Fogo
fátuo
Mais
um dia. Da minha vida patética, mas um dia. A manhã está fria e o meu ânimo é
zero. Nesse momento eu gostaria de estar longe, muito longe. Pensei em vários
lugares e não cheguei a destino algum. Pensei em amores possíveis e impossíveis
e esses amores também foram embora. Passei a observar a minha volta. Mais uma
segunda-feira agitada, entretanto de gente tão ou mais patética do que eu. Na
outra esquina o mendigo estava sentado insultando quem passava. Se bem que
apontar defeitos talvez não seja insultar. Uma moça gorda passou por ele com
uma calça justíssima. Ele riu e disse que estava ridículo. E estava mesmo. Ela
fez que não viu e foi embora. Um senhor de idade avançada também passara por
ele de mãos dadas com uma moça uns vinte anos mais jovem, ao qual ele não
perdoou e gritou: corno! O velho fez que ia voltar e bater nele, mas fora
contido pela pseudo-Lolita. Eu não sei do que estou rindo, afinal tenho quase a
mesma idade que ele e não tenho nenhuma garotinha de mãos dadas comigo. Na
verdade, não tem ninguém de mãos dadas comigo. Sou e estou sozinho, como já
disse, na minha vida patética. Olhei para o prédio em frente e a fome apertou.
Afinal, trabalho duro e um café não ia mal agora. Meu vício. Café forte, de
macho, isso que eu preciso. Vou à padaria que fica na outra esquina, mais
monótono que meu dia pode ficar impossível. Mas antes disso, fui à banca de
jornais ver quais eram as manchetes do dia. O café ainda podia esperar apesar
do meu estado de sono. Então despretensiosamente, comecei a ler as manchetes do
jornais. Nada de novo no front. Assassinatos, tráfico, bandidos presos,
bandidos em fuga, políticos roubando, políticos presos. Time que ganha, time
que perde. Concursos públicos, ah os concursos. Sempre uma chance de se ganhar
dinheiro fácil. E demissão que não rola.
Foi nesse momento que eu vi o fogo. As
janelas acima da padaria arderam de repente. Pessoas próximas correram e eu
fiquei paralisado de medo. Funcionários da padaria saíram correndo ao que
consequentemente veio depois: uma grande explosão atirando aço e vidro para
todos os lados. A banca de jornal que ficava na esquina do outro lado da rua
onde eu estava, me protegeu dos estilhaços. Azar quem teve foi o mendigo que
teve uma barra de metal ironicamente estilhaçando sua garganta. Uma visão
triste, mas mesmo assim o canalha (se é que posso chamá-lo assim) ainda morrera
com a língua para fora com seus órgãos genitais – não sei como foi possível, já
que na hora, dei um passo para trás da banca – para fora como se afrontasse a
ira Divina. O problema é que na esquina para onde ia tomar o meu café ficava as
duas mais importantes avenidas da minha cidade, onde se convergiam como um X
onde eu me encontrava – como sempre, na parte de baixo dele.
Depois da explosão o fogo ardeu com força. As
labaredas em cores vivas: laranja, vermelho, azul fizeram uma armadilha mortal.
Quem estava na padaria, ficara caído pela rua com o impacto. Ajudei, como pude,
a arrastar uma senhora para longe. E aquela altura, o meu café de macho estava
detonado, literalmente. Outras pessoas ajudavam os transeuntes. Entretanto a
coisa poderia piorar? Claro que sim, como não? As labaredas atingiram todo o
pavilhão inferior do prédio. Os moradores foram acordados com terror, medo e
insegurança. A gritaria das pessoas pelo corpo de bombeiros era intensa. Alias,
gritar era a regra, a exceção era eu que me mantive calado apenas observando o
que de fato acontecia. Cabeças começaram a saltar das janelas do edifício, e eu
ali, imóvel do outro lado do X, mas o que poderia eu fazer? Já havia puxado a
velhinha. Ia fazer mais o que? Ir tirar a barra de ferro da garganta do mendigo
que , a todo momento que o fogo aumentava e deixava as pessoas desesperadas ele
parecia rir de toda a situação e ainda com os genitais a mostra? Não. Meu
trabalho não consistia nisso.
