E seja feita a vontade de quem lhe convém
Estar numa terra estrangeira, nem sempre é desejo de ninguém. Tampouco é quando isso se dá através da escravidão. Mas até alguns séculos atrás isso era bem possível. Esses escravos eram comprados no continente africanos e revendidos nos países americanos aos montes. No Brasil, a mão de obra escrava serviu para que os ciclos do ouro da cana-de-açúcar, do café ajudassem a alavancar a economia brasileira. Mas foi principalmente que a vida moderna brasileira começou a tomar uma forma mais ou menos organizada depois da chegada da família real no Brasil. Achava-se que as coisas melhorariam ainda mais com a nossa independência e com a então crescente produção cafeeira brasileira. A empolgação dos barões do café eram das mais variadas. O comércio de escravos aumentara com o objetivo de aumentar a produção. Chegavam aos montes desde a vinda da família real em grandes comboios de navios negreiros. Chegavam extasiados, alguns mortos nos portos de Salvador e Rio de Janeiro. Eram comercializados para todas as partes às dezenas e até as centenas, cada qual com sua função. Os negros mais fortes sempre como trabalhadores braçais com a finalidade de carregar enormes sacos de juta comprados da Índia para enchê-los de café, depois da colheita. Os mais miúdos, se é que assim podemos dizer, tinham funções para plantio, auxilio na cozinha, limpeza, estrebaria e outras funções menores onde o físico não importasse tanto. As escravas já tinham outras funções. Quando ficam velhas iam para a cozinha, as mais novas cuidavam dos filhos dos seus donos como amas secas, ou depois de grávidas como amas de leite, trabalhavam também como arrumadeiras, faxineiras e auxiliando outros negros dentro da casa grande e tomavam conta de suas donas, como se fossem damas de companhia. Neste período na fazenda São Francisco de Assis, numa noite quente do verão de 1822 duas parteiras estavam tendo trabalho. Uma na senzala, iluminada a luz de velas, Madalena ajudava a Maria Antônia a dar a luz. Por sua vez, Maria ajudava a Condessa Consuelo Ávila Padilha Brum Dias Pinto, esposa do Conde Joaquim da Costa Ramalho Lobo Romero Dias Pinto a ter o seu quarto filho ao qual deu-lhe o nome de Tiago Padilha Lobo Romero Dias Pinto. Enquanto a Condessa se esvaia em dores, lamentos e gritos, na senzala tudo foi muito rápido assim, menos a escolha do nome da menina que tão logo chorou foi acalentada pela mãe, que a segurou com todo carinho e afeto. Como eram proibidos de dar os nomes de suas respectivas tribos, deixou-se que o padre ficasse encarregado de dar-lhe um nome, assim que viesse batizar o filho do Conde. E assim foi feito. Vindo da vila mais próxima, o varão fora batizado com uma festa muito grande, com convidados da cidade grande, o prefeito, vereadores e todos os coronéis das fazendas próximas a do Conde, tal qual acontecia à época do feudalismo. Logo após a cerimônia oficial o padre foi solicitado de que batizasse a criança negra, que também nascera no mesmo dia. Como o padre tinha de obedecer às ordens da Santa Igreja Católica, dirigiu-se a senzala para fazer um culto rápido e batizar a pobre menina até a fim de evitar que ela fosse batizada com algum nome da tribo de onde veio através de, segundo o padre, daqueles rituais satânicos africanos que na sua visão não tinham em nada de santo, ou de puro. Mas ele perdoava, afinal não passava de negros analfabetos, ignorantes de pouca inteligência. E por isso então deveriam ser doutrinados pelo menos para que pudessem ter um pouco de dignidade cristã em seus corpos impuros. E assim, o fez. Como estava com pressa para voltar à festa para poder beber do melhor vinho padre Antônio foi à senzala. Lá chegando pensou em ver um ambiente infecto, promíscuo, com uma centena de bárbaros negros o aguardando para que fosse concedido o batismo da menina para que não sofressem a devida punição. Para sua surpresa, apesar de paupérrimo, as condições da senzala não pareciam ser o que pensava. Já que afinal a senzala que ali entrou só tinha uma grande porta de entrada e saída de escravos, o chão era de terra batida, e o calor ali dentro parecia insuportável para alguém que além das roupas de baixo, ainda sustentava a batina que chegava até o seu pescoço. Mas apesar de tudo isso, os escravos parecem que conseguiram certa organização dentro da senzala para que o ambiente pudesse ter o mínimo de organização. As mulheres organizaram grupos para manter limpo o local. Os homens idosos ajudavam-nas fazendo que houvesse um mínimo de organização dentro daquele ambiente para que pudesse dar aos mais jovens pelo menos a dignidade suficiente para que pudessem sobreviver como gente e não como animais confinados. Padre Antônio que chegara escoltado pelos feitores e outros empregados livres da fazenda (brancos pobres, que exerciam o poder sobre os negros miseráveis os castigos mais repugnantes de que possam imaginar).
