Cartinha
de Natal
A
idade é uma coisa que às vezes nos faz bem, outras vezes nos deixa
deprimido. No meu caso me deixa um pouco deprimido. Nunca fui uma
pessoa de bem com a idade. O tempo é muito curto e o fato de que
isso ocorra de uma maneira absurda me deixa assustado. Gostaria que
isso estivesse acontecido com mais suavidade e que eu pudesse ter
visto o tempo passar com mais habilidade. Vi minhas filhas crescerem,
pude dar a elas uma boa educação e agora estou a espera dos lucros
e dos louros da vitória que são a chegada dos meus netos. Porém
nunca tinha pensado que a chegada dos anos fosse, digamos, um pouco
dolorida. Aliás dor, é uma palavra um pouco recorrente quando se
envelhece. Dor e cor. Dor, por que as juntas doem. A coluna cisma em
doer. O joelho também tem essa cisma de vez em quando e quando dou
uma batida a dor não vai embora quase imediatamente. Ela resolve
ficar alguns dias me fazendo companhia. A cor também faz parte da
velhice. Como sou branco, passei a ter como companhia algumas sardas
de cor marrom pelo meu corpo. A pele que antes era um pouco alva e
firme ainda na maior parte do tempo, continua alva, entretanto com
alguns tons de rosa. E os cabelos? Eram negros. Agora estão
completamente brancos. E de companhia a barba. A barba que finalmente
pude deixar crescer por justamente trabalhar num ambiente onde não
se poderia sob nenhuma hipótese deixá-la grande. Hoje ter barba, é
um sonho que tive quando mais jovem e que não pude fazer. Hoje vejo
muitos jovens por aí, como eles dizem, ostentando barbas enormes.
Gosto é gosto. Não cheguei a “cultivar” uma barba enorme, mas
uma barba suficientemente grande e de pelos brancos para digamos,
disfarçar as marcas do tempo.
Não
queria, mas infelizmente, sem querer me avisar acabei por cultivar
uma pequena protuberância entre o peito e as pernas. Esse volume de
gordura é até interessante para mim durante o inverno, já que
posso pelo menos durante esse período andar de camisa sem que seja
incomodado. Mentira. Sou incomodado sim. Filhas, esposa, genros,
netas sempre me perguntando: “Nossa pai, um frio desses e o senhor
de camisa?” , “Vai pegar um resfriado hein!”, “Vovô, vovô,
o senhor não sente frio não? A mamãe não deixa eu ficar sem
agasalho de jeito nenhum!” E ouvir isso todos os dias durante o
inverno, sim, é um pouco maçante. Até parece que sou de porcelana,
que sou de vidro, ou algo do tipo. Deus do céu, tenho de ter a maior
paciência do mundo. Ainda bem que sou uma pessoa muito, mas muito
paciente. A mais paciente que possam imaginar.
Com
efeito, paciência também foi o meu forte durante todo meu período
de trabalho. Quase sempre problemas, problemas e problemas. Mas, qual
serviço não o tem? Todo trabalho tem seus problemas mas acredito eu
que de formas diferentes as pessoas podem ser atingidas por
problemas. A gente pode até pensar que o dono de lugar tal não tem
porque é podre de rico. Esse é o detalhe. O dinheiro vai na mesma
velocidade que vem, isso aprendi com a vida. Então o grande problema
do rico é não ficar pobre.
Outro
problema de fim de ano, são as compras de Natal. Shoppings, amigo
oculto do trabalho, amigo oculto da família, festa daqui e festa
dali. Sim, é maçante. Haja paciência que eu não tenho. Então,
depois que me aposentei, e vi que a coisa poderia ficar pior, vi um
lugar muito bom para me esconder de tudo isso. Hora essa, quer um
“bunker” melhor do que ser o Papai Noel de Shopping? Claro, há
problemas . Mas de um jeito ou de outro consegui me livrar das
compras de Natal e de certa forma, consegui também um jeito de dar
uma forcinha na minha aposentadoria que não é lá grandes coisas.
