quarta-feira, 11 de junho de 2014

PEQUENOS PEDAÇOS DA MINHA AUTOBIOGRAFIA



Amizade a socos e pontapés



                          A amizade é uma coisa muito bacana. Tão bacana que muitas das vezes nossos amigos ou amigas tornam-se tão ou mais importantes do que nossos irmãos de sangue. Eu dou muito valor à amizade. Claro que também o contrário, quando ela acaba, é o fim. Mas essa é outra história que eu prometo contar na minha próxima autobiografia. Alias essa história de hoje eu jamais esqueci, apesar de que tenho certeza de que meus amigos já. Provavelmente meu amigo jamais vá se lembrar desse episódio. Bom, acontece.

                        Éramos um trio de nerds, concorrendo sempre pela melhor nota. Engraçado que em muitas escolas hoje, concorre-se para ser o pior aluno não o melhor e isso me deixa até chateado demais quando o governo diz que os números da educação estão melhorando. Mas, isso também é outro assunto. Eu, Nei e Márcio éramos muito unidos neste aspecto. Estávamos no final dos anos noventa prestes a concluir o primeiro grau. Nos conhecíamos desde pequenos e nos orgulhávamos de sermos conhecidos na nossa escola, o Colégio Nossa Senhora de Fátima tanto pelo tempo que estávamos lá, quanto pelo nosso desempenho. Eu era o magrelo pobre, filho do motorista de ônibus, que conseguia estudar graças a uma bolsa integral da Prefeitura. Nei, o colecionador de gibis (sim, ele tinha até onde eu sei, uma legítima Pato Donald nº1) estava um patamar um pouco acima e era filho do comerciante num bairro distante. Bondoso, era o mais ingênuo entre nós três.  Márcio era o gordinho da turma. Inteligente, morava perto da escola, tinha um irmão engenheiro e vinha de uma família de aristocratas que provavelmente pela cobrança ele sempre tirava muitas notas boas. A medida do possível nós três tínhamos gostos em comum como futebol, estudar e política.

                        Todos os dias aos sairmos da escola, subíamos a pé para nossas casas. Parávamos no quartel para beber água e andávamos com mochila, uma camisa cinza grossa e bermuda azul. Mais a frente, nossas economias não aguentavam e o dinheiro que utilizaríamos para pagar nossa passagem de ônibus sentávamos numa mercearia que ficava no pé do morro e comprávamos uma Coca Cola de um litro. Claro que fazendo as contas isso gerava três copos e um pouquinho. Claro que o pouco que restava não era dividido humanamente. Era quem tinha completado com os últimos centavos das nossas parcas economias para poder tomar o último gole. E assim, fazíamos normalmente, de segunda a sexta. O primeiro a nos deixar era o Márcio. Depois uns quinhentos metros acima há a bifurcação na rua Padre Café. Nei ia para esquerda e eu para direita. No caso do Nei, ainda faltava mais um pequeno morro e uma descida. No meu, era uma pequena subida em linha reta, debaixo do sol de meio dia onde eu apertava o passo porque queria escapar do calor e também porque estava morrendo de fome.

                        O Nossa Senhora de Fátima era um colégio muito antigo. Regido pela já falecida D. Helena. Reza a lenda que a D. Helena foi uma mulher que se apaixonou por um homem que lhe fez juras eternas de amor. Entretanto, esse mesmo homem, deixou a ver navios troncando-a por uma rica mocinha da cidade. D. Helena juntou as parcas economias que tinha e, lançou-se ao empreendedorismo construindo o Colégio Nossa Senhora de Fátima que com o passar dos anos virou um dos prédios mais antigos da cidade. Ela, mesma morou dentro do prédio, para economizar durante certo período da vida. Com o tempo, ela comprou uma casa e não era difícil ver ao longe, pela manhã a velha senhora de cabelos brancos, vestido azul e uma bolsa a tiracolo. Ela chegava religiosamente às seis da manhã, ou no máximo às seis e trinta onde ela acabava por achar três figuras na porta da escola, em frente ao número trezentos e trinta e um: eu, Nei e Márcio. Ela achava engraçado, ria e abria o portão para nós. Ficávamos no corredor que dava para o pátio, enquanto ela entrava na antessala da secretaria (toda de mármore branco) e ficava lá até a chegada dos primeiros empregados para abrirem o resto das salas, pátio, biblioteca, etc.

