quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sobre goleiros e o gol

                     Às vésperas do início da Copa do Mundo no Brasil, tenho uma coisa a falar não de protestos, sejam eles de coxinhas ou não. De politizados da esquerda do MST ou de pessoas que querem apenas entrar na onda da turma da direita certinha, indefectível, insosa e inodora que acham que pobre não tem direito a nada e é um abuso uma empregada ter direitos trabalhistas. Eu não estou nem aí para eles. Quero que se danem. O assunto de hoje é sobre uma posição no futebol que é ingrata e ao mesmo tempo retrata por exemplo a personalidade de muitos, o goleiro.
                        Sim, o goleiro. As pessoas dão valor aos craques que fazem dribles sensacionais, que cobram faltas magistrais no ângulo, ou que com sua força descomunal dão chutes de estufar a mais poderosa e resistente das redes. Mas e aquele cara, que é capaz com apenas um toque fazer com que aqueles dribles sensacionais não tenham sentido, que desafia a gravidade, tirando no último momento o grito de gol entalado na garganta do torcedor e que é capaz sim, de mostrar que também é tão ou mais forte que muitos jogadores? Afinal, quem é esse (ou essa) pessoa que de reflexos apuradíssimos, também tem a coragem de colocar, se preciso for, qualquer parte do seu corpo na frente de uma chuteira vindo em sua direção? Mas não, o goleiro não é prestigiado. Na maioria das vezes o goleiro não é craque. Como dizia Nelson Rodrigues, a posição é tão maldita que muitas vezes, nem aonde ele se posiciona – dentro da pequena área, debaixo das traves – a  grama sequer tem coragem de nascer.
                        Elétricos durante o jogo, sua voz é ouvida por mais que a torcida adversária grite. As mãos se agitam freneticamente, orientando, aplaudindo, sinalizando. As mãos de um goleiro são seu cartão de visitas. As roupas são diferentes de todos do campo. Alguns são mais discretos, usando cores neutras, mas já houve na história futebolística de goleiros que colocaram seus uniformes em evidência. Os dois mais clássicos exemplos são do russo Lev Ivanovich Yashin ou simplesmente Yashin que vestia somente roupas pretas e agarrava a bola como uma aranha. Apelido que carregou para o resto da vida como o Aranha Negra e na outra ponta o espalhafatoso e colorido goleiro mexicano da Copa de 1994 Jorge Campos, como esquecê-los ?  Aos goleiros é dado esse privilégio de poder vestir-se da maneira que quiser, combinando seu guarda-roupa. Mas no fim, os goleiros, se não em sua totalidade, em sua maioria são solitários, tímidos e contraídos. O verdadeiro goleiro vive num mundo só seu, alheio ao frenesi da torcida. O goleiro é o vilão antes de tudo, o problema é que as pessoas não falam. O seu mundo é ali, dentro da área. Estar fora dela, é viajar para outra dimensão, para  outro universo, paralelo.  Ali, digamos sua vilania é colocada em prática. Protegem-se da maneira que dá. Coloca-se o joelho a frente, socam se necessário for, o rosto do atacante junto a bola, tudo que é possível dentro das regras para se evitar o gol.
                        No pênalti, ele está ali. Sozinho novamente. Contra uma massa de torcedores que lhes rogam as mais terríveis pragas. Sim, acredite, goleiros deveriam ganhar tanto quanto atacantes, mas não ganham. Aliás ganham é a antipatia alheia. Criam-se lendas e por incrível que pareça essas lendas tornam-se tão verdades quanto as que Hitler dizia aos alemães sobre os judeus. Não acredita? O  exemplo mais clássico está no Brasil. Com o falecido goleiro Barbosa, do Vasco e da Seleção Brasileira de 1950. Até hoje, as pessoas creditam a Barbosa o gol de Ghiggia do Uruguai. Numa entrevista, no final dos anos noventa antes de morrer, ele disse: “Os crimes no Brasil são punidos até trinta e cinco anos correto? Pois é, eu já paguei esse crime sem ter culpa e até hoje as pessoas me ainda me condenam por aquele jogo.” Mas a culpa, já dita por ex-jogadores da época jamais foi de Barbosa. Mas, condenado foi, condenado morreu. E isso é tão real que após 1950 criou-se duas lendas na seleção brasileira: A primeira é a que o uniforme branco deveria ser extinto porque ele dava azar e a  segunda era de que um goleiro negro não deveria ser mais titular na seleção brasileira porque dava azar. É, acredito, que outras lendas sobre goleiros devam existir por aí, mas não vou ficar a esmiuçar todas. Nem quero.
                        Bom, veremos quem serão os goleiros que se sobressairão nesta Copa. E, você que está lendo. Repare bem quando entra e sai do campo um goleiro. Ele na maioria das vezes entra e sai calado. Raramente ele sai em direção à arbitragem, puxa briga ou qualquer outra coisa. E quando falham, ou melhor frangam, é o ápice do fracasso.  É o êxtase para as pessoas que tem o prazer mórbido de querer expor ao ridículo um ser humano que assim como o atacante do seu time é capaz, na frente da área com ou sem goleiro, mandar a bola por cima do gol. Ou pior, chutar tão bisonhamente, de fazer a bola subir quase para fora dos estádios ou sair pela lateral de campo. Mas, a vida é assim. Quem disse que ela precisa ser justa? E, a todos os goleiros que como eu, são solitários, fica o meu desejo de boa sorte.
 
Escritor Solitário


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