Certamente todos os dias, até o dia vinte e cinco há uma legião de
crianças com pedidos e mais pedidos para mim. Pedem tudo. Precisam
de tudo. Inclusive os pais e as mães. Bom, pelo menos um colírio
para os olhos são as mães. Ora essa, estou aposentado mas não
estou morto. Ou como diz aquele chef gordinho da televisão: “Não
porque estou de regime que eu não posso olhar o cardápio.” Sim,
mães muito bonitas elegantes e de fino trato. Fino trato com elas e
mau tato com os filhos/as. Nenhum jeito. Nenhuma forma e nenhum
conteúdo. Tem as mães carentes também que veem no Papai Noel uma
espécie de fetiche e acham que por trás da barba e cabelos brancos
sairá um daqueles caras das casas noturnas que dançam para as
mulheres e eu fico me perguntando de onde vem tanta carência
afetiva.
As
crianças? Ah sim. Na sua maioria, são muito amáveis. Na maior
parte das vezes perguntam se é muito frio lá no Pólo Norte. Se as
Renas comem muito. Como é que eu adivinho os pedidos de cada
criança. Como eu dou uma volta ao redor da Terra tão rápido? Se eu
conheço o coelhinho da páscoa? Se eu não estou sentindo calor
(antes sim, agora comprei uma camisa com serpentina e um cooler
fazendo um sistema simples de troca de água que me mantém sempre
sem calor)? Outras crianças começam a ser um pouco mais abusadas.
Sim, há crianças vingativas e que esperam praticamente um ano para
poder chutar (de modo sutil, claro) a canela do pobre Papai Noel que
não trouxe ano passado o seu presente de aniversário. Mas eu não
sou um Papai Noel qualquer, apenas sou um Papai Noel prevenido que
sorri para o garoto que ao chutar minha perna deu de encontro com
minha caneleira de futebol. A reação de desânimo dele e a minha de
riso, fez com que todos parecessem que eu estava me divertindo (e
como não?) muito com o menino que ainda desferiu mais dois chutes na
tentativa frustrada de me machucar. E ainda falou que eu deveria
trazer para ele o brinquedo que eu não levei ano passado, senão ele
viria aqui ano seguinte para me bater de novo. Era um garoto mais
velho. Com certeza ano que vem ele vai se chatear por um tempo por
ter sindo tanto tempo enganado pela mãe dele que não vai se lembrar
mais de me bater.
Logo
depois, na fila, chegou uma menininha de uns onze anos
aproximadamente, idade incomum para acreditar em mim. Mas ok. Ela
sentou no meu colo, me deu um abraço como nunca tinha recebido na
vida e perguntou se eu atendia todos os pedidos no Natal. Aquela
conversa me saiu um pouco estranha, mas mesmo assim eu resolvi dar
mais crédito a ela e então ela sacou uma carta e sem que muitas
pessoas vissem me entregou. Assim que ela me entregou, alguém gritou
“Lorena”. Era um rapaz alto, moreno, parecia ser um daqueles
caras que ficam o dia inteiro dentro de uma academia malhando
músculos ao invés do cérebro. Ele não pediu, aos berros, pediu
que a menina voltasse rapidamente para perto dele e da esposa (uma
moça, assim como a filha, loira, magra e baixinha). Assim que a
Lorena chegou para perto deles ela teve o braço apertado e puxado
para junto do rapaz. A moça até quis reclamar, mas levara um olhar
tão repressivo que abaixou a cabeça e deixou que apenas ele falasse
com a menina. Aliás falar foi um baita elogio. Ele parecia
aterrorizar a menina. Eu ia colocar a cartinha dela dentro do pote
junto de todas as outras, mas alguma coisa me fez voltar atrás.
Apesar da fila grande, avisei uma das fotógrafas que precisava ir ao
banheiro, que era coisa de velho e tals. Ela a contragosto, permitiu
este senhor idoso aqui ir fazer suas necessidades. Ao adentrar no
sanitário dos funcionários, por coincidência, eu me encontro com
Reginaldo, chefe da segurança. Ele abre um sorriso, e diz:
-
Que dia hein? É quase Natal, tá acabando.
-Nem
fale. Ainda bem que está acabando.
Antes
de entrar na cabine, olhei para o Reginaldo e perguntei se podia me
fazer um favor. Ele prontamente assentiu com a cabeça e me olhou
querendo saber.