O corpo de bombeiros chegou. Grande coisa,
não havia hidrantes por perto porque o prefeito não se preocupou com isso. Um
idiota incompetente. Uma segunda explosão atingira o segundo andar e novamente
outra chuva de aço e vidro. Eu me refugiei atrás da banca de jornal como
sempre. Não houve feridos dessa vez. Apenas o mendigo continuava a sorrir. As
pessoas no prédio começaram a se desesperar e começaram a subir para os outros
andares. Outras pessoas não. Ficavam dentro dos seus apartamentos. É incrível
como nessas horas as pessoas ainda se apegam a seus bens materiais. Os mais
desapegados subiram os mesquinhos ficaram. E quem eu vejo nesse momento? O
velho que fora insultado pelo mendigo. Acabei dando sorte e o vento estava
contra o prédio lançando a fumaça para o lado oposto de onde estava. Então pude
ver no quinto andar, a namoradinha dele, na janela, fazendo sinais para os
bombeiros. Ele não, quis ficar como o último soldado da caserna fazendo papel
de idiota. O fogo logo chegou rapidamente até ele e os bombeiros nada puderam
fazer. Nem na morte ele se dignificou a pedir perdão. Ficou lá, no parapeito da
sua janela insultando os bombeiros enquanto seu corpo se transformava em uma
bola incandescente. De nada adiantou os bombeiros, nobremente jogarem água nele
e dentro do apartamento dele. Ao que parece, o fogo foi mais forte. E, enquanto
isso, de genitália de fora, o mendigo ria da situação. Pareceu rir mais, quando
o braço do velho despencara na calçada. Uma moça ao meu lado, dizia que se tratava
de castigo Divino, pelo fato do velho segundo ela, estar de fornicação e
adultério. Não me aguentei e perguntei se ela conhecia o falecido. Ao terminar
de dizer não, nem esperei o que ela ia dizer e mandei-a calar a boca e mostrei
o dedo do meio para ela, que fez o sinal da cruz e se afastou de mim.
Os bombeiros tentavam em vão agora era
resfriar os prédios vizinhos. Parece que pela avaliação deles os habitantes
daquele prédio de dez andares, que um dia, tinha a pintura cor creme e que
agora estava enegrecido pela fuligem estavam condenados e que por isso os
habitantes dos prédios vizinhos tinham mais chance. Eu não sei precisar quantas
pessoas haviam ali naquele prédio. Vi que, com efeito, o fogo abalou a
estrutura do edifício e um barulho grande pareceu ter vindo dele. Péssima hora
para isso acontecer, já que a namorada do velho se afobou. Ao se afobar ela
teve a genial ideia de pular. As pessoas próximas gritavam para ela não fazer
aquilo. Eu não falei nada porque não era da minha conta. Então ela tomou a
decisão e pulou. Seu corpo magro, de seios firmes,cabelos compridos ao vento,
chocou-se com toda a força contra um poste de sinalização de trânsito
empalando-a; causando o choro e a resignação de muitas pessoas e, curiosamente
o estranho riso do mendigo com a cena, já que o poste ficava do outro lado da
rua onde estava sentado e morto e de um garoto que ao ver a cena por entre os
dedos da mãe, exclamou: “Que maneiro mãe, que nem naquele seriado!” Nesse
momento eu também quis rir, mas o estrondo de vidro se partindo e o velho
prédio se transformando em uma pira olímpica me deixou quieto. Fiquei mais
quieto ainda quando o corpo de um bebê fora atirado pela janela em chamas. Ele
caíra em cima do caminhão do corpo de bombeiros.Ao passo que o comandante da
operação se aproximara outro corpo em chamas, quem sabe, mãe ou pai porque na
verdade já era um torrão em chamas também voou de encontro ao caminhão de
bombeiros vindo do terceiro andar. Ao perceber a cena o comandante quis entrar
em desespero, mas ao olhar o mendigo que, a seu modo, ria com um vergalhão na
garganta, resignou-se.
O vento agiu como um agitador. Deixando
aberta as feridas causadas pelo fogo, percebia-se claramente que a as pessoas
não tinham chance. Cada um sabe de seus pecados, mas o vento, que naquele
momento era bem forte, não deixou que as pessoas morressem por asfixia
mecânica. Então restavam as seguintes alternativas: pular ou morrer queimado. O
controle da população também estava inviável. A aglomeração de pessoas,
curiosas, religiosas, chatas e analistas de política e economia começaram a se
aglomerar perto de mim. Nada contra, mas de uns anos para cá, passei a gostar
menos de gente do que posso imaginar. Assim como o fogo destruía o prédio,
sentia como minha vida também estivesse sendo consumida. Dividas, trabalho
ruim, chateações, vizinhos chatos, parentes chatos. Daria tudo para que alguns
deles estivessem queimando naquele inferno e não aquelas pobres almas que
teimavam em se jogar no vazio e se estatelar no chão. A cada queda, a cada
grito mórbido daquela plateia ridícula era um sinal de um pastor ficar gritando
que era o “fim dos tempos” que aquelas pessoas estavam pagando pelos seus
pecados, que não temiam a Deus e ao proferir isso mais uma explosão acontecera.