                        Tudo transcorria como num dia normal. Até que, num desses dias, em que fui deixado para trás ao beber água no quartel (sim parávamos para beber água num quartel próximo a escola, e como entrávamos um a um, quem ficava por último, após descer as escadas de cor avermelhada, tínhamos de correr como loucos para nos reagruparmos) saí correndo para alcançar a dupla. Ao chegar percebo que Márcio estava pálido de medo e mais adiante dele um garoto magrelo desferia golpes violentíssimos em Nei, que apesar de ser maior que ele não oferecia resistência. Ia lá ajudar, mas Márcio me impediu dizendo ele estar sob efeito de drogas ele não ia nos ouvir. Márcio então apontou para a casa do pai dele onde eu corri e toquei a campainha. Enquanto Nei apanhava eu mostrei ao senhor de cabelos brancos o que estava acontecendo. Ele saiu alucinado me deixando falando sozinho e apartou a briga. Olhou para Nei e, acredito pediu desculpas, veio dando safanões no menino que me encarou com os olhos ferozes.  Perguntei a Nei o porquê daquilo tudo e ele simplesmente não deu explicação. Márcio veio contando que o pai havia se separado da mãe e desde então ele não andava muito bem. Mas até hoje, me pergunto o porquê da agressão gratuita ao Nei, que além de ser o mais pacífico de nós era o mais calado e o mais tímido. Apenas sabíamos naquela época o seu nome, que por coincidência era igual ao do meu irmão: Luiz Carlos.

                        Acabamos por continuar nossas vidas depois daquela briga sem sentido e sem nexo. Bom, eu chamar aquilo de briga também foi um grande elogio ao Nei. Nunca tinha visto alguém alto como ele, mais forte fisicamente ser agredido tão facilmente assim, de uma maneira tão selvagem. Me lembro até hoje da tentativa desesperada de se desvencilhar do agressor, em vão, e sua mochila servindo de escudo para os socos que vinham de todos os lados e dos pontapés que lhe atingiam violentamente as coxas e as canelas. Naquela época, eu era o mais “nervosinho” de todos. Não que era brigão, mas não deixava barato. Achei estranho o fato também de que eu naquele dia havia me acovardado e deixado meu amigo na mão. Ao invés de correr para deter o agressor, segui o conselho do Márcio e ao contrário do que geralmente acontecia meu amigo ficou lá apanhando e eu correndo para chamar o pai do agressor. Mas tudo isso ia mudar de um jeito que eu não esperava.

