terça-feira, 28 de outubro de 2014

Contos Urbanos

Vigia

                   A monotonia tomou conta de mim. Já não bastasse o dia a dia aqui, pregado, parado, eu fico com a sensação de estar com algum tipo de impotência sei lá. Tinha uma professora minha de história, que dizia que nós negros tínhamos “banzo”, que nós crioulos tínhamos isso quando éramos da senzala. Então estou com banzo. Tem um tempo que não vejo a professora. Mas qual era o nome dela mesmo? Ludmila. Isso. É, estou com um baita banzo então. Prá mim, estou goiabando, mas se ela quer que chame de banzo, é banzo.
                        Tenho de ficar aqui de vigia. Mas confesso que não aguento mais. Apesar da cobertura, da água e do rango, ficar aqui olhando para o nada é chato. Apesar de ter um parceiro, o Jonas, de verdade mesmo, meu companheiro mais leal é meu fuzil. Sem ele eu não sou ninguém e além do mais é ele que me protege. Minha cabeça na verdade, está longe, muito longe. Eu sinceramente gostaria de saber o que minha mãe está fazendo, mas pelo horário, três e meia, provavelmente deve estar fazendo um café. Eu não gosto de café, meu lance mesmo é achocolatado. Gelado, doce. Que saudade. Café é para meu padrasto, que deve em plena segunda, já ter enchido a cara de cachaça. É o que tem prá hoje, eu me conformo. Pelos menos ele não bate na minha mãe ou nas minhas irmãs. Cai no sofá, estendido, que nem um idiota, e fica por lá. Minha mãe leva um café forte para ele e o cheiro fica pela casa toda. Se estivesse em casa provavelmente eu já tinha chamado minha irmã, a filha do cachaceiro, para tomar um Nescau. Meu pai eu nem lembro que rolou com ele. Também não quero saber. Provavelmente a galera lá pelas cinco, ia descer para o campinho e me chamar para bater uma bola.
                        Eu que escolhi estar aqui. Estar no meio do mato, com um fuzil, um outro cara com outro fuzil nesse calor infernal. Eu que achava isso maneiro, via os caras tanto na televisão quanto pelas ruas que achava top. Eu que me apresentei, eu que me recrutei, então agora tenho de aguentar. Eu tenho de ficar atento isso sim e esquecer essa porcaria de calor. Parece que dá para cozinhar um ovo no asfalto. Um banho de mar para refrescar ia bem agora. Ia bem também ver a mulherada. Lugar quente, chato, cheio de homem e sem mulher é foda. Ficar no meio do mato assim não compensa. Ou talvez sim, senão a maioria que tá no comando não tinha aceitado. Eles falaram que passaram por tudo isso que tem de ter disciplina, ficar atento, e um monte de conversa fiada. Eu me conformo.
                        Eu bem que podia atirar para quebrar o clima, mas é melhor não. Só falaram para eu atirar quando tivesse certeza. Como não tenho certeza de nada eu deixo quieto. Não quero confusão para minha cabeça. Mais do que já arrumei. Por falar em confusão me lembrei da Karoline. Menina ciumenta. Posso nem olhar para o lado. Mas em compensação, ela fica de conversinha com aquele professor de física. Daí a pouco o cara some vão ficar falando, enchendo o saco. Mas tem uma fofoca também de que ela tá grávida. Vou esperar ela falar. Se tiver,  tranquilo, mas eu queria mesmo que se tiver que fosse de um moleque. Vai jogar no mengão, já fico até imaginando: torcida enlouquecida, um monte de bandeirões, agitação total e gritando o nome dele. E eu? Só de camarote, afinal pai de craque tem esse direito, só na bebida fina, na comida de bacana e meu filho arrebentando em campo. Se ela tiver mesmo grávida, fico imaginando esse moleque fazendo sucesso no mengão e depois na Europa, deixando os gringos de boca aberta que vão até falar: Neymar? Que Neymar? Já que não tenho nada prá fazer aqui, acho que vou pensar um nome. Enquanto isso, lá longe, passa um helicóptero. Mas mesmo longe, não deixa de fazer barulho. É um barulho chato, que nem pernilongo. Pior para quem fica aqui de noite, se não passar repelente, se lasca, já que o sol abaixa e eles vem. Parece um exército de demônios voadores.