Chegando a senzala ele pode ver que havia uma espécie de sala e ante-sala onde a última não estava à mostra, com uma porta improvisada com folhas de bananeira. Padre Antônio até pensou em entrar na ante-sala, mas desistiu da idéia sobre o que poderia encontrar por ali. Até mesmo porque os peões da fazenda ao olharem também para a ante-sala fizeram imediatamente o sinal da cruz. Seguindo em frente na sala comprida, padre Antônio começou a prestar atenção em um som que vinha a sua direita, ao qual imediatamente observara apesar da pouca luz dentro da senzala. Havia uma fileira de pelo menos uma quinzena de negros deitados sobre “camas” improvisadas de palha seca gemendo. Um lamento baixo, não para incomodar os outros habitantes daquela senzala, mas porque os ferimentos múltiplos não permitiam que gritassem alto, pois já se encontravam em um estado de torpor de tantas dores que sentiam. Uma senhora negra, de aproximadamente uns cinqüenta anos dava-lhes água e proferia algumas palavras incompreensíveis. Padre Antônio fingiu que não viu a cena e seguiu em frente. Achou melhor não dar opinião sobre o que estava vendo. Aqueles negros, apesar da pouca luz, apresentando marcas profundas de ferimentos em várias partes do corpo, e um cheio de carne podre empesteavam aquela área. Mas antes que pensasse em alguma coisa, foi rapidamente interrompido em seus pensamentos por um dos empregados que se apressou em beijar sua mão e dizer: “Sabe como é ‘né padre Antônio, esses negros não se comportam, querem fugir, outra hora estão fazendo corpo mole, olham para a sinhá, então devem ser educados, ter um corretivo, num sabe?” Padre Antônio assentiu com a cabeça e preferiu não emitir opinião sobre o que estava acontecendo. Deram mais alguns passos e finalmente chegaram a uma espécie de quarto que talvez já fosse preparado para as parturientes onde a mãe, Francisca já estava esperando o padre. Conduzido pelo padre, Maria Antonia que estava numa cama semelhante a dos escravos feridos, no tronco, lhe apresentou a criança. E sendo pega de surpresa, Maria Antonia estava seminua, apenas com uma saia, estava dando de mamar a criança. Era uma das poucas oportunidades que tinha, já que ainda estava no “resguardo”, ou seja, ainda não estava apta para trabalhar; para poder alimentar a criança, já que o como o filho do Conde precisaria rapidamente dos dotes dela como ama de leite, uma vez que sua mãe certamente não daria de mamar as crianças. Aliás, aquela matrona nunca dera de mamar a nenhum dos filhos. Era uma mulher gorda, repugnante, que não adaptada aos costumes locais teimava em tomar banho, e muitas vezes o seu odor fétido era sempre compensado com grandes quantidades de bálsamo e perfumes importados. Padre Antônio pediu para Maria Antônia se recompor, colocando a criança na cama e colocando na blusa sendo observada, ali seminua pelo bando de capatazes que a comiam pelos olhos fazendo padre Antônio dar-lhes um olhar atravessado, afinal era preciso o mínimo de respeito se não fosse pela mãe, pelo menos com ele que não podia concordar – apesar de nunca dizer – como a sodomia praticada pelos empregados e até mesmo por muitas vezes os senhores de engenho com as escravas mais belas. Padre Antônio já estava aflito para sair daquele lugar e voltar para a festa que se realizava no jardim da casa grande, mas como estava ali por ordens superiores e também pelos inúmeros favores financeiros que o Conde concedeu a sua paróquia via-se sem opção. Madalena, a negra que lhe ajudou a fazer o parto trouxe junto com outros escravos mais idosos algumas velas para poder iluminar melhor o ambiente. Padre Antônio já aflito tratou de preparar rapidamente a liturgia ajudada pelos peões da fazenda. Maria Antônia pegou a menina, escolheu a própria Madalena como Madrinha e ‘Tião como padrinho, escolhido ali, não aleatoriamente, mas porque secretamente ele era o babalorixá daquela senzala. Com a melhor iluminação, padre Antônio pode finalmente ver a menina. Para espanto do sacerdote a menina não era completamente negra, como seus pares. Ela tinha a pele mais