Mais cacos de vidro e aço foram lançados a mórbida plateia. E, mais uma vez o
corpo do mendigo fora atingido. Apesar de não perder o sorriso, uma ironia
acontecera. Um dos vergalhões fora lançado em sua direção atingindo sua
genitália que estava à mostra. Na verdade isso acabou tendo um efeito
contrário, já que, ao ir de encontro a genitália do mendigo, o vergalhão de
ferro estacionou no seu corpo e deu a impressão que dessa vez ele tinha um
superpênis. E o sorriso, continuou, intacto.
Um grupo de bombeiros, correra em nossa
direção pedindo para que fôssemos embora. Eu me resignei a dizer que até que
gostaria, mas ainda faltavam uma hora. Outras pessoas, inclusive as da
imprensa, diziam no direito de estar ali, que a constituição permitia etc, etc.
Eu quase podia ver o riso de canto, quase imperceptível, a cada corpo que se
jogava. A cada apelo dos bombeiros, a cada pedido para nos afastarmos e não ver
aquela cena. Era um corpo, um take. Um corpo, um take. Uma vez trabalhei numa
emissora de televisão fazendo faxina. Sabia como era. Abutres que se importam
com seu ego e com as maravilhosas notícias que podem dar sobre toda e qualquer
tragédia que possa ocorrer. Pessoas eram
meticulosamente entrevistadas. Menos eu que recusei todas, apesar de a todo
instante estar presente e ter visto o momento exato da explosão daquela
padaria. Teorias absurdas, até de ataque terrorista, tudo porque uma das
vizinhas é de origem libanesa foram vomitadas nos microfones das emissoras.
Uma repórter de uma emissora de rádio, quando
observei narrava os fatos com afinco e dedicação. Era uma narração perfeita.
Quem estivesse ouvindo, em qualquer canto daquela cidade poderia facilmente
dizer que estaria vendo na sua casa uma forma
minúscula e detalhada daquele inferno. O que não esperava ver é que a
repórter, de microfone em punho era bolinada por um tarado. Tarados, estão em
toda parte. Nos ônibus, metrôs, lojas e porque não nas tragédias. Era nítido
ver o volume em suas calças ir de encontro as nádegas redondas e uniformes da
repórter que se sentiu sim incomodada com o fato. Era um estupro velado e eu
estava vendo, mas o que eu podia fazer? Exatamente o que ela estava fazendo.
Nada. Eu, era um velho, agora não entendi porque ela, com microfone na mão não
denunciou aquele disparate.Se ela resolveu ficar quieta, eu que não ia falar
nada.
Assim como não falei nada sobre aquele
trombadinha que estava fazendo a festa com as carteiras alheias. Enquanto as
pessoas ficavam na expectativa de mais corpos pularem do edifício, o jovem
ladrão que devia ter uns dezesseis anos com uma mão bem leve estava abrindo
bolsas, recolhendo carteiras e pegando dinheiro. As pessoas estavam mais
preocupadas com as tragédias dos outros do que com seus próprios
problemas.Curioso é que os policiais presentes, ajudando a fazer o cordão de
isolamento estavam mais preocupados em paquerar aos moças bonitas que estavam
lá a assistir as tragédias do que da segurança pública. Os bombeiros iam para
trás dos caminhões, onde uma estranha conferência estava ali. Apenas um, ainda
inutilmente, continuava a tentar apagar o fogo. E enquanto eu olhei o tarado e
o ladrão, mais corpos apareceram no chão, estatelados, queimados e sem vida.
O cheiro de corpos queimados é estranho. Uma
moça disse ao meu lado que estava sentindo cheiro de churrasco. Ela poderia ser
uma canibal e eu também. Estranho que tivemos o mesmo pensamento. Não que eu
desejasse comer carne humana, mas realmente foi uma observação ao mesmo tempo
mórbida, interessante. Nunca tinha visto por essa perspectiva de que carne
humana pudesse provocar aquele tipo de observação e comentário. As coisas
começaram a ficar piores quando começaram, no desespero, a atirar bichos. Cães,
gatos, gaiolas dos vários tipos foram atiradas ao chão de maneira desesperada.
