sábado, 19 de julho de 2014

CONTOS URBANOS



Fogo fátuo

                   Mais um dia. Da minha vida patética, mas um dia. A manhã está fria e o meu ânimo é zero. Nesse momento eu gostaria de estar longe, muito longe. Pensei em vários lugares e não cheguei a destino algum. Pensei em amores possíveis e impossíveis e esses amores também foram embora. Passei a observar a minha volta. Mais uma segunda-feira agitada, entretanto de gente tão ou mais patética do que eu. Na outra esquina o mendigo estava sentado insultando quem passava. Se bem que apontar defeitos talvez não seja insultar. Uma moça gorda passou por ele com uma calça justíssima. Ele riu e disse que estava ridículo. E estava mesmo. Ela fez que não viu e foi embora. Um senhor de idade avançada também passara por ele de mãos dadas com uma moça uns vinte anos mais jovem, ao qual ele não perdoou e gritou: corno! O velho fez que ia voltar e bater nele, mas fora contido pela pseudo-Lolita. Eu não sei do que estou rindo, afinal tenho quase a mesma idade que ele e não tenho nenhuma garotinha de mãos dadas comigo. Na verdade, não tem ninguém de mãos dadas comigo. Sou e estou sozinho, como já disse, na minha vida patética. Olhei para o prédio em frente e a fome apertou. Afinal, trabalho duro e um café não ia mal agora. Meu vício. Café forte, de macho, isso que eu preciso. Vou à padaria que fica na outra esquina, mais monótono que meu dia pode ficar impossível. Mas antes disso, fui à banca de jornais ver quais eram as manchetes do dia. O café ainda podia esperar apesar do meu estado de sono. Então despretensiosamente, comecei a ler as manchetes do jornais. Nada de novo no front. Assassinatos, tráfico, bandidos presos, bandidos em fuga, políticos roubando, políticos presos. Time que ganha, time que perde. Concursos públicos, ah os concursos. Sempre uma chance de se ganhar dinheiro fácil. E demissão que não rola.
                        Foi nesse momento que eu vi o fogo. As janelas acima da padaria arderam de repente. Pessoas próximas correram e eu fiquei paralisado de medo. Funcionários da padaria saíram correndo ao que consequentemente veio depois: uma grande explosão atirando aço e vidro para todos os lados. A banca de jornal que ficava na esquina do outro lado da rua onde eu estava, me protegeu dos estilhaços. Azar quem teve foi o mendigo que teve uma barra de metal ironicamente estilhaçando sua garganta. Uma visão triste, mas mesmo assim o canalha (se é que posso chamá-lo assim) ainda morrera com a língua para fora com seus órgãos genitais – não sei como foi possível, já que na hora, dei um passo para trás da banca – para fora como se afrontasse a ira Divina. O problema é que na esquina para onde ia tomar o meu café ficava as duas mais importantes avenidas da minha cidade, onde se convergiam como um X onde eu me encontrava – como sempre, na parte de baixo dele.
                        Depois da explosão o fogo ardeu com força. As labaredas em cores vivas: laranja, vermelho, azul fizeram uma armadilha mortal. Quem estava na padaria, ficara caído pela rua com o impacto. Ajudei, como pude, a arrastar uma senhora para longe. E aquela altura, o meu café de macho estava detonado, literalmente. Outras pessoas ajudavam os transeuntes. Entretanto a coisa poderia piorar? Claro que sim, como não? As labaredas atingiram todo o pavilhão inferior do prédio. Os moradores foram acordados com terror, medo e insegurança. A gritaria das pessoas pelo corpo de bombeiros era intensa. Alias, gritar era a regra, a exceção era eu que me mantive calado apenas observando o que de fato acontecia. Cabeças começaram a saltar das janelas do edifício, e eu ali, imóvel do outro lado do X, mas o que poderia eu fazer? Já havia puxado a velhinha. Ia fazer mais o que? Ir tirar a barra de ferro da garganta do mendigo que , a todo momento que o fogo aumentava e deixava as pessoas desesperadas ele parecia rir de toda a situação e ainda com os genitais a mostra? Não. Meu trabalho não consistia nisso.