                        Um desses dias de inverno, eu não tinha nada para fazer a noite. Sem internet, televisão à vontade, e um aparelho de som decente resolvi então dar uma volta meio que sem destino. Sem ter o que fazer, resolvi pegar uma carona com meu pai (que era motorista de ônibus e coincidentemente estava trabalhando à noite) para dar uma volta e depois voltar para casa e tentar dormir. Entrei pela porta dos fundos (antigamente entrávamos pela parte de trás) e depois pularia a roleta quando chegássemos a frente à igreja de São Jorge. Enquanto isso estava conversando coisas banais com o cobrador da noite, de como era chato ter de colar vales transporte (eram tickets de papel que eram dados na época e cabia ao cobrador colá-los numa folha para serem contados na tesouraria da empresa). E nesse instante, em algum local do centro da cidade, Luiz Carlos também entrou no ônibus. Ele sentou-se justamente no banco atrás de mim, com uma expressão ameaçadora. A cada olhada que o cobrador dava para frente, ou se concentrava no troco aos passageiros eu ouvia uma voz sussurrar em meu ouvido dizendo: “eu vou pegar você também”. Eu olhava para trás para confirmar e o olhar cínico daquele rapaz, magro, branco, de cabelos crespos e queixo quadrado dizia tudo. Eu seria o próximo. Para não arrumar confusão, ainda mais dentro do trabalho do meu pai, resolvi pagar a passagem e ir mais para frente. Meu pai, não percebera essa movimentação e o cobrador achou estranha a atitude. O problema é que eu, curioso, olhava sempre para trás. E aí podia ler os lábios dele dizendo: “Eu vou pegar você, que nem seu amigo”. E isso, durou um bom tempo. Até que ele talvez percebendo que eu não desceria, a não ser perto de casa, resolveu eu acho, me seguir. E, como estava sendo caçado, pensei, já perto da igreja: “Bom, ele quer me pegar, então já que não tenho saída mesmo, melhor eu resolver isso.” Aproveitando de um descuido do cobrador eu, que havia passado pela roleta de forma honesta, pulei de volta.

                        Ele não esperava essa reação, assim como o cobrador e todo o resto dos passageiros. O primeiro soco zuniu meu rosto, o segundo passou por cima da minha cabeça e nessa oportunidade que ele não usara os pés, sem técnica alguma, eu agarrei seu tronco, jogando-o contra o último banco, e na sua tentativa desesperada de se soltar ele deixou o pescoço desprotegido. Foi então que  dei o que hoje os fãs de MMA chamam de “mata leão” e segurava-o enquanto ele desesperadamente tentava puxar meu cabelo e eu sentia suas mãos em minha cabeça, mas eu estava determinado a não soltá-lo. Na emergência meu pai, brecou o ônibus indo correndo para o fundo, onde pelo que me lembro, junto com o cobrador já havia pelos menos umas quatro pessoas tentando livrar os meus braços do pescoço do garoto. Foi então que um puxão um pouco mais forte de um cara pelo que me lembro estava de short vermelho e camisa branca conseguiu êxito na manobra. Lembro-me também de ter sido empurrado por ele passando violentamente pela roleta com ele me encarando. Os olhos desse novo inimigo também estavam furiosos por causa do covarde aqui, que quase matou o coitadinho.  O riso irônico de Luiz Carlos, por instantes me deixou com vontade de iniciar uma nova briga, a qual eu sairia perdendo solenemente, mas ao ser empurrado, fui observado com o olhar reprovador de uma freira já idosa que não esboçara reação para acalmar os ânimos, mas resignara-se a ver aquele espetáculo gratuito de violência. Acho que o cara de camisa branca também se tocou e sentou-se no banco. Meu pai, furioso, disse que ele só iria passar para frente quando fosse descer. Depois, foi minha vez, de ouvir uma bronca sem tamanho do meu pai na frente de todos os passageiros. Bronca aliás, que se estendeu pela noite, quando ele chegou em casa contando tudo para minha mãe, que fez coro,  e eu tentando explicar  que na verdade estava tentando me salvar e também, porque não, vingar a surra que o Nei havia levado, já que afinal eu não havia ido defendê-lo e sim fui chamar o pai dele.

                        Os dias se passaram. Na verdade meses. Luiz Carlos havia sumido. Então eu, Márcio e Nei, voltamos a nossas atividades normais. A vida seguiu. A água do quartel continuava gelada, e a Coca Cola da mercearia também. Lembro-me de nesse período ter feito amizade com o Wellington também. Um cara que veio do Rio de Janeiro com um histórico de violência maior do que o meu. Pelo que me lembro, ele veio para a minha cidade porque estava jurado de morte pela galera gente fina do crime organizado. Então o pai dele, policial militar, havia decidido que ele viria para outra cidade morar com uma tia, em uma cidade do interior. Esse fato, foi o que de mais interessante ocorrera. Como ele era mais velho que nós, contava para uma plateia ávida de interesse de suas brigas e batalhas em bailes funk dentro de comunidades perto de seu bairro, Grajaú. Dizia que gostaria de ser policial como o pai, para matar bandido entre outras coisas. A última notícia que tive dele, foi de que nos anos dois mil, ele havia entrado para o BOPE. Mas, depois, nunca mais ouvi falar de sua figura. Mas ele teve um papel preponderante para os fatos que vieram a seguir. Na verdade ele foi uma das pessoas a quem devo a possibilidade de estar escrevendo agora.