-Reginaldo,
tem um cara, alto, moreno (um metro e oitenta eu acho), vestindo uma
camisa lilás acompanhado de uma moça loira, baixinha e magra. Eles
parecem ter uma filha, também loirinha, baixinha e magrinha. Eu acho
que tem alguma coisa errada ali. Vou fazer um xixi, mas peça para o
seu pessoal ficar de olho neles. Qualquer coisa, a mínima,
detenha-os.
-Anda
vendo muito filme de ação em Noel.
-Palpite.
Pode fazer isso por mim?
-
Claro. Vou lá, qualquer coisa eu aviso o senhor.
Me
sentei no sanitário e abri o envelope. Estranhamente o envelope
estava bem colado. Parecia que a Lorena não queria que ninguém
visse o conteúdo da carta. Achei num primeiro momento estranho, mas
depois vi, que para a idade dela, nesse mundo moderno de hoje,
poderia ser mais um mico que ela poderia estar pagando. Ao abrir o
envelope comecei a ler a cartinha que ela me escrevera.
20/12/2015
Querido
Papai Noel
Eu,
me chamo Lorena Bastos Silva e tenho onze anos. Ano passado, eu
escrevi uma cartinha para o senhor, mas acho que o senhor me
esqueceu. Apesar de ter crescido, eu ainda acredito muito no senhor,
ou alguma coisa deve ter acontecido, já que eu tenho certeza de que
mandei para o endereço certo mas o senhor não me escreveu de volta
e nem apareceu. Aliás eu fiquei esperando na janela até adormecer e
cair em cima da cama, já que depois da ceia, ganhei meu presente e
aos berros, porque já estava muito bêbado, meu padrasto me mandou
para cama. Acordei no outro dia e pensei que algo tinha mudado. Mas
não. Tudo continuou do mesmo jeito. Então eu resolvi vir aqui ao
shopping para entregar minha cartinha pessoalmente para o senhor na
esperança de que dessa vez possa atender o meu pedido.
Meu
pedido é simples. Eu queria ganhar de Natal apenas um presente: Que
o senhor mudasse o jeito do meu padrasto. Quando o meu pai foi
embora, minha mãe depois de uns anos, cansada de ficar sozinha,
começou a namorar com o Léo. Ele no começo não era assim. Era um
cara legal, que brincava comigo, mas nunca ficava na nossa casa, ele
sempre ia embora para casa dele. Até que um dia, ele apareceu lá em
casa com todas as malas e mamãe parecia um pouco preocupada. No
começo eu achei que ela ia ficar feliz. Mas não, ela estava um
pouco apreensiva e não se mostrava feliz.
Depois
eu fui entender o porque. O léo bebe muito. E quando ele bebe, não
fica normal. Ele arremessa as coisas dentro de casa, quebra tudo.
Teve um dia que ele quebrou os vasinhos de flores da minha mãe e ela
chorou muito. Ela sempre me mandava entrar para o meu quarto e não
sair de lá. Acontecesse o que fosse. E eu sempre obedeci. Meu pai,
não me visitou e nem me buscou mais para passear depois que o Léo
veio morar aqui em casa.
Foi
aí que eu entendi porque minha mãe sempre me mandava para o quarto.
Nas férias o Léo chegou muito tarde. Minha mãe começou a falar
alto e ele também. Mas mamãe sempre tinha dito para eu ficar no
quarto. Mas não aguentei. Fui no quarto deles ver se precisava de
alguma coisa. Eu bati na porta e havia muitos gritos. Parecia que
ninguém prestava a atenção em mim. Eu tinha então resolvido abrir
a porta. No momento que abri a porta, o Léo deu um forte tapa na
minha mãe que caiu na cama com força. Quando ele percebeu que eu
tinha visto, saiu correndo atrás de mim. Eu corri para meu quarto e
tranquei a porta. Não adiantou nada. Ele arrombou a porta e disse
que para eu nunca mais aprender a entrar no quarto dos outro, ia me
dar uma lição. E me bateu muito. Ele tirou o cinto da calça e me
bateu. Me bateu tanto que as minhas pernas ficaram inchadas de tanto
que apanhei.