                        O corpo de bombeiros chegou. Grande coisa, não havia hidrantes por perto porque o prefeito não se preocupou com isso. Um idiota incompetente. Uma segunda explosão atingira o segundo andar e novamente outra chuva de aço e vidro. Eu me refugiei atrás da banca de jornal como sempre. Não houve feridos dessa vez. Apenas o mendigo continuava a sorrir. As pessoas no prédio começaram a se desesperar e começaram a subir para os outros andares. Outras pessoas não. Ficavam dentro dos seus apartamentos. É incrível como nessas horas as pessoas ainda se apegam a seus bens materiais. Os mais desapegados subiram os mesquinhos ficaram. E quem eu vejo nesse momento? O velho que fora insultado pelo mendigo. Acabei dando sorte e o vento estava contra o prédio lançando a fumaça para o lado oposto de onde estava. Então pude ver no quinto andar, a namoradinha dele, na janela, fazendo sinais para os bombeiros. Ele não, quis ficar como o último soldado da caserna fazendo papel de idiota. O fogo logo chegou rapidamente até ele e os bombeiros nada puderam fazer. Nem na morte ele se dignificou a pedir perdão. Ficou lá, no parapeito da sua janela insultando os bombeiros enquanto seu corpo se transformava em uma bola incandescente. De nada adiantou os bombeiros, nobremente jogarem água nele e dentro do apartamento dele. Ao que parece, o fogo foi mais forte. E, enquanto isso, de genitália de fora, o mendigo ria da situação. Pareceu rir mais, quando o braço do velho despencara na calçada. Uma moça ao meu lado, dizia que se tratava de castigo Divino, pelo fato do velho segundo ela, estar de fornicação e adultério. Não me aguentei e perguntei se ela conhecia o falecido. Ao terminar de dizer não, nem esperei o que ela ia dizer e mandei-a calar a boca e mostrei o dedo do meio para ela, que fez o sinal da cruz e se afastou de mim.
                        Os bombeiros tentavam em vão agora era resfriar os prédios vizinhos. Parece que pela avaliação deles os habitantes daquele prédio de dez andares, que um dia, tinha a pintura cor creme e que agora estava enegrecido pela fuligem estavam condenados e que por isso os habitantes dos prédios vizinhos tinham mais chance. Eu não sei precisar quantas pessoas haviam ali naquele prédio. Vi que, com efeito, o fogo abalou a estrutura do edifício e um barulho grande pareceu ter vindo dele. Péssima hora para isso acontecer, já que a namorada do velho se afobou. Ao se afobar ela teve a genial ideia de pular. As pessoas próximas gritavam para ela não fazer aquilo. Eu não falei nada porque não era da minha conta. Então ela tomou a decisão e pulou. Seu corpo magro, de seios firmes,cabelos compridos ao vento, chocou-se com toda a força contra um poste de sinalização de trânsito empalando-a; causando o choro e a resignação de muitas pessoas e, curiosamente o estranho riso do mendigo com a cena, já que o poste ficava do outro lado da rua onde estava sentado e morto e de um garoto que ao ver a cena por entre os dedos da mãe, exclamou: “Que maneiro mãe, que nem naquele seriado!” Nesse momento eu também quis rir, mas o estrondo de vidro se partindo e o velho prédio se transformando em uma pira olímpica me deixou quieto. Fiquei mais quieto ainda quando o corpo de um bebê fora atirado pela janela em chamas. Ele caíra em cima do caminhão do corpo de bombeiros.Ao passo que o comandante da operação se aproximara outro corpo em chamas, quem sabe, mãe ou pai porque na verdade já era um torrão em chamas também voou de encontro ao caminhão de bombeiros vindo do terceiro andar. Ao perceber a cena o comandante quis entrar em desespero, mas ao olhar o mendigo que, a seu modo, ria com um vergalhão na garganta, resignou-se.