                        Era um dia de primavera. Estava calor, eu me lembro. Eram onze e trinta da manhã e o sol anunciava que teríamos de fazer a parada tanto no quartel quanto na mercearia. Agrupados, eu, Nei e Márcio estávamos saindo da escola quando ouvimos um grito. Alguém me chamava na verdade. Luiz Carlos. Fazia sinais para mim e atravessara a rua transtornado. E, como eu sabia que não ia acabar bem, rapidamente eu joguei minha mochila no chão. Como havia muitos estudantes saindo à algazarra estava pronta. Os gritos de batalha estavam todos no ar. Trocamos empurrões quando novamente ele tentou um cruzado de direita. Errou. Ao errar o soco, ele ao voltar a postura deixou o lado esquerdo do rosto exposto. Foi quando, eu acertei um violento chute no rosto. Naquele momento o tempo e tudo ao meu redor parou. Eu era do tamanho dele. O chute fora certeiro. Não havia como ele continuar de pé. A única coisa que me lembro antes de tudo voltar ao normal era de que as pessoas ao redor, também imaginavam que ele ia cair ou ficar muito atordoado. Ele ficou com os olhos esbugalhados, e a fúria cresceu sobre mim. Me lembro de não ter recolhido a perna do chute a tempo e levei a chamada “rasteira”. No entanto, ele me empurrou em direção ao muro de uma garagem. A garagem ficava próxima a escola e lembro-me de ao ter sido arremessado contra o muro ele correra e  ficara por cima do meu tronco. Os socos vieram fortes e eu me defendia como podia. Até aí tudo bem. O problema que a garagem tinha justamente um ponto cego onde eu estava caído. Foi quando eu apenas vi um carro virando vindo em direção à saída. Ao invés de parar ou de ficar evidente, Luiz Carlos agarrou meu pescoço e escondeu-se na parede, deixando-o invisível e a minha cabeça também. Há pelo menos um metro, lembro-me do Wellington ter desferido um chute nele e logo depois fui arrastado para fora do alcance do pneu dianteiro direito do carro. Populares pararam o carro ainda assim pelo que me recordo.

                        Minha boca sangrou, meu orgulho ficou ferido. Fui parar numa delegacia e tomei a maior bronca do mundo do delegado. Minha mãe jurou nunca contar para meu pai e o pai do Luiz Carlos esbravejava com o filho dentro da delegacia. E em meio aquilo tudo e até hoje eu ficava me perguntando por que ele não havia caído. Não sei o que faria com ele se tivesse tido êxito em meu propósito. Mas, uma coisa eu guardei para mim. Jamais contei a Nei, que o motivo da briga era ele. Se não fosse eu a chamar o pai de Luiz Carlos e sim o Márcio, era Márcio que seria o alvo. Ou, se Nei, tivesse tido a coragem necessária por conta do seu tamanho, nem eu nem Márcio iríamos apanhar. E, até hoje também, não sei por que Nei apanhara. Quando e porque começara aquela violência sem sentido. Mas, pelo menos daquele dia em diante, minha amizade tanto com Nei quanto com Wellington foram reforçadas. Apesar de todos os socos que levei aprendi a dar muito mais valor pelos meus amigos e amigas. Aprendi que por eles sou capaz de tirar forças para fazer o possível para ajudá-los e sei que a recíproca será a mesma. Uma difícil lição, aprendida a socos e pontapés, mas aprendida.

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