Sabe,
a partir daí, nunca mais nossa vida foi a mesma. Quando minha mãe
apanhava, eu apanhava também, mesmo estando dentro do meu quarto. Eu
não aguento mais tomar tanta surra. É muita dor. Eu tentei pedir
para o senhor ano passado, mas acho que algo deu errado. O senhor é
minha última esperança. Por favor Papai Noel, não deixe o meu
padrasto bater nem na minha mãe, nem em mim, por favor.
É
o único presente que eu peço para o senhor. Eu não quero mais
nada. Minha mãe vive machucada. E toda hora o Léo fica ameaçando
que vai nos espancar até a morte. É tudo que peço.
Com
amor
Lorena
Eu
entrei em pânico. Saí correndo do banheiro em busca de um
segurança. Assim que achei um pedi para entrar em contato com o
Reginaldo que era coisa grave e para pegar. Um segurança entrou em
contato com o Reginaldo e disse que eles estavam vigiando e que
estavam todos na praça de alimentação. Peguei o elevador, até o
quinto andar, e me dirigi a praça de alimentação. Não conseguia
pensar em mais nada. Minha cabeça girava. Reginaldo veio ao meu
encontro só que eu não conseguia dizer muita coisa. Apenas peguei a
carta e disse ao chefe de segurança: prenda esse imbecil, agora!
-Mas
ele não fez nada, como vou prender ele?
-Chame
a polícia, não deixe esse marginal ir embora.
Na
hora, crianças começaram a me cercar e eu tinha de ser sutil. Não
podia decepcionar as crianças e também não podia fazer com que
aquele facínora fosse embora. Então à medida do possível, fui me
aproximando, devagarinho para não assustar ninguém. Nesse momento,
apenas Lorena percebeu minha presença. Às vezes, a troca de olhar
faz com que ela, de rompante, se levante e venha correndo em minha
direção. O abraço dado em mim, foi quase uma confissão de alívio.
Não houve palavras trocadas, não houve gritos e gemidos. Ela apenas
apertou meu corpo e chorava copiosamente. Eu levantei levemente a
cabeça e vi que a mãe parecia ter percebido o que tinha acontecido
enquanto Léo me olhava fulminantemente com os olhos semicerrados. O
pânico da mãe aumentou quando Léo a olhou e depois olhou para mim
como se soubesse o que tinha acontecido.
Ele
se levantou, veio em minha direção, enquanto os seguranças ainda
cercavam Reginaldo para saber o que fazer. E, o mesmo chefe de
segurança, lia atônito a carta que me era endereçada. Antes que os
seguranças pudessem fazer alguma coisa, Léo, um pouco mais alto que
eu chega até a mim e Lorena. Eu passo a menina para trás de mim e o
encaro.
-Velho,
o que está fazendo com minha enteada? É pedófilo?
-Não
rapaz, e você, é covarde?
-O
que essa língua grande te falou?
-A
verdade rapaz. A verdade.
-Lorena
“bora”, a gente vai conversar em casa.
-A
Lorena não vai, rapaz. Vocês vão para a delegacia, você tem muita
coisa a esclarecer.
Nesse
momento, Léo tenta me desferir um soco. Eu desvio e agarro sua mão
e ao invés de segurá-la eu deixo o braço do rapaz seguir seu
caminho e pego seu punho mais a frente e puxo seu braço para trás
fazendo um triângulo por cima do ombro direito. Antes que ele pense
em reagir, eu o desequilibro com a perna fazendo-o cair no chão. Os
outros seguranças correm em minha direção e agarram o rapaz que se
debate como um touro. Quando dominado, eu o olho e digo calmamente:
-Você
me toma por um velho, mas cuidado rapaz. Às vezes velhos são faixa
preta em Aikido.
A
praça de alimentação entra em polvorosa e as pessoas ficam
extasiadas. Eu nunca fui de exibir meu conhecimento em artes
marciais, mas infelizmente dessa vez foi extremamente necessário. A
mãe veio e me abraçou. Eu a aconselhei a ir a delegacia, prestar,
queixa e se separar desse indivíduo, afinal ninguém merece apanhar.
Voltei para minha cadeira,
ovacionado por alguns clientes que estavam no shopping e viram a
cena. E, ainda tive tempo de ver saindo algemado, o tal de Léo, e
Lorena e a mãe, atrás dos policiais me deram um discreto tchauzinho
com um ar aliviado.
FELIZ
NATAL E FELIZ 2016!
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