                        O vento agiu como um agitador. Deixando aberta as feridas causadas pelo fogo, percebia-se claramente que a as pessoas não tinham chance. Cada um sabe de seus pecados, mas o vento, que naquele momento era bem forte, não deixou que as pessoas morressem por asfixia mecânica. Então restavam as seguintes alternativas: pular ou morrer queimado. O controle da população também estava inviável. A aglomeração de pessoas, curiosas, religiosas, chatas e analistas de política e economia começaram a se aglomerar perto de mim. Nada contra, mas de uns anos para cá, passei a gostar menos de gente do que posso imaginar. Assim como o fogo destruía o prédio, sentia como minha vida também estivesse sendo consumida. Dividas, trabalho ruim, chateações, vizinhos chatos, parentes chatos. Daria tudo para que alguns deles estivessem queimando naquele inferno e não aquelas pobres almas que teimavam em se jogar no vazio e se estatelar no chão. A cada queda, a cada grito mórbido daquela plateia ridícula era um sinal de um pastor ficar gritando que era o “fim dos tempos” que aquelas pessoas estavam pagando pelos seus pecados, que não temiam a Deus e ao proferir isso mais uma explosão acontecera. Mais cacos de vidro e aço foram lançados a mórbida plateia. E, mais uma vez o corpo do mendigo fora atingido. Apesar de não perder o sorriso, uma ironia acontecera. Um dos vergalhões fora lançado em sua direção atingindo sua genitália que estava à mostra. Na verdade isso acabou tendo um efeito contrário, já que, ao ir de encontro a genitália do mendigo, o vergalhão de ferro estacionou no seu corpo e deu a impressão que dessa vez ele tinha um superpênis. E o sorriso, continuou, intacto.
                        Um grupo de bombeiros, correra em nossa direção pedindo para que fôssemos embora. Eu me resignei a dizer que até que gostaria, mas ainda faltavam uma hora. Outras pessoas, inclusive as da imprensa, diziam no direito de estar ali, que a constituição permitia etc, etc. Eu quase podia ver o riso de canto, quase imperceptível, a cada corpo que se jogava. A cada apelo dos bombeiros, a cada pedido para nos afastarmos e não ver aquela cena. Era um corpo, um take. Um corpo, um take. Uma vez trabalhei numa emissora de televisão fazendo faxina. Sabia como era. Abutres que se importam com seu ego e com as maravilhosas notícias que podem dar sobre toda e qualquer tragédia que possa ocorrer.  Pessoas eram meticulosamente entrevistadas. Menos eu que recusei todas, apesar de a todo instante estar presente e ter visto o momento exato da explosão daquela padaria. Teorias absurdas, até de ataque terrorista, tudo porque uma das vizinhas é de origem libanesa foram vomitadas nos microfones das emissoras.
                        Uma repórter de uma emissora de rádio, quando observei narrava os fatos com afinco e dedicação. Era uma narração perfeita. Quem estivesse ouvindo, em qualquer canto daquela cidade poderia facilmente dizer que estaria vendo na sua casa uma forma  minúscula e detalhada daquele inferno. O que não esperava ver é que a repórter, de microfone em punho era bolinada por um tarado. Tarados, estão em toda parte. Nos ônibus, metrôs, lojas e porque não nas tragédias. Era nítido ver o volume em suas calças ir de encontro as nádegas redondas e uniformes da repórter que se sentiu sim incomodada com o fato. Era um estupro velado e eu estava vendo, mas o que eu podia fazer? Exatamente o que ela estava fazendo. Nada. Eu, era um velho, agora não entendi porque ela, com microfone na mão não denunciou aquele disparate.Se ela resolveu ficar quieta, eu que não ia falar nada.
                        Assim como não falei nada sobre aquele trombadinha que estava fazendo a festa com as carteiras alheias. Enquanto as pessoas ficavam na expectativa de mais corpos pularem do edifício, o jovem ladrão que devia ter uns dezesseis anos com uma mão bem leve estava abrindo bolsas, recolhendo carteiras e pegando dinheiro. As pessoas estavam mais preocupadas com as tragédias dos outros do que com seus próprios problemas.Curioso é que os policiais presentes, ajudando a fazer o cordão de isolamento estavam mais preocupados em paquerar aos moças bonitas que estavam lá a assistir as tragédias do que da segurança pública. Os bombeiros iam para trás dos caminhões, onde uma estranha conferência estava ali. Apenas um, ainda inutilmente, continuava a tentar apagar o fogo. E enquanto eu olhei o tarado e o ladrão, mais corpos apareceram no chão, estatelados, queimados e sem vida.