clara. Ele então percebera porque o Conde insistira tanto para que ele batizasse a menina. Já que com os outros demoravam meses e meses até que fosse feita uma solicitação para que a criança fosse batizada. Acontecia muitas vezes até das crianças virem a morrer por falta de alimento devido e aí sim, ele receber uma solicitação do Conde para que viesse dar-lhes a extrema unção. Padre Antônio perguntou então qual seria o nome da menina, ao qual foi dito quase que em uníssono pelos presentes moradores da senzala: Ana. E assim padre Antônio batizou-a de Ana. Somente Ana. Isso porque os negros só tinham direito a um nome. No máximo dois. Entretanto, Maria Antonia escolheu somente um. Padre Antônio aproveitara para olhar entre os outros peões qual a reação deles,mas nenhum esboçara nenhuma. Na verdade abaixaram a cabeça e tentaram se entreolhar envergonhados, culpados ou até mesmo com medo de alguma coisa. Ele, com a ajuda da iluminação, antes bem fraca, pode ver melhor a escrava a qual pariu a pequena Ana. Realmente, era uma negra bonita de dentes bem cuidados, os seios fartos apesar de já estar vestindo o tomara que caia branco, de algodão grosso. Sua pele parecia bem diferente das escravas que vira pela fazenda nos últimos anos a qual tinha ido por lá. Praticamente não havia marcas, parecia muito bem cuidada e ela parecia ter uma espécie de status para com os outros escravos dentro da senzala. Isto ficara claro através da subserviência com a qual os outros escravos daquela senzala se dirigiam a ela.
Terminado o batismo, padre Antônio fora novamente conduzido para a festa de batismo de Tiago. Padre Antônio olhou para o capataz, um sujeito branco, forte, de barba grossa e um jeito rude. Resolveu quebrar o gelo, já que na ida a senzala ninguém proferiu uma palavra ao outro. “José”, respondeu ele, olhando para frente, sem completar qualquer que fosse observação, de onde vinha, idade, se tinha esposa, filhos, etc. Padre Antônio não podia compreender porque ninguém falava com ele direito. Pareciam que estavam especificamente com a função de escoltá-lo tanto na ida, quanto na volta, mas talvez com ordens severas para que não conversassem com ele. No caminho de volta, um negrinho de mais ou menos uns dez anos veio correndo na direção do comboio. O grupo parou e ele pediu para falar somente com José. Falou com ele ao pé do ouvido, parecia contar-lhe algum segredo. José olhou para os outros e parecia que ia sacar a peixeira e ia matar a todos ali. Parecia que alguém havia ordenado que todos fossem mortos, tal o olhar do capataz fitou a todos. Mandou o menino embora, e disse aos outros serviçais: “Vocês podem ir, eu vou levar seu padre para conversar com o Conde” No caminho, padre Antônio até tentou saber qual era o motivo de tão importância. José não respondeu o que era. Padre Antônio percebera também que não era o caminho do jardim da fazenda para qual deveriam se dirigir. Começara a ficar assustado, pois não era o caminho natural para a sede. Ficou parcialmente aliviado, quando pode avistar a casa grande. José não poderia fazer nada com ele, afinal ele poderia gritar, conseguindo talvez, chamar a atenção das pessoas que estavam na festa. Ao chegar mais próximo, ele avistou uma pequena mesa com toalha de renda branca, duas taças, uma garrafa. Pensou no que aquilo significava. José nada dizia. Ao chegarem mais perto, ele viu que na mesa havia vinho, taças, salgadinhos, brioches, pães. José disse apenas: “O senhor aguarde aí. Minha benção padre” recebendo um “Deus te abençoe meu filho” e logo depois se retirou. Padre Antônio não entendera nada, mas tudo começou a se esclarecer quando a Condessa Consuelo aparecera e não o Conde. Vinha caminhado com dificuldade, já que o vestido atrapalhava. Na verdade, pensou o padre, se ela fosse bem mais magra ela talvez pudesse caminhar com menos dificuldade. Tinha uma expressão tensa, um ar preocupado. Mas fazia questão de manter o nariz em pé, como se estivesse no comando da situação, coisa que não era lá uma grande mentira. Padre Antônio se voltou para ela e com um ar de espanto.