                        De onde eu estou o trânsito parece piorar. Maioria compra carro com ar condicionado e fica lá, no fresquinho vegetando que nem eu. Eu to aqui de vigia, agora, fico pensando no que faz uma pessoa comprar um carrão e ficar lá dentro de boa. Tem internet, ar fresco, televisão e o cacete a quatro. Mas na verdade pode estar lá, tomando um chifre, poderia estar no bar até mais tarde tomando umas e depois voltar com a galera, ou então sair com a família. A pessoa desperdiça tudo isso dentro de um carro.  Enquanto isso fico eu sentado aqui só vendo a atividade. Essa vida passa rápido. Até demais. Gostaria que não fosse assim. Até pouco tempo, eu tava brincando de carrinho, agora to aqui de vigia, eu, meu fuzil, meu amigo lesado e o fuzil dele.
                        Cara, o Jonas é muito lerdo. Eu fico de cara. Ele fica lá sentadão na dele, com o fuzil na mão. Olha de um lado para o outro, e não relaxa. Cara mais desconfiado que esse eu nunca vi. Parece que vai estourar uma bomba aqui e agora. Ou que nem naqueles filmes de zumbi, vão aparecer uns trinta e vão comer a gente por mais que a gente atire neles, porque a gente não tem bala infinita. Esse modo cabreiro dele eu confesso que me deixa nervoso. Eu fico com a sensação de que ele vai me dar uma “azeitona” a qualquer momento. Ele morava umas quatro casas acima da minha. Talvez seja porque o que aconteceu lá na casa dele tenha deixado ele cabreiro. O pai dele cismou que a mãe dele tava traindo ele com o padeiro. Parece aquelas histórias antigas que a gente aprende na televisão que você acha que nunca vai acontecer na sua casa. Mas foi verdade.
                        Foi assim: O pai do Jonas era vigilante num banco aí. Trabalhava de noite para ter um ganho melhor. Além do Jonas ainda tinha a Grecy Kelly, a Tabata, e o Breno para completar. Então o lance era ralar muito porque tinha muita boca para alimentar né? Porque já viu, seis bocas é muita comida. Lá em casa que é metade, já era um baita problema, imagina na casa do Jonas? Mas a galera, não perde tempo na fofoca. Quando o Breno nasceu, geral foi lá né? Vai um dia, dois, três, uma semana. Moleque maneiro, só chorava, comia e dormia. Vida boa. Só que o pai do Jonas era um negão muito alto e forte chamado Natanael. A dona Rosa, mulher dele foi dessas mulatas de escola de samba, mas disse que virou crente e parou com tudo. Então era aquele lance de ir para igreja, volta da igreja e espera o Natanael, uma mesmice só. Espero que não tenha um casamento assim.E foi aí que o bagulho ficou doido. O moleque foi crescendo, mas ao invés de escurecer, tava do mesmo jeito, mais clarinho que todo mundo. Aí já viu né? Geral, ficou falando que seu Natanael era corno, que isso, que aquilo. Povo do bar atormentava. Mas no começo o pai do Jonas nem aí. Ficou de boa. Mas sabe como é o povo. Fala uma vez, duas, três, até que o pai dele realmente começou a ficar bolado. Não deu outra. Cara vigilante, esperto, começou a  colher o que a turma falava – fofocava.
                        Alguém tinha de pagar o preço. Sobrou para o José Carlos, ou simplesmente Zé Galego, que tinha esse apelido porque era branco que só. De vez em quando se gabava de que talvez tinha sangue de alemão na veia. Essas coisas de DNA que na televisão sempre tem. E não é que a D. Rosa só comprava o pão do Zé Galego? Aí já viu, a conta ficou no colo dele.  Seu Natanael ficou boladão, mesmo. Chegou um dia, à noite, ele ficou na espreita perto do barraco do Zé Galego. Quando ficou tudo calmo, ele bateu na porta, o Zé atendeu e “pow!” tomou um tirambaço nos cornos que caiu durinho. Aí o seu Natanael já estava transtornado. O homem saiu correndo para sua casa e já veio gritando com arma na mão o nome da D. Rosa. O Jonas tava no colégio, na turma do lado da minha. Os moleques é que viram como tudo ficou. Seu Natanael não teve perdão. Salpicou oito tiros na D. Rosa. Depois mandou um balaço na cabeça dele mesmo, mas deu azar. Ficou vivo e agora fica em casa numa cadeira de rodas babando e não sabe nem o que ta acontecendo.