                        O cheiro de corpos queimados é estranho. Uma moça disse ao meu lado que estava sentindo cheiro de churrasco. Ela poderia ser uma canibal e eu também. Estranho que tivemos o mesmo pensamento. Não que eu desejasse comer carne humana, mas realmente foi uma observação ao mesmo tempo mórbida, interessante. Nunca tinha visto por essa perspectiva de que carne humana pudesse provocar aquele tipo de observação e comentário. As coisas começaram a ficar piores quando começaram, no desespero, a atirar bichos. Cães, gatos, gaiolas dos vários tipos foram atiradas ao chão de maneira desesperada. O comandante da operação ficou imóvel, não sabia mais o que fazer ou o que decidir. A loucura e a insanidade já estava presente naquele grupo de pessoas que antes de tomar coragem e se lançar ao chão, jogavam agora seus animais de estimação com o propósito de que os mesmos não viessem a sofrer. O problema é que as mesmas pessoas subiram até ao terraço para começar a fazer aquilo. Era uma imagem trágica, mas que era captada pelas câmeras das emissoras de televisão e narrados meticulosamente pelas de rádio.
                        As minhas pernas doíam muito, mas eu não queria sair dali. Na verdade minhas pernas doem todo dia. Não aguento mais meu emprego. Mas pelo menos ele leva comida à minha boca. Não pude evitar, não tive escolha. Fiz então o trivial. Me encostei em um poste e por ali fiquei. Afinal de uma forma ou de outra estava fazendo o meu trabalho. Assim como os socorristas recolhiam em vão os corpos que caiam do edifício, mas curiosamente não recolheram o do mendigo que continuava com seu jeito de escárnio e deboche para todos que pudessem ver. Mais um cão fora atirado do prédio, mas esse bateu em uma marquise e ficou ao lado do mendigo ganindo. Um sofrimento sem precedentes que eu não tinha explicação. Mas ao começar a ganir, o cachorro parecia dar voz, ficando ao lado do mendigo. Era um ganido estranho, que parecia fazer com que o mendigo gargalhase. Era estranho. Um morador de rua com as genitálias para fora, com um vergalhão na garganta e um cão lhe dando voz.
                        Foi demais para o comandante. Ambos se entreolharam e, a fúria devido a impotência do comandante ante ao escárnio provocado pelo canido do cachorro, fez com que, num ato de fúria, o comandante pegasse o machado e decapitasse o pobre morador de rua seguindo do cão. Triste e cruel, mas quem disse que a vida é feliz e bonita? As pessoas ficaram horrorizadas, o pastor fez o sinal da cruz, os policiais começaram a mandar todos embora, mas praticamente ninguém queria ir. Eu, como sempre, achei que já tinha visto de tudo e minha curiosidade não valia a pena continuar por ali. Meu cansaço, e minhas pernas também mereciam um descanso. Ninguém podia fazer mais nada por aquelas pobres almas que estavam num inferno.
                        Virei as costas e fui caminhando em direção a esquina oposta. Chega, o circo acabara. Não adiantaria nada estar ali. Enxugei o suor da testa causado pelo calor do prédio em chamas e tomei o rumo da minha casa. Sem remorsos, sem culpa, apenas pedindo a alguma Divindade que interviesse pelas almas restantes. E, praticamente, segundos após eu pedir isso, pareceu que um machado Divino e invisível atendesse ao meu pedido. Virei-me para trás no exato instante que o prédio era rasgado pela sua diagonal, onde uma enorme rachadura deixou a mostra móveis, talvez corpos ou o que estivesse  lá dentro. Eu estava longe demais para perceber. As pessoas que teimaram em continuar na esquina vinham aos tropeções junto com bombeiros e policiais por último
                        Por fim, eu ouvi o estrondo. O edifício ruíra levando as vidas que restavam, e agora sem o sorriso do mendigo. Sem o desespero do comandante. O tarado talvez tenha ido buscar outra vítima, assim como a repórter o deve ter feito também. No fim vitimas interessam a bombeiros, policiais, tarados, repórteres, cinegrafistas e porque não fazendo a alegria dos mendigos. E para mim, foi interessante também. No fim das contas, o tempo que o prédio ardeu, foi suficiente para ser visto. Enquanto a nuvem de poeira, subia pelas minhas costas eu me lembrava de tirar o meu objeto de trabalho. Meu maldito emprego, ao qual eu odeio. Peguei meu colete amarelo que em letras garrafais diziam “COMPRO OURO” e um telefone e o dobrei meticulosamente e coloquei-o dentro do bolso. Dever cumprido, trabalho feito. Hora de ir para casa, minhas pernas doem e amanhã é mais um dia.

Um comentário:

Márcio disse...

Muito bom, impactante.