O comandante da operação ficou imóvel, não sabia mais o que fazer ou o que
decidir. A loucura e a insanidade já estava presente naquele grupo de pessoas
que antes de tomar coragem e se lançar ao chão, jogavam agora seus animais de
estimação com o propósito de que os mesmos não viessem a sofrer. O problema é
que as mesmas pessoas subiram até ao terraço para começar a fazer aquilo. Era
uma imagem trágica, mas que era captada pelas câmeras das emissoras de
televisão e narrados meticulosamente pelas de rádio.
As minhas pernas doíam muito, mas eu não
queria sair dali. Na verdade minhas pernas doem todo dia. Não aguento mais meu
emprego. Mas pelo menos ele leva comida à minha boca. Não pude evitar, não tive
escolha. Fiz então o trivial. Me encostei em um poste e por ali fiquei. Afinal
de uma forma ou de outra estava fazendo o meu trabalho. Assim como os
socorristas recolhiam em vão os corpos que caiam do edifício, mas curiosamente
não recolheram o do mendigo que continuava com seu jeito de escárnio e deboche
para todos que pudessem ver. Mais um cão fora atirado do prédio, mas esse bateu
em uma marquise e ficou ao lado do mendigo ganindo. Um sofrimento sem
precedentes que eu não tinha explicação. Mas ao começar a ganir, o cachorro
parecia dar voz, ficando ao lado do mendigo. Era um ganido estranho, que
parecia fazer com que o mendigo gargalhase. Era estranho. Um morador de rua com
as genitálias para fora, com um vergalhão na garganta e um cão lhe dando voz.
Foi demais para o comandante. Ambos se
entreolharam e, a fúria devido a impotência do comandante ante ao escárnio
provocado pelo canido do cachorro, fez com que, num ato de fúria, o comandante
pegasse o machado e decapitasse o pobre morador de rua seguindo do cão. Triste
e cruel, mas quem disse que a vida é feliz e bonita? As pessoas ficaram horrorizadas,
o pastor fez o sinal da cruz, os policiais começaram a mandar todos embora, mas
praticamente ninguém queria ir. Eu, como sempre, achei que já tinha visto de
tudo e minha curiosidade não valia a pena continuar por ali. Meu cansaço, e
minhas pernas também mereciam um descanso. Ninguém podia fazer mais nada por
aquelas pobres almas que estavam num inferno.
Virei as costas e fui caminhando em direção a
esquina oposta. Chega, o circo acabara. Não adiantaria nada estar ali. Enxugei
o suor da testa causado pelo calor do prédio em chamas e tomei o rumo da minha
casa. Sem remorsos, sem culpa, apenas pedindo a alguma Divindade que
interviesse pelas almas restantes. E, praticamente, segundos após eu pedir
isso, pareceu que um machado Divino e invisível atendesse ao meu pedido.
Virei-me para trás no exato instante que o prédio era rasgado pela sua
diagonal, onde uma enorme rachadura deixou a mostra móveis, talvez corpos ou o
que estivesse lá dentro. Eu estava longe
demais para perceber. As pessoas que teimaram em continuar na esquina vinham
aos tropeções junto com bombeiros e policiais por último
Por fim, eu ouvi o estrondo. O edifício ruíra
levando as vidas que restavam, e agora sem o sorriso do mendigo. Sem o
desespero do comandante. O tarado talvez tenha ido buscar outra vítima, assim
como a repórter o deve ter feito também. No fim vitimas interessam a bombeiros,
policiais, tarados, repórteres, cinegrafistas e porque não fazendo a alegria
dos mendigos. E para mim, foi interessante também. No fim das contas, o tempo
que o prédio ardeu, foi suficiente para ser visto. Enquanto a nuvem de poeira,
subia pelas minhas costas eu me lembrava de tirar o meu objeto de trabalho. Meu
maldito emprego, ao qual eu odeio. Peguei meu colete amarelo que em letras garrafais
diziam “COMPRO OURO” e um telefone e o dobrei meticulosamente e coloquei-o
dentro do bolso. Dever cumprido, trabalho feito. Hora de ir para casa, minhas
pernas doem e amanhã é mais um dia.
Um comentário:
Muito bom, impactante.
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