                        O reboliço no colégio foi geral. Molecada é foda, ficou todo mundo de conversinha por causa do ocorrido. A namorada do Jonas deixou ele. Pessoal tinha medo dele ficar maluco e sair atirando em geral. Eu como não conversava com ele mesmo, só fiquei na minha, ligado no que geral falava. Achei a parada triste,mas minha mãe também falou para eu não me envolver que podia dar merda. E assim ficou sendo a vida dele. Ninguém dava uma ideia, um apoio, um nada. Então eu fiquei na minha também. Fiquei calado e só vim conversar com ele aqui, quando chamaram a gente para trabalhar juntos. E ele sempre foi assim, na dele, sem falar muita coisa, caladão.
                        E essa hora que não passa. Já to cansado de ficar aqui. Mas é isso ou não ter o que comer direito. Então o lance é ficar de vigia, e se alguém vier é largar o dedo. Nunca matei ninguém, e qual deve ser a sensação? No videogame já matei um montão, mas de verdade, nunca. Já vi gente morrendo, que é uma coisa sinistra. Tanto de doença quanto por tiro. De doença foi lá no hospital quando fui levar minha irmã no médico junto com minha mãe,porque se dependesse do cachaceiro ela ia morrer de febre. Posto médico é uma droga. Maioria desses filhos da puta de branco só sabem passar com o nariz empinado achando que são Deus. Enquanto isso, tem gente no chão, na maca, em tudo quanto é lugar, parece açougue de gente. Sempre tem alguém vomitando algo esquisito no chão. E geralmente tem sangue junto. Ficamos mais de quatro horas na fila do pediatra até que uma hora antes de chamarem a gente, uma mão enrugada, fria, e magra pegou no meu braço, fazendo eu tomar um puta de um susto. Era uma velha. Magra e esquelética de cabelos brancos que nem pó de mármore. Os olhos eram cinza, mas ela ainda tinha força. E muita pelo sinal. Quando a gente se trocou olhar ela fez uns sons esquisitos. Falou, falou e eu não entendi nada. Mas fiquei lá, minha irmã ainda não tinha sido atendida. De repente a velha revirou os olhos e ficou lá com eles arregalados. Minha mãe correu até mim e eu nem tinha percebido que ela tinha morrido, e segurando meu braço. Minha mãe me puxou e não falou nada. Uns minutos depois, vieram uns enfermeiros, não perguntaram nada e levaram a velha para um corredor longo que eu logo a perdi de vista. Aí, minha irmã finalmente foi atendida. Dengue. Mas ficou de boa. Também a quantidade de vala negra, água parada que tem ao redor lá de casa, era para eu ter pegado também. Lá em casa não passa o fumacê, mas de vez em quando rola daqueles tiozinhos com uma mangueira com um veneno lá que mata essas pragas.
                        A outra vez que vi gente morrendo, foi uma vez na Av. Brasil. Nem lembro o que tava fazendo. Passou um cara por mim, correndo a vera. Tinha uma galera gritando ladrão, e o cara foi vazado. Atrás dele tinha uns playboys atrás dele. Só sei que o cara que tava correndo se ferrou. Umas duas viaturas passaram por mim a milhão. E lá na esquina juntou tudo, o ladrão, os playboys, a PM e mais uma galera que resolveu correr atrás também. Claro que eu queria ver também então saí vazado. Quando cheguei na esquinam tava muita gente cercando o cara. Ele tinha um boné nas mãos e encostado na parede enquanto o chefe das viaturas falava que ele tava fodido. Mandou ele levantar as mãos e um dos playboys pegou o boné de volta, fez uma continência e saiu. O PM olhou para o cara como um saco de areia, deu uma olhada para o colega dele e o cara nem piscou. Calibre doze. A cara do maluco ficou toda destruída. A população ao redor tava se divertindo ao que parecia. Quando o tiro pegou na cara, ele deu um pulo caiu estendido no chão com uma parte dizendo: Vagabundo, Ladrão tem mais é de se foder mesmo, tomou no cu, se fodeu, entre outras coisas. O sangue voou alto, e os caras das patrulhas entraram como se tivessem indo tomar café. Um deles passou por mim, já que eu tava atrás deles na rodinha do ladrão e perguntou: Quer foi moleque, perdeu alguma coisa? Eu abaixei a cabeça e pude ouvir um dizer: Porra Brandão, deixa de ser filho da puta. Caramba, que coisa, justamente o que pensei da mãe dele. Mas eu fiquei quieto, se o ladrão de boné tomou uma de doze na cara, eu que não ia atrás de confusão.