- Benção Padre Antônio.
- Deus lhe abençoe minha filha.
- Padre Antônio – começou ela a falar – tive de mentir, coisa que não faço com muita freqüência, mas acreditei que se fosse eu a chamá-lo talvez o senhor não atenderia, então usei do nome do meu marido, o conde, para poder convencê-lo.
- Não minha filha, o que é isso, eu estou sempre à disposição. Dizia o padre sem entender nada. - Então padre Antônio, serei direta e franca para com o senhor. Eu sou uma mulher bondosa, sou uma mulher muito humana. Agradeço pelo batizado de hoje para com o meu filho. Tenho certeza que Deus ouviu sua voz durante toda a missa em comemoração a chegada de mais um filho. Mas sabe padre Antônio, sei que além de mim o senhor batizou outra criança nesta fazenda não foi?
- Sim, mas...
- Padre Antônio- interrompeu novamente ela – o que achou da criança? Bonita?
- Sim, uma linda menina. - E a cor dela? - Bem, estava escuro na senzala, não pude ver direito e...
- Padre Antônio, não precisa mentir para mim. Tenho dinheiro e o dinheiro compra o silêncio das pessoas, principalmente quando nós mulheres precisamos saber de algo mais.
-Algo mais? Não estou entendendo...
-Sim, o senhor está entendendo. Perfeitamente, já que eu não sou idiota – bradou ela, com a voz mais nervosa e com cara de poucos amigos.
- Padre Antônio – continuou – o senhor é amigo da Madre Cristina da Santa Casa não é? Quero que me faça um favor. Hoje ainda, é urgente.
- Pois não, pois não – respondia já suando por debaixo da batina.
- Padre Antônio, hoje, esta criança que o senhor batizou na senzala será colocada na roda dos expostos assim que anoitecer. Peça a Madre Cristina, sem dizer que fui eu que mandei, para que envie esta criança para longe, muito longe daqui, o senhor entendeu?
-Sim, mas eu humildemente peço que ela fique mais um pouco com a mãe, já que tem pouco tempo de nascida, além do mais precisa ainda dos cuidados da mãe...
-Isso eu tenho certeza que as freiras poderão fazer isso no lugar dela. Mas isso padre Antônio será nosso segredo.
-Mas o Conde pode dar falta da criança...
-O Conde dará falta de mim. Dará falta dos seus filhos, não dos filhos de uma negra que só servirá para mãe de leite do seu filho – bradava enfurecida – e nada, nada mais entendeu? Hoje José colocará esta criança então na roda padre. Peço que esta peste negra não volte para cá. Jamais! E se o senhor se recusar a pedir este favor a Madre Cristina, o Bispo ficará sabendo de muitas coisas sobre o senhor.
-Mas eu só sou um servo de Deus...
-Mas o Bispo é amigo de nossa família, além do mais, meu marido dá muito dinheiro para esta paróquia. Estamos conversados então?
-Sim -Então pode ir, para não desconfiarem de nada, direi a quem perguntar pelo senhor que houve um motivo urgente para o senhor sair da fazenda e não pode ficar. José ficará vigiando o senhor, enquanto come e bebe. Até mais ver, benção padre Antônio.
-Deus lhe abençoe, minha filha.
E assim foi feito. Padre Antônio pediu a Madre Cristina que recebesse a criança. Nunca mais se ouviu falar dela. Nas missas seguintes, a presença do Conde e da Condessa era freqüente. Mas com o Conde sempre cabisbaixo em relação a padre Antônio, com poucas palavras. Neste período também a paróquia de padre Antônio ganhara mais dinheiro ainda. Logo, padre Antônio acabara por ter vendido seu silêncio em troca das obras assistenciais que conduzia. Não que isso lhe trouxesse um grande peso na consciência. Já que passados três anos, após o desmame de Tiago, correu a notícia na cidade sobre o terrível acidente com a ama de leite dele: De uma maneira inexplicável, Maria Antonia deixara se queimar com óleo fervente, mas como diziam muitos, era apenas uma negra. Padre Antônio pensou: Uma negra, outra branca. Um menino e uma menina de um mesmo pai, mas de vidas tão, tão opostas...
Um comentário:
Adorei...
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