou jogando Mina de volta ao seu
assunto principal. Largou o controle remoto, e deitou-se na cama a pensar: a
primeira coisa a fazer foi pensar no frasco que segurava. Será que valeria a
pena? – pensou ela – num lampejo de que talvez usar o chumbinho em sua comida
fosse a coisa certa a fazer. Rápido, sem dor e muito provavelmente fatal. Seus
pais não estavam mais junto a ela, que havia se tornado uma pária no mundo dos
homens e dentro de sua tribo. O mundo para ela havia acabado. Mina passou a
pensar na possibilidade de ingerir aquele “chumbinho” com toda a intensidade já
que sua vida não tem mais sentido. Ela então se levantou, foi novamente até a
cozinha e preparou um cozido e adicionou nele o ingrediente proibido, o
chumbinho. Enquanto cozinhava pensava na vida, nas possibilidades perdidas, nas
gozações dos colegas, de ser chamada de esquisita, de ser discriminada em
várias escolas e também na sua tribo. Ao fazer o cozido, todo o rancor, raiva e
ódio estavam inseridos nele e seriam utilizados para sua morte rápida.
Ao terminar o cozido, Mina levou até a
antessala, e colocou a grande travessa de prata, uma jarra com água, talheres,
um copo e um prato com o chumbinho, a qual ela resolvera colocar o pote
inteiro, para não haver dúvidas de que ela morreria mesmo. Voltou ao seu enorme
quarto, vestiu calças indígenas da tribo
Sioux, que lhe deram de presente achando que iam agradá-la, mocassins, cocar e
depois trançou seus longos cabelos negros e lisos e por fim, usou uma leve
maquiagem. Ela sentou-se à mesa e respirou profundamente. Neste momento, ela
pensou: “agora não há mais nada em minha vida, é chegada a hora de minha
partida, devo me encontrar com meus ancestrais, esta é a minha passagem, este é
o meu caminho, este é o meu dever, esta é a minha vida, este é meu guia e assim
devo cumprir o meu papel. Minha wakan[1],
como me ensinou minha mãe é o que sou agora. Devo seguir para ir em direção a
minha tumpi[2].
A morte é mágica e a energia é eterna. Encheu o prato com o cozido, já que não
sabia o quanto daquilo poderia ser suficiente para poder lhe matar.
No exato instante que Mina ia colocar a
primeira garfada na sua boca, um uivo muito alto foi ouvido. Mas como? A
nevasca estava intensa e as pessoas ilhadas em suas casas. Olhou para os lados
e novamente pegou o garfo, novamente o cozido e quando ia levá-lo a boca,
novamente ouviu um uivo. Ela então levantou-se, deixou o cozido de lado, pisou
descalça sobre o piso de madeira vermelha e brilhante de sua sala de jantar,
esquecendo-se até de calçar novamente os mocassins e chegou a janela do quarto
do escritório que dava para a rua. Lá viu um cachorro, cinza e branco, com os
olhos vidrados nela. Eles trocaram olhares, o cachorro latiu mais baixo e saiu
correndo. Mina achou estranho, mas quando ia voltando a sala, seu telefone
tocou. Era o novo cacique da tribo, Águia Prateada que estava do outro lado da
linha. Mina perguntou como ele tinha conseguido o telefone dela, e ele
respondeu que há alguns dias repórteres quiseram entrevistá-lo e perguntar
sobre sua família, mas que ele não dissera nada. Perguntou a um deles sobre seu
telefone e ele dera um cartão antigo de Mina achando que o telefone não era
mais aquele –era o mesmo telefone, mas Mina somente atendia quem ela conhecia,
identificando através da bina . Águia Prateada dissera que o xamã Búfalo Que
Dorme tinha morrido naquele dia, e tinha deixado uma mensagem escrita para ela
que ele tinha de o mais depressa possível avisá-la. Mina, assustada, pediu para
o chefe ler o conteúdo, que dizia:
“Mina, somente eu sou responsável pelas
minhas atitudes, assim como você e seus finados pais também. Entretanto você
recebeu o sopro de vida de Takuskanskan e assim eu recebi o recado de que Nagi
intercedeu por você a Tatetobi,que por sua vez intercedeu para Whope que
intercedeu a Maka. Depois de grande conversa, decidiram, que você deve ficar e
eu me propus a ir. Boa sorte, Búfalo Que Dorme.” Mina, estarrecida, desligou o
telefone imediatamente, correu até a sala de jantar, despejou o cozido do prato
na panela e pegou todo o cozido e jogou pelo ralo da pia da cozinha. Mina nunca
tinha pensado nos deuses da sua tribo, mas ela pensou, desta vez eles deram-lhe
mais uma chance. Como seria sua vida agora? Não importa, o primeiro passo para
se reerguer já fora dado. E é isso realmente o que importa.
2 comentários:
maravilhoso, vc sabe que entro dentro dos seus contossenti a propria!bjs te adoro!
Que texto maravilhoso!!! Uma parte de mim tinha anseios por uma continuação, mas não vai ter, não é? kkkkkkk Lindo!! Parabéns pelo conto!!
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