                        Pelo jeito de se vestir e pelo desespero na verdade parecia mais é que ele queria o boné para fumar uma pedra. Crack é foda. O cara já começa com um cachimbo e logo depois fica que nem um zumbi. Pior mesmo é esse monte de playboy atrás de pó. Os caras não são de gastar pouco não. Compram com força mesmo. Quando eu era pequeno, tinha uma boca lá perto de casa que depois mudou de lugar por causa da polícia. Mas quando eles estavam por lá, caraca , era só carrão no pé do morro. Uma vez eu vi uma dessas madames aí de novela entrando de boa na favela. Mas como a galera sabia o que ela queria ninguém pediu autógrafo nem nada. Ela tava toda estranha, se escondendo, com bonés e vestida que nem a gente. Entrou e saiu rapidinho, para não ser vista. Eu fico sem entender, a pessoa tem dinheiro, carrão, moto e o escambau e fica atrás de farinha? É coisa de gente que parece que tem dinheiro e não tem o que fazer com ele. Mas ao invés de ir atrás da mulherada ou o contrário, vem atrás dessa porra. Depois fica aí, pelos cantos, muito louco. Quando era adolescente eu uma vez vi um cara fungar um prato de farinha e ficou muito doidão. Prá que? Saiu do morro, bateu a porra do carro e morreu. Grande vida ele teve. Deve ter vivido nas costas do pai, depois cresceu, virou babaca, cheirador e agora ta aonde? A sete palmos do chão.
                        Ufa, olho no relógio, são cinco horas da tarde. Já deu né? Então eu vou vazar porque aturar o Jonas nesse calor é foda e para mim quero mais é jantar e dormir porque amanhã é outro dia de vigia. Vou dar uma olhada no horizonte, dar uma esticada e vazar né? O Jonas fica ali olhando para minha cara. Eu me levanto, estico os braços e deixo o meu fuzil encostado na pedra. Coloco minhas mãos nas costas e arqueio. É quando lá no morro do Jordão eu vejo uma luz. Parecia um espelho, mas, porra pela posição não era espelho.
                        O tiro veio no peito certeiro. Voei longe. Enquanto caía via Jonas se jogar no chão e metralhar aleatoriamente para o lugar de onde veio o tiro. Era muito sangue, deve ter sido no peito. Caralho vou morrer, que sinistro. Eu fui burro, prá que fui levantar da porra da pedra e achar que ta tudo tranqüilo? Deve ser fuzil de mira. O radio começa a alucinar com um monte de gente falando, parece gente do outro morro, PM,  gente do meu morro. Eu ponho a mão entre o buraco que a bala fez. Vou pro saco, isso é fato, só queria saber quem foi se foi PM ou se foi traficante que nem eu. O Jonas correu para o rádio e falou de maneira nervosa:
                        -Caralho, o Marquinhos tomou um no peito e aí?
                        -Viu quem foi? Perguntam.
                        -Não,caralho, mas tão atirando que nem loucos.
                        -E ele?
                        -Já era – falou resignado. Já era? Pô, to vivo teu corno. Tento falar e a voz não sai. Tento levantar a mão e nada acontece. Tento tudo, dói tudo. A única coisa que vejo é Jonas se arrastar enquanto ouço um monte de tiros. Acho que era só eu cair e pronto. Tá queimando, tá queimando, penso eu, mas a voz não sai. Jonas tá abaixado e responde de volta. Dá uma rajada, duas e os tiros ficam mais escassos.

                        Eu já não consigo distinguir o que estão falando. Sei lá que horas são agora, mas está escurecendo. Ou sou eu que não enxergo mais nada. Dói e queima. Dói e me deixa louco. Estou muito zonzo mas consigo manter o fio de consciência. Já era. Fodeu mesmo. Tomei um no peito. Tava sem alternativa. Sem dinheiro e sem porra nenhuma. Só me sobrou entrar para o tráfico. Mas e se eu fosse alemão? Do exército? Do caralho a quatro? Ia morrer de qualquer jeito. De repente, silêncio. Jonas parece que se arrastando ainda, me vira de lado. Nesse momento ainda consigo ver o que ele está fazendo. De barriga no chão, ele faz a mira. E, atira. Bem no coração. Acabou.

Um comentário:

JUCYMARA disse...

como sempre perfeito!
Sempre surpreendente !